{"id":55998,"date":"2012-04-06T18:10:00","date_gmt":"2012-04-06T18:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/06\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2\/"},"modified":"2012-04-06T18:10:00","modified_gmt":"2012-04-06T18:10:00","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2\/","title":{"rendered":"Homilia do arcebispo de Braga na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><strong>O curriculum de Cristo<\/strong><span style=\"font-style: italic;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>H&aacute; dias, enquanto viajava no carro, na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a passava uma c&eacute;lebre m&uacute;sica de uma cantora norte-americana, cujo refr&atilde;o dizia: &ldquo;N&oacute;s n&atilde;o precisamos de um outro her&oacute;i!&rdquo; (&ldquo;We don&rsquo;t need another heroe&rdquo;). Por isso, emerge a pergunta: quem &eacute; afinal o nosso verdadeiro her&oacute;i?<\/p>\n<p>Neste sentido, permiti que vos conte agora uma hist&oacute;ria ver&iacute;dica. Era uma vez um homem que nasceu de uma mulher virgem, numa estalagem longe da sua terra natal. Cresceu numa pequena aldeia e trabalhou at&eacute; aos 30 anos com o seu Pai. Depois saiu de casa e foi batizado por um primo seu, num rio que passava l&aacute; perto. Mais tarde, convidou 12 amigos para o seguirem durante 3 anos.<\/p>\n<p>Ao longo desses 3 anos, perdoou os pecadores, foi ao encontro das mulheres e dos pobres que eram exclu&iacute;dos pela sociedade; chorou a morte dos amigos; resistiu &agrave;s tenta&ccedil;&otilde;es do dem&oacute;nio; n&atilde;o teve medo de ficar na casa dos corruptos; confrontou os intelectuais da &eacute;poca; defendeu os valores da justi&ccedil;a e do amor; curou os cegos, os mudos, os paral&iacute;ticos e os leprosos; exorcizou os possessos; realizou in&uacute;meros milagres; multiplicou p&atilde;es e peixes; at&eacute; conseguiu caminhar sobre as &aacute;guas do mar; e fez sonhar aquela multid&atilde;o que O seguia com os sonhos mais fascinantes que um ser humano pode desejar.<\/p>\n<p>O sonho de um <strong>mundo justo<\/strong>, numa &eacute;poca banhada na corrup&ccedil;&atilde;o e imoralidade; o sonho da <strong>liberdade<\/strong>, numa &eacute;poca de opress&atilde;o pol&iacute;tica; o sonho da <strong>felicidade<\/strong>, numa &eacute;poca de extrema assimetria e pobreza social; e o sonho da <strong>eternidade<\/strong>, numa &eacute;poca onde a morte era o atestado mais vis&iacute;vel da fal&ecirc;ncia da Medicina e o maior dos pesadelos do Homem.<\/p>\n<p>Posto isto, perguntam: mas quem &eacute; afinal este homem? Ser&aacute; um profeta, um revolucion&aacute;rio, um fundamentalista, um m&aacute;gico, um pol&iacute;tico, um fascista, um ditador, um sindicalista, um her&oacute;i popular ou um louco?<\/p>\n<p>Todos sabemos responder: era o mensageiro de Deus. Um mensageiro que, ao contr&aacute;rio das outras religi&otilde;es, n&atilde;o era um anjo, um esp&iacute;rito, uma voz ou uma for&ccedil;a energ&eacute;tica, mas um homem com uma hist&oacute;ria, uma descend&ecirc;ncia, uma nacionalidade, uma fam&iacute;lia e um nome concreto: Jesus, o Cristo.<\/p>\n<p>Como tal, ap&oacute;s esses tr&ecirc;s anos de prega&ccedil;&atilde;o foi julgado em p&uacute;blico, despojado das suas vestes, coroado de espinhos, insultado, escarnecido, cuspido, espancado, esbofeteado, chicoteado, humilhado, flagelado e crucificado&hellip; tudo isto por desafiar o paradigma social e religioso da &eacute;poca, tal como fora profetizado por Isa&iacute;as na primeira leitura.