{"id":56044,"date":"2012-04-06T22:34:46","date_gmt":"2012-04-06T22:34:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/06\/homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-3\/"},"modified":"2012-04-06T22:34:46","modified_gmt":"2012-04-06T22:34:46","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-3\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Porto na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>A verdade \u00e9 Cristo e a vida em Cristo! <!--more--> <\/p>\n<p>Disse-lhe Pilatos: &lsquo;Ent&atilde;o, tu &eacute;s rei?&rsquo; Jesus respondeu-lhe: &lsquo;&Eacute; como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz.&rsquo; Disse-lhe Pilatos: &lsquo;Que &eacute; a verdade?&rsquo;&rdquo;&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Amados irm&atilde;os, que nos traz aqui? Perdoai-me a franqueza e quase a rudeza duma pergunta assim, que antes de mais fa&ccedil;o a mim pr&oacute;prio.<\/p>\n<p>Sexta-Feira Santa de2012: tantos s&eacute;culos volvidos sobre o acontecimento evocado, dist&acirc;ncia t&atilde;o grande de lugar e cultura&hellip; E aqui mesmo estamos, nesta suspens&atilde;o das coisas, nesta escuta atenta de di&aacute;logos havidos e nunca por demais escutados. Para nos entendermos afinal a n&oacute;s mesmos, no que devemos ser.<\/p>\n<p>Sexta-Feira Santa de2012: quanta perplexidade, quanta interroga&ccedil;&atilde;o do tempo que corre, nosso e dos outros &ndash; que tamb&eacute;m &eacute; nosso. &ndash; Como garantiremos a verdade de todos, seres humanos com direitos e deveres, dignidades reconhecidas e dignifica&ccedil;&otilde;es a promover, realmente promover?<\/p>\n<p>Nesta mesma hora em que aqui revivemos a Paix&atilde;o de Jesus, continua ela em todo o sofrimento do mundo. Nos que est&atilde;o s&oacute;s, nos que est&atilde;o doentes, nos que n&atilde;o t&ecirc;m trabalho que os realize e sustente, nos que emigram sem condi&ccedil;&otilde;es nem garantias&hellip; Nas fam&iacute;lias desfeitas e nas que nem conseguem constituir-se, por falta de forma&ccedil;&atilde;o ou apoios de v&aacute;ria ordem&hellip; Rol infind&aacute;vel de situa&ccedil;&otilde;es e casos, todos pesando no madeiro da cruz que o Filho de Deus carregou um dia, cruz do mundo inteiro e do tempo todo.<\/p>\n<p>Mas ainda antes de a ter aos ombros, tinha-a em si mesmo, Verbo incarnado que era. Carne e sangue do mundo na humanidade de Deus, assim mesmo apresentada e assim mesmo salva. Tamb&eacute;m assim apresentada aos olhos esquivos de Pilatos, como agora aos nossos, que bem atentos h&atilde;o de estar.<\/p>\n<p>E num di&aacute;logo decisivo, de que n&atilde;o poderemos desistir com a displic&ecirc;ncia do governador romano. Jesus n&atilde;o fugiu &agrave; pergunta sobre a sua realeza. Foi Pilatos que fugiu &agrave; resposta de Jesus, com fraca evasiva. Retomemos a passagem, tal qual a ouvimos: &ldquo;Disse-lhe Pilatos: &lsquo;Ent&atilde;o, tu &eacute;s rei?&rsquo; Jesus respondeu-lhe: &lsquo;&Eacute; como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz.&rsquo;Disse-lhe Pilatos: &lsquo;Que &eacute; a verdade?&rsquo;&rdquo;.<\/p>\n<p>Ao ocasional representante dos reinos deste mundo, Jesus abriu o horizonte dum reino mais alto, onde a pr&oacute;pria realidade inteiramente o fosse. Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s, deixai-me adiantar que disto precisamente se trata e de nada menos que isto: de reconhecer a verdadeira dimens&atilde;o humana, como a partir de Deus se configura; e de Deus humanado, como Jesus diante de Pilatos e de todos n&oacute;s agora.