{"id":55970,"date":"2012-04-04T11:44:19","date_gmt":"2012-04-04T11:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/04\/os-padres-na-renascenca-dos-anos-70\/"},"modified":"2012-04-04T11:44:19","modified_gmt":"2012-04-04T11:44:19","slug":"os-padres-na-renascenca-dos-anos-70","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-padres-na-renascenca-dos-anos-70\/","title":{"rendered":"Os padres na Renascen\u00e7a dos anos 70"},"content":{"rendered":"<p>Lopes Morgado, frade franciscano capuchinho, trabalhou na R\u00e1dio Renascen\u00e7a entre 1970 e 1975. At\u00e9 maio de 1974 como colaborador externo; a partir dessa data, fazendo parte do quadro da esta\u00e7\u00e3o. <!--more--> <\/p>\n<p><em>Lopes Morgado, frade franciscano capuchinho, trabalhou na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a entre 1970 e 1975. At&eacute; maio de 1974 como colaborador externo; a partir dessa data, fazendo parte do quadro da esta&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Joaquim Lopes da Silva Morgado &eacute; jornalista, chefe de reda&ccedil;&atilde;o da revista &#8220;B&iacute;blica&#8221; desde o ano 2000, ap&oacute;s 25 anos como diretor, e tem livros publicados sobre B&iacute;blia, pastoral e de poesia.<\/em><\/p>\n<p><em>[Entrevista concedida por escrito a Paula Borges Santos pelo frei Lopes Morgado, na qualidade de trabalhador da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a, para Mestrado em Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea sobre &laquo;A Igreja e a Revolu&ccedil;&atilde;o. O caso da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a&raquo;, na Universidade Nova de Lisboa. Realizada em 2001, &eacute; agora tornada p&uacute;blica em <a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/\">www.agencia.ecclesia.pt<\/a>, ap&oacute;s um pedido de artigo de opini&atilde;o sobre este tema ao autor destas declara&ccedil;&otilde;es]<\/em><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Quando e por quem foi convidado a trabalhar na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Em <strong>1970<\/strong>, pelo padre Ant&oacute;nio Rego. Ent&atilde;o, o padre Rego era Regente de Est&uacute;dios da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a em Lisboa, por nomea&ccedil;&atilde;o do Episcopado, e o convite que me fez era avalizado a esse n&iacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Que fun&ccedil;&otilde;es desempenhou na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nunca desempenhei fun&ccedil;&otilde;es especiais nenhumas, se est&aacute; a falar em cargos de chefia. Ali&aacute;s, a minha participa&ccedil;&atilde;o na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a teve duas fases diferentes: uma como colaborador externo, de 1970 a 1974; outra como membro da equipa sacerdotal e fazendo parte do quadro da RR, de maio de 1974 a 27 de maio de 1975. Mas n&atilde;o fui o que se costuma dizer um &ldquo;trabalhador&rdquo; da RR, no sentido que isso tem de liga&ccedil;&atilde;o ao Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o ou de Ger&ecirc;ncia e aos Sindicatos, embora fizesse os descontos oficiais como qualquer outro trabalhador.<\/p>\n<p>Em <strong>1970<\/strong>, talvez por ser diretor da revista <em>B&iacute;blica<\/em> (pois igual convite foi dirigido ao padre Agostinho Rodrigues, sacerdote dos Mission&aacute;rios da Boa Nova, ent&atilde;o diretor da revista <em>Boa Nova<\/em>, para um programa sobre Miss&otilde;es), fui convidado para fazer um Programa semanal de 25 minutos, sobre B&iacute;blia. Chamava-se &ldquo;MARANA THA&rdquo;, era antegravado e transmitido na Sexta-feira &agrave; tarde, antes do notici&aacute;rio das 19 horas. Na grava&ccedil;&atilde;o contava com o pr&oacute;prio padre Rego e com os meios e operadores t&eacute;cnicos da esta&ccedil;&atilde;o (bem como alguns locutores, que sempre colaboravam simpaticamente quando solicitados). A minha colabora&ccedil;&atilde;o era gratuita, ou considerada paga por esta &ldquo;publicidade&rdquo; no indicativo: &ldquo;um programa dos <em>Padres Capuchinhos<\/em>, todas as Sextas-feiras nos emissores da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a pelas 18 horas e cinco minutos, produzido pela <em>Difusora B&iacute;blica<\/em> e realizado pelo padre Lopes Morgado, diretor da revista <em>B&iacute;blica<\/em>&rdquo;. O primeiro foi emitido em 1 de outubro de 1970.<\/p>\n<p>Em novembro de <strong>1973<\/strong>, o padre Rego prop&ocirc;s-me fazer outro programa, desta vez di&aacute;rio, de 3 a 5 minutos, ligando as Leituras b&iacute;blicas de cada dia com a vida. Chamou-se &ldquo;PALAVRA DO DIA&rdquo;, e era emitido imediatamente antes dos notici&aacute;rios das 07 e das 19 horas. O primeiro foi para o ar no I Domingo do Advento (portanto, em fins de novembro). Este j&aacute; era pago pela Administra&ccedil;&atilde;o, como o de qualquer outro produtor ou realizador contratado. Tanto num caso como noutro, a minha aceita&ccedil;&atilde;o passou pela aprova&ccedil;&atilde;o do meu Ministro Provincial (o frei Ant&oacute;nio Monteiro, atualmente bispo de Viseu) e pela opini&atilde;o favor&aacute;vel da Fraternidade dos Capuchinhos de Lisboa, a que eu pertencia.<\/p>\n<p>Na sequ&ecirc;ncia desta colabora&ccedil;&atilde;o, e sempre como Regente de Est&uacute;dios, embora j&aacute; fazendo parte da Comiss&atilde;o de Gest&atilde;o eleita pelos trabalhadores em 30 de abril, em maio de <strong>1974<\/strong> o padre Rego convidou-me para trabalhar a tempo inteiro na programa&ccedil;&atilde;o religiosa, numa equipa que inclu&iacute;a ele pr&oacute;prio e mais dois sacerdotes: Carlos Capucho nos Est&uacute;dios de Lisboa e Eloy Pinho nos do Porto. Uma equipa de quatro, portanto. Mais uma vez com o benepl&aacute;cito dos meus Superiores, aceitei. O padre do Porto entrou com a aprova&ccedil;&atilde;o do seu bispo; os de Lisboa, com a aprova&ccedil;&atilde;o do cardeal Patriarca. Quer antes, quer depois do 25 de Abril de 1974, em nenhum destes casos houve qualquer contrato escrito. Mas sempre fui pago normalmente nos escrit&oacute;rios da empresa, com recibos oficiais assinados por quem de direito. Sempre, exceto o que me ficaram a dever no fim, at&eacute; hoje. Por isso, quando algu&eacute;m me diz &laquo;a nossa R&aacute;dio Renascen&ccedil;a&raquo;, costumo ironizar: &laquo;Sim, ainda l&aacute; tenho vinte e tal contos meus.&raquo;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Entre 1970 e abril de 1974, como define o tipo de informa&ccedil;&atilde;o religiosa disponibilizada pela R&aacute;dio Renascen&ccedil;a?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Talvez convenha recuar at&eacute; 1968, data em que o padre Rego entrou. At&eacute; &agrave; morte de Mons. Lopes da Cruz, a RR n&atilde;o era nem do Patriarcado nem do episcopado, mas de uma sociedade (Lopes da Cruz, mais Rog&eacute;rio Leal), e a Igreja n&atilde;o lhe ligava quase nenhum. Era uma &ldquo;minhoca&rdquo;, como se dizia das r&aacute;dios pequenas. Ent&atilde;o, havia apenas um &uacute;nico programa religioso, semanal, dirigido aos doentes (&ldquo;Di&aacute;logo com os que sofrem&rdquo;), al&eacute;m do ter&ccedil;o di&aacute;rio e missa dominical a partir da Bas&iacute;lica dos M&aacute;rtires, e n&atilde;o sei se as cerim&oacute;nias de F&aacute;tima nas peregrina&ccedil;&otilde;es principais; mas havia casos em que a programa&ccedil;&atilde;o religiosa era subalternizada, como passar o ter&ccedil;o para a noite quando a hora habitual coincidia com jogos de futebol.<\/p>\n<p>Com a entrada do padre Rego, o programa para doentes passou a bissemanal, nasceu o &ldquo;Esquema 13&rdquo; di&aacute;rio, os dois meus e o outro de que falei, as cr&oacute;nicas do Manuel Vilas-Boas a partir da R&aacute;dio Clube de Mo&ccedil;ambique entre 1972 e 1974, etc. E come&ccedil;ou o tratamento das not&iacute;cias religiosas e a opini&atilde;o e coment&aacute;rio sobre elas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Houve continuidades ou inova&ccedil;&otilde;es na linha editorial durante o per&iacute;odo compreendido entre 1970 e 1974?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Inova&ccedil;&atilde;o progressiva. Quando um produtor independente cessava o contrato, o padre Rego tentava ocupar o espa&ccedil;o com programa&ccedil;&atilde;o religiosa, caso a Administra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se opusesse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Quais os objetivos pretendidos e tipo de informa&ccedil;&atilde;o veiculada?