{"id":56676,"date":"2012-05-23T13:38:09","date_gmt":"2012-05-23T13:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/05\/23\/como-e-que-se-inventa-a-vida-depois-do-desemprego\/"},"modified":"2012-05-23T13:38:09","modified_gmt":"2012-05-23T13:38:09","slug":"como-e-que-se-inventa-a-vida-depois-do-desemprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/como-e-que-se-inventa-a-vida-depois-do-desemprego\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 que se inventa a vida depois do desemprego?"},"content":{"rendered":"<p>Paulo Aido <!--more--> <\/p>\n<p>O homem estava calado dentro do sil&ecirc;ncio da igreja. Faltavam ainda alguns minutos para o come&ccedil;o da missa das nove, a primeira do dia, e quase ningu&eacute;m ocupava ainda os bancos corridos do templo. Duas ou tr&ecirc;s mulheres vestidas de luto e pouco mais. O homem, a um canto, estava como que perplexo. Olhava sem ver o altar e assim ficou depois do padre ter entrado na igreja, ter dito em voz clara &ldquo;em nome do Pai, do Filho e do Esp&iacute;rito Santo&rdquo; e mesmo depois de todos terem respondido &ldquo;am&eacute;n&rdquo;. O homem continuou fechado sobre si, retido ainda nos &uacute;ltimos pensamentos, nas palavras escritas a negro, corpo oito, em times new roman. Foi num texto alinhado &agrave; esquerda, impresso a uma cor, que leu a carta que colocou um ponto final no seu emprego. Foi despedido em tr&ecirc;s linhas cordiais, numa missiva assinada pelo administrador, que at&eacute; escreveu, pelo seu punho, &ldquo;muitas felicidades&rdquo;. Caramba. Despedido aos 52 anos! Toda a sua vida fora revisor de textos e agora estava na margem do mundo do trabalho. Obviamente que ainda n&atilde;o tinha dito nada l&aacute; em casa. Obviamente. A mulher estava a milhas de adivinhar o desastre e ele n&atilde;o sabia tamb&eacute;m como diz&ecirc;-lo. Velho demais para conseguir trabalho, novo demais para a reforma, a vida tinha-o atrai&ccedil;oado aos 52 anos. A carta estava no bolso, amarrotada desde a v&eacute;spera. Hoje, no primeiro dia depois do despedimento, levantou-se como de costume &agrave; hora de sempre e como sempre apanhou o mesmo autocarro, percorreu as mesmas ruas e foi visitar Deus na igreja do costume. Agora estava ali, sem palavras, sem saber o que fazer a seguir. Como &eacute; que se inventa a vida depois dos 52 anos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podia n&atilde;o escrever mais nada. A Ag&ecirc;ncia Ecclesia pediu-me um texto sobre o desemprego e eu recordei-me deste pequeno conto que publiquei, h&aacute; uns anos, no jornal Destak, numa pequena coluna em que diariamente registava imagens do quotidiano de Lisboa, como se fotografasse a cidade com palavras. O texto tem mais de cinco anos mas podia ter sido escrito agora, neste instante.<\/p>\n<p>At&eacute; j&aacute; se disse que o fim do emprego pode ser uma oportunidade, mas &eacute;, em primeiro lugar, quase sempre, um murro no est&ocirc;mago, um sinal da enorme precariedade que &eacute; a nossa vida na sociedade atual. Que ningu&eacute;m tenha certezas absolutas. Sabe-se l&aacute; o que nos vai trazer o dia de amanh&atilde;&hellip;<\/p>\n<p>&ldquo;Como &eacute; que se inventa a vida depois dos 52 anos?&rdquo;, pergunta, a si pr&oacute;prio, o homem calado dentro do sil&ecirc;ncio da igreja.<\/p>\n<p>Este homem &eacute; apenas personagem de um conto. No entanto, no dia a dia das nossas vidas, agora, neste instante, quantos homens e mulheres n&atilde;o ter&atilde;o tamb&eacute;m um papel amarrotado no bolso, qual senten&ccedil;a de morte, a dizer-lhes que o emprego acabou, que a empresa fechou, que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel manter o seu posto de trabalho pois &eacute; preciso haver redu&ccedil;&atilde;o de custos, que os tempos est&atilde;o dif&iacute;ceis, que a culpa &eacute; da crise?<\/p>\n<p>Nestes dias em que o flagelo do desemprego est&aacute; impresso em letras escuras, f&uacute;nebres, nas primeiras p&aacute;ginas dos jornais, e &eacute; repetido at&eacute; &agrave; exaust&atilde;o pelos pivots dos notici&aacute;rios das televis&otilde;es e das r&aacute;dios, ningu&eacute;m pode mais afirmar que n&atilde;o sabe, que n&atilde;o conhece, que nunca ouviu falar em algu&eacute;m que est&aacute; mais pobre porque ficou sem trabalho, em algu&eacute;m que est&aacute; mais s&oacute; porque ficou sem esperan&ccedil;a. Todos n&oacute;s conhecemos alguma pessoa que est&aacute; assim, como o senhor do conto, provavelmente velho demais para voltar a ser contratado, mas ainda novo demais para ter direito &agrave; reforma, fechado sobre si mesmo, na impossibilidade de ultrapassar os seus problemas. Todos n&oacute;s conhecemos algu&eacute;m encurralado, sem solu&ccedil;&otilde;es, rasteirado por uma crise que o apanhou desprevenido e que agora olha &agrave; sua volta e n&atilde;o v&ecirc; ningu&eacute;m, olha-se ao espelho e nem se reconhece.<\/p>\n<p>O que fizermos &ndash; ou n&atilde;o fizermos &ndash; nestes dias de tempestade dir&aacute; muito mais sobre o sentido da nossa f&eacute; do que podemos imaginar. O flagelo do desemprego que se abateu sobre os portugueses pode ser, de facto, uma oportunidade. Uma oportunidade para provarmos o que queremos dizer quando dizemos que somos crist&atilde;os.<\/p>\n<p><em>Paulo Aido<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Aido<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-56676","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56676\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}