{"id":56754,"date":"2012-05-29T11:17:06","date_gmt":"2012-05-29T11:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/05\/29\/corpo-de-deus-feriado-ou-dia-santo\/"},"modified":"2012-05-29T11:17:06","modified_gmt":"2012-05-29T11:17:06","slug":"corpo-de-deus-feriado-ou-dia-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/corpo-de-deus-feriado-ou-dia-santo\/","title":{"rendered":"Corpo de Deus: feriado ou dia santo?"},"content":{"rendered":"<p>1. &Agrave; solenidade do Pentecostes, que encerra o tempo pascal, segue-se o domingo da Sant&iacute;ssima Trindade. Este permite reconduzir todos os acontecimentos da hist&oacute;ria da salva&ccedil;&atilde;o &agrave; sua fonte: o Deus uni-trino, do qual tudo prov&eacute;m e ao qual tudo regressa. Na quinta-feira seguinte, celebra-se a solenidade do Sant&iacute;ssimo Corpo e Sangue de Cristo, mais conhecida entre n&oacute;s por &ldquo;Corpo de Deus&rdquo; (o que nem est&aacute; mal, visto o nosso Deus ser um Deus encarnado, feito um de n&oacute;s &ndash; e a solenidade do Corpo de Deus alerta-nos para esta iman&ecirc;ncia daquele Absolutamente Transcendente celebrado no domingo anterior). O Corpo de Deus, por&eacute;m, implica uma outra dimens&atilde;o: a proximidade. Deus n&atilde;o s&oacute; encarnou num tempo determinado, em Jesus Cristo, mas quis ficar sempre connosco na sua carne. E ficou, no sacramento da Eucaristia, proclamado pela Igreja &ldquo;presen&ccedil;a real&rdquo; do Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Senhor Jesus Cristo entre n&oacute;s, p&atilde;o dos caminhantes que somos em busca de uma outra morada, pois nesta sabemos n&atilde;o ter assento permanente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. &Eacute; de tradi&ccedil;&atilde;o antiga, esta celebra&ccedil;&atilde;o, embora &ldquo;recente&rdquo; na hist&oacute;ria do cristianismo. Vem da Idade M&eacute;dia tardia (s&eacute;c. XIII) e depressa se tornou uma das grandes solenidades do Senhor no decorrer do ano lit&uacute;rgico. N&atilde;o admira que a Igreja a tenha proclamado &ldquo;dia santo de guarda&rdquo; (livre do trabalho, para se poder prestar o culto devido a Deus neste dia). E, numa sociedade de intensa f&eacute; eucar&iacute;stica, esta solenidade era vivida com particular esplendor: toda a gente se incorporava na prociss&atilde;o do &ldquo;Corpus Christi&rdquo;: confrarias ou irmandades, artes&atilde;os e comerciantes, nobres e plebeus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Perceber como era vivida esta solenidade ajuda a entender por que raz&atilde;o a mesma se revestiu das cores dominicais de &ldquo;dia santo de guarda&rdquo; e consequente feriado civil. Este n&atilde;o era entendido como um favor concedido pelo Estado &agrave; Igreja: era uma exig&ecirc;ncia dos povos para poderem celebrar dignamente a festa de Deus, interrompendo os seus afazeres quotidianos. As r&aacute;pidas mudan&ccedil;as sociais que Portugal conheceu desde os anos setenta do s&eacute;culo passado acabaram, no entanto, por quebrar esta unidade. Para muitos, passou a vigorar apenas a perspectiva do feriado. E alguns reclamavam mesmo da raz&atilde;o de o Estado reconhecer o estatuto de feriado a um dia cuja relev&acirc;ncia era percebida apenas por uma parte da sociedade, que o vivia como &ldquo;santo&rdquo;, ou seja, separado dos restantes dias comuns. Foi j&aacute; neste contexto de incompreens&atilde;o que as necessidades econ&oacute;micas do momento presente e alguma curteza de vistas tornaram poss&iacute;vel o fim do &ldquo;feriado&rdquo; e do &ldquo;dia santo&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Neste processo, a minha discord&acirc;ncia &ndash; mesmo se respeitosa &ndash; vai essencialmente para o modo como a Hierarquia da Igreja em Portugal e na Santa S&eacute; tratou a quest&atilde;o dos feriados &ldquo;religiosos&rdquo;. Em vez de insistir na &ldquo;reciprocidade&rdquo; entre feriados &ldquo;civis&rdquo; e feriados &ldquo;religiosos&rdquo;, a Hierarquia da Igreja deveria ter trabalhado para acabar com o sofisma inerente a esta designa&ccedil;&atilde;o e valorizar aquilo que lhe &eacute; pr&oacute;prio &ndash; a santifica&ccedil;&atilde;o de determinados dias, n&atilde;o porque o Estado concede a benesse de os declarar &ldquo;feriados&rdquo;, mas porque tais dias s&atilde;o &ldquo;santos&rdquo; (separados dos restantes) por raz&otilde;es que dizem respeito &agrave; vida da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. O caminho mais dif&iacute;cil, mas tamb&eacute;m o mais proveitoso, teria sido deixar os feriados ao Estado, como assunto seu, afirmar a continua&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;dias santos&rdquo; nos dias pr&oacute;prios e sensibilizar as comunidades crist&atilde;s para se organizarem de modo a poder celebr&aacute;-los, mesmo sem a ajuda de um feriado civil. O caminho escolhido foi outro e continuou de p&eacute; a ideia da equival&ecirc;ncia entre &ldquo;feriado&rdquo; e &ldquo;dia santo&rdquo;. N&atilde;o admira, assim, se at&eacute; os domingos deixam de ser tratados, por muitos cat&oacute;licos, como &ldquo;dias santos&rdquo;. Com tanta gente a trabalhar aos domingos, haver&aacute; certamente cat&oacute;licos nessas circunst&acirc;ncias. E para estes, na aus&ecirc;ncia do &ldquo;feriado&rdquo;, n&atilde;o deve ser f&aacute;cil viver o &ldquo;dia santo&rdquo;, sobretudo quando a mesma Hierarquia da Igreja insiste na confus&atilde;o entre um e outro.<\/p>\n<p><em>Elias Couto<\/em><\/p>\n<p><em>(Artigo escrito  de acordo com a antiga ortografia)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. &Agrave; solenidade do Pentecostes, que encerra o tempo pascal, segue-se o domingo da Sant&iacute;ssima Trindade. 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