{"id":56037,"date":"2012-04-06T20:05:52","date_gmt":"2012-04-06T20:05:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/06\/homilia-do-bispo-de-lamego-da-missa-crismal\/"},"modified":"2012-04-06T20:05:52","modified_gmt":"2012-04-06T20:05:52","slug":"homilia-do-bispo-de-lamego-da-missa-crismal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-lamego-da-missa-crismal\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Lamego da MIssa Crismal"},"content":{"rendered":"<p>1. &laquo;O Esp&iacute;rito do Senhor sobre mim&raquo; (Isa&iacute;as 63,1). Com estas palavras intensas, precisas e preciosas, o profeta Isa&iacute;as confessa a sua identidade recebida, em acusativo, face a Deus. Ou n&atilde;o fosse o profeta b&iacute;blico um sub-jectum, um submetido, algu&eacute;m que &eacute; quem &eacute;, s&oacute; e quando e porque colocado sob, portanto, em acusativo, um sujeito, sub-jectum, n&atilde;o em nominativo, mas em acusativo em rela&ccedil;&atilde;o a Deus, &agrave;s ordens de Deus, ao servi&ccedil;o de Deus, que a Deus responde sempre e s&oacute;: &laquo;Eis-me aqui&raquo;, n&atilde;o na minha, mas na tua &laquo;planta&ccedil;&atilde;o, Senhor&raquo; (Isa&iacute;as 63,3).<\/p>\n<p>2. &laquo;O Esp&iacute;rito do Senhor sobre mim&raquo; (Lucas 4,18). Jesus, para se dizer na sua apresenta&ccedil;&atilde;o na sinagoga de Nazar&eacute;, pede emprestadas estas palavras a Isa&iacute;as, para depois no-las restituir plenificadas, perfumadas com o &laquo;bom perfume&raquo; (2 Cor&iacute;ntios 2,14-15) do an&uacute;ncio do Evangelho aos pobres, a alegria, a luz, a liberdade, o ano da gra&ccedil;a, a enchente Palavra de Deus a n&oacute;s mansamente dita e por n&oacute;s sempre com emo&ccedil;&atilde;o e alegria respondida. &Eacute; o tempo novo, o kair&oacute;s, estabelecido para sempre no meio de n&oacute;s. O kair&oacute;s &eacute; o tempo da gra&ccedil;a anunciada e respondida, dada e recebida, porque &eacute; o tempo da enchente da Palavra interpelante de Deus e da nossa resposta boa a Deus.<\/p>\n<p>3. Jesus levantou-se para fazer a leitura lit&uacute;rgica (anagin&ocirc;sk&ocirc;), e sentou- se para fazer a homilia. E &laquo;Os olhos de todos&raquo;, informa-nos o narrador, &laquo;estavam fixos (aten&iacute;z&ocirc;) nele!&raquo;, num misto de espanto, de encanto e de esperan&ccedil;a. &Eacute; breve e intensa a homilia de Jesus, que disse somente: &laquo;Hoje foi plenificada (pepl&ecirc;r&ocirc;tai: perf. pass. de pl&ecirc;r&oacute;&ocirc;) (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos&raquo; (Lucas 4,21). Quer isto dizer que a Escritura saltou do plano da folha de papiro e ganhou corpo, um corpo. Enchente da Palavra de Deus que se faz rosto, que deve, portanto, ser olhado, acolhido, contemplado, em clave de escuta qualificada. Aquele Hoje (s&ecirc;meron) tornou-se cl&aacute;ssico nas homilias dos Padres gregos, para fazer chegar a Palavra de Deus ao nosso ch&atilde;o. &Eacute; grandemente sintom&aacute;tico que, nesta sua primeira apresenta&ccedil;&atilde;o, Jesus n&atilde;o diga nada de novo! Na sua boca est&atilde;o s&oacute; palavras antigas!<\/p>\n<p>Excelente maneira de Jesus se apresentar como &laquo;Filho da Escritura&raquo;, Leitor e conhecedor da Escritura: l&ecirc; os Profetas, concretamente Isa&iacute;as, e pede-lhe emprestadas as Palavras, e, na sua homilia reclamando o nosso ouvido como uma p&aacute;tria para a Palavra Hoje, aponta para a Lei, concretamente para o Deuteron&oacute;mio, que &eacute; o Livro do &laquo;Escuta, Israel!