{"id":56751,"date":"2012-05-29T11:10:02","date_gmt":"2012-05-29T11:10:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/05\/29\/a-religiao-nos-acorianos\/"},"modified":"2012-05-29T11:10:02","modified_gmt":"2012-05-29T11:10:02","slug":"a-religiao-nos-acorianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-religiao-nos-acorianos\/","title":{"rendered":"A Religi\u00e3o nos a\u00e7orianos"},"content":{"rendered":"<p>Padre Ant\u00f3nio Rego, Jornalista    <!--more--> <\/p>\n<p>Tal como os vitrais: vistos de dentro s&atilde;o uma coisa. De fora s&atilde;o outra, porventura sem nexo ou de recorte abstrato e sem sentido. A an&aacute;lise da religiosidade dum povo deve sempre revestir-se de mil cautelas para se n&atilde;o deformar por excesso de dist&acirc;ncia e proximidade. Por isso desde j&aacute; digo: n&atilde;o serei, n&atilde;o pretendo ser objetivo. Tenho, como muitas pessoas, duas estruturas religiosas. Uma experiencial, de perten&ccedil;a a um povo, a partir da pia batismal, da inf&acirc;ncia, da fam&iacute;lia na pequena ou grande comunidade. Outra, deriva dum estudo mais alargado, cr&iacute;tico, doutrinal, pastoral, que envolve a minha pr&oacute;pria vida sacerdotal e at&eacute; jornal&iacute;stica e aquilo em que apostei a minha exist&ecirc;ncia como entrega &agrave; causa da evangeliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o escondendo todas as limita&ccedil;&otilde;es anexas a qualquer voca&ccedil;&atilde;o a que impropriamente chamamos escolha de vida.<\/p>\n<p>Existe uma certa imagem da religiosidade A&ccedil;oriana de que os sismos, os vulc&otilde;es, o isolamento, a imensid&atilde;o por vezes medonha do mar, facilmente faz o povo dobrar os joelhos e levantar a voz diante de um Ser, Omnipotente, acima de todas as for&ccedil;as amea&ccedil;adoras e palavra &uacute;ltima sobre todos os eventos. Isto quereria dizer que apenas a pequenez e o medo seriam capazes de descobrir e alimentar devo&ccedil;&otilde;es como a do Senhor Santo Cristo, do Esp&iacute;rito Santo ou mesmo dos Romeiros. Tudo com uma extens&atilde;o cosmopolita pelos muitos a&ccedil;orianos que se espalharam pelo mundo e levaram na sua identidade pessoal essa rela&ccedil;&atilde;o com o divino tanto na express&atilde;o penitencial como na festiva.<\/p>\n<p>Importa dizer antes de mais que os A&ccedil;ores foram povoados na era de Quinhentos, evangelizados pelos mission&aacute;rios que &#8220;faziam escala&#8221; para outras paragens e por aqueles que nas ilhas se instalaram e edificaram conventos, centro de converg&ecirc;ncia de toda a urbaniza&ccedil;&atilde;o das cidades e lugar de irradia&ccedil;&atilde;o do an&uacute;ncio do Evangelho. A&iacute; sim come&ccedil;ou a desenhar-se uma espiritualidade que o tempo harmonizaria com os &ldquo;colonos&rdquo; continentais chegados, os nativos, a religi&atilde;o oficial cat&oacute;lica e todo o resto, ou seja quase tudo: uma comunidade feita de pequenas comunidades frequentemente despertada pelo rugido do mar, o estremecimento da terra e a for&ccedil;a brutal dos vulc&otilde;es que, como em qualquer parte do mundo, irrompiam da profundidade do mar e renovavam a configura&ccedil;&atilde;o geol&oacute;gica ou geogr&aacute;fica das ilhas, todas elas nascidas e amparadas pelos p&iacute;ncaros de montanhas oriundas dos oceanos. Independentemente das teorias atl&acirc;ntidas a verdade &eacute; que os A&ccedil;ores t&ecirc;m mais terra submersa que terra &agrave; vista.<\/p>\n<p>H&aacute;, de facto, nos a&ccedil;orianos o que poder&iacute;amos chamar uma propens&atilde;o para o sobrenatural, uma capacidade para integrar o divino na sua vida. A meu ver dever-se-&aacute; muito &agrave; espiritualidade que alicer&ccedil;ou os primeiros evangelizadores do arquip&eacute;lago. Tem muitos elementos comuns com o resto do pa&iacute;s apesar de vividos com uma sensibilidade pr&oacute;pria. N&atilde;o &eacute; s&oacute; em mat&eacute;ria religiosa que h&aacute; uma &ldquo;a&ccedil;oreanidade&rdquo; que caracteriza a mundivid&ecirc;ncia, a fala, a escrita, a arte e a vida dos que nasceram nos A&ccedil;ores. Vitorino Nem&eacute;sio pode ser uma imagem, por recente, cujo discurso escrito, falado e musicado n&atilde;o poderia nascer noutra parte do mundo.