{"id":56952,"date":"2012-06-12T12:14:45","date_gmt":"2012-06-12T12:14:45","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/06\/12\/festas-e-romarias-ou-a-religiao-do-povo-a-luz-do-dia\/"},"modified":"2012-06-12T12:14:45","modified_gmt":"2012-06-12T12:14:45","slug":"festas-e-romarias-ou-a-religiao-do-povo-a-luz-do-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/festas-e-romarias-ou-a-religiao-do-povo-a-luz-do-dia\/","title":{"rendered":"Festas e romarias&#8230; ou a religi\u00e3o do povo \u00e0 luz do dia!"},"content":{"rendered":"<p>Padre Amaro Gon\u00e7alo, p\u00e1roco de Nossa Senhora da Hora, Matosinhos <!--more--> <\/p>\n<p>A avalia&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno da chamada <em>religiosidade popular <\/em>est&aacute; hoje comprometida pelas descobertas no dom&iacute;nio das ci&ecirc;ncias humanas, como a antropologia cultural, a sociologia da religi&atilde;o e a pastoral. Poucos s&atilde;o os que, dentro ou fora da Igreja, se atrevem a uma deprecia&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno, por quanto ele parece ser a grande refer&ecirc;ncia cultural e a amostra mais sens&iacute;vel da alma de um povo. A religiosidade popular constitui, de facto, um dos acessos mais diretos e penetrantes do cora&ccedil;&atilde;o e da alma de um povo.<\/p>\n<p>Bem sabemos que o fen&oacute;meno da religiosidade popular tem vindo a ser mais bem tratado, inclusive pelo poder civil institu&iacute;do, movido mais por uma esp&eacute;cie de moda &laquo;<em>retro&raquo;<\/em> do que por afinado ju&iacute;zo cultural. Recuperam-se as tradi&ccedil;&otilde;es, as festas e as romarias, n&atilde;o porque se tenha em vista devolver &agrave; alma do povo o que o racional lhe retirou, mas como simples aposta num turismo religioso, muitas vezes de mera imita&ccedil;&atilde;o ou reprodu&ccedil;&atilde;o ou ressuscita&ccedil;&atilde;o hist&oacute;ricas. O interesse dos pol&iacute;ticos e especialistas das ci&ecirc;ncias sociais &eacute;, em muitos casos, puramente arqueol&oacute;gico, sem nenhuma preocupa&ccedil;&atilde;o por atualizar os significados dessas experi&ecirc;ncias religiosas, em vista de uma eficaz a&ccedil;&atilde;o evangelizadora. Bem sabemos que n&atilde;o lhes cabe essa preocupa&ccedil;&atilde;o. Mas, muitas vezes, s&atilde;o eles, os autarcas, os mais apostados na promo&ccedil;&atilde;o da religiosidade popular, mesmo que determinadas manifesta&ccedil;&otilde;es j&aacute; n&atilde;o tenham correspond&ecirc;ncia alguma com a realidade religiosa e sociol&oacute;gica locais. Neste brev&iacute;ssimo apontamento, consideremos sumariamente os valores antropol&oacute;gicos, culturais e pastorais da festa, da romaria e do santu&aacute;rio, que aprendi e apreendi sobretudo na viv&ecirc;ncia da romaria a S&atilde;o Gon&ccedil;alo e agora das voltas e voltas, &agrave; fonte da Sete Bicas, na jovem cidade da Senhora da Hora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>1. A festa<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Religi&atilde;o e festa sempre estiveram muito unidas. A festa &eacute; a decomposi&ccedil;&atilde;o da racionalidade estabelecida. O excesso no comer e no beber, no cantar e dan&ccedil;ar, etc., estabelece a rutura com o socialmente estabelecido, com as pautas quotidianas do comportamento coletivo. Em muitas zonas rurais, os dias de festa s&atilde;o os &uacute;nicos em que cada indiv&iacute;duo &eacute; ele mesmo. O indiv&iacute;duo predomina sobre a coletividade. A festa &eacute; tamb&eacute;m um importante agente de socializa&ccedil;&atilde;o, de inclus&atilde;o social e cultural. O enorme capital simb&oacute;lico que possuem as celebra&ccedil;&otilde;es religiosas converte-as num meio tremendamente eficaz para a transmiss&atilde;o de ideias e valores. Nas grandes cidades, e nos meios urbanos, a quest&atilde;o p&otilde;e-se de maneira diversa, pois a festa