{"id":56802,"date":"2012-05-31T23:48:29","date_gmt":"2012-05-31T23:48:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/05\/31\/acores-religiosidade-e-territorio\/"},"modified":"2012-05-31T23:48:29","modified_gmt":"2012-05-31T23:48:29","slug":"acores-religiosidade-e-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/acores-religiosidade-e-territorio\/","title":{"rendered":"A\u00e7ores. Religiosidade e Territ\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p>Francisco Maduro Dias <!--more--> <\/p>\n<p>A religiosidade nos A&ccedil;ores &eacute; algo que tem a ver com o Mundo como ele &eacute;: feito de mar &ndash; muito mar &ndash;, terra &ndash; alguma &ndash;, vento, sol, chuva, vulc&otilde;es e tempestades.<br \/>A alquimia n&atilde;o &eacute; aqui apenas um conceito dos cl&aacute;ssicos antigos ou medievais. Entre o mar e o ar, o fogo e a terra, s&oacute; o Esp&iacute;rito faltaria e n&atilde;o faltou, n&atilde;o tem faltado, desde que os humanos, de cultura portuguesa, sobretudo, se decidiram a habitar esta zona do Oceano Atl&acirc;ntico, com os p&eacute;s sobre o seco das ilhas mas os olhos mergulhados na imensid&atilde;o, muitas vezes bem pouco azul mas sempre profunda, do mar enorme e salgado.<br \/>A religiosidade nestas ilhas &eacute; feita de muitos santos padroeiros e f&eacute; ancorada em muitas igrejas ou capelas espalhadas na paisagem mas, quando chega o fim da primavera e o in&iacute;cio do ver&atilde;o, esse Esp&iacute;rito a que chamamos, com carinho respeitoso, o Senhor Esp&iacute;rito Santo, penetra todas elas e faz explodir, desde Santa Maria ao Corvo, um enorme festival em que o &ldquo;dar&rdquo;, o &ldquo;dar esmolas em louvor do Senhor Esp&iacute;rito Santo&rdquo; &eacute; a trave mestra e o mote.&nbsp;<br \/>&Eacute; errada a ideia que temos do arquip&eacute;lago dos A&ccedil;ores. S&atilde;o seiscentos quil&oacute;metros entre Santa Maria, a sul, e a menos de duas horas de viagem de avi&atilde;o de Lisboa, e o Corvo, j&aacute; apenas a quatro horas de voo da Terra Nova, no Canad&aacute;.<br \/>Na realidade, se coloc&aacute;ssemos os A&ccedil;ores sobre o Continente portugu&ecirc;s, a ilha mais a sul ficaria sobre Faro, mas a ilha mais a norte teria de ser colocada nos arredores de Santiago de Compostela.<br \/>Interessa dizer isso n&atilde;o para a vangl&oacute;ria do tamanho, mas para se perceber que os A&ccedil;ores n&atilde;o ser&atilde;o nunca &ldquo;um lugar&rdquo; e sim, sempre, v&aacute;rios e diversos lugares, com avantajadas dist&acirc;ncias de permeio, for&ccedil;ando quem aqui vive a outra compreens&atilde;o do Planeta e do universo.&nbsp;<br \/>Olhando em volta torna-se claro porque &eacute; que a religiosidade teria de ser diferente num territ&oacute;rio como os A&ccedil;ores. Enquanto que, num continente qualquer, a praia &eacute; um limite e o mar n&atilde;o conta para nada, a n&atilde;o ser de ver&atilde;o, podendo uma pessoa viver toda a vida sem precisar dele, nas ilhas, nestas ilhas, o mar liga terras e &eacute; como que o espa&ccedil;o de uni&atilde;o onde tudo o resto se encaixa.&nbsp;<br \/>A ideia que se tem de Deus acaba por ter de ser muito outra. As montanhas grandes e tem&iacute;veis do mar encapelado, o Sol resplandecente do ocaso, em dias de junho ou setembro apontam uma dimens&atilde;o diferente. O vento &eacute; mesmo rijo e sopra e um terramoto reduz tudo e todos &agrave; condi&ccedil;&atilde;o m&iacute;nima de seres sobreviventes e amedrontados.&nbsp;<br \/>Um Deus criador de tudo isto teria de ser mesmo forte, poderoso, omnipotente, o Deus de que se fala na B&iacute;blia ao longo do Antigo Testamento, o poderoso Deus do vento, do trov&atilde;o, do fogo, do dil&uacute;vio, que aparece, de forma bem clara e palp&aacute;vel, por estas ilhas abaixo, seja na majestade serena e distante das paisagens abertas at&eacute; al&eacute;m do horizonte, seja na for&ccedil;a desamarrada de uma qualquer tempestade de inverno. Deus tremendo, esse!<br \/>O Deus de amor entrou, por&eacute;m e a par, pela m&atilde;o dos franciscanos, senhores das escolas de primeiras letras por todo o arquip&eacute;lago durante os primeiros tr&ecirc;s s&eacute;culos de povoamento e portadores de uma forma de ver que ter&aacute; influenciado muito a ternura que se pressente na paisagem.&nbsp;<br \/>As pedras reunidas e organizadas em cerrados, os delicados desenhos de aproveitamento agr&iacute;cola e pastoril, a sabedoria dos enquadramentos do casario, debruando terras e marcando caminhos, d&atilde;o testemunho, segundo muitos, do olhar pac&iacute;fico e amoroso espalhado pelos treze conventos dos disc&iacute;pulos do &ldquo;poverello&rdquo; de Assis.<br \/>O Deus do Novo Testamento entrou tamb&eacute;m estas ilhas, pelo que aqui se v&ecirc;.&nbsp;<br \/>Entrou e ficou, sob a forma da Terceira Pessoa da Trindade, esse Divino Esp&iacute;rito que, todos os anos, as pessoas insistem em celebrar e trazer para o conv&iacute;vio humano.<\/p>\n<p>Francisco Maduro Dias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Maduro Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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