{"id":56444,"date":"2012-05-08T12:30:43","date_gmt":"2012-05-08T12:30:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/05\/08\/decifrar-os-silencios\/"},"modified":"2012-05-08T12:30:43","modified_gmt":"2012-05-08T12:30:43","slug":"decifrar-os-silencios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/decifrar-os-silencios\/","title":{"rendered":"Decifrar os sil\u00eancios"},"content":{"rendered":"<p>Alexandra Ser\u00f4dio, jornalista <!--more--> <\/p>\n<p align=\"left\"><em>&#8216;Existe no sil&ecirc;ncio t&atilde;o profunda sabedoria que &agrave;s vezes ele transforma-se na mais perfeita resposta&#8217; (Fernando Pessoa)<\/em><\/p>\n<p>Nunca lhe perguntei o nome, mas ouvia-a atentamente durante escassos minutos. Disse pouco, mas o olhar que marcava um rosto que refletia o passar dos anos, acabou por me revelar tudo. Chamei-lhe Maria, uma mulher igual a tantas outras, mas cuja vida sofrida se refletia em cada palavra e em cada gesto. Interrompeu as preces que fazia junto da Capelinha das Apari&ccedil;&otilde;es, apenas para dizer que acreditava, que gostava de estar ali porque simplesmente se sentia &ldquo;mais leve&rdquo;.<\/p>\n<p>O sil&ecirc;ncio desta mulher disse-me muito mais que outras entrevistas que realizei nesse dia. Foram os gestos e o olhar as palavras que retirei daquela imagem, que por muitos anos que passem dificilmente conseguirei esquecer.<\/p>\n<p>Adepta da palavra e da escrita, h&aacute; muito que descobri que s&atilde;o os sil&ecirc;ncios que transmitem a verdadeira realidade das coisas e da vida. Decifrar esses sil&ecirc;ncios e interpretar os gestos que os acompanham, tem sido um desafio constante para mim, jornalista, que faz da escrita o seu modo de vida.<\/p>\n<p>Aprendi com Maria a decifrar os sil&ecirc;ncios&#8230;. a deter-me em olhares, rostos e m&atilde;os&#8230; e &ldquo;reinventar&rdquo; uma forma diferente de escrever as hist&oacute;rias. E s&atilde;o as que mais gosto de escrever.<\/p>\n<p>Detenho-me com frequ&ecirc;ncia, perante uma multid&atilde;o silenciosa que enche o recinto do santu&aacute;rio de F&aacute;tima, nos dias 12 e 13 de maio. Olho os rostos e os olhos e compreendo a emo&ccedil;&atilde;o de se estar, ali, devido a variad&iacute;ssimas raz&otilde;es pessoais, mas a principal &eacute; a procura de algo maior, que torne a vida mais f&aacute;cil de viver.<\/p>\n<p>Traduzir estas emo&ccedil;&otilde;es para o papel &eacute; sempre um desafio para quem, ano ap&oacute;s ano, est&aacute; no mesmo local e quase incompreensivelmente sente as mesmas emo&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>As mesmas que senti quando olhei a multid&atilde;o de jovens, que em agosto &uacute;ltimo esteve em Madrid na Jornada Mundial da Juventude. O que os moveu? Por que raz&atilde;o? Com que objetivo? A alegria estampada nos rostos, os olhos brilhantes permitiram decifrar algumas perguntas e perceber que, tamb&eacute;m eles, procuram algo maior para as suas vidas. As respostas dadas pelos jovens permitiram-me escrever as hist&oacute;rias, mas foram os gestos e os olhares que me transmitiram muito daquilo que n&atilde;o foi dito.<\/p>\n<p>Foi em cima de um telhado, na Pra&ccedil;a de S. Pedro, no Vaticano, que em maio de 2010 tentei perceber a raz&atilde;o daqueles que deixaram as suas casas, as suas fam&iacute;lias, e percorreram milhares de quil&oacute;metros para assistirem &agrave;s cerim&oacute;nias de beatifica&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Paulo II, as mesmas que as televis&otilde;es transmitiram em todo o mundo. Mas tal como eu, jornalista imparcial em servi&ccedil;o, me arrepiei quando o pano deixou perceber o rosto do novo beato, os que se encontravam naquela pra&ccedil;a tamb&eacute;m tremeram&#8230; e aplaudiram. Recordei as minhas viv&ecirc;ncias de adolescente e jovem e, vislumbrei diante de mim, aqueles que como eu, cresceram a admirar aquele Papa.<\/p>\n<p>J&aacute; no interior da Pra&ccedil;a e em plena missa, olhei os rostos, os olhos h&uacute;midos das l&aacute;grimas que teimosamente caiam, e nas m&atilde;os unidas segurando uma pequena fotografia. N&atilde;o foi dif&iacute;cil interpretar as emo&ccedil;&otilde;es e transcrev&ecirc;-las para o papel. Afinal, esta &eacute; a minha miss&atilde;o de jornalista: contar hist&oacute;rias, enquadr&aacute;-las num ambiente e relatar as emo&ccedil;&otilde;es, muitas das quais tamb&eacute;m sentidas por mim pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>Interpretar e comunicar estes &ldquo;sil&ecirc;ncios&rdquo; tem sido uma das minhas tarefas de jornalista. Acredito que deva ser tamb&eacute;m um objetivo de quem quer perceber o que move hoje a sociedade. Mais que as palavras ditas de forma mais ou menos agrad&aacute;vel ou mesmo emotiva, s&atilde;o os gestos, os olhares e os sil&ecirc;ncios que devem ajudar a interpretar a verdadeira realidade.<\/p>\n<p><em>Alexandra Ser&ocirc;dio, jornalista, &laquo;Jornal de Not&iacute;cias&raquo;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandra Ser\u00f4dio, jornalista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-56444","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56444"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56444\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56444"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}