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tanto quanto me apercebia (pois dessa fase s&oacute; sei o que conhecia como ouvinte e o que o padre Rego partilhava como colega), pretendia-se que a religi&atilde;o n&atilde;o fosse t&atilde;o compartimentada apenas em programas confessionais e num reduto fora dos tempos de maior audi&ecirc;ncia, mas atravessasse toda a programa&ccedil;&atilde;o e entrasse no ar sempre que fosse not&iacute;cia, como acontecia em qualquer outra &aacute;rea da informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Que rela&ccedil;&atilde;o entre os trabalhadores e o Conselho de Ger&ecirc;ncia (formado pelo padre Am&eacute;rico e por mons. Sesinando)?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o fa&ccedil;o a m&iacute;nima ideia. At&eacute; 1974 n&atilde;o contactei com nenhum deles, nessa fun&ccedil;&atilde;o. Depois da sua sa&iacute;da, s&oacute; me encontrei esporadicamente com o padre Am&eacute;rico na RTP, onde ele tamb&eacute;m celebrava, ou em sua casa quando me encontrava l&aacute; com o padre Rego, que vivia com ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Qual o impacto da reflex&atilde;o teol&oacute;gica promovida pelo Conc&iacute;lio Vaticano II, nas iniciativas e no tipo de informa&ccedil;&atilde;o realizadas pela RR?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O nome do programa Esquema 13 foi bebido expressamente no Conc&iacute;lio, pois era o n&uacute;mero do texto da futura constitui&ccedil;&atilde;o pastoral Gaudium et Spes quando deu entrada para discuss&atilde;o na aula conciliar. O padre Rego era eminentemente um &ldquo;filho&rdquo; do Vaticano II, e empenhou-se sempre, at&eacute; hoje, no esp&iacute;rito de di&aacute;logo (n&atilde;o de rejei&ccedil;&atilde;o ou oposi&ccedil;&atilde;o) entre a Igreja e o Mundo, promovendo qualquer sinal de bem, justi&ccedil;a e bondade, viesse donde viesse. E para isso, procurava iluminar a vida concreta do pa&iacute;s e do mundo com a luz do Evangelho, como recomendava o Conc&iacute;lio na mesma Gaudium et Spes e era de esperar numa esta&ccedil;&atilde;o que se dizia &ldquo;Emissora Cat&oacute;lica Portuguesa&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Quais as consequ&ecirc;ncias da substitui&ccedil;&atilde;o do cardeal Cerejeira pelo cardeal D. Ant&oacute;nio Ribeiro no projeto delineado para a R&aacute;dio Renascen&ccedil;a?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>S&oacute; sei dizer que o Dom Ant&oacute;nio j&aacute; tinha uma boa rela&ccedil;&atilde;o com o padre Rego, antes, enquanto bispo auxiliar do Patriarcado e Presidente da Comiss&atilde;o Episcopal das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais, pois vivia na resid&ecirc;ncia paroquial da bas&iacute;lica dos M&aacute;rtires, quase ao lado da Renascen&ccedil;a. Nessa fase, dava, sobretudo, apoio e sugest&otilde;es. Eu pr&oacute;prio participei nalguns encontros com ele e ouvi os seus conselhos aos padres que celebr&aacute;vamos a Eucaristia na televis&atilde;o. Claro, tinha maior sensibilidade nesse campo que o anterior, pois trabalhara 9 anos na RTP (donde fora despedido por apoiar Paulo VI na Visita Pastoral a Bombaim, criticada publicamente por Franco Nogueira). Havia v&aacute;rios trabalhadores que o conheciam bem dos tempos em que &ldquo;o Doutor Ribeiro&rdquo; descia o Chiado e tomava caf&eacute; na Brasileira. E tinham por ele certa admira&ccedil;&atilde;o e estima, que depois vieram a perder.<\/p>\n<p>Por isso lamento que, sendo o Patriarcado acionista maiorit&aacute;rio da RR, e conhecendo o Patriarca t&atilde;o bem aquela casa, n&atilde;o usasse esse &ldquo;capital&rdquo; de simpatia em 1974 para resolver o caso logo &agrave; partida. Porque era resol&uacute;vel, antes da sucessiva degrada&ccedil;&atilde;o do processo! Isso, para j&aacute; n&atilde;o falar da amizade entre ele e o padre Rego e da aceita&ccedil;&atilde;o do padre Rego junto dos trabalhadores, que a 30 de abril o nomearam para a Comiss&atilde;o de Gest&atilde;o. E logo a 1 de maio, a Comiss&atilde;o de Gest&atilde;o foi encontrar-se com o Patriarca em Sintra, onde ele celebrava S&atilde;o Jos&eacute; oper&aacute;rio com os trabalhadores da Uni&atilde;o Gr&aacute;fica. Ainda me lembro de os padres (e outros trabalhadores?) termos participado num encontro com ele na casa do Patriarcado ao Largo de S. Mamede, n&atilde;o sei a pedido de quem. Mais tarde nomeou para mediador o c&oacute;nego Jo&atilde;o Alves, que chegou a presidir a uma reuni&atilde;o com todos os trabalhadores, de Lisboa e do Porto, no sal&atilde;o da mesma casa de S. Mamede. <strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Que tipo de alternativa propunha a R&aacute;dio Renascen&ccedil;a aos espa&ccedil;os religiosos emitidos pela Emissora Nacional?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Parece-me que a EN, a n&atilde;o ser a cobertura das celebra&ccedil;&otilde;es de 12 e 13 de maio e outubro em F&aacute;tima, n&atilde;o tinha programas ditos religiosos.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Antes do 25 de Abril de 1974, existia censura na Emissora Cat&oacute;lica, Portuguesa? Quem a praticava e que tipo de linha impunham ao trabalho dos jornalistas&nbsp;<\/em><\/strong><strong><em>e da equipa sacerdotal?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Curiosamente, quando comecei a trabalhar a tempo inteiro como membro da equipa sacerdotal em maio de 1974, o nosso gabinete de trabalho era o que acabava de ser ocupado pelos censores. Mas esses censores s&oacute; tinham entrado cerca de um m&ecirc;s antes do 25 de Abril. At&eacute; l&aacute;, tal fun&ccedil;&atilde;o era declinada no padre Rego, o qual, na sua posi&ccedil;&atilde;o de Regente de Est&uacute;dios era o &ldquo;respons&aacute;vel de conte&uacute;dos&rdquo;. Disse-me ele que chegou a ter di&aacute;logos duros com o PIDE encarregado da censura e com o SNI, que n&atilde;o cessava de os inquietar. Talvez tenha sido o Conselho de Ger&ecirc;ncia a optar pela presen&ccedil;a dos censores dentro do pr&oacute;prio espa&ccedil;o da esta&ccedil;&atilde;o. Merecia a pena informar-se disso, pois, no caso de ter sido assim, tal facto poder&aacute; ter contribu&iacute;do para o descr&eacute;dito do Conselho de Ger&ecirc;ncia junto dos trabalhadores, consumado pelo seu saneamento a 30 de abril. Ali&aacute;s, parece que os nomes referidos n&atilde;o eram especialmente qualificados para aquela fun&ccedil;&atilde;o. Talvez tenham sido v&iacute;timas da obedi&ecirc;ncia aos seus superiores hier&aacute;rquicos.<\/p>\n<p>Antes de abril de 1974 ainda n&atilde;o havia &ldquo;equipa&rdquo; sacerdotal; era s&oacute; o padre Rego e, que eu saiba, o Conselho de Ger&ecirc;ncia n&atilde;o lhe impunha nenhuma &ldquo;linha&rdquo;. Pelo que via, o padre Rego &eacute; que lhes ia &ldquo;impondo&rdquo; alguns programas ou tempos religiosos, sempre que podia, &ldquo;prendendo&rdquo; as horas dos produtores independentes que vagavam na grelha de programa&ccedil;&atilde;o&#8230; Tinham considera&ccedil;&atilde;o por ele e grande confian&ccedil;a no seu trabalho, pois era muito competente no que fazia. Como continua a ser. Eu era produtor e realizador independente, e nunca ningu&eacute;m me contactou nem chamou a aten&ccedil;&atilde;o quanto a isso.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Na sua opini&atilde;o, qual foi o posicionamento da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a (distinguindo entre as posi&ccedil;&otilde;es dos trabalhadores e da entidade patronal) face &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Como &eacute; evidente, nenhum dos setores emitiu qualquer comunicado a dizer do seu posicionamento. Mas, de um modo gen&eacute;rico, imagino que a dos trabalhadores fosse de franca ades&atilde;o; a da entidade patronal, representada pelo Conselho de Ger&ecirc;ncia (que dever&aacute; ter telefonado para F&aacute;tima, onde decorria a Assembleia plen&aacute;ria da Conferencia Episcopal, a pedir parecer ou instru&ccedil;&otilde;es&#8230;), ter&aacute; sido &ldquo;esperar at&eacute; ver&rdquo;, possivelmente n&atilde;o acreditando que o golpe resultasse. E talvez tenha sido esse esp&iacute;rito diferente que levou ao desentendimento entre os dois setores, no dia 30 de abril de 1974.