<\/p>\n<p>Por tudo, <strong>obrigado Jesus<\/strong>! Obrigado, por teres morrido por n&oacute;s nessa cruz! <strong>Nessa cruz <\/strong>que na altura foi um esc&acirc;ndalo para os judeus e uma loucura para os gentios; <strong>nessa cruz <\/strong>que &eacute; a consequ&ecirc;ncia l&oacute;gica do an&uacute;ncio da radicalidade do Reino de Deus; <strong>nessa cruz <\/strong>onde Tu provaste que Deus nos ama verdadeiramente at&eacute; aos limites do sofrimento humano; <strong>nessa cruz <\/strong>onde Tu provaste que realmente h&aacute; uma vida depois da morte; e <strong>nessa cruz <\/strong>que ainda hoje nos choca, nos mete medo, nos comove, nos arrepia e nos faz chorar!<\/p>\n<p>Acontece, por&eacute;m, que n&oacute;s, os crist&atilde;os, muitas vezes quando estamos em casa, no caf&eacute;, na escola, no emprego ou no shopping, duvidamos desta salva&ccedil;&atilde;o de Jesus e perguntamo-nos: Jesus, se tu &eacute;s realmente o nosso her&oacute;i e o nosso Salvador, e se tu continuas presente no meio de n&oacute;s, tal como tu pr&oacute;prio o afirmaste, ent&atilde;o porque &eacute; que tu permites que, nos dias de hoje, continue a haver tantas injusti&ccedil;as, tantas ang&uacute;stias e tanto sofrimento?<\/p>\n<p><strong>Se tu &eacute;s o salvador do mundo, ent&atilde;o onde &eacute; que Tu estavas<\/strong>: quando esta crise econ&oacute;mica mundial veio abalar as nossas vidas? Quando aqueles gestores p&uacute;blicos roubaram milh&otilde;es de euros ao Estado, esse dinheiro pago pelo suor dos nossos impostos? Quando a corrup&ccedil;&atilde;o invadiu os meandros de neg&oacute;cios marcados pelo aproveitamento dos mais fr&aacute;geis? Quando os gestores da causa p&uacute;blica desconsideram os mais pobres e abandonados em vez de motivarem as suas a&ccedil;&otilde;es pelas exig&ecirc;ncias de bem comum? Quando tantos idosos j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m dinheiro para pagar os medicamentos? Quando aquelas 60 000 crian&ccedil;as foram assassinadas no nosso pa&iacute;s, nos &uacute;ltimos anos, mediante o m&eacute;todo de aborto?<\/p>\n<p><strong>Se tu &eacute;s o salvador do mundo, ent&atilde;o onde &eacute; que Tu estavas<\/strong>: quando a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica continua a matar tantas mulheres? Quando tantos filhos sofrem, cada vez mais, aut&ecirc;nticos traumas psicol&oacute;gicos por causa do div&oacute;rcio dos pais? E quando tantos estudantes, passam horas a fio a estudar, e n&atilde;o conseguem um emprego que lhes garanta o futuro?<\/p>\n<p><strong>Se tu &eacute;s o salvador do mundo, ent&atilde;o onde &eacute; que Tu estavas<\/strong>: quando um dos nossos familiares foi atingido por uma doen&ccedil;a grave? Quando aqueles comerciantes foram assassinados num assalto violento? E quando os nossos amigos perderam o emprego?<\/p>\n<p>Irm&atilde;os e irm&atilde;s, s&atilde;o estas perguntas que tantas vezes nos perturbam e fazem com que muitos coloquem em quest&atilde;o a exist&ecirc;ncia de Deus. Mas a verdade &eacute; outra. Aquando de uma visita a um campo de concentra&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>da II Guerra Mundial em Auschwitz no ano de 2006, o Papa Bento XVI perguntava: <em>&laquo;Senhor, porque Te silenciaste? Por que toleraste tudo isto? (&hellip;) Todavia, este sil&ecirc;ncio torna-se depois num grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.