{"id":56076,"date":"2012-04-10T10:38:13","date_gmt":"2012-04-10T10:38:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/10\/ressurreicao-que-ressurreicao\/"},"modified":"2012-04-10T10:38:13","modified_gmt":"2012-04-10T10:38:13","slug":"ressurreicao-que-ressurreicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ressurreicao-que-ressurreicao\/","title":{"rendered":"Ressurrei\u00e7\u00e3o: que ressurrei\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Joaquim Carreira das Neves <!--more--> <\/p>\n<p>Acab&aacute;mos de celebrar o centro da f&eacute; crist&atilde; baseada na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Segundo S&atilde;o Paulo, em resposta a uma fa&ccedil;&atilde;o de crist&atilde;os de Corinto que n&atilde;o acreditava na ressurrei&ccedil;&atilde;o, &ldquo;Se Cristo n&atilde;o ressuscitou, ent&atilde;o a nossa prega&ccedil;&atilde;o &eacute; in&uacute;til e e a vossa f&eacute; &eacute; in&uacute;til tamb&eacute;m&#8230; Ora, se os mortos n&atilde;o ressuscitam, tamb&eacute;m Cristo n&atilde;o ressuscitou. E se Cristo n&atilde;o ressuscitou, a vossa f&eacute; n&atilde;o tem fundamento e voc&ecirc;s s&atilde;o ainda escravos dos vossos pecados&#8230; Se a esperan&ccedil;a que temos em Cristo n&atilde;o vai para al&eacute;m desta vida, somos os mais miser&aacute;veis de todos&rdquo; (1Cor 15, 16-19).<\/p>\n<p>A nossa f&eacute; na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo complica-se quando, em teologia, perguntamos: E como &eacute; que se explica teologicamente a ressurrei&ccedil;&atilde;o? H&aacute; uma explica&ccedil;&atilde;o racional? N&atilde;o passa duma asser&ccedil;&atilde;o de f&eacute;? N&atilde;o ser&aacute; uma pura met&aacute;fora? Uma vez mais, S. Paulo pode dar-nos a resposta. Escreve: &ldquo;Algu&eacute;m pode perguntar: &ldquo;Como &eacute; que os mortos ressuscitam? Com que corpo v&atilde;o eles aparecer?&#8230; Assim acontecer&aacute; tamb&eacute;m com a ressurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos. Enterra-se um corpo mortal, e ressuscita imortal. Enterra-se um corpo sem beleza, e ressuscita cheio de esplendor; enterra-se um corpo fraco, e ressuscita forte. Enterra-se um simples corpo humano, e aparece depois um corpo cheio de vida nova, dada pelo Esp&iacute;rito&rdquo; (1Cor 15, 35. 42-44). S. Paulo acreditava, pois, na ressurrei&ccedil;&atilde;o como acontecimento hist&oacute;rico: trata-se de um corpo ressurreccionado, que &eacute; diferente de um corpo apenas imortal ou espiritual. Segundo a antropologia b&iacute;blica, ao contr&aacute;rio da grega, o corpo material &eacute; constituinte necess&aacute;rio da pessoa ou do eu individual. Se o Ressuscitado &eacute; a pessoa de Jesus de Nazar&eacute;, &eacute; sempre um corpo e n&atilde;o apenas uma alma ou um esp&iacute;rito. De maneira cl&aacute;ssica, costumamos falar de &ldquo;corpo glorioso&rdquo;.<\/p>\n<p>Sem ressurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o h&aacute; f&eacute; crist&atilde;. Sem a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo, o mesmo Jesus n&atilde;o seria mais do que um simples grande homem, grande doutrinador, grande profeta, grande homem de Deus.