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A 30 de abril de 1974, formou&#8209;se um conselho de programas, constitu&iacute;do por trabalhadores da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a, cujo resultado foi uma greve levada a cabo pelo pessoal dos Est&uacute;dios de Lisboa. Quais foram as motiva&ccedil;&otilde;es dos trabalhadores para entrarem em autogest&atilde;o?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>O Conselho de Ger&ecirc;ncia n&atilde;o deixou transmitir a reportagem da chegada de &Aacute;lvaro Cunhal ao aeroporto. Talvez o Conselho ainda estivesse a pensar nos censores, ou a assumir esse papel. E os jornalistas do Servi&ccedil;o de Notici&aacute;rios n&atilde;o transigiram. Nem acho que devessem transigir, face ao novo contexto nacional de plena liberdade de informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Para si, a g&eacute;nese do conflito entre a entidade patronal e os trabalhadores foi um problema laboral ou pol&iacute;tico?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Talvez possa dizer que foi <em>mais<\/em> laboral da parte dos trabalhadores e <em>mais<\/em> pol&iacute;tico da parte da Ger&ecirc;ncia. Digo <em>mais<\/em>, porque as motiva&ccedil;&otilde;es das pessoas nunca s&atilde;o quimicamente puras e n&atilde;o sou ing&eacute;nuo. Admito, por exemplo, que no grupo houvesse quem simpatizasse com a ideologia de &Aacute;lvaro Cunhal. Mas isso n&atilde;o obstava que fosse not&iacute;cia o facto de ele voltar a Portugal, depois de tantos anos na clandestinidade e no ex&iacute;lio. Ora, a esta&ccedil;&atilde;o de uma Igreja que defende as pessoas acima das ideologias ou das institui&ccedil;&otilde;es, deveria sentir-se suficientemente livre para dar essa &ldquo;boa&rdquo; not&iacute;cia. E se o regime pol&iacute;tico tinha, at&eacute; ent&atilde;o, considerado &ldquo;criminosos&rdquo; os que seguiam determinadas ideologias, o m&iacute;nimo que se pedia, agora, &eacute; que pelo menos se respeitassem as pessoas, mesmo n&atilde;o aceitando as suas ideias, no dizer de Santo Agostinho. N&atilde;o ter&aacute; sido por acaso que, nesse per&iacute;odo (n&atilde;o sei a partir de quando, nem por iniciativa de quem) a RR recebeu o qualificativo de &ldquo;A Emissora da Liberdade&rdquo;. Isso devia ser motivo de honra para a Igreja.<\/p>\n<p>Houve &eacute; uma coisa que foi manipulada e precisa de ser esclarecida: a esta&ccedil;&atilde;o \/ empresa era da Igreja, mas n&oacute;s relacion&aacute;vamo-nos com uma entidade patronal personificada no Conselho de Ger&ecirc;ncia e era com este que os trabalhadores empreendiam a luta. Como ela n&atilde;o foi resolvida na sua primeira fase, a estrat&eacute;gia do novo Conselho de Ger&ecirc;ncia foi fazer passar para a Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa (CEP) a ideia de que a luta era contra a Igreja. Isso a n&oacute;s, padres, pareceu-nos muito desonesto; porque, a partir de ent&atilde;o, come&ccedil;aram a enviar comunicados a todos os Superiores religiosos e p&aacute;rocos, para serem lidos nas Missas, motivando e mobilizando os fi&eacute;is contra os trabalhadores como se eles fossem inimigos da Igreja. De facto, n&atilde;o era o controlo ideol&oacute;gico nem o direito de propriedade da Igreja que ali estava em causa; pelo contr&aacute;rio, como disse, a doutrina e a vida da Igreja no pa&iacute;s e no mundo nunca tinham estado at&eacute; ali t&atilde;o presentes na esta&ccedil;&atilde;o. E se algu&eacute;m, naquele processo, defendeu os valores religiosos e morais da Igreja dentro da empresa, e a credibilizou junto dos trabalhadores, fomos n&oacute;s, os padres que l&aacute; est&aacute;vamos.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>A pedido de quem e porqu&ecirc; recome&ccedil;aram as emiss&otilde;es ap&oacute;s o 11 de mar&ccedil;o de 1975?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tanto quanto me lembro, a pedido direto do COPCON ou da Junta de Salva&ccedil;&atilde;o Nacional, mais ou menos nestes termos: que pus&eacute;ssemos a Emissora ao servi&ccedil;o da Revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A equipa sacerdotal da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a colocar&#8209;se&#8209;ia ao lado dos trabalhadores, desde o in&iacute;cio do conflito. Do seu ponto de vista, que motiva&ccedil;&otilde;es fundamentaram essa tomada de posi&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>No in&iacute;cio s&oacute; estava o padre Rego. Suponho que ele ter&aacute; concordado com a atitude dos outros trabalhadores, pois foi eleito por eles para a tal Comiss&atilde;o de Gest&atilde;o; ou, pelo menos, enquanto Regente de Est&uacute;dios, mereceu a sua confian&ccedil;a para resolver mais depressa aquele conflito, que passaria, ao que me lembro, pelo afastamento definitivo do Conselho de Ger&ecirc;ncia que tinha sido &ldquo;saneado&rdquo; pelos trabalhadores. A partir da&iacute;, como nas outras coisas da vida, as raz&otilde;es da solidariedade foram-se ajustando &agrave;s motiva&ccedil;&otilde;es e aos contornos de cada fase ou epis&oacute;dio do processo.<\/p>\n<p>Na base estava, para n&oacute;s, esta evid&ecirc;ncia: isto &eacute; da Igreja, n&oacute;s somos Igreja e estamos aqui como Igreja. Por isso, devemos seguir as atitudes e palavras de Jesus no seu tempo, que a Igreja pretende viver hoje, bem como a doutrina social da Igreja elaborada com base no respeito pela pessoa humana, que lhe permitiu autodefinir-se &ldquo;perita em humanidade&rdquo;. Se a nossa &ldquo;entidade patronal&rdquo; se identificava com a Igreja, ou vice-versa, isso n&atilde;o nos preocupava; preocupava-nos era testemunhar o que a Igreja, como comunidade de f&eacute; e de amor, acreditava e pregava. Ou seja: n&atilde;o pretend&iacute;amos agradar aos crit&eacute;rios de gest&atilde;o dos que ali representavam a propriedade da Igreja, mas tornar presentes os valores doutrinais de verdade, liberdade, justi&ccedil;a, fraternidade e solidariedade da mesma Igreja. Quer no que diz&iacute;amos aos ouvintes, quer no que faz&iacute;amos aos (ou com os) trabalhadores. Por isso, mant&iacute;nhamos com os trabalhadores um relacionamento de entreajuda solid&aacute;ria, para al&eacute;m da rela&ccedil;&atilde;o meramente laboral. E cri&aacute;mos tamb&eacute;m esse esp&iacute;rito entre todos. Ainda me lembro de ir com alguns deles a casa de colegas levar ajuda &agrave; sua fam&iacute;lia carenciada. Por outro lado, os sacerdotes nunca hostiliz&aacute;mos a Igreja e sempre pusemos o senhor Patriarca a par das nossas decis&otilde;es ou das raz&otilde;es das nossas atitudes.<\/p>\n<p>A estrat&eacute;gia do Conselho de Ger&ecirc;ncia era a da autoridade e propriedade, n&atilde;o tanto a de uns direitos humanos ou de uma justi&ccedil;a que em v&aacute;rios momentos foram seriamente postos em causa. A n&oacute;s, que est&aacute;vamos dentro e v&iacute;amos cada dia as repercuss&otilde;es dram&aacute;ticas de tais atitudes nos trabalhadores concretos da esta&ccedil;&atilde;o e nas suas fam&iacute;lias, era isso, sobretudo, que nos fazia manter-nos do seu lado, para al&eacute;m de todos os jogos de bastidores. Conhec&iacute;amos os colegas mais do que ningu&eacute;m, e sab&iacute;amos que n&atilde;o eram o que &agrave;s vezes se dizia deles ou eles pr&oacute;prios poderiam dizer nalgumas declara&ccedil;&otilde;es emotivas &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o social. A partir de certa altura, as rea&ccedil;&otilde;es &ndash; por exemplo, nalguns comunicados &ndash; j&aacute; eram as de animais acossados, sem sa&iacute;da, pela degrada&ccedil;&atilde;o a que tinha chegado a sua vida profissional e familiar devido ao impasse no processo.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Qual o tipo de rela&ccedil;&atilde;o estabelecido entre os sacerdotes e o novo Conselho de Ger&ecirc;ncia, nomeado em julho de 1974?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pessoalmente, n&atilde;o o cheguei a ver nem fui contactado por ele enquanto l&aacute; estive, at&eacute; 27 de maio de 1975, nem depois. Alguns dos meus colegas sacerdotes contactavam-no nas reuni&otilde;es que tinham de realizar com ele enquanto membros de grupos de contacto ou comiss&otilde;es de trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>E que contactos mantinha a equipa sacerdotal com o Patriarca de Lisboa?