{"id":56944,"date":"2012-06-12T11:11:58","date_gmt":"2012-06-12T11:11:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/06\/12\/dia-de-portugal\/"},"modified":"2012-06-12T11:11:58","modified_gmt":"2012-06-12T11:11:58","slug":"dia-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-de-portugal\/","title":{"rendered":"Dia de Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Guilherme d&#8217;Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura <!--more--> <\/p>\n<p>&laquo;A identidade nacional, tal como existe hoje, resulta de um processo hist&oacute;rico que passou por diversas fases at&eacute; atingir a express&atilde;o que atualmente conhecemos&raquo; &#8211; disse Jos&eacute; Mattoso, por certo o mais l&uacute;cido analista da identidade portuguesa. E a verdade &eacute; que a perman&ecirc;ncia do territ&oacute;rio europeu e das suas fronteiras, ao longo dos s&eacute;culos, bem como a import&acirc;ncia de uma l&iacute;ngua antiga, com proje&ccedil;&atilde;o intercontinental, falada por mais de duzentos milh&otilde;es de falantes constituem duas caracter&iacute;sticas importantes que devemos lembrar. Temos as fronteiras est&aacute;veis mais antigas da Europa, somos a terceira l&iacute;ngua europeia mais falada no mundo e o idioma mais usado no hemisf&eacute;rio sul. No entanto, como tem sido salientado pelos estudiosos da quest&atilde;o portuguesa, a nossa identidade tem-se afirmado ao longo dos tempos, desde o s&eacute;culo XII, a partir da sua capacidade de se enriquecer atrav&eacute;s do contacto com outras identidades e outras culturas.<\/p>\n<p>A cultura portuguesa sempre se tornou mais rica, abrindo-se, dando e recebendo. Form&aacute;mo-nos como um cadinho de diversas influ&ecirc;ncias &ndash; a partir dos v&aacute;rios povos que foram chegando &agrave; finisterra peninsular e se misturaram. E essa qualidade de receber e de se relacionar permitiu, a partir do s&eacute;culo XV, a gesta de ir &agrave; descoberta de outras terras e outras gentes. H&aacute;, assim, um enigma bem presente, que &eacute; o de tentar saber por que motivo fomos mar adiante &ndash; a &laquo;dar novos mundos ao mundo&raquo;. E se Eduardo Louren&ccedil;o fala de uma superidentidade, di-lo como uma esp&eacute;cie de compensa&ccedil;&atilde;o, de quem vive dividido entre a recorda&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de velhas gl&oacute;rias e a consci&ecirc;ncia presente de dificuldades e limita&ccedil;&otilde;es. Por isso, os nossos mitos tornam-se importantes, n&atilde;o para explicar, mas para cuidar da sua cr&iacute;tica para obter a respetiva supera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Jaime Cortes&atilde;o falou do &laquo;nosso&raquo; humanismo universalista de fundo franciscano, para significar que a dignidade humana est&aacute; no centro da nossa &laquo;aventura&raquo;. S. Teot&oacute;nio, companheiro de D. Afonso Henriques e alma dos c&oacute;negos regrantes de Santo Agostinho, de Santa Cruz de Coimbra, criou um centro erudito, animado pelo riqu&iacute;ssimo di&aacute;logo mediterr&acirc;nico, renovador do pensamento europeu. Santo Ant&oacute;nio de Lisboa, disc&iacute;pulo de Santa Cruz e companheiro do Pobre de Assis contribuiu decisivamente para a renova&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica e cultural do franciscanismo na Europa e no mundo. Gil Vicente, S&aacute; de Miranda e Cam&otilde;es usaram o tempo e o esp&iacute;rito para p&ocirc;r a t&oacute;nica nesse universalismo de ideias e valores. E o Padre Ant&oacute;nio Vieira tornou as &laquo;Trovas&raquo; de Bandarra uma chamada a um desejo vivo e n&atilde;o morto, transformando a lembran&ccedil;a funesta de Alc&aacute;cer Quibir num apelo de renascimento e restaura&ccedil;&atilde;o. No entanto, era mais f&aacute;cil a invoca&ccedil;&atilde;o de um encoberto morto, com ra&iacute;zes de fundo celta, trazido da noite dos tempos do ciclo bret&atilde;o e dos cavaleiros da t&aacute;bua redonda. Da&iacute; a ciclotimia que ainda nos distingue &ndash; entre momentos altos e baixos, entre o mist&eacute;rio da hist&oacute;ria e a dura tomada de consci&ecirc;ncia das fragilidades, que Alexandre O&rsquo;Neill resumiu: &laquo;Portugal: quest&atilde;o que eu tenho comigo mesmo, \/ golpe at&eacute; ao osso, fome sem entret&eacute;m, \/ perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, \/ rocim engraxado, \/ feira cabisbaixa, \/ meu remorso, \/ meu remorso de todos n&oacute;s&raquo;.<\/p>\n<p>O atual tempo de crise leva-nos a lembrar neste dia de Portugal de 2012: a hist&oacute;ria antiga; o amor-pr&oacute;prio; a sede arreigada de independ&ecirc;ncia; os nove s&eacute;culos de dificuldades e de vontade; a capacidade de manter uma identidade aberta; a recusa do fatalismo da mediocridade; o sentido cr&iacute;tico que permite ir &agrave; luta e n&atilde;o desistir; a consci&ecirc;ncia dos defeitos e a tenta&ccedil;&atilde;o do ilus&oacute;rio sonho; a contradi&ccedil;&atilde;o de nos acharmos os melhores ou os piores e o sentido tr&aacute;gico que leva &agrave; perman&ecirc;ncia, apesar de tudo. No entanto, estes elementos t&ecirc;m de ser vistos num percurso lento e complexo. Fern&atilde;o Lopes retrata os alvores da realidade dos portugueses como projeto pr&oacute;prio de autonomia e emancipa&ccedil;&atilde;o, para al&eacute;m do reino pol&iacute;tico. Jo&atilde;o de Barros, nas &laquo;D&eacute;cadas&raquo;, encontra pela primeira vez os portugueses no mundo. &laquo;Os Lus&iacute;adas&raquo; e Cam&otilde;es apresentam a nossa hist&oacute;ria como uma epopeia digna dos cl&aacute;ssicos. Fern&atilde;o Mendes Pinto ligou a aventura e o drama, o picaresco e a hist&oacute;ria. A restaura&ccedil;&atilde;o de 1640 obrigou a consolidar a heran&ccedil;a hist&oacute;rica pr&oacute;pria. O quinto imp&eacute;rio abriu caminho &agrave; considera&ccedil;&atilde;o do universalismo da dignidade humana, at&eacute; que os &uacute;ltimos s&eacute;culos foram afinando a &laquo;arte de ser portugu&ecirc;s&raquo;, agora, mais uma vez em encruzilhada decisiva. E a vontade, como afirmou Herculano, tem tido um papel decisivo. &laquo;Somos porque queremos&raquo;. Eis um motivo de esperan&ccedil;a e de sentido cr&iacute;tico.<\/p>\n<p><em>Guilherme d&#8217;Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme d&#8217;Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[174,203],"class_list":["post-56944","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-de-coimbra","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56944","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56944"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56944\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}