<\/p>\n<p>&Agrave; luz das narrativas b&iacute;blicas, a raz&atilde;o hist&oacute;rica aplicada &agrave; pessoa hist&oacute;rica de Jesus termina nas narrativas do t&uacute;mulo vazio. Mas, segundo o grande fil&oacute;sofo Emanuel Kant, a raz&atilde;o pura levada ao seu limite n&atilde;o explica toda a realidade. Depois da raz&atilde;o pura vem a raz&atilde;o pr&aacute;tica para explicar a verdadeira realidade que consiste tamb&eacute;m no sentimento, no amor, no cora&ccedil;&atilde;o, na consci&ecirc;ncia, na &eacute;tica e moral e, definitivamente, em Deus. Segundo o &ldquo;Princepezinho&rdquo;, o &ldquo;Invis&iacute;vel&rdquo; &eacute; a real dimens&atilde;o do ser humano.<\/p>\n<p>O assunto, nestes &uacute;ltimos dias, recebeu uma dimens&atilde;o nacional, em Espanha, por causa duma &ldquo;Notifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; da &ldquo;Comiss&atilde;o Episcopal da Igreja Cat&oacute;lica Espanhola para a Doutrina Crist&atilde;&rdquo; dirigida ao te&oacute;logo espanhol Andr&eacute;s Torres Queiruga. Trata-se de um te&oacute;logo conhecido e reconhecido tanto em Espanha como na Am&eacute;rica Latina, professor na Universidade de S&atilde;o Tiago de Compostela. Entre os muitos livros que escreveu sobressai a obra &ldquo;Repensar a Ressurrei&ccedil;&atilde;o&rdquo;. O autor defende a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo &ldquo;em esp&iacute;rito&rdquo;, sem a necessidade prim&aacute;ria do &ldquo;corpo&rdquo;. Se, por hip&oacute;tese, se encontrasse o t&uacute;mulo de Jesus com as suas ossadas, havia motivos para continuar a falar de ressurrei&ccedil;&atilde;o. O grande te&oacute;logo cat&oacute;lico Karl Rahner tamb&eacute;m defendeu esta tese. Neste sentido, a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo seria um acontecimento hist&oacute;rico simb&oacute;lico ou metaf&oacute;rico, digno de cr&eacute;dito, mas diferente, em qualidade de perce&ccedil;&atilde;o, da tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica da f&eacute; cat&oacute;lica. Mas nunca por nunca, esta tradi&ccedil;&atilde;o, desde os Padres da Igreja, apresentou provas de hist&oacute;ria positiva sobre a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Todas as provas s&atilde;o humanas: Jesus Cristo fez-se aparecer a pessoas que, por sua vez, se apresentaram como tais. &Eacute;, pois, uma prova &ldquo;testemunhal&rdquo;. E neste testemunho tamb&eacute;m entra a ret&oacute;rica narrativa apolog&eacute;tica. O caso mais significativo &eacute; a narrativa sobre o ap&oacute;stolo Tom&eacute;: &ldquo;P&otilde;e aqui o teu dedo e v&ecirc; as minhas m&atilde;os. Estende a tua m&atilde;o e mete-a no meu peito. N&atilde;o sejas descrente! Acredita!&rdquo; E Tom&eacute; respondeu: &ldquo;Meu Senhor e meu Deus!&rdquo; Jesus disse-lhe: &ldquo;Acreditas agora porque me viste? Felizes os que acreditarem sem terem visto&rdquo; (Jo 20, 27-29).<\/p>\n<p>As d&uacute;vidas dos crist&atilde;os de Corinto ou dos crist&atilde;os das comunidades jo&acirc;nicas s&atilde;o as de ontem e de hoje. O problema &eacute; que a exegese b&iacute;blica moderna fala de narrativas &ldquo;apolog&eacute;ticas&rdquo; e n&atilde;o &ldquo;hist&oacute;ricas&rdquo;. Hist&oacute;ricas s&atilde;o as d&uacute;vidas. N&atilde;o nos escandalizemos, pois, se afirmarmos que n&atilde;o temos provas de hist&oacute;ria factual, mas apenas de hist&oacute;ria testemunhal. E tamb&eacute;m estas nem sempre s&atilde;o f&aacute;ceis de entender. Como compreender, de facto, a primeira narrativa paulina a ser escrita (por volta do ano 53-55): &ldquo;Apareceu a Pedro e, a seguir, ao grupo dos doze [n&atilde;o eram s&oacute; onze?]