{"id":57264,"date":"2012-07-04T13:07:47","date_gmt":"2012-07-04T13:07:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/07\/04\/homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-da-rainha-santa-isabel-de-portugal\/"},"modified":"2012-07-04T13:07:47","modified_gmt":"2012-07-04T13:07:47","slug":"homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-da-rainha-santa-isabel-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-da-rainha-santa-isabel-de-portugal\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo de Coimbra na solenidade da Rainha Santa Isabel de Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os!<\/p>\n<p>&ldquo;S&atilde;o rosas, Senhor!&rdquo; Express&atilde;o carinhosa, sa&iacute;da dos l&aacute;bios de um povo devoto, que encerra em si os tra&ccedil;os da vida da Rainha Santa Isabel. &ldquo;Levava p&atilde;o aos pobres!&rdquo;, continua a piedosa tradi&ccedil;&atilde;o que atravessou as gera&ccedil;&otilde;es e chegou at&eacute; n&oacute;s, devotos, conimbricenses e portugueses.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s palavras bastam para falar de uma pessoa: pobres, p&atilde;o e rosas.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, os pobres, que s&atilde;o a pessoa humana com quem nos cruzamos na vida, nas reais e concretas situa&ccedil;&otilde;es de interlocutoras de um di&aacute;logo que faz parte intr&iacute;nseca da nossa condi&ccedil;&atilde;o. O Evangelho chamou-lhe o &ldquo;pr&oacute;ximo&rdquo;, sem qualquer outra classifica&ccedil;&atilde;o, como todo aquele que est&aacute; ao nosso lado, diante de n&oacute;s, e &eacute; pessoa humana como n&oacute;s. Pelo simples facto de existir connosco, na fragilidade que nos caracteriza, &eacute; nosso interlocutor no di&aacute;logo e na rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o podemos viver sem este sentido da presen&ccedil;a dos outros ao nosso lado, na sua condi&ccedil;&atilde;o de pobres\/pr&oacute;ximo, de pessoas abertas ao di&aacute;logo e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m n&atilde;o podemos viver se n&atilde;o nos assumimos n&oacute;s mesmos como pobres\/pr&oacute;ximo, numa atitude de abertura aos outros, que se transforma em solidariedade, coopera&ccedil;&atilde;o, amizade, partilha e amor.<\/p>\n<p>Os pobres foram os prediletos da Rainha Santa Isabel, ciente do valor de cada pessoa humana por si mesma, independentemente da sua condi&ccedil;&atilde;o. Deixou-nos aberto o caminho para o respeito pela dignidade de toda a pessoa em todas as circunst&acirc;ncias ou fases da sua vida.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o p&atilde;o. Na rela&ccedil;&atilde;o entre as pessoas d&aacute;-se sempre a circula&ccedil;&atilde;o de bens. E os mais definitivos e importantes n&atilde;o s&atilde;o os bens materiais, que se recebem e se d&atilde;o. A circula&ccedil;&atilde;o da vida, que &eacute; dom que se d&aacute; e se recebe, dos sentimentos, condi&ccedil;&atilde;o de exist&ecirc;ncia e equil&iacute;brio, a companhia, que afasta a solid&atilde;o dos momentos negativos e d&aacute; outro sabor aos momentos de alegria e de felicidade, s&atilde;o tamb&eacute;m p&atilde;o o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>O p&atilde;o &eacute; a express&atilde;o real e pr&aacute;tica da realidade da vida, que inclui o trabalho, a economia, os direitos e deveres, os meios necess&aacute;rios ao sustento material. A circula&ccedil;&atilde;o dos bens, numa economia de comunh&atilde;o, num mundo onde os recursos existentes s&atilde;o para todos, onde os mais pobres t&ecirc;m a sua parte, por direito e por justi&ccedil;a, &eacute; um valor dos mais elementares, no respeito pela vontade do Criador, que deu a terra a todos os homens.