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Durante todo o processo, demos-lhe conta da nossa posi&ccedil;&atilde;o em cada passo e das raz&otilde;es por que a assum&iacute;amos. Por exemplo, &agrave;s 19 horas do dia em que os trabalhadores decidiram iniciar uma greve de sil&ecirc;ncio, n&oacute;s ouvimos esse comunicado dentro do carro, &agrave; porta do Patriarcado, e em seguida entr&aacute;mos para falar longamente com o senhor Patriarca acerca da situa&ccedil;&atilde;o. Normalmente limitava-se a ouvir, de um modo muito hier&aacute;tico e frio, nada acolhedor. Respeitava as nossas op&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o deixava de nos considerar ing&eacute;nuos. Uma vez que outra referiu-se a grandes maquina&ccedil;&otilde;es internacionais, mas sem nunca nos dar a confian&ccedil;a de entrar em pormenores. No fundo, n&atilde;o parecia confiar em n&oacute;s, pois em seguida v&iacute;amos sair comunicados da Confer&ecirc;ncia Episcopal, a que ele presidia, totalmente decalcados do ponto de vista do Conselho de Ger&ecirc;ncia, ou muito provavelmente redigidos por ele e &agrave; medida da sua estrat&eacute;gia. Nunca os pontos de vista dos padres ou dos trabalhadores foram ouvidos para a elabora&ccedil;&atilde;o desses comunicados. Curiosamente, uns tr&ecirc;s anos mais tarde, falei com bispos que n&atilde;o estavam minimamente a par do que se tinha passado. Ser&aacute; que nem a eles o Presidente da CEP informava da situa&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Qual a rela&ccedil;&atilde;o entre os membros da equipa sacerdotal? As suas decis&otilde;es foram tomadas por unanimidade, ou existiam diverg&ecirc;ncias?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>At&eacute; ao dia 27 de maio de 1975 fomos un&acirc;nimes nas nossas posi&ccedil;&otilde;es. Encontr&aacute;vamo-nos de vez em quando &ndash; umas vezes em Coimbra, por estar a meio caminho, outras em Lisboa &ndash; para apurar crit&eacute;rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Manteve ou n&atilde;o as mesmas fun&ccedil;&otilde;es antes e depois do 25 de Abril?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Como j&aacute; disse, eu antes era produtor exterior contratado para dois programas; a partir da&iacute;, fui contratado a tempo inteiro, para o setor da programa&ccedil;&atilde;o religiosa, integrado na equipa sacerdotal de que falei. Continuei com o <em>Palavra do Dia <\/em>a meu encargo exclusivo (que por isso era pago &agrave; parte), integrei o <em>Marana tha<\/em> sobre B&iacute;blia no programa di&aacute;rio <em>Esquema 13<\/em> (mas tamb&eacute;m &agrave; minha inteira responsabilidade) e assumi os outros trabalhos que me foram pedidos, como membro de uma equipa, incluindo alguns n&atilde;o especificamente religiosos por falta de outros rep&oacute;rteres. Lembro-me, por exemplo, de ter ido v&aacute;rias vezes ao aeroporto quando o cardeal Patriarca chegava de Roma ou de outras sa&iacute;das importantes &agrave; Europa; fiz a reportagem da 1&ordf; Manifesta&ccedil;&atilde;o feminista no alto do Parque Eduardo VII, onde queimaram revistas pornogr&aacute;ficas, soutiens, etc.; e fiz a cobertura das Elei&ccedil;&otilde;es para a Constituinte no distrito de Beja em 25 de Abril de 1975 (com reportagem, &agrave; ida, nas sec&ccedil;&otilde;es de voto da Escola de Gr&acirc;ndola, e entrevistando, em Beja, o Presidente da C&acirc;mara local, major Mariz Fernandes, e, no regresso, o Presidente da C&acirc;mara de Santiago do Cac&eacute;m) e fiz reportagem de rua no 1&ordm; de maio desse ano.<\/p>\n<p>Na equipa sacerdotal, deline&aacute;vamos e assum&iacute;amos rotativamente uma programa&ccedil;&atilde;o religiosa bastante vasta, como nunca existira naquela esta&ccedil;&atilde;o: <em>Ora&ccedil;&atilde;o da Manh&atilde;, <\/em>di&aacute;rio, com texto nosso; <em>Palavra do Dia<\/em>, di&aacute;rio (este, feito por mim); <em>Reflex&atilde;o do Meio-Dia <\/em>e, <em>Meditando, &agrave; noite,<\/em> di&aacute;rios, de 3 a 5 minutos cada; <em>Esquema 13 <\/em>(di&aacute;rio, &agrave; noite), de 25 minutos; 3 notici&aacute;rios semanais de 25 minutos (&agrave; Segunda, Quarta e Sexta) sobre a vida da Igreja, intitulado <em>Igreja &eacute; plural<\/em>; 2 programas semanais de 25 minutos, intitulados <em>Di&aacute;logo<\/em>; <em>Tempo para o Esp&iacute;rito<\/em>, semanal, de 25 minutos; pontos de vista e editoriais ou coment&aacute;rios a not&iacute;cias de Igreja, a integrar nos principais notici&aacute;rios, nomeadamente no <em>Dezanove Ponto Zero Zero<\/em> (&agrave;s 19hs).<\/p>\n<p>Estava, tamb&eacute;m, ao nosso encargo a reportagem das cerim&oacute;nias de F&aacute;tima, que procur&aacute;mos valorizar e ampliar, e a programa&ccedil;&atilde;o da Semana Santa, sobretudo Quinta, Sexta e S&aacute;bado Santo e Domingo de P&aacute;scoa. Antes, nalguns destes dias, a esta&ccedil;&atilde;o fazia como as outras: limitava-se a p&ocirc;r m&uacute;sica cl&aacute;ssica no ar ou a guardar sil&ecirc;ncio, como se a Igreja n&atilde;o tivesse uma mensagem t&atilde;o rica e pr&oacute;pria a transmitir. L&aacute; por abril e maio de 1975, o Reitor de F&aacute;tima proibiu a transmiss&atilde;o de alguns atos que habitualmente eram transmitidos a partir daquele Santu&aacute;rio. Naturalmente, devido a um Comunicado da CEP, em fevereiro, retirando &agrave; equipa sacerdotal a sua confian&ccedil;a (mais uma vez, quem o ter&aacute; redigido?). Tudo como repres&aacute;lia pela nossa solidariedade com os trabalhadores, que impedia ou questionava certas estrat&eacute;gias.<\/p>\n<p>Repare que n&oacute;s continu&aacute;vamos a celebrar e a pregar nas nossas par&oacute;quias. E as missas transmitidas pela esta&ccedil;&atilde;o at&eacute; nem eram celebradas por n&oacute;s. Mas era a estrat&eacute;gia patronal do Conselho de Ger&ecirc;ncia, a que a CEP dava total cobertura: criar, junto do p&uacute;blico, a convic&ccedil;&atilde;o de que aquilo era mesmo um antro de inimigos da Igreja! Pois se at&eacute; j&aacute; nem tinham confian&ccedil;a neles para lhes deixarem transmitir coisas das igrejas&#8230; Pois olhe, fizemos ent&atilde;o bel&iacute;ssimos programas religiosos sobre Maria e o Esp&iacute;rito Santo. O da Solenidade do Pentecostes, por exemplo, durou uma hora. Ainda o guardo e projeto de vez em quando, pois mais tarde reduzi a sua dura&ccedil;&atilde;o e remontei-o para montagem audiovisual com slides.<\/p>\n<p>A prop&oacute;sito, lembro uma atitude vertical do senhor Dom Ant&oacute;nio Ferreira Gomes: ao serem proibidas as transmiss&otilde;es da S&eacute; de Lisboa, na Semana Santa desse ano, pela mesma raz&atilde;o, ele disponibilizou a S&eacute; do Porto. Com isto, julgo que deu uma grande prova de intelig&ecirc;ncia e de liberdade. At&eacute; porque soube aproveitar muito bem a ocasi&atilde;o para fazer uma catequese a todo o pa&iacute;s sobre os acontecimentos da &eacute;poca. Sem oportunismos, pois foi bastante duro. Sugiro que procure essas homilias, por exemplo no jornal <em>A Voz Portucalense<\/em>, porque foram memor&aacute;veis e v&ecirc;m muito a prop&oacute;sito para o seu tema sobre &laquo;A Igreja e a Revolu&ccedil;&atilde;o&raquo;.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Houve ou n&atilde;o uma pol&iacute;tica de saneamentos na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a depois do 25 de Abril? Quem os praticou e a quem se dirigiam?