. Apareceu ainda a mais de quinhentos &ldquo;irm&atilde;os&rdquo; de uma s&oacute; vez. A maior parte deles ainda vive, mas alguns j&aacute; morreram [quem s&atilde;o este quinhentos irm&atilde;os, dos quais nunca mais se fala?]. Apareceu, depois, a Tiago e, em seguida, a todos os ap&oacute;stolos [quem s&atilde;o estes ap&oacute;stolos, diferentes, necessariamente, do grupo dos doze?]. Em &uacute;ltimo lugar, apareceu-me tamb&eacute;m a mim, que sou quase como um aborto&rdquo; (1Cor 15, 5-8). Por outro lado, S. Paulo refere a verdade da ressurrei&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da verdade da &ldquo;parusia&rdquo; e do &ldquo;ju&iacute;zo final&rdquo;, que devia acontecer durante a vida hist&oacute;rica de S. Paulo: &ldquo;Vou dar-vos a conhecer um mist&eacute;rio: nem todos morreremos, mas todos havemos de ser transformados. Isso acontecer&aacute; num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final. Quando ela se ouvir, os mortos ressuscitam para n&atilde;o mais morrerem, e n&oacute;s seremos transformados&rdquo; (1Cor 15, 51-52; cf. 1Ts 4, 15-17).<\/p>\n<p>A manh&atilde; da P&aacute;scoa n&atilde;o &eacute; um acontecimento separado dos &ldquo;ressuscitados&rdquo; seguidores do Mestre que venceu a morte. Mas o Mestre &eacute; muito mais do que um S&oacute;crates, Plat&atilde;o ou Arist&oacute;teles, Mois&eacute;s, David ou Isa&iacute;as. De contr&aacute;rio, n&atilde;o precis&aacute;vamos de acreditar. Nem o Jesus &ldquo;jo&acirc;nico&rdquo; nos diria: &ldquo;Felizes os que acreditarem sem terem visto.&rdquo; Quem acredita, a come&ccedil;ar pelos ap&oacute;stolos, mulheres que v&atilde;o ao t&uacute;mulo, S. Paulo, carrega consigo o grande &ldquo;mist&eacute;rio&rdquo; do Infinito no finito hist&oacute;rico de cada um. A ressurrei&ccedil;&atilde;o venceu a morte. A vida &eacute; um aleluia de ressurrei&ccedil;&atilde;o em liturgia humano-crist&atilde;, pessoal e c&oacute;smica. Com a ressurrei&ccedil;&atilde;o, o homem todo (corpo e alma) e todo o homem percorre os caminhos da Vida que n&atilde;o tem fim. A ressurrei&ccedil;&atilde;o &eacute; um signo de sentido final. Resume-se, ent&atilde;o, &agrave; grande &ldquo;met&aacute;fora&rdquo; da Vida? S&oacute; &eacute; met&aacute;fora se for resposta a um acontecimento &ldquo;real&rdquo; de realidade transcendente, infinita, sem compreens&atilde;o puramente racional, hist&oacute;rica e humana.<\/p>\n<p>Pe. Joaquim Carreira das Neves<\/p>\n<p>Professor Jubilado da UCP<\/p>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden;\">Acab&aacute;mos de celebrar o centro da f&eacute; crist&atilde; baseada na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Segundo S&atilde;o Paulo, em resposta a uma fa&ccedil;&atilde;o de crist&atilde;os de Corinto que n&atilde;o acreditava na ressurrei&ccedil;&atilde;o, &ldquo;Se Cristo n&atilde;o ressuscitou, ent&atilde;o a nossa prega&ccedil;&atilde;o &eacute; in&uacute;til e e a vossa f&eacute; &eacute; in&uacute;til tamb&eacute;m&#8230; Ora, se os mortos n&atilde;o ressuscitam, tamb&eacute;m Cristo n&atilde;o ressuscitou. E se Cristo n&atilde;o ressuscitou, a vossa f&eacute; n&atilde;o tem fundamento e voc&ecirc;s s&atilde;o ainda escravos dos vossos pecados&#8230; Se a esperan&ccedil;a que temos em Cristo n&atilde;o vai para al&eacute;m desta vida, somos