j&aacute; n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico momento, em que o indiv&iacute;duo rompe com as normas sociais do grupo nem sente a necessidade do desvio em rela&ccedil;&atilde;o a um todo social que sobre ele exercesse qualquer tipo de press&atilde;o. Mas, na cidade, a festa representar&aacute;, pelo menos, a liberta&ccedil;&atilde;o da rotina laboral, a descompress&atilde;o do ritmo r&iacute;gido e violento dos dias feriais e de algum modo um ponto de salvaguarda da identidade primitiva do povo origin&aacute;rio daquela terra hoje de quase ningu&eacute;m. &Eacute; curioso, como mesmo num meio urbano, emergem vontades bem determinadas em levantar uma festa, que, de algum modo, abra espa&ccedil;o a um &ldquo;<em>pequeno resto<\/em>&rdquo;, que ainda resiste, na cidade polu&iacute;da, a perder a sua alma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>2. A romaria<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A Romaria &eacute; uma &laquo;<em>peregrina&ccedil;&atilde;o de curta dist&acirc;ncia<\/em>.<em> <\/em>&laquo;<em>Ir &agrave; Romaria<\/em>&raquo; parece ser o gesto de quem vira a p&aacute;gina do dia, para encontrar na contra p&aacute;gina a solu&ccedil;&atilde;o do problema ou a decifra&ccedil;&atilde;o de um escrito cheio de incongru&ecirc;ncias. &laquo;<em>Ir &agrave; Romaria<\/em>&raquo; manifesta a abertura ao n&atilde;o-l&oacute;gico, ao n&atilde;o-compreens&iacute;vel, ao destino secreto que enreda a vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>3.O Santu&aacute;rio e a promessa<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No imagin&aacute;rio dos romeiros, o santu&aacute;rio, por mais pequeno que seja, funciona como o espa&ccedil;o de liberdade, j&aacute; que, em primeiro lugar, ele obriga &agrave; fuga da vida de todos os dias (n&atilde;o se vai l&aacute; todos os dias). Ele est&aacute; assim investido de uma for&ccedil;a de liberta&ccedil;&atilde;o da rotina. Para o Povo, o santu&aacute;rio &eacute; procurado como espa&ccedil;o do &laquo;outro-poss&iacute;vel&raquo;, mais-al&eacute;m das l&oacute;gicas estreitas e do racioc&iacute;nio do dia a dia. L&aacute; interv&eacute;m o Outro Invis&iacute;vel. Ali Deus entra em di&aacute;logo com a corte dos &laquo;mediadores&raquo;; ali Deus dispensa os aux&iacute;lios e gra&ccedil;as. O Santu&aacute;rio &eacute; assim o lugar da atualiza&ccedil;&atilde;o do Invis&iacute;vel, porquanto facilita uma abertura maior ao espiritual, demarcando o crente da profanidade do mundo, pela diferen&ccedil;a t&iacute;pica do seu espa&ccedil;o sacro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Algumas perspetivas pastorais<\/strong><\/p>\n<p>Daquilo que, &agrave; pressa, fomos dizendo, claramente se nos afigura que, no fundo de todas as formas religiosas, primitivas ou modernas, h&aacute; sempre um substrato de religiosidade primordial e origin&aacute;ria, que est&aacute; na radical condi&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia humana e nos pr&oacute;prios alicerces da vida coletiva da humanidade. N&atilde;o s&atilde;o de ignorar, em muitos sentimentos e express&otilde;es da religiosidade popular, pequenas &ldquo;<em>sementes do verbo<\/em>&rdquo;, que &eacute; preciso acolher, desenvolver e fazer frutificar, numa justa rela&ccedil;&atilde;o com Deus e com os outros. Pelo que n&atilde;o &eacute; sensato, e fere mesmo o princ&iacute;pio da encarna&ccedil;&atilde;o, querer ignorar ou abolir os revestimentos culturais de uma f&eacute;, que pode at&eacute; n&atilde;o ser coerente com tudo o que professamos, mas que, de algum modo, abre uma fenda, oferece um terreno de &ldquo;<em>prepara&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica<\/em>&rdquo;, para a sementeira do Reino. Mais do que desprezar o fen&oacute;meno &eacute; preciso conhec&ecirc;-lo, valoriz&aacute;-lo, evangeliz&aacute;-lo.