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o sei se houve ou n&atilde;o uma &ldquo;pol&iacute;tica de saneamentos&rdquo;; mas, atendendo &agrave; forma como o novo Conselho de Ger&ecirc;ncia entrou em a&ccedil;&atilde;o, fic&aacute;mos convencidos de que houve essa inten&ccedil;&atilde;o, nalguns casos, por muito que a tentassem disfar&ccedil;ar sob o nome de testes &ldquo;psicot&eacute;cnicos&rdquo;. Lembro que esses testes foram impostos a um grupo de trabalhadores (os padres n&atilde;o est&aacute;vamos inclu&iacute;dos nesse grupo) integrados na esta&ccedil;&atilde;o no per&iacute;odo subsequente a abril de 1974, ap&oacute;s terem cumprido o est&aacute;gio que era habitual fazer, na altura. E por terem feito com aprova&ccedil;&atilde;o esse est&aacute;gio &eacute; que se recusaram a fazer tais testes. Por seu lado, o Conselho de Ger&ecirc;ncia n&atilde;o reconheceu &agrave; Comiss&atilde;o de Gest&atilde;o compet&ecirc;ncia para ter procedido a essas admiss&otilde;es, come&ccedil;ando a enviar cartas de despedimento aos trabalhadores que recusaram fazer os testes. De facto, esses testes n&atilde;o pretendiam apurar a sua compet&ecirc;ncia profissional (j&aacute; testada no est&aacute;gio, sob os respons&aacute;veis dos respetivos setores, como era costume fazer-se at&eacute; ent&atilde;o, ali e nas outras esta&ccedil;&otilde;es), mas apenas ideol&oacute;gica. Algumas perguntas neles inclu&iacute;das permitiam induzi-lo.<\/p>\n<p>Mas devo lembrar, tamb&eacute;m, que os pr&oacute;prios trabalhadores &ldquo;sanearam&rdquo; alguns colegas mais qualificados e at&eacute; posicionados &ldquo;&agrave; esquerda&rdquo;. Eu pr&oacute;prio votei a favor de alguns desses &ldquo;saneamentos&rdquo;, em assembleias at&eacute; altas horas da madrugada. E embora n&atilde;o o fiz&eacute;ssemos por motivos ideol&oacute;gicos, isso prova que o esp&iacute;rito dos trabalhadores n&atilde;o era o que o Conselho de Ger&ecirc;ncia transmitiu para o exterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Sensivelmente desde maio de 1974, os trabalhadores assumiram as fun&ccedil;&otilde;es da sua pr&oacute;pria representa&ccedil;&atilde;o e de negocia&ccedil;&atilde;o, perante a entidade patronal. Teve conhecimento da inger&ecirc;ncia de estruturas sindicais ou de for&ccedil;as pol&iacute;tico&#8209;partid&aacute;rias na mobiliza&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Concretamente, n&atilde;o me recordo; mas acho natural que houvesse tais &ldquo;inger&ecirc;ncias&rdquo;, em sentido amplo, que eu entendo mais como consulta e apoio, pois tamb&eacute;m as houve de membros e grupos da Igreja. Em qualquer processo em que est&atilde;o em jogo direitos, por exemplo, &eacute; normal as duas partes em lit&iacute;gio terem os seus advogados e representantes sindicais. &Eacute; essa a sua finalidade. Ali&aacute;s, um dos membros do Conselho de Ger&ecirc;ncia era advogado. Mas, n&atilde;o saberia dizer qual a fam&iacute;lia pol&iacute;tico-partid&aacute;ria da maioria desses conselheiros ou apoiantes. Certamente, n&atilde;o eram apenas de uma sensibilidade ideol&oacute;gica, pois as pessoas envolvidas eram bastante plurais nesse aspeto. <strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Na media&ccedil;&atilde;o do conflito entre os trabalhadores e a entidade patronal, a Junta de Salva&ccedil;&atilde;o Nacional (JSN), o MFA e ainda delegados dos Minist&eacute;rios do Trabalho e da Comunica&ccedil;&atilde;o Social foram solicitados a intervir. Como &eacute; que essas entidades atuavam? Favoreciam de algum modo alguma das partes?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Umas vezes apareciam l&aacute; pelos Est&uacute;dios, falando com uns e com outros informalmente; outras vezes, reuniam com os representantes dos trabalhadores. Como n&atilde;o pertencia a nenhuma comiss&atilde;o dessas, n&atilde;o tinha trato privilegiado com eles. S&oacute; umas duas vezes nos reunimos todos. Uma vez que outra aconselharam-nos nalguns passos, ou porque nos apoiavam, ou porque pretendiam esvaziar a agressividade que pudesse transparecer num comunicado, fruto da tens&atilde;o em que se vivia l&aacute; dentro. Um de que me recordo especialmente, e fez l&aacute; um bom papel de apoio e apaziguamento, foi o capit&atilde;o Santa Clara Gomes. A partir de certa altura acho que se sentiram todos ultrapassados, ou sobrepunham-se, ou contrapunham-se uns aos outros, talvez porque representavam, tamb&eacute;m, setores e interesses diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>As manifesta&ccedil;&otilde;es de solidariedade com as posi&ccedil;&otilde;es dos trabalhadores e da equipa sacerdotal foram-se sucedendo, ao longo do processo. A sua organiza&ccedil;&atilde;o foi espont&acirc;nea ou existiram contactos no sentido de se reunirem apoios para a causa que defendiam? De quem partiam esses apoios, e de que forma se faziam sentir?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Muitas e muitas foram espont&acirc;neas: ouvintes dos nossos programas, colegas, movimentos, institutos religiosos&#8230; As paredes de uma das cabinas, logo &agrave; entrada &agrave; esquerda, estavam cobertas de telegramas, cart&otilde;es, mensagens de todo o pa&iacute;s. Quando estivemos em greve de sil&ecirc;ncio chegavam, inclusivamente, alguns apoios em dinheiro, que entreg&aacute;vamos aos colegas com maiores dificuldades. Como disse antes, houve a natural solidariedade dos sindicatos e, em certa fase do processo, alguns encontros com os seus representantes.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Em entrevista concedida ao jornal Nova Terra, em 24 de junho de 1975, o Pe. Ant&oacute;nio Rego afirmou: <\/em><\/strong><strong>&laquo;Pela nossa parte <\/strong>[entenda-se: equipa sacerdotal], <strong>algumas tentativas de di&aacute;logo foram feitas, quer com o senhor cardeal Patriarca, quer com crist&atilde;os, militantes sinceros da Igreja de Cristo, convencidos de que era poss&iacute;vel resolver esta quest&atilde;o.&raquo;<em> Que tipo de iniciativas foram essas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com o senhor cardeal Patriarca, j&aacute; disse. Houve um grupo de sacerdotes, dos mais considerados no Patriarcado, que se dispuseram a mediar a causa e convocaram a equipa para um encontro de esclarecimento total no sal&atilde;o da igreja de S&atilde;o Nicolau, na baixa de Lisboa. Assim de repente lembro os padres Jos&eacute; Mendes Serrazina, Armindo Duarte, Jos&eacute; de Freitas, Jos&eacute; Carlos de Sousa, Jardim Gon&ccedil;alves, Alberto Neto (assassinado), Ant&oacute;nio Janela, Miguel Ponces de Carvalho, entre outros&#8230; A media&ccedil;&atilde;o que tentaram junto do senhor Patriarca parece n&atilde;o ter tido grande efeito. N&atilde;o sei se foi a partir da&iacute; que o c&oacute;nego Jo&atilde;o Alves (hoje bispo resignat&aacute;rio de Coimbra), foi escolhido como seu delegado.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m houve leigos que, a t&iacute;tulo individual, nos convocaram para sua casa, a fim de se ver o que poderia ser feito para dignificar a Igreja e as pessoas nesse processo. Espero n&atilde;o ser indiscreto se revelar duas delas, muito estim&aacute;veis: a doutora Manuela Silva e o engenheiro Sid&oacute;nio Paes. E v&aacute;rias pessoas iam ter connosco aos Est&uacute;dios, durante o dia, sobretudo durante a greve de sil&ecirc;ncio total entre 4 de fevereiro e 11 de mar&ccedil;o de 75, para fazermos o ponto da situa&ccedil;&atilde;o e refletirmos, com seriedade e &agrave; luz do Evangelho, o sentido da nossa presen&ccedil;a e dos nossos passos.<\/p>\n<p>Outras pessoas, algumas j&aacute; falecidas, discordavam de n&oacute;s e diziam-no pessoalmente ou por escrito, com toda a liberdade. Ainda guardo cartas dessas. Eu tinha a solidariedade dos meus Superiores (ali&aacute;s, nesse per&iacute;odo, era Conselheiro do Ministro Provincial); mas sabia que eles ficariam contentes se eu me retirasse espontaneamente do processo. Claro que, dada a nossa forma de vida em fraternidade, a minha sobreviv&ecirc;ncia n&atilde;o dependia tanto daquele emprego como a de outros colegas; mas at&eacute; por isso eu achava que n&atilde;o seria honesto nem pobre, se desistisse. Houve confrades meus que foram a manifesta&ccedil;&otilde;es contra os trabalhadores da RR. Respeitava-os, como eles me respeitavam. Em junho tivemos o nosso Cap&iacute;tulo Provincial, onde aproveitei para dar contas de tudo e p&ocirc;r um ponto final nessa fase da minha vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Que an&aacute;lise fazia, na &eacute;poca, da interven&ccedil;&atilde;o da Igreja Cat&oacute;lica na sociedade portuguesa?