{"id":57080,"date":"2012-06-20T12:47:32","date_gmt":"2012-06-20T12:47:32","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/06\/20\/conferencia-do-bispo-do-porto-nas-jornadas-pastorais-do-episcopado\/"},"modified":"2012-06-20T12:47:32","modified_gmt":"2012-06-20T12:47:32","slug":"conferencia-do-bispo-do-porto-nas-jornadas-pastorais-do-episcopado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-do-bispo-do-porto-nas-jornadas-pastorais-do-episcopado\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia do bispo do Porto nas Jornadas Pastorais do Episcopado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Portugal e o Conc&iacute;lio (Rece&ccedil;&atilde;o ou coincid&ecirc;ncia nas &uacute;ltimas seis d&eacute;cadas)<\/strong><\/p>\n<p>A especial &ldquo;novidade&rdquo; do Conc&iacute;lio Vaticano II ter&aacute; sido tomar a sociedade como objeto de refer&ecirc;ncia, para nela fazer incidir a &ldquo;luz de Cristo&rdquo; que &ldquo;resplandece no rosto da Igreja&rdquo; (cf. Lumen Gentium, 1).&nbsp;<\/p>\n<p>Tal resultou da assun&ccedil;&atilde;o por muitos crentes da consist&ecirc;ncia e evolu&ccedil;&atilde;o das &ldquo;realidades temporais&rdquo; (cf. Gaudium et Spes, 36), bem como da compreens&atilde;o mais profunda da pr&oacute;pria realidade humana. Realidade esta que, desde o s&eacute;culo XIX sobretudo, se foi apresentando mais circunstanciada e evolutiva, entre uma objetividade complexa e uma subjetividade atend&iacute;vel, necessariamente atend&iacute;vel.<\/p>\n<p>O percurso pastoral do papa Roncalli foi, a este t&iacute;tulo, providencial. De It&aacute;lia para a Bulg&aacute;ria, da Bulg&aacute;ria para a Turquia, da Turquia para Fran&ccedil;a e daqui para Veneza e depois para o Pontificado, tocou diversas fronteiras sociais, culturais e religiosas que lhe alargaram a compreens&atilde;o e refor&ccedil;aram as convic&ccedil;&otilde;es essenciais, ao longo de um meio s&eacute;culo decisivo, antes, durante e depois da 2&ordf; guerra mundial. Com o Leste europeu e a ortodoxia; com o Isl&atilde;o; com a Fran&ccedil;a e a It&aacute;lia dos anos 40-50, acompanhando movimentos e tentativas de renova&ccedil;&atilde;o da sociedade e da Igreja.<\/p>\n<p>E tudo isto em contacto direto com &ldquo;alegrias e esperan&ccedil;as, tristezas e ang&uacute;stias&rdquo; duma humanidade j&aacute; nossa contempor&acirc;nea, da qual os disc&iacute;pulos de Cristo fazem parte integrante e irrenunci&aacute;vel, no seguimento do seu Mestre. Disso deviam ganhar mais consci&ecirc;ncia, rumo a pr&aacute;ticas consequentes. Em Jo&atilde;o XXIII (1958-1963), sensibilidade, convic&ccedil;&atilde;o e inspira&ccedil;&atilde;o tornaram-se uma coisa s&oacute;, da&iacute; resultando o an&uacute;ncio do Conc&iacute;lio, em janeiro de 1959.<\/p>\n<p>Em Portugal, as &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo passado, bem como os anos que o atual j&aacute; leva, apresentam condicionalismos pr&oacute;prios e profundas mudan&ccedil;as, que podem ser interpretados &agrave; luz do Conc&iacute;lio. &Eacute; o que se far&aacute; de seguida, muito brevemente ali&aacute;s, aproximando alguns trechos de historiografia recente e outras tantas incid&ecirc;ncias conciliares a prop&oacute;sito.