os mais miser&aacute;veis de todos&rdquo; (1Cor 15, 16-19). <br \/>A nossa f&eacute; na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo complica-se quando, em teologia, perguntamos: E como &eacute; que se explica teologicamente a ressurrei&ccedil;&atilde;o? H&aacute; uma explica&ccedil;&atilde;o racional? N&atilde;o passa duma asser&ccedil;&atilde;o de f&eacute;? N&atilde;o ser&aacute; uma pura met&aacute;fora? Uma vez mais, S. Paulo pode dar-nos a resposta. Escreve: &ldquo;Algu&eacute;m pode perguntar: &ldquo;Como &eacute; que os mortos ressuscitam? Com que corpo v&atilde;o eles aparecer?&#8230; Assim acontecer&aacute; tamb&eacute;m com a ressurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos. Enterra-se um corpo mortal, e ressuscita imortal. Enterra-se um corpo sem beleza, e ressuscita cheio de esplendor; enterra-se um corpo fraco, e ressuscita forte. Enterra-se um simples corpo humano, e aparece depois um corpo cheio de vida nova, dada pelo Esp&iacute;rito&rdquo; (1Cor 15, 35. 42-44). S. Paulo acreditava, pois, na ressurrei&ccedil;&atilde;o como acontecimento hist&oacute;rico: trata-se de um corpo ressurreccionado, que &eacute; diferente de um corpo apenas imortal ou espiritual. Segundo a antropologia b&iacute;blica, ao contr&aacute;rio da grega, o corpo material &eacute; constituinte necess&aacute;rio da pessoa ou do eu individual. Se o Ressuscitado &eacute; a pessoa de Jesus de Nazar&eacute;, &eacute; sempre um corpo e n&atilde;o apenas uma alma ou um esp&iacute;rito. De maneira cl&aacute;ssica, costumamos falar de &ldquo;corpo glorioso&rdquo;. <br \/>Sem ressurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o h&aacute; f&eacute; crist&atilde;. Sem a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo, o mesmo Jesus n&atilde;o seria mais do que um simples grande homem, grande doutrinador, grande profeta, grande homem de Deus.<br \/>&Agrave; luz das narrativas b&iacute;blicas, a raz&atilde;o hist&oacute;rica aplicada &agrave; pessoa hist&oacute;rica de Jesus termina nas narrativas do t&uacute;mulo vazio. Mas, segundo o grande fil&oacute;sofo Emanuel Kant, a raz&atilde;o pura levada ao seu limite n&atilde;o explica toda a realidade. Depois da raz&atilde;o pura vem a raz&atilde;o pr&aacute;tica para explicar a verdadeira realidade que consiste tamb&eacute;m no sentimento, no amor, no cora&ccedil;&atilde;o, na consci&ecirc;ncia, na &eacute;tica e moral e, definitivamente, em Deus. Segundo o &ldquo;Princepezinho&rdquo;, o &ldquo;Invis&iacute;vel&rdquo; &eacute; a real dimens&atilde;o do ser humano.<br \/>O assunto, nestes &uacute;ltimos dias, recebeu uma dimens&atilde;o nacional, em Espanha, por causa duma &ldquo;Notifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; da &ldquo;Comiss&atilde;o Episcopal da Igreja Cat&oacute;lica Espanhola para a Doutrina Crist&atilde;&rdquo; dirigida ao te&oacute;logo espanhol Andr&eacute;s Torres Queiruga. Trata-se de um te&oacute;logo conhecido e reconhecido tanto em Espanha como na Am&eacute;rica Latina, professor na Universidade de S&atilde;o Tiago de Compostela. Entre os muitos livros que escreveu sobressai a obra &ldquo;Repensar a Ressurrei&ccedil;&atilde;o&rdquo;. O autor defende a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo &ldquo;em esp&iacute;rito&rdquo;, sem a necessidade prim&aacute;ria do &ldquo;corpo&rdquo;. Se, por hip&oacute;tese, se encontrasse o