<\/p>\n<p>&Eacute; urgente contrariar um esp&iacute;rito de ego&iacute;smo que se instalou em n&oacute;s, nas nossas fam&iacute;lias, na sociedade, onde se prescinde dos outros, por vezes, se foge dos outros, em nome da preserva&ccedil;&atilde;o de uma privacidade, que se torna um doentio individualismo.<\/p>\n<p>Quando se n&atilde;o partilha o que se tem, tamb&eacute;m se n&atilde;o partilha o que se &eacute; e constroem-se castelos de ego&iacute;smo, que se tornam castelos de solid&atilde;o. Fica-se privado de humanidade.<\/p>\n<p>A Rainha Santa Isabel n&atilde;o fugiu a nada do que ocupa e preocupa a sociedade: da economia &agrave; pol&iacute;tica, das rela&ccedil;&otilde;es familiares &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es entre os povos, da guerra &agrave; paz. Deixou-nos aberta a porta para a inser&ccedil;&atilde;o nas realidades seculares, onde se joga o desenvolvimento, o progresso e a paz. Introduziu-nos na procura dos crit&eacute;rios da justi&ccedil;a e da caridade como caminho.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, as rosas. S&atilde;o express&atilde;o da beleza do Criador e da beleza da cria&ccedil;&atilde;o. Na tradi&ccedil;&atilde;o relativa &agrave; Rainha Santa, s&atilde;o a express&atilde;o de um cora&ccedil;&atilde;o grande e bom, que abra&ccedil;a a todos e tem em conta todos os seus problemas e anseios, sobretudo de amor e de paz.<\/p>\n<p>Faz-nos muita falta a capacidade de ter tempo para contemplar a grandeza da vida, o cora&ccedil;&atilde;o dos outros visto como positivo e bom, faz-nos falta respirar o perfume das rosas exalado das a&ccedil;&otilde;es das pessoas, faz-nos falta ver o lado bom do mundo e da vida.<\/p>\n<p>A Rainha Santa Isabel ensina-nos ainda hoje a elevar os olhos para os ideais mais sublimes, para os valores ternos, no meio da agita&ccedil;&atilde;o, do relativismo e do ativismo desenfreado em que nos movemos. A retirada para o &ldquo;convento&rdquo;, para o &ldquo;templo&rdquo;, no sil&ecirc;ncio da vida &eacute; caminho para a paz do cora&ccedil;&atilde;o e a paz de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A palavra de Deus, que escut&aacute;mos, centrava-nos na realidade da vida aberta aos outros enquanto condi&ccedil;&atilde;o de realiza&ccedil;&atilde;o pessoal e, ao mesmo tempo, de constru&ccedil;&atilde;o da felicidade humana. O Evangelho tra&ccedil;ava uma linha divis&oacute;ria entre os que v&ecirc;m nos outros um pr&oacute;ximo a amar em todas as circunst&acirc;ncias e os que os ignoram, esquecem e desprezam.<\/p>\n<p>H&aacute; quem continue a pensar que o cristianismo &eacute; uma religi&atilde;o centrada no al&eacute;m, na vida eterna e na salva&ccedil;&atilde;o da alma depois da morte. Poder&atilde;o ter lido muitas p&aacute;ginas da Escritura, mas n&atilde;o leram, com certeza, este texto do Evangelho de S&atilde;o Mateus. Este diz-nos com clareza, que &eacute; sobre esta terra, num empenhamento muito direto em todas as estruturas humanas, que se decide o que somos, o nosso presente e o nosso futuro.<\/p>\n<p>&Eacute; na aten&ccedil;&atilde;o aos pobres\/ao pr&oacute;ximo, na capacidade de rela&ccedil;&atilde;o, que inclui tudo, desde os aspetos mais elevados e espirituais aos mais quotidianos e materiais, que se constr&oacute;i e se define a qualidade humana de uma pessoa e a autenticidade da sua f&eacute; &ndash; realidades intrinsecamente ligadas entre si.<\/p>\n<p>A grande novidade moral do Evangelho de Jesus Cristo encontra-se precisamente nesta identifica&ccedil;&atilde;o do amor a Deus e do amor ao homem, que s&atilde;o um &uacute;nico amor: &ldquo;Quantas vezes o fizestes a um dos meus irm&atilde;os mais pequeninos, a Mim o fizestes&rdquo;. N&atilde;o h&aacute; uma dicotomia perniciosa entre o amor a Deus e o amor ao pr&oacute;ximo, como se fossem concorrentes um do outro, nem uma leitura espiritualista e desencarnada da salva&ccedil;&atilde;o &ndash; seria uma nega&ccedil;&atilde;o da f&eacute; na encarna&ccedil;&atilde;o do Verbo de Deus. O Evangelho proclama a certeza de que a f&eacute; crist&atilde; &eacute; portadora de um dinamismo extraordin&aacute;rio em ordem &agrave; edifica&ccedil;&atilde;o da cidade dos homens, da cidade terrena, aberta &agrave; plenitude da cidade celeste.