<\/p>\n<p>Portugal mudou muito e estruturalmente muito na segunda metade do s&eacute;culo XX, num movimento anterior a abril de 1974, mas acentuado a partir da&iacute;. Mudou na habilita&ccedil;&atilde;o escolar, na ocupa&ccedil;&atilde;o laboral, na (des)localiza&ccedil;&atilde;o e na demografia, na vincula&ccedil;&atilde;o social e assistencial, na mentalidade e na cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;Obviamente, tudo se refletiu nas cren&ccedil;as e convic&ccedil;&otilde;es, assim como nas pr&aacute;ticas religiosas; em especial as cat&oacute;licas, muito institucionais e comunit&aacute;rias. Recenseamentos mais antigos e o recente inqu&eacute;rito &agrave;s identidades religiosas, todos denotam uma profunda altera&ccedil;&atilde;o de sentimentos e express&otilde;es particulares e de grupo.<\/p>\n<p>Alarg&aacute;mos, por um lado, mas particulariz&aacute;mos, por outro, sendo assim modernos na utiliza&ccedil;&atilde;o dos media e na maior disponibilidade de consumos, mas j&aacute; p&oacute;s ou hipermodernos, na sobrevaloriza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo com as suas escolhas, mesmo que desintegrado ou descomprometido a longo prazo. N&atilde;o faltam conex&otilde;es, tecnologicamente potenciadas, mas menos obrigat&oacute;rias e duradouras. Quase tudo vale e tamb&eacute;m valem realidades positivas; mas nada tanto como a liberdade individual, enquanto sentimento e crit&eacute;rio.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Tendo presente a recente an&aacute;lise do Prof. Rui Ramos, incidente no Portugal contempor&acirc;neo, formulo oito itens de mudan&ccedil;a social e cultural &#8211; outros tantos desafios &agrave; &ldquo;nova evangeliza&ccedil;&atilde;o&#8221; -, juntando-lhes algumas refer&ecirc;ncias conciliares correspondentes, a que o tempo n&atilde;o fez mais do que somar atualidade e urg&ecirc;ncia. S&atilde;o eles: 1) a populariza&ccedil;&atilde;o cultural, 2) o alargamento social do Estado, 3) as novas valoriza&ccedil;&otilde;es, 4) as varia&ccedil;&otilde;es demogr&aacute;ficas, 5) a sensibilidade pol&iacute;tica cat&oacute;lica, 6) o regresso &agrave; Europa, 7) o distanciamento do &ldquo;al&eacute;m&rdquo;, 8) o retraimento do matrim&oacute;nio e da gera&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1) Populariza&ccedil;&atilde;o cultural<\/p>\n<p>At&eacute; meados do s&eacute;culo passado, predominavam culturas territoriais ou de grupo. Havia certamente um sentimento nacional e a refer&ecirc;ncia b&aacute;sica a alguns s&iacute;mbolos comuns; mas nada de semelhante ao que passou a acontecer, desde que tecnicamente foi poss&iacute;vel: &ldquo;Entretanto, a r&aacute;dio, a televis&atilde;o, a escola prim&aacute;ria e o servi&ccedil;o militar come&ccedil;aram a forjar uma &laquo;cultura popular&raquo; inter-regional e interclassista, como n&atilde;o existia at&eacute; ent&atilde;o. Inaugurada em 7 de mar&ccedil;o de 1957, a Radiotelevis&atilde;o Portuguesa (RTP) triplicou o seu n&uacute;mero de horas de emiss&atilde;o entre 1960 e 1970 e conseguiu cobrir 95% do territ&oacute;rio nacional em 1967&rdquo; (RAMOS, Rui &ndash; In Hist&oacute;ria de Portugal. Org. Rui Ramos. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009, p. 692).<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio esteve atento a tal mudan&ccedil;a, advertindo tamb&eacute;m para os seus poss&iacute;veis equ&iacute;vocos: &ldquo;Meios de comunica&ccedil;&atilde;o social novos e continuamente aperfei&ccedil;oados favorecem o conhecimento dos acontecimentos e a difus&atilde;o extremamente r&aacute;pida e universal das ideias e dos sentimentos, suscitando assim numerosas rea&ccedil;&otilde;es simult&acirc;neas. [&hellip;] Assim se multiplicam sem cessar as rela&ccedil;&otilde;es do homem com os seus semelhantes, enquanto que a pr&oacute;pria socializa&ccedil;&atilde;o [socializatio] cria novos la&ccedil;os, sem que promova sempre um proporcional desenvolvimento da pessoa e rela&ccedil;&otilde;es verdadeiramente pessoais (personalizationem)&rdquo; (Gaudium et Spes, 6).