<\/p>\n<p>O religioso tem esta marca a&ccedil;&oacute;rica. Brevemente (porque o espa&ccedil;o para estas linhas &eacute; mais estreito que uma ilha) as festas do Esp&iacute;rito Santo nascidas &ndash; e quase apagadas &#8211; no Continente constitu&iacute;ram um espa&ccedil;o de express&atilde;o da f&eacute; do povo. O Divino, a coroa, a bandeira, o mordomo e mais dezenas de siglas que um estranho n&atilde;o entende, deixa surpresa a pr&oacute;pria Igreja. O cortejo, o p&atilde;o, a festa, as ora&ccedil;&otilde;es no imp&eacute;rio ou nas casas s&atilde;o feitas pelo povo. O imp&eacute;rio &eacute; a sua pequena Igreja. O sacerdote entra minimamente em todo este ritual. &Eacute; o povo que tudo dirige. A Igreja convive com este todo mas n&atilde;o &eacute; o seu primeiro terreno. A hist&oacute;ria j&aacute; lhe semeou elementos que ultrapassam todos os ritos oficiais. Entretanto o sentido profundo da &ldquo;caridade&rdquo; para com os necessitados, expressa hoje de outras formas, mant&eacute;m a genuinidade do respeito profundo pelo Divino Esp&iacute;rito Santo e o cumprimento rigoroso dos ritos populares anexos &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o da massa, do p&atilde;o e do vinho. Os pastores tentam apontar mais longe sem negar esta &ldquo;laicidade&rdquo; religiosa em toda a linha festiva.<\/p>\n<p>A devo&ccedil;&atilde;o ao Senhor Santo Cristo nasce dum Religiosa que a divulga e se torna popular. A imagem do Ecce Homo tem uma express&atilde;o forte do divino no seu olhar, na sua miseric&oacute;rdia, na sua presen&ccedil;a continuada no coro baixo do Convento da Esperan&ccedil;a. A uma dist&acirc;ncia discreta e com uma t&eacute;nue ilumina&ccedil;&atilde;o escuta milhares de pessoas que pedem e agradecem os momentos sublimes e sofredores da pr&oacute;pria vida. E tudo isso se reveste dum respeito intenso, expresso particularmente na prociss&atilde;o do &ldquo;Dia do Senhor&rdquo;, com o seu olhar humilde lan&ccedil;ado do alto do andor, com a coroa de espinhos e o cetro revestidos de pedras preciosas, a beleza da sua capa e da corda dourada que lhe prende as m&atilde;os. O Ecce Homo todos os anos atravessa a cidade ladeado das for&ccedil;as vivas da comunidade que h&aacute; s&eacute;culos veneram o Senhor Santo Cristo. Os tempos mudaram e diferente &eacute; a cultura das novas gera&ccedil;&otilde;es. Mas novos e velhos sentem-se honrados neste cortejo divino e humano.<\/p>\n<p>Gostaria de referir os Romeiros. Trata-se de, em tempo de Quaresma, percorrer a p&eacute;, toda a Ilha de S. Miguel. Apenas homens. Com paragem em todas as Igrejas e Capelas dedicadas a Nossa Senhora. Durante uma semana o ros&aacute;rio em canto ch&atilde;o doce e comovido, repetido e desenhado no alto de montanhas e ribeiros serenos. P&eacute;s doridos e perseverantes, misto de dor, cansa&ccedil;o e festa.<\/p>\n<p>Mosteiro ambulante, onde a paisagem se move com cada passo e cada olhar deslumbrado. Trazendo no cora&ccedil;&atilde;o os amigos, os pedidos, os agradecimentos. O encontro com a vida nesse retiro que foi preparado e &eacute; vivido na celebra&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica, nas litanias do Mestre dos Romeiros, no xaile e no len&ccedil;o que protege do frio, da chuva ou do calor.<\/p>\n<p>Nas ora&ccedil;&otilde;es integra-se o cortejo dos santos, protetores, a experi&ecirc;ncia da vida em comunidade, a ren&uacute;ncia &agrave; vontade pr&oacute;pria, a obedi&ecirc;ncia ao mestre, ao procurador das almas, na travessia de nevoeiros exteriores e de alma, nublada pelos dramas e perguntas.<\/p>\n<p>O sentido do peregrinar: caminhar, subir, saborear, chegar ao mais elevado de si mesmo, no gesto simples de humildade. Olhar voltado para o alto e para dentro. Romeiros, p&eacute;s cansados, cora&ccedil;&atilde;o em paz. Desfile solit&aacute;rio onde est&aacute; o mundo inteiro: os pais, filhos, irm&atilde;os e uma lada&iacute;nha de almas encomendadas antes de partir, ou nas janelas entreabertas que v&atilde;o desfiando nomes e requisitando preces. E repetidamente: &ldquo;Virgem M&atilde;e de Deus e M&atilde;e nossa, alcan&ccedil;ai do vosso filho miseric&oacute;rdia&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Padre Ant&oacute;nio Rego<br \/>Jornalista<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Ant\u00f3nio Rego, Jornalista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[199,91],"class_list":["post-56751","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-espiritualidade","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}