t&uacute;mulo de Jesus com as suas ossadas, havia motivos para continuar a falar de ressurrei&ccedil;&atilde;o. O grande te&oacute;logo cat&oacute;lico Karl Rahner tamb&eacute;m defendeu esta tese. Neste sentido, a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo seria um acontecimento hist&oacute;rico simb&oacute;lico ou metaf&oacute;rico, digno de cr&eacute;dito, mas diferente, em qualidade de perce&ccedil;&atilde;o, da tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica da f&eacute; cat&oacute;lica. Mas nunca por nunca, esta tradi&ccedil;&atilde;o, desde os Padres da Igreja, apresentou provas de hist&oacute;ria positiva sobre a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Todas as provas s&atilde;o humanas: Jesus Cristo fez-se aparecer a pessoas que, por sua vez, se apresentaram como tais. &Eacute;, pois, uma prova &ldquo;testemunhal&rdquo;. E neste testemunho tamb&eacute;m entra a ret&oacute;rica narrativa apolog&eacute;tica. O caso mais significativo &eacute; a narrativa sobre o ap&oacute;stolo Tom&eacute;: &ldquo;P&otilde;e aqui o teu dedo e v&ecirc; as minhas m&atilde;os. Estende a tua m&atilde;o e mete-a no meu peito. N&atilde;o sejas descrente! Acredita!&rdquo; E Tom&eacute; respondeu: &ldquo;Meu Senhor e meu Deus!&rdquo; Jesus disse-lhe: &ldquo;Acreditas agora porque me viste? Felizes os que acreditarem sem terem visto&rdquo; (Jo 20, 27-29). <br \/>As d&uacute;vidas dos crist&atilde;os de Corinto ou dos crist&atilde;os das comunidades jo&acirc;nicas s&atilde;o as de ontem e de hoje. O problema &eacute; que a exegese b&iacute;blica moderna fala de narrativas &ldquo;apolog&eacute;ticas&rdquo; e n&atilde;o &ldquo;hist&oacute;ricas&rdquo;. Hist&oacute;ricas s&atilde;o as d&uacute;vidas. N&atilde;o nos escandalizemos, pois, se afirmarmos que n&atilde;o temos provas de hist&oacute;ria factual, mas apenas de hist&oacute;ria testemunhal. E tamb&eacute;m estas nem sempre s&atilde;o f&aacute;ceis de entender. Como compreender, de facto, a primeira narrativa paulina a ser escrita (por volta do ano 53-55): &ldquo;Apareceu a Pedro e, a seguir, ao grupo dos doze [n&atilde;o eram s&oacute; onze?]. Apareceu ainda a mais de quinhentos &ldquo;irm&atilde;os&rdquo; de uma s&oacute; vez. A maior parte deles ainda vive, mas alguns j&aacute; morreram [quem s&atilde;o este quinhentos irm&atilde;os, dos quais nunca mais se fala?]. Apareceu, depois, a Tiago e, em seguida, a todos os ap&oacute;stolos [quem s&atilde;o estes ap&oacute;stolos, diferentes, necessariamente, do grupo dos doze?]. Em &uacute;ltimo lugar, apareceu-me tamb&eacute;m a mim, que sou quase como um aborto&rdquo; (1Cor 15, 5-8). Por outro lado, S. Paulo refere a verdade da ressurrei&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da verdade da &ldquo;parusia&rdquo; e do &ldquo;ju&iacute;zo final&rdquo;, que devia acontecer durante a vida hist&oacute;rica de S. Paulo: &ldquo;Vou dar-vos a conhecer um mist&eacute;rio: nem todos morreremos, mas todos havemos de ser transformados. Isso acontecer&aacute; num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final. Quando ela se ouvir, os mortos ressuscitam para n&atilde;o mais morrerem, e n&oacute;s seremos transformados&rdquo; (1Cor 15, 51-52; cf. 1Ts 4, 15-17). <br \/>A manh&atilde; da P&aacute;scoa n&atilde;o &eacute; um acontecimento separado dos &ldquo;ressuscitados&rdquo; seguidores do Mestre que venceu a morte. Mas o Mestre &eacute; muito mais do que um S&oacute;crates, Plat&atilde;o ou Arist&oacute;teles, Mois&eacute;s, David ou Isa&iacute;as. De contr&aacute;rio, n&atilde;o precis&aacute;vamos de acreditar. Nem o Jesus &ldquo;jo&acirc;nico&rdquo; nos diria: &ldquo;Felizes os que acreditarem sem terem visto.