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2) Alargamento social do Estado<\/p>\n<p>A uma sociedade culturalmente mais unida correspondeu um Estado socialmente mais ativo, absorvendo fun&ccedil;&otilde;es que at&eacute; a&iacute; n&atilde;o lhe pertenciam tanto, sobretudo no campo do ensino ou da assist&ecirc;ncia: &ldquo;O Governo investiu no 5&ordm; e 6&ordm; anos de escolaridade: com 82 mil estudantes em 1960, vieram a incluir 153 mil em 1970 e 277 mil em 1974. Mas, acima de tudo, lan&ccedil;ou o que Marcelo Caetano chamava o &laquo;Estado social&raquo;. A despesa anual da seguran&ccedil;a social em percentagem do PIB cresceu de 1,7% em 1960 para 3,8% em 1970 e 6,8% em 1974. [&hellip;] Em 1960 havia 56 296 pensionistas em Portugal &ndash; em 1974, 701 561, recebendo pens&otilde;es cujo valor duplicara. Foi a mais r&aacute;pida expans&atilde;o de sempre do Estado social em Portugal&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 700).<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio tamb&eacute;m esteve atento a tal mudan&ccedil;a, n&atilde;o deixando de lembrar que os benef&iacute;cios da solidariedade se devem conjugar com os requisitos da subsidiariedade: &ldquo;&hellip; em na&ccedil;&otilde;es economicamente muito desenvolvidas, um conjunto de institui&ccedil;&otilde;es sociais, de previd&ecirc;ncia e seguro, pode contribuir, por seu lado, para a distribui&ccedil;&atilde;o comum dos bens. Al&eacute;m disso, devem promover-se os servi&ccedil;os familiares e sociais, sobretudo os que t&ecirc;m por fim a cultura e a educa&ccedil;&atilde;o. Ao organizar todas estas institui&ccedil;&otilde;es, deve procurar-se que os cidad&atilde;os n&atilde;o sejam levados a uma certa passividade para com a sociedade, nem recusem o peso do seu dever e repudiem o servi&ccedil;o&rdquo; (Gaudium et Spes, 69).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3) Novas valoriza&ccedil;&otilde;es<\/p>\n<p>Os reflexos mentais n&atilde;o tardaram, traduzindo-se em desvaloriza&ccedil;&otilde;es de alguns pontos e valoriza&ccedil;&atilde;o de outros, sobretudo no respeitante &agrave; liberdade individual e p&uacute;blica: &ldquo;&hellip; a classe m&eacute;dia urbana, em expans&atilde;o, atravessou uma transforma&ccedil;&atilde;o radical de valores: &laquo;durante o meu Governo&raquo;, lembrou Caetano anos depois, &laquo;assisti ao espet&aacute;culo de uma burguesia a desmoronar-se a partir das suas bases morais, com uma Igreja em crise, meios de comunica&ccedil;&atilde;o cada vez mais infiltrados por elementos esquerdistas e agita&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica para cuja repress&atilde;o o Governo nem sempre tinha o apoio das fam&iacute;lias dos estudantes e dos professores&raquo;&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 703).<\/p>\n<p>Nada que o Conc&iacute;lio n&atilde;o advertisse e at&eacute; equacionasse positivamente: &ldquo;A transforma&ccedil;&atilde;o das mentalidades e das estruturas leva com frequ&ecirc;ncia &agrave; discuss&atilde;o dos valores recebidos particularmente entre os jovens que, mais de uma vez, se mostram impacientes e at&eacute; se tornam rebeldes em sua inquietude, e conscientes da sua import&acirc;ncia na vida social, desejam assumir nela quanto antes as suas responsabilidades. Est&aacute; aqui o motivo de, n&atilde;o raro, pais e educadores experimentarem dificuldades sempre maiores no cumprimento das suas tarefas. As institui&ccedil;&otilde;es, as leis, os modos de pensar e de sentir, herdados do passado, nem sempre parecem adaptar-se bem ao condicionalismo atual: daqui uma grande perturba&ccedil;&atilde;o no comportamento e at&eacute; nas normas que o regulam&rdquo; (Gaudium et Spes, 7).