&raquo; <\/em><\/p>\n<p>Na verdade, o grito de Cristo, que o cantor repetiu no Salmo Responsorial, n&atilde;o se trata de um grito de derrota, mas de vit&oacute;ria! Vit&oacute;ria da vida sobre a morte, da f&eacute; sobre a d&uacute;vida, da hospitalidade sobre a indiferen&ccedil;a, da justi&ccedil;a sobre a injusti&ccedil;a, da esperan&ccedil;a sobre o medo (1), da responsabilidade fraternal sobre tantos sil&ecirc;ncios dos crist&atilde;os, do amor assumido para uma sociedade mais justa sobre o jogo de interesses pessoais ou partid&aacute;rios. O Amor vencer&aacute; sempre.<\/p>\n<p>Mas, mais ainda, &eacute; do sil&ecirc;ncio, que se sucede a esse grito, que nasce uma nova fam&iacute;lia: a Igreja. Uma Igreja que este ano desafiei a alimentar-se da Palavra de Deus. Sem d&uacute;vida que o sil&ecirc;ncio &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o <em>sine qua non <\/em>para se acolher a Palavra, pois s&oacute; esta nos pode dar resposta a todas as perguntas que questionam a nossa f&eacute; (2). Mas uma Palavra que grita no testemunho e incomoda quem a pretende abafar.<\/p>\n<p>Se Cristo &eacute; o salvador do mundo isto acontece atrav&eacute;s da Igreja como seu sacramento. O grito da morte de Cristo deve acordar a Igreja para que seja capaz de colocar o &oacute;leo da consola&ccedil;&atilde;o nas feridas da humanidade e apaixonar-se, comprometendo-se, com as causas das popula&ccedil;&otilde;es. Ela n&atilde;o existe s&oacute; para o culto. O amor a Deus &eacute; lutar pela dignidade de todos os homens e, particularmente, pelos mais d&eacute;beis e fragilizados. A&iacute; deve colocar-se com todas as suas energias e deixar qualquer tenta&ccedil;&atilde;o de poder.<\/p>\n<p>Para terminar, a escritora Sophia de Mello Breyner, no livro Conto Exemplares, termina o conto sobre o &ldquo;Homem&rdquo; dizendo:<\/p>\n<p><em>&ldquo;Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas nossas ruas.&rdquo; <\/em><\/p>\n<p>Portanto, como Igreja que se alimenta da Palavra, urge agora continuar a divulgar o curriculum de Cristo, que ela nos d&aacute; a conhecer. Na certeza de que Ele continua ao nosso lado, n&atilde;o s&oacute; na alegria, mas tamb&eacute;m no sofrimento, resta-nos apenas uma certeza: a certeza de que, &agrave; semelhan&ccedil;a da letra do refr&atilde;o daquela m&uacute;sica, &ldquo;n&oacute;s n&atilde;o precisamos de um outro her&oacute;i!&rdquo;.<\/p>\n<p>Catedral de Braga, 6 de abril de 2012<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>1 <em>Consequ&ecirc;ncias &eacute;ticas da Ressurrei&ccedil;&atilde;o de Cristo<\/em>, cf. J&uuml;rgen Moltmann, <em>El Camino de JesuCristo<\/em>, 356-367.<\/p>\n<p>2 cf. Bento XVI, <em>Verbum Domini<\/em>, 25.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O curriculum de Cristo&nbsp; H&aacute; dias, enquanto viajava no carro, na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a passava uma c&eacute;lebre m&uacute;sica de uma cantora norte-americana, cujo refr&atilde;o dizia: &ldquo;N&oacute;s n&atilde;o precisamos de um outro her&oacute;i!&rdquo; (&ldquo;We don&rsquo;t need another heroe&rdquo;). Por isso, emerge a pergunta: quem &eacute; afinal o nosso verdadeiro her&oacute;i? 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