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Ao falar de Igreja Cat&oacute;lica, temos sempre que entender <em>todos<\/em> os batizados que se assumem como membros correspons&aacute;veis do Corpo de Cristo, o qual ultrapassa a mera estrutura ou institui&ccedil;&atilde;o mais vis&iacute;vel &agrave; opini&atilde;o p&uacute;blica. A sua miss&atilde;o na sociedade &eacute; serem sal, fermento, luz, sinal de um sentido para a vida. &Eacute; atrav&eacute;s disto que a Igreja deve &ldquo;intervir&rdquo;. A vida dos crist&atilde;os, com um humanismo de qualidade inspirado na rela&ccedil;&atilde;o de Jesus com as pessoas, &eacute; que h&aacute; de ser a grande energia transformadora do mundo ou a grande prova de verdade que leve os outros a crerem no mesmo Deus. Acho que a Igreja, enquanto institui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o deve pretender ser protagonista nem for&ccedil;a paralela &agrave; sociedade ou concorrente com ela, mas apenas viver na fidelidade a Jesus Cristo servindo as pessoas. S&oacute; quando as pessoas estiverem em causa, sejam crist&atilde;s ou n&atilde;o, &eacute; que a Igreja &ndash; em nome de Cristo, que encarnou em cada pessoa &ndash; deve erguer a voz ou intervir diretamente junto dos respons&aacute;veis por esses atropelos. O qual se torna ir&oacute;nico, se pensarmos que, entre n&oacute;s tal como em Espanha e em v&aacute;rios pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina, os principais respons&aacute;veis pela repress&atilde;o dos opositores assumiam-se como &ldquo;cat&oacute;licos praticantes&rdquo; ou &ldquo;anticomunistas&rdquo;, e utilizavam os t&atilde;o criticados m&eacute;todos atribu&iacute;dos por eles aos regimes comunistas.<\/p>\n<p>N&atilde;o custa reconhecer que, antes do 25 de Abril, uma parte da Igreja &ndash; a chamada hierarquia &ndash; muitas vezes n&atilde;o denunciou claramente os carrascos de tantas pessoas, nem apoiou os crist&atilde;os leigos, padres e at&eacute; bispos que, em nome da sua f&eacute;, se empenharam corajosamente na mudan&ccedil;a das estruturas opressoras. Mas tamb&eacute;m conhecemos momentos significativos em que o fizeram. Pessoalmente, sempre lamentei o sil&ecirc;ncio de uma Confer&ecirc;ncia Episcopal inteira, nalguns casos, pois n&atilde;o acredito que todos os bispos fossem expatriados ou que a Igreja fosse perseguida por isso. Refiro-me, por exemplo, &agrave; expatria&ccedil;&atilde;o de Dom Ant&oacute;nio Ferreira Gomes e &agrave; expuls&atilde;o de Mo&ccedil;ambique, em mar&ccedil;o, de 1974, do Bispo de Nampula, Dom Manuel Vieira Pinto.<\/p>\n<p>Lembro-me de ter dado essa not&iacute;cia &agrave;s pessoas no Calhariz de Benfica, em 27 de abril seguinte (dois dias depois da revolu&ccedil;&atilde;o), na Eucaristia das 19 horas, que nesse dia do m&ecirc;s tinha sempre uma inten&ccedil;&atilde;o por Ant&oacute;nio de Oliveira (o Doutor Salazar). Li, ent&atilde;o, o Comunicado da Confer&ecirc;ncia Episcopal de Mo&ccedil;ambique, antes proibido pela censura. Alguns dos amigos de Salazar sa&iacute;ram da igreja, mas ouvi a governanta Dona Maria de Jesus, nossa paroquiana, repreend&ecirc;-los no final, c&aacute; fora, dizendo que o senhor padre tamb&eacute;m tinha dito umas coisas que eles gostariam de ouvir. Eu tinha dito que era demais a Junta chamar-se <em>de Salva&ccedil;&atilde;o<\/em> Nacional, pois de fosse <em>de Liberta&ccedil;&atilde;o<\/em> j&aacute; era bom; e que nos mantiv&eacute;ssemos atentos para, &agrave;s tantas, n&atilde;o estarmos ainda a aplaudir como salvadores os que j&aacute; nos tinham posto de novo uma bota em cima da cabe&ccedil;a. Foi assim textual, porque naquela altura escrevia sempre as homilias por extenso e certas partes eram mesmo lidas para maior precis&atilde;o.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s a revolu&ccedil;&atilde;o assisti a tr&ecirc;s das chamadas &ldquo;Assembleias de Crist&atilde;os&rdquo;, duas em Lisboa e uma no Porto. Numa das de Lisboa, em que tamb&eacute;m se falou da RR, esteve o cardeal Patriarca, que ficou de convocar a seguinte&#8230; at&eacute; hoje. Ali foram feitas den&uacute;ncias e pedidas contas. Ficou famosa, depois, a express&atilde;o do bispo do Porto, acerca dos crist&atilde;os que &ldquo;pedem perd&atilde;o batendo com a m&atilde;o no peito dos outros&rdquo;. Ou seja: todos os crist&atilde;os fomos e somos respons&aacute;veis pelo que a nossa Igreja &eacute;, diz e faz.<\/p>\n<p>Eu fui p&aacute;roco em Lisboa de 1970 a 1973 e sei que de vez em quando havia &ldquo;inspetores&rdquo; ao fundo da igreja, porque as igrejas eram espa&ccedil;os de liberdade. Nas instala&ccedil;&otilde;es paroquiais, um grupo crist&atilde;o refletiu sobre o pa&iacute;s e as formas de interven&ccedil;&atilde;o na coisa p&uacute;blica, a partir de uma corajosa carta pastoral dos bispos no 10&ordm; anivers&aacute;rio da <em>Pacem in terris<\/em>; e as conclus&otilde;es, algumas corajosas, foram publicadas no boletim paroquial. Muitas homilias e alguns boletins paroquiais ou interparoquiais falavam dos problemas em linguagem que os fi&eacute;is entendiam e a PIDE vigiava; na Missa da RTP, as homilias nomeavam os problemas, tanto que o M&aacute;rio Castrim costumava transcrever longos par&aacute;grafos delas no <em>Di&aacute;rio de Lisboa.<\/em> E a A&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica foi uma grande escola de militantes comprometidos.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&atilde;o tenho d&uacute;vidas de que, nas suas muitas frentes e atrav&eacute;s dos v&aacute;rios meios de interven&ccedil;&atilde;o na sociedade (movimentos, escolas, miseric&oacute;rdias, hospitais, creches, centros de dia, lares), a Igreja contribuiu para humanizar e dignificar a vida de muita gente. Esta a&ccedil;&atilde;o social positiva n&atilde;o &eacute; t&atilde;o lembrada e foi certamente mais eficaz do que o seriam meras den&uacute;ncias que, por si s&oacute;s, n&atilde;o iam mudar as situa&ccedil;&otilde;es reais das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Depois do 11 de mar&ccedil;o de 1975, o ministro da Comunica&ccedil;&atilde;o Social reconhecia n&atilde;o ter sido encontrada uma solu&ccedil;&atilde;o para o conflito na R&aacute;dio Renascen&ccedil;a. Alegando que nenhum &oacute;rg&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o social podia funcionar sem que existisse uma entidade respons&aacute;vel pela sua programa&ccedil;&atilde;o, o ministro Correia Jesu&iacute;no nomeou uma Comiss&atilde;o Mista para a Emissora Cat&oacute;lica.&nbsp;<\/em><em>Qual foi a atua&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Mista? Que tipo de rela&ccedil;&otilde;es estabeleceu&nbsp;<\/em><em>a Comiss&atilde;o e a equipa sacerdotal e os trabalhadores?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Que eu saiba, com a equipa sacerdotal enquanto tal, nenhuma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Por diversas vezes, o Executivo aludiu ao projeto de criar uma empresa p&uacute;blica de radiodifus&atilde;o, o que significava assimilar a R&aacute;dio Renascen&ccedil;a.&nbsp;<\/em><\/strong><strong><em>Na &eacute;poca, o que pensava da possibilidade de ser nacionalizada a Emissora Cat&oacute;lica? Como reagiram os trabalhadores a essas propostas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Se significava assimilar a RR, estou certo de que os trabalhadores reagiriam mal. A n&atilde;o ser que a nacionaliza&ccedil;&atilde;o fosse apenas ao n&iacute;vel econ&oacute;mico, e dentro dessa empresa p&uacute;blica houvesse um certo espa&ccedil;o de autonomia para esta&ccedil;&otilde;es diferentes, como acontece com as regi&otilde;es aut&oacute;nomas em rela&ccedil;&atilde;o com o todo nacional. E que, a&iacute;, fosse garantida plena liberdade na programa&ccedil;&atilde;o e total isen&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica por parte do Estado. Mas n&atilde;o seria disso que se tratava, naquela altura&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Em que momento se apercebeu da instrumentaliza&ccedil;&atilde;o do conflito em torno&nbsp;<\/em><\/strong><strong><em>da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a, por parte de for&ccedil;as pol&iacute;tico-partid&aacute;rias?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na parte final, em abril e maio de 75. Mas por pessoas de v&aacute;rias tend&ecirc;ncias e com vis&otilde;es diferentes da Igreja e da sociedade.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Em alguma ocasi&atilde;o foi abordado, enquanto membro da equipa sacerdotal da emissora cat&oacute;lica, por elementos de algum partido pol&iacute;tico?