&rdquo; Quem acredita, a come&ccedil;ar pelos ap&oacute;stolos, mulheres que v&atilde;o ao t&uacute;mulo, S. Paulo, carrega consigo o grande &ldquo;mist&eacute;rio&rdquo; do Infinito no finito hist&oacute;rico de cada um. A ressurrei&ccedil;&atilde;o venceu a morte. A vida &eacute; um aleluia de ressurrei&ccedil;&atilde;o em liturgia humano-crist&atilde;, pessoal e c&oacute;smica. Com a ressurrei&ccedil;&atilde;o, o homem todo (corpo e alma) e todo o homem percorre os caminhos da Vida que n&atilde;o tem fim. A ressurrei&ccedil;&atilde;o &eacute; um signo de sentido final. Resume-se, ent&atilde;o, &agrave; grande &ldquo;met&aacute;fora&rdquo; da Vida? S&oacute; &eacute; met&aacute;fora se for resposta a um acontecimento &ldquo;real&rdquo; de realidade transcendente, infinita, sem compreens&atilde;o puramente racional, hist&oacute;rica e humana.<br \/>Pe. Joaquim Carreira das Neves<br \/>Professor Jubilado da UCP <\/p>\n<p>Acab&aacute;mos de celebrar o centro da f&eacute; crist&atilde; baseada na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Segundo S&atilde;o Paulo, em resposta a uma fa&ccedil;&atilde;o de crist&atilde;os de Corinto que n&atilde;o acreditava na ressurrei&ccedil;&atilde;o, &ldquo;Se Cristo n&atilde;o ressuscitou, ent&atilde;o a nossa prega&ccedil;&atilde;o &eacute; in&uacute;til e e a vossa f&eacute; &eacute; in&uacute;til tamb&eacute;m&#8230; Ora, se os mortos n&atilde;o ressuscitam, tamb&eacute;m Cristo n&atilde;o ressuscitou. E se Cristo n&atilde;o ressuscitou, a vossa f&eacute; n&atilde;o tem fundamento e voc&ecirc;s s&atilde;o ainda escravos dos vossos pecados&#8230; Se a esperan&ccedil;a que temos em Cristo n&atilde;o vai para al&eacute;m desta vida, somos os mais miser&aacute;veis de todos&rdquo; (1Cor 15, 16-19).<\/p>\n<p>A nossa f&eacute; na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo complica-se quando, em teologia, perguntamos: E como &eacute; que se explica teologicamente a ressurrei&ccedil;&atilde;o? H&aacute; uma explica&ccedil;&atilde;o racional? N&atilde;o passa duma asser&ccedil;&atilde;o de f&eacute;? N&atilde;o ser&aacute; uma pura met&aacute;fora? Uma vez mais, S. Paulo pode dar-nos a resposta. Escreve: &ldquo;Algu&eacute;m pode perguntar: &ldquo;Como &eacute; que os mortos ressuscitam? Com que corpo v&atilde;o eles aparecer?&#8230; Assim acontecer&aacute; tamb&eacute;m com a ressurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos. Enterra-se um corpo mortal, e ressuscita imortal. Enterra-se um corpo sem beleza, e ressuscita cheio de esplendor; enterra-se um corpo fraco, e ressuscita forte. Enterra-se um simples corpo humano, e aparece depois um corpo cheio de vida nova, dada pelo Esp&iacute;rito&rdquo; (1Cor 15, 35. 42-44). S. Paulo acreditava, pois, na ressurrei&ccedil;&atilde;o como acontecimento hist&oacute;rico: trata-se de um corpo ressurreccionado, que &eacute; diferente de um corpo apenas imortal ou espiritual. Segundo a antropologia b&iacute;blica, ao contr&aacute;rio da grega, o corpo material &eacute; constituinte necess&aacute;rio da pessoa ou do eu individual. Se o Ressuscitado &eacute; a pessoa de Jesus de Nazar&eacute;, &eacute; sempre um corpo e n&atilde;o apenas uma alma ou um esp&iacute;rito. De maneira cl&aacute;ssica, costumamos falar de &ldquo;corpo glorioso&rdquo;.