{"id":56028,"date":"2012-04-06T03:12:23","date_gmt":"2012-04-06T03:12:23","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/06\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-missa-da-ceia-do-senhor-3\/"},"modified":"2012-04-06T03:12:23","modified_gmt":"2012-04-06T03:12:23","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-na-missa-da-ceia-do-senhor-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-missa-da-ceia-do-senhor-3\/","title":{"rendered":"Homilia do arcebispo de Braga na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table style=\"width: 100%;\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p><strong>O 11.&ordm; Mandamento<\/strong><\/p>\n<p>Quem passeia no jardim das   Tulherias, em Paris, depara-se com uma est&aacute;tua c&eacute;lebre de Fran&ccedil;ois-L&eacute;on   Sicard, que retrata a figura do bom-samaritano. H&aacute; muitas imagens do Bom   Samaritano, esta tem um pormenor que nos prende: os p&eacute;s do homem ferido.   Suspensos no ar, repleto de feridas e calejados de caminhar no ch&atilde;o   existencial.<\/p>\n<p>Partindo desta imagem, direi   que estes p&eacute;s feridos s&atilde;o express&atilde;o da verdade da liturgia que hoje   celebramos. A caminhada do homem moderno &eacute; feita por p&eacute;s feridos, magoados e   da&iacute; que seja dura e dif&iacute;cil.<\/p>\n<p>A eucaristia nasce da categoria   da mem&oacute;ria, pois recorda liturgicamente os gestos e palavras de Jesus na   &Uacute;ltima Ceia (2.&ordf; leitura). Mas ela vai al&eacute;m da liturgia e completa-se no   gesto do lava-p&eacute;s (Evangelho). Portanto, a eucaristia &eacute; esta unidade entre a<strong>celebra&ccedil;&atilde;o   lit&uacute;rgica<\/strong>&nbsp;e o   quotidiano&nbsp;<strong>servi&ccedil;o aos   irm&atilde;os<\/strong>&nbsp;(caridade).[1] Ali&aacute;s, j&aacute; a Beata Madre Teresa de Calcut&aacute; nos avisava: &ldquo;N&atilde;o podemos   separar a nossa vida da Eucaristia. No momento em que o fiz&eacute;ssemos,   quebrar-se-ia algo&rdquo;.<\/p>\n<p>Este gesto do lava-p&eacute;s, como   sabemos, n&atilde;o &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o de Jesus, mas um aperfei&ccedil;oamento de um rito   antigo. Antes e durante as refei&ccedil;&otilde;es rituais, era costume os israelitas   piedosos fazerem lavagens com &aacute;gua, cujas m&atilde;os do chefe da mesa eram lavadas   por um servo ou pelo mais novo dos convidados.<\/p>\n<p>Mas nesta Ceia algo in&eacute;dito   acontece! Jesus, o chefe da mesa, levanta-se, dep&otilde;e as vestes, pega numa   toalha e cinge-a &agrave; volta da cintura. Depois deita &aacute;gua na bacia e come&ccedil;a a   lavar os p&eacute;s dos disc&iacute;pulos, e a enxug&aacute;-los com a toalha de que Se tinha   cingido. Tratou-se de algo t&atilde;o surpreendente que todos ficaram at&oacute;nitos.<\/p>\n<p>Neste cen&aacute;rio, concretiza-se o   Serm&atilde;o da Montanha outrora proferido, de harmonia com o &ldquo;como eu fiz, fazei   v&oacute;s tamb&eacute;m!&rdquo; Passa-se assim da teoria &agrave; pr&aacute;tica, do discurso &agrave; a&ccedil;&atilde;o, da   utopia &agrave; realidade, do sacramento ao exemplo,[2]&nbsp;da nega&ccedil;&atilde;o &ndash; um n&atilde;o que caracterizava &#8211; &nbsp;os mandamentos &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o,   uma sim paradigm&aacute;tico das bem-aventuran&ccedil;as, gerando-se um novo tipo de apostolado:   os &ldquo;ap&oacute;stolos do sim&rdquo;. Esta &eacute; a tarefa que a Quinta-feira Santa nos outorga:   ser ap&oacute;stolo do Sim.