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Nessa qualidade, n&atilde;o. Mas tinha e tenho amigos de todos os partidos. Devo ter falado com eles deste assunto como de outros, mas n&atilde;o na perspetiva de estrat&eacute;gia ou influ&ecirc;ncia partid&aacute;ria. Nunca fui estratego&hellip;<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>No final de maio de 1975, um grupo de trabalhadores denunciava a a&ccedil;&atilde;o inoperante da Comiss&atilde;o Mista e decidia ocupar o Emissor de Benfica. No assalto participariam elementos estranhos &agrave; esta&ccedil;&atilde;o. Foi informado da prepara&ccedil;&atilde;o daquela a&ccedil;&atilde;o de luta pelos trabalhadores, e de alguma forma convidado a integr&aacute;&#8209;la? O que &eacute; que o levou a suspender a sua atividade na emissora? Foi uma decis&atilde;o consent&acirc;nea com a dos outros sacerdotes?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Nesse dia soubemos que a esta&ccedil;&atilde;o iria ser ocupada, porque n&atilde;o fizeram segredo disso. Mas n&atilde;o concord&aacute;mos com a a&ccedil;&atilde;o, porque os trabalhadores n&atilde;o iriam poder controlar o processo segundo as suas raz&otilde;es e objetivos, como at&eacute; ali. Por isso sa&iacute;mos. Antes, n&atilde;o tive conhecimento de que iriam participar elementos estranhos &agrave; esta&ccedil;&atilde;o. E depois, s&oacute; imagino que tenham participado, por alguns programas que a partir da&iacute; come&ccedil;aram a ir para o ar. O Conselho de Ger&ecirc;ncia, como outras entidades patronais, jogou com o tempo, sabendo que a resist&ecirc;ncia f&iacute;sica e a capacidade econ&oacute;mica dos trabalhadores acabaria por dobr&aacute;-los. Foi por isso que alguns dos mais recalcitrantes mudaram de trincheira, antes e depois da separa&ccedil;&atilde;o entre Porto e Lisboa em 27 de maio. E foi por isso que outros ter&atilde;o chegado ao desespero de aderir &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o do Emissor.&nbsp;<\/p>\n<p>A minha atividade na Emissora, tal como a dos outros padres que trabalhavam nos Est&uacute;dios de Lisboa, cessou nesse dia por vontade pr&oacute;pria. No notici&aacute;rio das 19 horas, quando os trabalhadores de Lisboa resolveram ocupar o Emissor na Buraca, os do Porto &ndash; at&eacute; ali com pouca programa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, e a quem o Conselho de Ger&ecirc;ncia tinha ido aliciando com uma progressiva autonomia &ndash; cortaram a emiss&atilde;o e passaram a transmitir independentemente a partir dos Est&uacute;dios do Porto. O padre Carlos Capucho estava ausente do pa&iacute;s; o padre Rego e eu encontr&aacute;mo-nos no convento dos Capuchinhos, no Calhariz de Benfica, e dali telefon&aacute;mos ao padre Eloy, que trabalhava nos Est&uacute;dios do Porto. Dissemos-lhe que &iacute;amos suspender a nossa colabora&ccedil;&atilde;o, pois o processo, a partir dali, tornava-se imprevis&iacute;vel. Ele respondeu que, uma vez que estava no Porto e tinha entrado para a equipa com o aval do seu bispo (Dom Ant&oacute;nio Ferreira Gomes), que n&atilde;o lhe tinha retirado a confian&ccedil;a, e uma vez que os trabalhadores do Porto se tinham separado dos de Lisboa, continuava naturalmente onde estava. Ach&aacute;mos mutuamente que ambas as posi&ccedil;&otilde;es estavam certas.<\/p>\n<p>E ali mesmo, o padre Rego e eu redigimos um texto (ainda guardo o original com emendas, e a c&oacute;pia definitiva) em que, resumidamente, diz&iacute;amos: at&eacute; hoje sempre estivemos solid&aacute;rios com os trabalhadores e recebemos deles todo o apoio, sem qualquer interfer&ecirc;ncia ou limita&ccedil;&atilde;o ao nosso trabalho; mas, a partir do momento em que pessoas estranhas &agrave; esta&ccedil;&atilde;o v&atilde;o interferir na sua vida, a nossa presen&ccedil;a e mensagem pode tornar-se amb&iacute;gua. Por isso, suspendemos a programa&ccedil;&atilde;o ao nosso encargo. E diz&iacute;amos o nome de todos os programas &agrave; nossa responsabilidade, que cessavam naquele dia. Volt&aacute;mos aos Est&uacute;dios e demos conta da nossa posi&ccedil;&atilde;o aos trabalhadores. Tentaram demover-nos, garantindo todo o apoio e respeito, mas seguimos em frente: no tempo destinado ao <em>Esquema 13 <\/em>dessa noite, o padre Rego e eu lemos o texto alternadamente e despedimo-nos dos ouvintes. N&atilde;o voltei mais a entrar naqueles Est&uacute;dios, at&eacute; hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Que diz da manifesta&ccedil;&atilde;o e contramanifesta&ccedil;&atilde;o de junho de 1975 em frente ao Patriarcado de Lisboa?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>J&aacute; tinha deixado a esta&ccedil;&atilde;o, em 27 de maio, e a partir dessa data sa&iacute; totalmente daquele filme. Tinham sido meses muito duros. Por isso, n&atilde;o estive de nenhum dos lados da barricada, nem sei qual o envolvimento efetivo dos reais trabalhadores da RR nesse ato. Ouvi dizer que fizeram confluir para l&aacute; outra manifesta&ccedil;&atilde;o de trabalhadores, salvo erro da LISNAVE. E a&iacute; j&aacute; havia &oacute;dios contra a Igreja que nada tinham a ver com a causa dos trabalhadores da RR, pois alguns, como n&oacute;s, tamb&eacute;m j&aacute; tinham ido saltando do comboio em marcha. Mas, como n&oacute;s previmos ao sair, as coisas tinham-se baralhado e descontrolado irremediavelmente, com militantes cat&oacute;licos cheios de boa vontade a esbracejarem com o Evangelho naquele p&acirc;ntano da programa&ccedil;&atilde;o, como Cam&otilde;es no meio do naufr&aacute;gio tentando salvar os <em>Lus&iacute;adas<\/em>. Criaram, mesmo, um Programa intitulado &ldquo;O Evangelho &eacute; uma arma&rdquo;&#8230;<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Depois da sua sa&iacute;da da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a, mesmo n&atilde;o sendo j&aacute; trabalhador da esta&ccedil;&atilde;o, continuou ou n&atilde;o a intervir no processo?<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Desliguei-me completamente dele. At&eacute; porque, em junho, os Capuchinhos decidimos investir de forma intensa no apostolado b&iacute;blico, para ajudar os crist&atilde;os a fazerem a leitura da situa&ccedil;&atilde;o &agrave; luz da Palavra de Deus e a manter-se firmes na f&eacute; perante um certo desmoronamento do contexto familiar e social anterior, mais prop&iacute;cio &agrave; pr&aacute;tica religiosa. E eu fui escolhido para constituir uma equipe a tempo inteiro, que percorreu o pa&iacute;s nesse trabalho at&eacute; maio de 1978, ano em que me foi concedido um tempo sab&aacute;tico em Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Pendentes ficaram, como disse, uns vinte e tal contos que o Conselho de Ger&ecirc;ncia nunca me pagou. E o facto de continuarem com o t&iacute;tulo e formato do <em>Palavra do Dia<\/em>, um exclusivo meu (apenas apondo um <em>A<\/em> = A <em>Palavra do Dia<\/em>). Algu&eacute;m, depois, at&eacute; chegou a publicar um livro com esse t&iacute;tulo e tudo. Como s&atilde;o diferentes os direitos em Portugal!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Que leitura fez da decis&atilde;o de se destruir &agrave; bomba o Centro Emissor da Buraca, no dia 7 de novembro de 1975?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Acho que foi a forma de resolver um problema pela raiz, &agrave; moda da &eacute;poca. Basta lembrar que se estava apenas a 18 dias do &ldquo;25 de novembro&rdquo;. Com a crise de autoridade de ent&atilde;o, o Governo ter&aacute; entendido que a &uacute;nica forma de calar os trabalhadores era &ldquo;desligar-lhes&rdquo; o microfone. Para a Igreja, enquanto propriet&aacute;ria, acho que tamb&eacute;m foi bom: o caso prestou-se para a dramatiza&ccedil;&atilde;o social, ganhou um Emissor novo e p&ocirc;de lan&ccedil;ar campanhas de angaria&ccedil;&atilde;o de fundos e de s&oacute;cios, dizendo &agrave;s pessoas que &ldquo;agora&rdquo; a RR era verdadeiramente cat&oacute;lica. Um bispo, ent&atilde;o eleito respons&aacute;vel pela Comiss&atilde;o Episcopal das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais, disse-o numa entrevista ao <em>Nova Terra<\/em>. Nunca percebi porqu&ecirc;, nem qual era o seu tempo e conte&uacute;do de compara&ccedil;&atilde;o. O outro &ldquo;antes&rdquo; n&atilde;o era, com certeza, o imediatamente anterior, ou seja, o da presen&ccedil;a da equipa sacerdotal de que fiz parte.