<\/p>\n<p>A avalia&ccedil;&atilde;o pastoral do fen&oacute;meno n&atilde;o pode nem deve fazer t&aacute;bua rasa desta dimens&atilde;o antropol&oacute;gica da festa, cedendo a uma racionalismo prim&aacute;rio e inculto ou a uma vis&atilde;o teol&oacute;gica que nem sequer &eacute; teologal, mas que precisa sobretudo de o compreender melhor e de o preencher daquele sentido vivo e profundo, que o Evangelho d&aacute; &agrave; Vida, para a completar e plenificar de alegria. Frente &agrave;s leituras do catolicismo popular, como express&otilde;es meramente culturais, &eacute; preciso sublinhar a sua dimens&atilde;o religiosa e eclesial. Mas tamb&eacute;m aqui n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel nem conv&eacute;m separar o religioso e o cultural: o primeiro ficaria vazio, o segundo desencarnado. A religiosidade popular &eacute;, realmente, um dos caminhos poss&iacute;veis para a santifica&ccedil;&atilde;o pessoal dos fi&eacute;is crist&atilde;os e para a evangeliza&ccedil;&atilde;o da nossa sociedade, desde que se cumpram, certas exig&ecirc;ncias, entre as quais destacaria:<\/p>\n<p>&#8211; Fazer da festa religiosa e popular um ponto de unidade inclusiva de uma comunidade inteira, promovendo as m&uacute;ltiplas express&otilde;es culturais, ali associadas ao culto do padroeiro;<\/p>\n<p>&#8211; Empenhar-se na evangeliza&ccedil;&atilde;o, propondo ao povo, a atualidade e a beleza daquela santidade, de que o padroeiro &eacute; testemunha eloquente;<\/p>\n<p>&#8211; Dar a conhecer a vida dos santos patronos, atrav&eacute;s de novas narrativas, de novas linguagens e de novos meios, como o conto, o filme, o teatro etc;<\/p>\n<p>&#8211; Envolver a Catequese e os grupos de jovens, na prepara&ccedil;&atilde;o e na celebra&ccedil;&atilde;o da Festa, de modo a iniciar as novas gera&ccedil;&otilde;es, na comunh&atilde;o com uma tradi&ccedil;&atilde;o viva, depurando-a de eventuais express&otilde;es, desencontradas da viv&ecirc;ncia crist&atilde;;<\/p>\n<p>&#8211; Aliar a aboli&ccedil;&atilde;o de um mau costume ou de um costume pag&atilde;o, um rito de substitui&ccedil;&atilde;o, que possa traduzir fiel e adequadamente, em perspetiva crist&atilde;, o sentimento religioso que lhe est&aacute; associado e o valor evang&eacute;lico que importa suscitar; este processo implica compreender, proporcionar, libertar, educar na f&eacute; e no amor, sem pressas iconoclastas de m&aacute; mem&oacute;ria;<\/p>\n<p>&#8211; A peregrina&ccedil;&atilde;o, a Eucaristia ou a prociss&atilde;o sejam momentos, em que torne poss&iacute;vel o c&eacute;u tocar a terra, Deus entrar nos cora&ccedil;&otilde;es, abrindo, na beleza da liturgia, uma fenda de acesso ao mist&eacute;rio celebrado.<\/p>\n<p>&#8211; Tornar claro o destino das ofertas dos fi&eacute;is e a sua aplica&ccedil;&atilde;o, sobretudo, no &acirc;mbito do culto e da caridade, para que se respeite a intencionalidade dos oferentes e se responda &agrave;s necessidades do Povo de Deus.<\/p>\n<p>Tais recursos pastorais, podem robustecer e purificar alguns aspetos da religiosidade popular, no fundo da qual subjaz um aut&ecirc;ntico tesouro de f&eacute;. H&aacute; que apreender o fundo mais rico destas formas e dar-lhes o conte&uacute;do mais doutrinal e espiritual que se lhes ajuste, numa linguagem verdadeira e atraente, se queremos que a Igreja seja &laquo;popular&raquo;, o mesmo &eacute; dizer, universal, e n&atilde;o uma seita ou um clube de pensadores.<\/p>\n<p align=\"left\"><em>Padre Amaro Gon&ccedil;alo, p&aacute;roco de Nossa Senhora da Hora, Diocese do Porto<\/em>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Amaro Gon\u00e7alo, p\u00e1roco de Nossa Senhora da Hora, Matosinhos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[127,168,187,246,292,320],"class_list":["post-56952","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-liturgia","tag-religiosidade-popular","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}