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4) Varia&ccedil;&otilde;es demogr&aacute;ficas<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o foi suficientemente avaliado o impacto de meio milh&atilde;o de &ldquo;retornados&rdquo; na sociedade portuguesa de 1975 e seguintes. No entanto, foi um facto decisivo e in&eacute;dito, mesmo em termos europeus: &ldquo;Um dos maiores efeitos da descoloniza&ccedil;&atilde;o acabou por ser o crescimento da popula&ccedil;&atilde;o na Metr&oacute;pole. [&hellip;] Para retirar os colonos de Angola, no ver&atilde;o de 1975, montou-se a maior opera&ccedil;&atilde;o de evacua&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea da Hist&oacute;ria, com a colabora&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios pa&iacute;ses. Seis anos depois, segundo o recenseamento de 1981, viviam em Portugal 505 078 portugueses que residiam em &Aacute;frica em 1973, dos quais 309 058 de Angola e 164 065 de Mo&ccedil;ambique &ndash; o equivalente a 5,1 % da popula&ccedil;&atilde;o. Metade fixara-se na Grande Lisboa. Dos refugiados, 50 % tinham menos de 16 anos e 67% estiveram empregados no setor dos servi&ccedil;os. [&hellip;] A sua integra&ccedil;&atilde;o correu melhor do que o previsto, apesar de os &laquo;retornados&raquo; serem mais numerosos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; popula&ccedil;&atilde;o de Portugal do que os refugiados da Arg&eacute;lia em Fran&ccedil;a&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 720).&nbsp;<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio aludiu aos deveres das Igrejas particulares no acolhimento de emigrantes e refugiados: &ldquo;Tenha-se uma preocupa&ccedil;&atilde;o especial pelos fi&eacute;is que, devido &agrave;s suas condi&ccedil;&otilde;es de vida, n&atilde;o podem usufruir suficientemente do cuidado pastoral ordin&aacute;rio dos p&aacute;rocos, ou est&atilde;o completamente privados dele, como acontece a muitos emigrantes, exilados e refugiados&hellip;&rdquo; (Christus Dominus, 18). E pode dizer-se que tais deveres foram geralmente cumpridos na altura. Ali&aacute;s, muitas comunidades, da capital e n&atilde;o s&oacute;, foram rejuvenescidas e revigoradas com a participa&ccedil;&atilde;o de cat&oacute;licos provenientes do Ultramar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5) Sensibilidade pol&iacute;tica cat&oacute;lica<\/p>\n<p>O sentido maiorit&aacute;rio do &ldquo;voto cat&oacute;lico&rdquo; tem bastante const&acirc;ncia, d&eacute;cada ap&oacute;s d&eacute;cada. Numa institui&ccedil;&atilde;o que valoriza a &ldquo;mem&oacute;ria&rdquo; e a &ldquo;tradi&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &eacute; natural a reserva em rela&ccedil;&atilde;o a propostas de mudan&ccedil;a mais bruscas e fraturantes: &ldquo;O sentido do voto nos v&aacute;rios distritos [nas elei&ccedil;&otilde;es de 25 de Abril de 1975] foi determinado pelas percentagens de propriet&aacute;rios rurais, cat&oacute;licos praticantes e emigrantes: quanto mais altas, mais votos &agrave; direita. Houve assim uma clara divis&atilde;o entre o Norte (com as ilhas), &agrave; direita, e o Sul, &agrave; esquerda&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 714).