<\/p>\n<p>A prop&oacute;sito, a 10 de novembro o &ldquo;Conselho de Ger&ecirc;ncia da empresa&rdquo; enviou a todos os P&aacute;rocos e Superiores religiosos um Comunicado de que tenho c&oacute;pia. Nele, come&ccedil;a por colar-se &agrave;s &ldquo;autoridades da Igreja&rdquo; (n&ordm; 1) e termina falando em nome da &ldquo;consci&ecirc;ncia dos cat&oacute;licos&rdquo; (n&ordm; 4), misturando assim estruturas de ger&ecirc;ncia, poder ou autoridade com n&iacute;veis de consci&ecirc;ncia e f&eacute;, como sempre fez em todo o processo. Ao l&ecirc;-lo, algu&eacute;m &eacute; capaz de pensar que aquele &ldquo;grupo minorit&aacute;rio de trabalhadores e elementos estranhos&rdquo; (n&ordm; 2) que ent&atilde;o ocupavam os Est&uacute;dios de Lisboa e o Centro Emissor na Buraca era o mesmo do tempo em que o processo tinha outros contornos e razoabilidade. Mas, s&oacute; por acaso, desespero, fatalidade ou mesmo ideologia num contexto diferente &eacute; que alguns eram os mesmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Na sua opini&atilde;o, o que simbolizou e que impacte teve o projeto da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a, enquanto meio de comunica&ccedil;&atilde;o social da Igreja Cat&oacute;lica, na sociedade portuguesa entre 1974-1976?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>S&oacute; respondo at&eacute; 27 de maio de 1975. Nesse per&iacute;odo, acho que a RR foi, mesmo, aquilo que os trabalhadores lhe chamavam:<em> A Emissora da Liberdade<\/em>. Porque a luta que outros queriam que a Igreja tivesse feito contra as opress&otilde;es do Estado totalit&aacute;rio anterior, trav&aacute;mo-la n&oacute;s ali, noutro &acirc;mbito e contra outro poder que at&eacute; jogava com as consci&ecirc;ncias, sem sair da Igreja. E isso foi muito mais dif&iacute;cil e doloroso do que possa pensar quem est&aacute; fora da Igreja. Era quase um suic&iacute;dio. Muitas vezes eu dizia, meio a brincar, quando os colegas trabalhadores redigiam alguns comunicados: &laquo;Voc&ecirc;s nem imaginam com quem se est&atilde;o a meter!&raquo; E eu pr&oacute;prio dei a volta a par&aacute;grafos inteiros, para que as palavras ouvidas c&aacute; fora correspondessem ao esp&iacute;rito com que se vivia l&aacute; dentro. Tive, ali, toda a compreens&atilde;o viva desta palavra de Cristo: &laquo;Se permanecerdes fi&eacute;is &agrave; minha mensagem, sereis verdadeiramente meus disc&iacute;pulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornar&aacute; livres&raquo; (<em>Jo<\/em> 8,31-32). S&oacute; com f&eacute; e amor &agrave; Igreja &ndash; apesar de tudo &ndash; &eacute; que os cat&oacute;licos assumidos como tais sa&iacute;mos do processo de consci&ecirc;ncia livre e leve.<\/p>\n<p>Por outro lado, foi um espelho dos sonhos e das tens&otilde;es ou sensibilidades diferentes da &eacute;poca. &Agrave; luz deste processo, foi poss&iacute;vel perceber muitas contradi&ccedil;&otilde;es e ambiguidades que atravessavam a Igreja e o pa&iacute;s de ent&atilde;o, aos v&aacute;rios n&iacute;veis. A Igreja sentiu-se interpelada e teve ocasi&atilde;o para tomar consci&ecirc;ncia de si, do que era fundamental na sua identidade (sem se deixar iludir pelos n&uacute;meros estat&iacute;sticos dos seus fi&eacute;is, nem sempre acompanhados pelas convic&ccedil;&otilde;es e pela vida de f&eacute;), na a&ccedil;&atilde;o que devia desempenhar e na (in)adequa&ccedil;&atilde;o dos meios e m&eacute;todos entre a sua voca&ccedil;&atilde;o e a sua miss&atilde;o. Talvez um certo triunfalismo de vit&oacute;ria, no desfecho do processo, tenha feito perder uma boa oportunidade para ir mais longe e mais fundo na convers&atilde;o desej&aacute;vel.<\/p>\n<p>Em nome do Evangelho, lamento a forma como os meus dois colegas de Lisboa foram segregados em seguida. Quanto a mim, recordo-lhe um epis&oacute;dio elucidativo. Ao nascer o jornal <em>Nova Terra<\/em>, a diretora indigitada, Maria de Lourdes Belchior, convidou-me para fazer uma coluna do g&eacute;nero <em>Palavra do Dia<\/em> relativa &agrave;s Leituras dominicais, pois gostava desse meu programa na RR &ndash; disse. Preveni-a de que, naquele momento, provavelmente eu era uma &ldquo;persona non grata&rdquo; para o senhor Patriarca. Respondeu-me que o senhor Patriarca lhe tinha dado carta branca para convidar os colaboradores que entendesse. Na sess&atilde;o de apresenta&ccedil;&atilde;o, na Casa de Retiros Bom Pastor, &agrave; Buraca, sob a presid&ecirc;ncia do senhor Patriarca, a Maria de Lourdes apresentou-me tamb&eacute;m e referiu-se &agrave; colabora&ccedil;&atilde;o que me tinha pedido. No final, disse-me qual a data do primeiro n&uacute;mero e que o padre Doutor Fernando Crist&oacute;v&atilde;o, Chefe da Reda&ccedil;&atilde;o, me contactaria quanto ao prazo de entrega do primeiro trabalho. Ainda estou &agrave; espera desse contacto ou de qualquer explica&ccedil;&atilde;o, que at&eacute; seria simples. Pois, se eu pr&oacute;prio a tinha antecipado &agrave; Maria de Lourdes! Claro que a coluna foi ocupada por outro. N&atilde;o me d&oacute;i o facto em si, porque at&eacute; me deixou mais livre para o trabalho b&iacute;blico itinerante que ent&atilde;o assumira; d&oacute;i-me &eacute; a falta de qualidade humana e de respeito pelas pessoas que lhe est&aacute; subjacente e que foi uma constante ao longo de todo o processo da RR. E repare que, a outros n&iacute;veis, eu continuava a ter a confian&ccedil;a do senhor Patriarca, pois era ele que assinava a minha licen&ccedil;a para celebrar, confessar e pregar; e continuei a ser diretor da revista <em>B&iacute;blica<\/em> at&eacute; 1978&#8230; e depois, durante mais doze anos.<\/p>\n<p>No que respeita &agrave; programa&ccedil;&atilde;o religiosa, esse per&iacute;odo da RR foi um marco: os n&iacute;veis de exig&ecirc;ncia e pluralismo a que se tinha chegado, criaram nos ouvintes a convic&ccedil;&atilde;o de que era poss&iacute;vel tratar a religi&atilde;o como boa-nova a merecer destaque de primeira p&aacute;gina. [&hellip;]<\/p>\n<p>Sei &eacute; que muita gente confundiu ou misturou intencionalmente coisas diferentes, naquele processo. N&atilde;o acho que os padres da equipa estiv&eacute;ssemos nesse n&uacute;mero, embora algumas pessoas, incluindo colegas meus (ainda guardo as cartas!), dissessem que t&iacute;nhamos entregue a R&aacute;dio Renascen&ccedil;a aos comunistas.<\/p>\n<p>Digo com toda a convic&ccedil;&atilde;o: embora, para n&oacute;s, a luta fosse laboral e n&atilde;o ideol&oacute;gica, a nossa presen&ccedil;a l&aacute; dentro at&eacute; ao momento sustent&aacute;vel acabou por ser um dos maiores impedimentos para que certas for&ccedil;as pol&iacute;ticas n&atilde;o tomassem, mais cedo, atitudes extremadas que teriam muito provavelmente apoio de setores militares dominantes. E quando o fizeram, a pr&oacute;pria degenera&ccedil;&atilde;o do processo permitiu desmascar&aacute;-los com facilidade.<\/p>\n<p>Por isso, ainda hoje estou de consci&ecirc;ncia tranquila. E creio que esse foi o per&iacute;odo da minha vida em que me senti verticalmente mais homem e radicalmente mais fiel ao Evangelho e &agrave; minha voca&ccedil;&atilde;o franciscana. E ao meu sacerd&oacute;cio. Dentro da Igreja e como Igreja &ndash; sublinho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lopes Morgado, frade franciscano capuchinho, trabalhou na R\u00e1dio Renascen\u00e7a entre 1970 e 1975. At\u00e9 maio de 1974 como colaborador externo; a partir dessa data, fazendo parte do quadro da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[92,100,122,124,127,168,171,174,184,187,189,203,272,308,314],"class_list":["post-55970","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-25-de-abril","tag-advento","tag-brasil","tag-capuchinhos","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-beja","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-de-viseu","tag-diocese-do-porto","tag-direitos-humanos","tag-europa","tag-pacem-in-terris","tag-semana-santa","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55970","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55970"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55970\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}