<\/p>\n<p>Reparemos ent&atilde;o no problema que temos. Consiste ele na redu&ccedil;&atilde;o constante que fazemos da realidade, pr&oacute;pria e alheia. Reduzimo-la ao imediatamente desej&aacute;vel ou compensat&oacute;rio, aos outros que diretamente nos caibam ou sirvam, &agrave;quilo que individualmente projetamos e apetecemos&hellip; E tanto assim &eacute;, falando em geral, que ao mais acidental percal&ccedil;o, ou grave obst&aacute;culo, tudo se pode p&ocirc;r em causa &ndash; mesmo a um &ldquo;Deus&rdquo; que a partir de n&oacute;s e s&oacute; de n&oacute;s forj&aacute;vamos.<\/p>\n<p>E tamb&eacute;m no que restring&iacute;ramos dos outros, do mundo e da pr&oacute;pria vida: os outros desconsiderados na sua alteridade, o mundo consumisticamente tomado e a vida nem respeitada nem agradecida, mesmo nas vicissitudes que comporte. Tudo isto ou quase nada, deixa-nos dramaticamente de fora da realidade e alienados dela, do seu fundamento, consist&ecirc;ncia e sentido.<\/p>\n<p>Por outro lado, verdadeiro agora, nada esteve ausente da vida de Cristo: fam&iacute;lia e ex&iacute;lio, festas e trabalhos, intelig&ecirc;ncia aguda e sensibilidade magn&iacute;fica, conviv&ecirc;ncia calorosa e grandes sil&ecirc;ncios, cora&ccedil;&atilde;o em Deus e olhos bem na terra. Da parte de outros, tamb&eacute;m nada faltou: das aclama&ccedil;&otilde;es aos abandonos, das promessas &agrave;s trai&ccedil;&otilde;es, das multid&otilde;es vari&aacute;veis ao pequen&iacute;ssimo grupo que lhe restou ao p&eacute; da cruz.<\/p>\n<p>Creio, irm&atilde;os car&iacute;ssimos, que o maior argumento &ndash; se de algum precis&aacute;ssemos &ndash; que nos responderia &agrave; pergunta inicial, sobre o porqu&ecirc; de estarmos hoje aqui, consiste nisto mesmo de n&atilde;o podermos concentrar-nos, mental e devocionalmente, sen&atilde;o em torno de Cristo, que em si mesmo concentra todo o C&eacute;u, como se d&aacute;, e toda aterra, como anseia.<\/p>\n<p>Por isso nos iluminam e atraem tanto as palavras ouvidas e nunca por demais evocadas. Sim, a verdade de Cristo &eacute; a realidade do mundo, a nossa realidade que s&oacute; nele encontra significado cabal e reden&ccedil;&atilde;o inteira, satisfeita esta pelo grande pre&ccedil;o com que Ele a viveu, sofreu e retribuiu ao Pai, unindo a foz &agrave; fonte. Como dito fora: &ldquo;Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unig&eacute;nito, a fim de que todo o que cr&ecirc; nele n&atilde;o se perca, mas tenha a vida eterna&rdquo; (Jo 3, 16).<\/p>\n<p>Por isso e s&oacute; por isso, somos definitivamente de Cristo, como Cristo &eacute; de Deus Pai, na unidade do Esp&iacute;rito. &ndash;Quanto realismo encontram, especialmente agora, alguns vers&iacute;culos evang&eacute;licos, como os que se seguem: &ldquo;Eu vim para que tenham vida e a tenham em abund&acirc;ncia. Eu sou o bom pastor. O bom pastor d&aacute; a vida pelas ovelhas. [&hellip;] Eu sou o bom pastor; conhe&ccedil;o as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como Pai me conhece e eu conhe&ccedil;o o Pai; e ofere&ccedil;o a minha vida pelas ovelhas&rdquo;(Jo 10, 10 ss)! Espantam-nos e ganham-nos tais palavras, que, recolhidas nas primeiras gera&ccedil;&otilde;es crist&atilde;s, nos salvam agora, com a luz que trazem. A luz que esplende da cruz, intensamente ela.