<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o Conc&iacute;lio insistiu na participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos cat&oacute;licos, harmonizado a liberdade de op&ccedil;&atilde;o pessoal com a solidariedade geral a manter: &ldquo;Tomem todos os crist&atilde;os consci&ecirc;ncia da voca&ccedil;&atilde;o particular e pr&oacute;pria que t&ecirc;m na comunidade pol&iacute;tica, [&hellip;] de modo que demonstrem, tamb&eacute;m por factos, como podem harmonizar-se a autoridade com a liberdade, a iniciativa pessoal com a solidariedade e as exig&ecirc;ncias de todo o corpo social, a unidade oportuna com a proveitosa diversidade. Acerca da organiza&ccedil;&atilde;o da realidade temporal, reconhe&ccedil;am as leg&iacute;timas opini&otilde;es divergentes entre si e respeitem os cidad&atilde;os que, mesmo associados, as defendem honestamente&rdquo; (Gaudium et Spes, 75).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6) Regresso &agrave; Europa<\/p>\n<p>Portugal teve de reencontrar-se num espa&ccedil;o de origem de que durante muitos s&eacute;culos extravasara, n&atilde;o s&oacute; f&iacute;sica como mentalmente. Problema que continua em resolu&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s: &ldquo;As revis&otilde;es constitucionais (1982 e 1989) e a ades&atilde;o &agrave; CEE (1986) e ao mercado e moeda &uacute;nicos (1992-1999) podem servir de refer&ecirc;ncia &agrave; Hist&oacute;ria de Portugal num tempo em que a sociedade portuguesa mudou como nunca mudara antes. Pela primeira vez na &Eacute;poca Contempor&acirc;nea, Portugal n&atilde;o tinha um &laquo;Ultramar&raquo; noutro continente e, tamb&eacute;m pela primeira vez, os imigrantes estrangeiros que entravam no pa&iacute;s eram muito mais numerosos do que os emigrantes nacionais que dele sa&iacute;am. Durante anos, o grande problema em Portugal tinha sido o de romper com o passado; ao entrar num novo s&eacute;culo, o problema parecia ser o de, tendo rompido com o passado, encontrar uma forma vi&aacute;vel e satisfat&oacute;ria de viver de outra maneira&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 747).<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio apreciou positivamente a internacionaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e as organiza&ccedil;&otilde;es que a promovam no sentido do desenvolvimento e da paz. N&atilde;o &eacute; por acaso que v&aacute;rios protagonistas dessa internacionaliza&ccedil;&atilde;o solid&aacute;ria foram e s&atilde;o cat&oacute;licos convictos e militantes, dos &ldquo;pais fundadores&rdquo; da Uni&atilde;o Europeia &agrave;s modernas ag&ecirc;ncias e ONGS: &ldquo;As institui&ccedil;&otilde;es internacionais, mundiais ou regionais j&aacute; existentes, s&atilde;o benem&eacute;ritas do g&eacute;nero humano. Elas aparecem como os primeiros esfor&ccedil;os para lan&ccedil;ar os fundamentos internacionais de toda a comunidade humana para se resolverem as grav&iacute;ssimas quest&otilde;es dos nossos tempos e tamb&eacute;m para promover o progresso em toda a terra e para prevenir as guerras sob todas as formas. Em todos estes setores, a Igreja regozija-se com o esp&iacute;rito de aut&ecirc;ntica fraternidade que est&aacute; a desenvolver-se entre crist&atilde;os e n&atilde;o crist&atilde;os e tende a fazer esfor&ccedil;os sempre mais intensos, para erradicar a mis&eacute;ria extrema&rdquo; (Gaudium et Spes, 84),<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7) Distanciamento do &ldquo;al&eacute;m&rdquo;:<\/p>\n<p>&nbsp;Naturalmente, sociedades mais prec&aacute;rias manifestam