&raquo;, e em que o Hoje se faz ouvir por 70 vezes!<\/p>\n<p>4. &laquo;O Esp&iacute;rito do Senhor sobre mim&raquo;. &Eacute; assim que n&oacute;s, Hoje, aqui reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele pr&oacute;prio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo e rosto, fazendo-as sair da superf&iacute;cie plana da folha de papiro. &laquo;O Esp&iacute;rito do Senhor sobre mim&raquo; constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbit&eacute;rio de uma Diocese poder afirmar em un&iacute;ssono a sua identidade diaconal, e n&atilde;o patronal.<\/p>\n<p>&Eacute; mesmo a &uacute;nica maneira de n&oacute;s podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isa&iacute;as e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa voca&ccedil;&atilde;o e miss&atilde;o: ungidos e enviados para anunciar o evangelho aos pobres.<\/p>\n<p>5. Guardemos connosco, Hoje, sobretudo, este &laquo;Ungidos&raquo;. Somos, ent&atilde;o, um presbit&eacute;rio de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos di&aacute;conos. Ungido diz-se em hebraico Mash&icirc;ah, e em grego Christ&oacute;s, termos que, em portugu&ecirc;s, soam Messias e Cristo. O Ungido por excel&ecirc;ncia &eacute;, ent&atilde;o, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d&rsquo;Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Esp&iacute;rito Santo, passou pelo meio de n&oacute;s fazendo o bem e curando e libertando e amando at&eacute; ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bem&oacute;is, porque Deus estava com Ele (Actos 10,37- 38). Se o Ungido &eacute; Cristo, ent&atilde;o n&oacute;s somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, ent&atilde;o a refer&ecirc;ncia da nossa maneira de viver ter&aacute; de ser tamb&eacute;m sempre Cristo. Temos, ent&atilde;o, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; G&aacute;latas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, pr&oacute;ximo e dedicado. S&oacute; assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabe&ccedil;a do seu Corpo, que &eacute; a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que &eacute; a Igreja. &Eacute; assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal.<\/p>\n<p>6. Mas tamb&eacute;m v&oacute;s, car&iacute;ssimos Fi&eacute;is Leigos, baptizados e crismados, sois, na verdade inteira, outros Cristos, porque fostes Ungidos, tamb&eacute;m v&oacute;s, com o &oacute;leo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo. Cristo significa Ungido. Crisma significa Un&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m v&oacute;s, car&iacute;ssimos fi&eacute;is leigos, fostes Ungidos na fronte, no Baptismo e na Confirma&ccedil;&atilde;o, com o &oacute;leo do Crisma. Al&eacute;m de Ungidos na fronte, no Baptismo e na Confirma&ccedil;&atilde;o, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas m&atilde;os com o mesmo &oacute;leo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabe&ccedil;a. Tamb&eacute;m as igrejas e os altares s&atilde;o ungidos com o &oacute;leo do Crisma no dia da sua dedica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>7. Mas n&atilde;o podemos ficar s&oacute; pelo exterior &ndash; a fronte, as m&atilde;os, a cabe&ccedil;a &ndash;, e pelo pouco &oacute;leo, t&atilde;o pouco que mal se v&ecirc; e mal se sente, com que costumamos fazer esta un&ccedil;&atilde;o. Quando lemos, na B&iacute;blia, relatos de Un&ccedil;&atilde;o com &oacute;leo, por exemplo, quando Samuel unge Saul (1 Samuel 10,1) ou David (1 Samuel 