<\/p>\n<p>E h&aacute; verdadeiro milagre em palavras destas, ou nos sentimentos que elas nos induzem. Por certo nos espanta o realismo e a sedu&ccedil;&atilde;o com que nos tocam sempre, ainda que ouvidas j&aacute; vezes sem conta, mas sempre primeiras. Falar assim &eacute; falar verdade, inquestionavelmente verdade, com toda a comprova&ccedil;&atilde;o que a intelig&ecirc;ncia lhe encontra na alma. Como aos crist&atilde;os perseguidos pelo Imp&eacute;rio, que representaram Cristo como o &ldquo;bom pastor&rdquo; nos muros das catacumbas; como aos ministros do Evangelho que, entre tantos nomes, se revelaram precisamente como &ldquo;pastores&rdquo; e sacramentos de Cristo Pastor; como a quantos encontram al&iacute;vio e paz, repetindo incansavelmente os sagrados vers&iacute;culos que em Cristo alcan&ccedil;aram a manifesta&ccedil;&atilde;o mais plena: &ldquo;O Senhor &eacute; meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me faz descansar e conduz-me &agrave;s &aacute;guas refrescantes, reconforta a minha alma e guia-me por caminhos retos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo&hellip;&rdquo; (Sl 23, 1 ss). &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>E &eacute; por isso tamb&eacute;m que &agrave; descuidada pergunta de Pilatos: &#8211; O que &eacute; a verdade?, respondemos n&oacute;s, com a presen&ccedil;a aqui e a convic&ccedil;&atilde;o mais forte: &#8211; A verdade &eacute; Cristo e a vida em Cristo!<\/p>\n<p>Mas tamb&eacute;m sabemos o que tal implica. Se em Cristo encontramos o pastor e na cruz o seu bord&atilde;o, teremos de ser conformes com tal verdade recebida e alcan&ccedil;ada. Conformidade implica convers&atilde;o ao que nos foi dado; conformidade requer testemunho ativo junto de quem O n&atilde;o conhe&ccedil;a e assim mesmo O espere. Entre ovelhas sem pastor e o pastor que recebemos, urgem as media&ccedil;&otilde;es que n&oacute;s temos de ser. Tamb&eacute;m aconteceu connosco, que j&aacute; divisamos a gl&oacute;ria da cruz e n&atilde;o fora desta, porque algu&eacute;m nos ensinou que era mesmo assim. Assim acontecer&aacute; com outros, se os aproximarmos do mesmo pastor.<\/p>\n<p>De Pilatos, que desistiu de obter resposta, n&atilde;o sabemos muito mais e o que se diz n&atilde;o o abona. Mas dos poucos, pouqu&iacute;ssimos, que com tanto risco seguiram Jesus at&eacute; ao G&oacute;lgota; dos poucos que depois testemunharam a sua morte feita vida e a&iacute; mesmo renasceram; de tantos que em dois mil&eacute;nios alargaram o Evangelho pelo mundo: destes colhemos n&oacute;s a flor e o fruto da verdade demonstrada e da realidade perfeita.<\/p>\n<p>Por isso a cruz de Cristo fulgurou tanto, por entre as trevas que cobriram toda a terra. Por isso e s&oacute; por isso, estamos e estaremos sempre aqui. Porque a sua voz &eacute; mais forte do que as nossas d&uacute;vidas. Porque a sua resposta &eacute; integral, numa vida oferecida e assim mesmo salva e salvadora. Restando-nos clamar, como clamou quem o soube, em adequa&ccedil;&atilde;o perfeita ao que Cristo lhe dera: &ldquo;De nada me quero gloriar, a n&atilde;o ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo est&aacute; crucificado para mim e eu para o mundo!&rdquo; (Gl 6, 14).&nbsp;<\/p>\n<p>+ Manuel Clemente&nbsp;<\/p>\n<p>S&eacute; do Porto, 6 de abrilde 2012&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade \u00e9 Cristo e a vida em Cristo!<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[187,294],"class_list":["post-56044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-porto","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56044"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56044\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}