maior religiosidade espont&acirc;nea, geralmente securit&aacute;ria. Facto tamb&eacute;m constat&aacute;vel entre n&oacute;s: &ldquo;Segundo o Banco Mundial, em 2000, entre 207 pa&iacute;ses do mundo, Portugal era o 49&ordm; pa&iacute;s mais rico. [&hellip;] Toda esta prosperidade, entre outros fatores, ajudou ao aumento da esperan&ccedil;a de vida &agrave; nascen&ccedil;a &ndash; ao longo do s&eacute;culo XX duplicou, sendo estimada em 75 anos para os homens e 81 anos para as mulheres no ano de 2007. A taxa de mortalidade infantil desceu espetacularmente, [&hellip;] para valores quase residuais de 3,3 por mil &ndash; dos mais baixos do mundo. [&hellip;] A morte, exceto por acidente, tornou-se o fim de vidas longas e geralmente saud&aacute;veis. A preocupa&ccedil;&atilde;o com a morte e a salva&ccedil;&atilde;o da alma, gerida atrav&eacute;s da religi&atilde;o, transmutou-se numa preocupa&ccedil;&atilde;o com a doen&ccedil;a e o prolongamento da vida, por meio da medicina (a despesa total com a sa&uacute;de, a pre&ccedil;os constantes, quase duplicou entre 1984 e 1994, sendo um dos sinais da prosperidade dessa &eacute;poca)&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 765).<\/p>\n<p>No entanto, permanecendo a morte como horizonte indesment&iacute;vel, o Conc&iacute;lio prefere tom&aacute;-la como interpela&ccedil;&atilde;o positiva, abrindo a um humanismo menos alienado ou distra&iacute;do: &ldquo;&Eacute; em face da morte que o enigma da condi&ccedil;&atilde;o humana atinge o seu auge. O homem n&atilde;o &eacute; s&oacute; torturado pela dor e pela progressiva dissolu&ccedil;&atilde;o do corpo, mas tamb&eacute;m e ainda mais, pelo temor da destrui&ccedil;&atilde;o definitiva. Pensa pois retamente quando, guiado pelo impulso do seu cora&ccedil;&atilde;o, afasta com horror e recusa a ru&iacute;na total e o fracasso definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que traz em si, porque irredut&iacute;vel &agrave; mat&eacute;ria pura, insurge-se contra a morte. Todos os esfor&ccedil;os da t&eacute;cnica, por mais &uacute;teis que sejam, n&atilde;o conseguem acalmar a sua ansiedade: &eacute; que o prolongamento da vida que a biologia procura, n&atilde;o pode satisfazer o desejo duma vida ulterior, invencivelmente fixado no seu cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Gaudium et Spes, 18).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8) Retraimento do matrim&oacute;nio e da gera&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>Profundas e problem&aacute;ticas foram as mudan&ccedil;as respeitantes &agrave; gera&ccedil;&atilde;o de filhos e ao casamento cat&oacute;lico, t&atilde;o ligadas &agrave; possibilidade t&eacute;cnica como &agrave; rarefa&ccedil;&atilde;o institucional: &ldquo;O acesso a instrumentos e programas de planeamento familiar permitiu a vida sexual sem a probabilidade de procria&ccedil;&atilde;o [&hellip;]. Em m&eacute;dia, a idade das m&atilde;es ao nascimento do primeiro filho passou dos 23,6 anos em 1981 para os 28,1 anos em 2006. O &iacute;ndice sint&eacute;tico de fecundidade desceu de 3 filhos por mulher em 1941-1962 para 1,36 em 2006, abaixo do n&iacute;vel de substitui&ccedil;&atilde;o de gera&ccedil;&otilde;es (2,1). [&hellip;] Entre 1960 e 2008, os casamentos cat&oacute;licos desceram de 90% para 55% do total. Cerca de 31% dos nascimentos ocorriam agora fora do casamento, contra 7% na d&eacute;cada de 1960&rdquo; (RAMOS &ndash; Hist&oacute;ria, p. 765-766).