16,13), constatamos logo que Samuel derrama na cabe&ccedil;a de Saul e de David um vaso cheio de &oacute;leo, de modo a encharcar os cabelos, os vestidos e a regar ainda o pr&oacute;prio ch&atilde;o. Somos ent&atilde;o levados a perguntar: porqu&ecirc; tanto &oacute;leo, se acaba por escorrer e se perder no ch&atilde;o? E a resposta &eacute;: derramando tanto &oacute;leo na cabe&ccedil;a, v&ecirc;-se que ficam empapados os cabelos, os vestidos, e acaba por escorrer para o ch&atilde;o. Mas o povo b&iacute;blico v&ecirc; ou compreende ainda mais, muito mais, e &eacute; para este mais que &eacute; preciso chamar a aten&ccedil;&atilde;o. O povo b&iacute;blico compreende ainda que parte desse &oacute;leo em grande quantidade derramado na cabe&ccedil;a, entra para dentro da cabe&ccedil;a, e vai banhar o interior do homem, vai banhar o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>8. A&iacute; est&aacute; ent&atilde;o a verdade da Un&ccedil;&atilde;o com o &oacute;leo do Crisma que fazemos na fronte, nas m&atilde;os ou na cabe&ccedil;a. Na verdade, &eacute; no cora&ccedil;&atilde;o que somos Ungidos. E se a Un&ccedil;&atilde;o feita na fronte, nas m&atilde;os ou na cabe&ccedil;a pode sempre ser lavada com um pouco de &aacute;gua e sab&atilde;o, a Un&ccedil;&atilde;o feita no cora&ccedil;&atilde;o &eacute; indel&eacute;vel, imprime car&aacute;cter, n&atilde;o pode mais ser cancelada. &Eacute; assim, amados irm&atilde;os Ungidos no cora&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o podemos mais deixar de ser quem somos, outros Cristos: eu, bispo; v&oacute;s, sacerdotes; v&oacute;s, di&aacute;conos; v&oacute;s, fi&eacute;is leigos.<\/p>\n<p>9. &Eacute; este &oacute;leo do Crisma, com que todos somos ungidos no cora&ccedil;&atilde;o, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confeccionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e coopera&ccedil;&atilde;o dos&nbsp;sacerdotes. V&atilde;o&nbsp;igualmente ser benzidos o &oacute;leo dos enfermos, destinado a servir de rem&eacute;dio e de al&iacute;vio aos doentes, e o &oacute;leo dos catec&uacute;menos, destinado a preparar e dispor os catec&uacute;menos para o Baptismo.<\/p>\n<p>10. O &oacute;leo do Crisma que vamos consagrar, e os &oacute;leos dos enfermos e dos catec&uacute;menos que vamos benzer, constituem, no meio de n&oacute;s, um aut&ecirc;ntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no cora&ccedil;&atilde;o, para levar o an&uacute;ncio do Evangelho a todos os nossos irm&atilde;os. Se somos outros Cristos, Ele est&aacute; connosco, em n&oacute;s, no meio de n&oacute;s. A messe e a planta&ccedil;&atilde;o s&atilde;o d&rsquo;Ele.<\/p>\n<p>A Ele a honra, a gl&oacute;ria e o louvor para sempre. Amen.<\/p>\n<p>+ Ant&oacute;nio Couto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. &laquo;O Esp&iacute;rito do Senhor sobre mim&raquo; (Isa&iacute;as 63,1). Com estas palavras intensas, precisas e preciosas, o profeta Isa&iacute;as confessa a sua identidade recebida, em acusativo, face a Deus. Ou n&atilde;o fosse o profeta b&iacute;blico um sub-jectum, um submetido, algu&eacute;m que &eacute; quem &eacute;, s&oacute; e quando e porque colocado sob, portanto, em acusativo, um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[176],"class_list":["post-56037","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lamego"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56037"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56037\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}