<\/p>\n<p>Ser&nbsp;<em>ap&oacute;stolo do sim,<\/em>&nbsp;n&atilde;o &eacute; aquele   que apenas cumpre o mandamento do &ldquo;<strong>n&atilde;o<\/strong>&nbsp;invocar o   Santo Nome de Deus em v&atilde;o&rdquo;, mas um ap&oacute;stolo que diz: sim &agrave; ora&ccedil;&atilde;o frequente,   sim ao sil&ecirc;ncio contemplativo, sim &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o quotidiana pela Palavra, sim   &agrave; rejei&ccedil;&atilde;o da bruxaria e feiti&ccedil;aria (promovidos pelos mass media), e sim ao   an&uacute;ncio sem vergonha do Deus-Amor, sim &agrave; vida a produzir frutos evang&eacute;licos.<\/p>\n<p>Ser&nbsp;<em>ap&oacute;stolo do sim,<\/em>&nbsp;n&atilde;o &eacute; aquele   que apenas cumpre o mandamento do &ldquo;<strong>n&atilde;o<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>matar&rdquo;, mas um ap&oacute;stolo que diz: sim &agrave; vida, sim &agrave; defesa dos valores   humanos, sim &agrave; defesa das crian&ccedil;as que ainda est&atilde;o no ventre de suas m&atilde;es,   sim &agrave; den&uacute;ncia da viol&ecirc;ncia entre casais, sim ao cumprimento das leis do   c&oacute;digo da estrada, sim ao amor desinteressado, e sim &agrave; fam&iacute;lia tradicional   como c&eacute;lula da sociedade, sim ao compromisso solid&aacute;rio como entrega a causas   que expressem o bem comum.<\/p>\n<p>Ser&nbsp;<em>ap&oacute;stolo do sim,<\/em>&nbsp;n&atilde;o &eacute; aquele   que apenas cumpre o mandamento do &ldquo;<strong>n&atilde;o<\/strong>&nbsp;roubar&rdquo;, mas   um ap&oacute;stolo que diz: sim &agrave; justi&ccedil;a, sim &agrave; transpar&ecirc;ncia nos neg&oacute;cios, sim ao   pagamento de impostos, sim ao estudo sem fraude e sim &agrave; honestidade, sim ao   trabalho interpretado como desenvolvimento pessoal para bem da sociedade, sim   a uma economia social onde o lucro passa para a responsabilidade da partilha.<\/p>\n<p>Ser&nbsp;<em>ap&oacute;stolo do sim,<\/em>&nbsp;n&atilde;o &eacute; aquele   que apenas cumpre o mandamento do &ldquo;<strong>n&atilde;o<\/strong>&nbsp;levantar   falsos testemunhos&rdquo;, mas um ap&oacute;stolo que diz: sim &agrave; verdade, sim &agrave; lealdade,   sim &agrave; amizade, sim &agrave; defesa dos inocentes e sim aos compromissos assumidos.<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, ser&nbsp;<em>ap&oacute;stolo do sim,<\/em>&nbsp;n&atilde;o &eacute; aquele   que apenas cumpre o mandamento do &ldquo;<strong>n&atilde;o<\/strong>&nbsp;cobi&ccedil;ar as   coisas alheias&rdquo;, mas um ap&oacute;stolo que diz: sim &agrave; solidariedade, sim &agrave;   sobriedade, sim &agrave; compaix&atilde;o e, como referia na Mensagem para a Quaresma, um   sim &agrave; partilha, que &eacute; a principal fonte de ajuda, que n&oacute;s crist&atilde;os, poderemos   oferecer, na austeridade pessoal, &agrave;queles que vivem aut&ecirc;nticos dramas na sua   vida.<\/p>\n<p>Com este novo tipo de   ap&oacute;stolos, promulga-se assim legalmente o 11.&ordm; mandamento da lei de Deus, ou   se quisermos, o verdadeiro mandamento novo que, no tempo de Jesus, se   diferenciava do legalismo e, hoje deve mostrar a verdadeira identidade do   cristianismo e do crist&atilde;o. &ldquo;Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei!&rdquo;. Na   enc&iacute;clia<em>Deus caritas est<\/em>, Bento XVI refere: &ldquo;O reconhecimento do Deus   vivo &eacute; um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade &agrave; d&rsquo;Ele une o   intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor.&rdquo;[3]&nbsp;E porqu&ecirc;?<\/p>\n<p>&ldquo;Porque a f&eacute;, sem amor, faz-te   fan&aacute;tico. A intelig&ecirc;ncia, sem amor, faz-te cruel. A cultura, sem amor, faz-te   distante. A justi&ccedil;a, sem amor, faz-te agressivo. A responsabilidade, sem   amor, faz-te implac&aacute;vel. A amizade, sem amor, faz-te interesseiro. O   apostolado, sem amor, faz-te estranho.&rdquo;[4]&nbsp;A pol&iacute;tica, sem amor, torna-te partid&aacute;rio de interesses. A economia, sem   amor, acumula desregradamente. E a profiss&atilde;o, sem amor, torna-te funcion&aacute;rio   que s&oacute; quer recolher.<\/p>\n<p>Para terminar, o poeta Fernando   Pessoa escreve: &ldquo;a realidade &eacute; o gesto invis&iacute;vel das m&atilde;os invis&iacute;veis de   Deus&rdquo;. Por isso, Deus continua a precisar das nossas m&atilde;os para, &agrave; semelhan&ccedil;a   da c&eacute;lebre est&aacute;tua no&nbsp;jardim das   Tulherias em Paris, continuar a lavar os p&eacute;s e a carregar o sofrimento dos   pobres, desempregados, v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, emigrantes, &oacute;rf&atilde;os,   divorciados e jovens que nos circundam. Trata-se, ao fim e ao cabo, dum novo   paradigma social. S&oacute; vale a cultura do dar onde a juventude deveria crescer e   n&atilde;o, como acontece, na concorr&ecirc;ncia e interesses ego&iacute;stas.<\/p>\n<p>Um gesto compassivo que, al&eacute;m   de uma imposi&ccedil;&atilde;o legal deste novo mandamento, &eacute; uma atitude de a&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as   (eu-caristia: a&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as) pela miseric&oacute;rdia de Deus. Se assim for, a   caridade alheia poder&aacute; ser uma oportunidade para revelar a presen&ccedil;a do   Deus-Amor, de tal modo que todos afirmem como o salmista: &ldquo;Como agradecerei   ao Senhor tudo quanto Ele me deu?&rdquo;<\/p>\n<p>Neste momento, gostaria de   fazer uma prece para que a nossa Arquidiocese, nas suas comunidades, fosse   uma verdadeira experi&ecirc;ncia sacerdotal, onde leigos e sacerdotes n&atilde;o ofere&ccedil;am   somente realidades externas a si, mas se ofere&ccedil;am por amor para semear   esperan&ccedil;a no cora&ccedil;&atilde;o de muitos, e f&eacute; num mundo novo que todos esperam e   anseiam.<\/p>\n<p>Catedral de Braga, 05 de abril   de 2012<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga<\/em><\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p>[1]&nbsp;Jos&eacute; da Silva   Lima,&nbsp;<em>Teologia   Pr&aacute;tica Fundamental. Fazei v&oacute;s tamb&eacute;m<\/em>, 19-22.<\/p>\n<p>[2]&nbsp;Bento XVI,&nbsp;<em>Jesus de Nazar&eacute;. Da entrada em Jerusal&eacute;m at&eacute; &agrave; Ressurrei&ccedil;&atilde;o<\/em>, 62.<\/p>\n<p>[3]&nbsp;Bento XVI,&nbsp;<em>Deus caritas est<\/em>, 17.<\/p>\n<p>[4]&nbsp;cf. Pedro   Mu&ntilde;oz Pe&ntilde;as,&nbsp;<em>Orar com Deus<\/em>, 154.<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O 11.&ordm; Mandamento Quem passeia no jardim das Tulherias, em Paris, depara-se com uma est&aacute;tua c&eacute;lebre de Fran&ccedil;ois-L&eacute;on Sicard, que retrata a figura do bom-samaritano. H&aacute; muitas imagens do Bom Samaritano, esta tem um pormenor que nos prende: os p&eacute;s do homem ferido. 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