<\/p>\n<p>Sem ressurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o h&aacute; f&eacute; crist&atilde;. Sem a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo, o mesmo Jesus n&atilde;o seria mais do que um simples grande homem, grande doutrinador, grande profeta, grande homem de Deus.<\/p>\n<p>&Agrave; luz das narrativas b&iacute;blicas, a raz&atilde;o hist&oacute;rica aplicada &agrave; pessoa hist&oacute;rica de Jesus termina nas narrativas do t&uacute;mulo vazio. Mas, segundo o grande fil&oacute;sofo Emanuel Kant, a raz&atilde;o pura levada ao seu limite n&atilde;o explica toda a realidade. Depois da raz&atilde;o pura vem a raz&atilde;o pr&aacute;tica para explicar a verdadeira realidade que consiste tamb&eacute;m no sentimento, no amor, no cora&ccedil;&atilde;o, na consci&ecirc;ncia, na &eacute;tica e moral e, definitivamente, em Deus. Segundo o &ldquo;Princepezinho&rdquo;, o &ldquo;Invis&iacute;vel&rdquo; &eacute; a real dimens&atilde;o do ser humano.<\/p>\n<p>O assunto, nestes &uacute;ltimos dias, recebeu uma dimens&atilde;o nacional, em Espanha, por causa duma &ldquo;Notifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; da &ldquo;Comiss&atilde;o Episcopal da Igreja Cat&oacute;lica Espanhola para a Doutrina Crist&atilde;&rdquo; dirigida ao te&oacute;logo espanhol Andr&eacute;s Torres Queiruga. Trata-se de um te&oacute;logo conhecido e reconhecido tanto em Espanha como na Am&eacute;rica Latina, professor na Universidade de S&atilde;o Tiago de Compostela. Entre os muitos livros que escreveu sobressai a obra &ldquo;Repensar a Ressurrei&ccedil;&atilde;o&rdquo;. O autor defende a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo &ldquo;em esp&iacute;rito&rdquo;, sem a necessidade prim&aacute;ria do &ldquo;corpo&rdquo;. Se, por hip&oacute;tese, se encontrasse o t&uacute;mulo de Jesus com as suas ossadas, havia motivos para continuar a falar de ressurrei&ccedil;&atilde;o. O grande te&oacute;logo cat&oacute;lico Karl Rahner tamb&eacute;m defendeu esta tese. Neste sentido, a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo seria um acontecimento hist&oacute;rico simb&oacute;lico ou metaf&oacute;rico, digno de cr&eacute;dito, mas diferente, em qualidade de perce&ccedil;&atilde;o, da tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica da f&eacute; cat&oacute;lica. Mas nunca por nunca, esta tradi&ccedil;&atilde;o, desde os Padres da Igreja, apresentou provas de hist&oacute;ria positiva sobre a ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Todas as provas s&atilde;o humanas: Jesus Cristo fez-se aparecer a pessoas que, por sua vez, se apresentaram como tais. &Eacute;, pois, uma prova &ldquo;testemunhal&rdquo;. E neste testemunho tamb&eacute;m entra a ret&oacute;rica narrativa apolog&eacute;tica. O caso mais significativo &eacute; a narrativa sobre o ap&oacute;stolo Tom&eacute;: &ldquo;P&otilde;e aqui o teu dedo e v&ecirc; as minhas m&atilde;os. Estende a tua m&atilde;o e mete-a no meu peito. N&atilde;o sejas descrente! Acredita!&rdquo; E Tom&eacute; respondeu: &ldquo;Meu Senhor e meu Deus!&rdquo; Jesus disse-lhe: &ldquo;Acreditas agora porque me viste? Felizes os que acreditarem sem terem visto&rdquo; (Jo 20, 27-29).