<\/p>\n<p>A Leitura da Primeira Ep&iacute;stola de S&atilde;o Jo&atilde;o fundamentava a origem do amor em Deus. Para os crist&atilde;os, a manifesta&ccedil;&atilde;o do amor &eacute; Jesus Cristo, Deus e Homem, modelo e fonte donde brota a nossa capacidade e forma de amar.<\/p>\n<p>&ldquo;Nisto conhecemos o amor: Ele deu a sua vida por n&oacute;s e n&oacute;s devemos tamb&eacute;m dar a vida pelos nossos irm&atilde;os&rdquo;. Os mil&eacute;nios de progresso n&atilde;o puderam fornecer-nos outro modelo nem outra forma de amar mais v&aacute;lidos. Compreenderam-no os santos, Isabel de Portugal e muitos outros que ficaram na nossa hist&oacute;ria como mem&oacute;ria viva da possibilidade acess&iacute;vel a todos de empreender caminhos novos, pautados por crit&eacute;rios e valores que n&atilde;o morrem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Rainha Santa Isabel constitui um grande emblema de Coimbra e de Portugal. Figura de mulher, esposa e m&atilde;e de fam&iacute;lia, crist&atilde; com &ldquo;obras e em verdade&rdquo;, qual &ldquo;mulher que teme o Senhor&rdquo; e entre n&oacute;s &eacute; louvada. &ldquo;Abre as m&atilde;os aos pobres&nbsp; e estende os bra&ccedil;os ao indigente&rdquo;, deixa atr&aacute;s o perfume das rosas, pr&oacute;prio de um cora&ccedil;&atilde;o do tamanho do mundo, citando o livro dos Prov&eacute;rbios<\/p>\n<p>A vida da Rainha Santa &eacute; um acontecimento &iacute;mpar que importa celebrar,porque &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o da pessoa humana repleta dos maiores e mais belos sentimentos, que somente a palavra amor pode encerrar.<\/p>\n<p>No tempo em que vivemos e na sociedade que formamos, h&aacute; uma necessidade imperiosa de homens e mulheres que encarnem esta novidade da sua vida evang&eacute;lica. Faltam-nos &iacute;cones de amor e esta falta constitui o grande problema da humanidade, do qual nascem todos os outros problemas que, com raz&atilde;o, afligem o nosso mundo e o deixam sem alegria nem esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>A um mundo que progrediu visivelmente no conhecimento e que oferece possibilidades sem fim, falta a fibra dos santos, cheios de humanidade e cheios de Deus, mas bem imersos no mundo, porventura com as m&atilde;os sujas nas causas mais prementes ou com o nome posto em causa nas colunas do politicamente correto. A um mundo laico nas suas convic&ccedil;&otilde;es e de horizontes materialistas, falta o testemunho vibrante da f&eacute; em Jesus Cristo, manifestada na defesa da justi&ccedil;a social e no refor&ccedil;o da solidariedade e da fraternidade.<\/p>\n<p>Por intercess&atilde;o da Rainha Santa Isabel, pe&ccedil;amos ao Senhor que fa&ccedil;a de n&oacute;s os santos de hoje, de m&atilde;os abertas e santas como a sua, a distribuir aos pobres da cidade, o p&atilde;o e as rosas.<\/p>\n<p>Coimbra, 4 de julho de 2012<\/p>\n<p>D. Virg&iacute;lio do Nascimento Antunes, bispo de Coimbra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os! &ldquo;S&atilde;o rosas, Senhor!&rdquo; Express&atilde;o carinhosa, sa&iacute;da dos l&aacute;bios de um povo devoto, que encerra em si os tra&ccedil;os da vida da Rainha Santa Isabel. &ldquo;Levava p&atilde;o aos pobres!&rdquo;, continua a piedosa tradi&ccedil;&atilde;o que atravessou as gera&ccedil;&otilde;es e chegou at&eacute; n&oacute;s, devotos, conimbricenses e portugueses. 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