<\/p>\n<p>Por seu lado, o Conc&iacute;lio tanto reconheceu a responsabilidade dos esposos, como lhes lembrou a vincula&ccedil;&atilde;o social e eclesial: &ldquo;No dever de transmitir e de educar a vida humana &ndash;o que deve ser considerado como sua miss&atilde;o espec&iacute;fica &ndash; os esposos sabem que s&atilde;o os cooperadores do amor de Deus Criador e como que os seus int&eacute;rpretes. Por isso, cumprir&atilde;o o seu dever com responsabilidade humana e crist&atilde;, e com um d&oacute;cil respeito para com Deus; de comum acordo e empenho, formar&atilde;o um ju&iacute;zo reto, tendo em conta, quer o bem pr&oacute;prio, quer o dos filhos, tanto os j&aacute; nascidos como os que prevejam venham a nascer; discernindo as condi&ccedil;&otilde;es, tanto materiais como espirituais, do tempo e da situa&ccedil;&atilde;o de vida; tendo por fim em conta o bem da comunidade familiar, da sociedade temporal e da pr&oacute;pria Igreja. Os pr&oacute;prios esposos devem formar este ju&iacute;zo, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, diante de Deus&rdquo; (Gaudium et Spes, 50).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Perante o que vai dito, reconhecemos o que aconteceu entre n&oacute;s, na direta rece&ccedil;&atilde;o das diretrizes concilares: a liberdade de escolha cultural levou &agrave; maior responsabilidade na op&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, aumentando tudo o que respeita &agrave; inicia&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o, ao conhecimento da Palavra e &agrave; viv&ecirc;ncia lit&uacute;rgica, bem como &agrave;s v&aacute;rias iniciativas no campo caritativo e solid&aacute;rio. Igualmente se apuraram a defini&ccedil;&atilde;o cristol&oacute;gica e a exig&ecirc;ncia comunit&aacute;ria, talvez os pontos mais requeridos da &ldquo;nova evangeliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; a fazer. Mas isto mesmo nos consciencializa do muito que ainda falta, para assimilar as m&uacute;ltiplas indica&ccedil;&otilde;es do Conc&iacute;lio, bem como dum Magist&eacute;rio eclesial em franco desenvolvimento desde ent&atilde;o. Aceites os itens acima apontados, aceitaremos tamb&eacute;m a responsabilidade de continuar a &ldquo;receber&rdquo; a proposta conciliar, dando-lhe o seguimento pastoral que a sociedade portuguesa atualmente requer.<\/p>\n<p>Jornadas Pastorais do Episcopado, F&aacute;tima, 19 de junho de 2012<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, bispo do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal e o Conc&iacute;lio (Rece&ccedil;&atilde;o ou coincid&ecirc;ncia nas &uacute;ltimas seis d&eacute;cadas) A especial &ldquo;novidade&rdquo; do Conc&iacute;lio Vaticano II ter&aacute; sido tomar a sociedade como objeto de refer&ecirc;ncia, para nela fazer incidir a &ldquo;luz de Cristo&rdquo; que &ldquo;resplandece no rosto da Igreja&rdquo; (cf. Lumen Gentium, 1).&nbsp; Tal resultou da assun&ccedil;&atilde;o por muitos crentes da consist&ecirc;ncia e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[92,106,187,203,291,314],"class_list":["post-57080","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-25-de-abril","tag-angola","tag-diocese-do-porto","tag-europa","tag-refugiados","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57080","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57080"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57080\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57080"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57080"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57080"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}