<\/p>\n<p>As d&uacute;vidas dos crist&atilde;os de Corinto ou dos crist&atilde;os das comunidades jo&acirc;nicas s&atilde;o as de ontem e de hoje. O problema &eacute; que a exegese b&iacute;blica moderna fala de narrativas &ldquo;apolog&eacute;ticas&rdquo; e n&atilde;o &ldquo;hist&oacute;ricas&rdquo;. Hist&oacute;ricas s&atilde;o as d&uacute;vidas. N&atilde;o nos escandalizemos, pois, se afirmarmos que n&atilde;o temos provas de hist&oacute;ria factual, mas apenas de hist&oacute;ria testemunhal. E tamb&eacute;m estas nem sempre s&atilde;o f&aacute;ceis de entender. Como compreender, de facto, a primeira narrativa paulina a ser escrita (por volta do ano 53-55): &ldquo;Apareceu a Pedro e, a seguir, ao grupo dos doze [n&atilde;o eram s&oacute; onze?]. Apareceu ainda a mais de quinhentos &ldquo;irm&atilde;os&rdquo; de uma s&oacute; vez. A maior parte deles ainda vive, mas alguns j&aacute; morreram [quem s&atilde;o este quinhentos irm&atilde;os, dos quais nunca mais se fala?]. Apareceu, depois, a Tiago e, em seguida, a todos os ap&oacute;stolos [quem s&atilde;o estes ap&oacute;stolos, diferentes, necessariamente, do grupo dos doze?]. Em &uacute;ltimo lugar, apareceu-me tamb&eacute;m a mim, que sou quase como um aborto&rdquo; (1Cor 15, 5-8). Por outro lado, S. Paulo refere a verdade da ressurrei&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da verdade da &ldquo;parusia&rdquo; e do &ldquo;ju&iacute;zo final&rdquo;, que devia acontecer durante a vida hist&oacute;rica de S. Paulo: &ldquo;Vou dar-vos a conhecer um mist&eacute;rio: nem todos morreremos, mas todos havemos de ser transformados. Isso acontecer&aacute; num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final. Quando ela se ouvir, os mortos ressuscitam para n&atilde;o mais morrerem, e n&oacute;s seremos transformados&rdquo; (1Cor 15, 51-52; cf. 1Ts 4, 15-17).<\/p>\n<p>A manh&atilde; da P&aacute;scoa n&atilde;o &eacute; um acontecimento separado dos &ldquo;ressuscitados&rdquo; seguidores do Mestre que venceu a morte. Mas o Mestre &eacute; muito mais do que um S&oacute;crates, Plat&atilde;o ou Arist&oacute;teles, Mois&eacute;s, David ou Isa&iacute;as. De contr&aacute;rio, n&atilde;o precis&aacute;vamos de acreditar. Nem o Jesus &ldquo;jo&acirc;nico&rdquo; nos diria: &ldquo;Felizes os que acreditarem sem terem visto.&rdquo; Quem acredita, a come&ccedil;ar pelos ap&oacute;stolos, mulheres que v&atilde;o ao t&uacute;mulo, S. Paulo, carrega consigo o grande &ldquo;mist&eacute;rio&rdquo; do Infinito no finito hist&oacute;rico de cada um. A ressurrei&ccedil;&atilde;o venceu a morte. A vida &eacute; um aleluia de ressurrei&ccedil;&atilde;o em liturgia humano-crist&atilde;, pessoal e c&oacute;smica. Com a ressurrei&ccedil;&atilde;o, o homem todo (corpo e alma) e todo o homem percorre os caminhos da Vida que n&atilde;o tem fim. A ressurrei&ccedil;&atilde;o &eacute; um signo de sentido final. Resume-se, ent&atilde;o, &agrave; grande &ldquo;met&aacute;fora&rdquo; da Vida? S&oacute; &eacute; met&aacute;fora se for resposta a um acontecimento &ldquo;real&rdquo; de realidade transcendente, infinita, sem compreens&atilde;o puramente racional, hist&oacute;rica e humana.<\/p>\n<p>Pe. Joaquim Carreira das Neves<\/p>\n<p>Professor Jubilado da UCP<\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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