{"id":55943,"date":"2012-04-03T12:46:10","date_gmt":"2012-04-03T12:46:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/04\/03\/a-radio-tem-futuro\/"},"modified":"2012-04-03T12:46:10","modified_gmt":"2012-04-03T12:46:10","slug":"a-radio-tem-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-radio-tem-futuro\/","title":{"rendered":"A R\u00e1dio tem futuro?"},"content":{"rendered":"<p>Manuel Pinto, Centro de Estudos de Comunica\u00e7\u00e3o e Sociedade, Universidade do Minho <!--more--> <\/p>\n<p>&Eacute; com muito gosto que correspondo ao convite da Ecclesia para escrever a prop&oacute;sito dos 75 anos de vida da R&aacute;dio Renascen&ccedil;a. Devo dizer que n&atilde;o tenho qualquer credencial espec&iacute;fica que me habilite a falar desta R&aacute;dio, a n&atilde;o ser uma j&aacute; razo&aacute;vel experi&ecirc;ncia de vida e uma proximidade que n&atilde;o foi sempre linear.<\/p>\n<p>A entrada do primeiro aparelho de r&aacute;dio na casa de meus pais aconteceu quando eu teria os meus oito ou nove anos. Um emigrante na Venezuela quis desfazer-se de um aparelho velho e o meu pai comprou-o. Eu e os meus irm&atilde;os fizemos dele gato sapato, explorando, nas horas em que fic&aacute;vamos entregues a n&oacute;s pr&oacute;prios, n&atilde;o apenas os canais de onda m&eacute;dia e onda curta, mas a pr&oacute;pria caixa, arranjando modo de desmontar a tampa de tr&aacute;s. Naqueles princ&iacute;pios dos anos 60, longe de televis&otilde;es e outras formas de acesso ao mundo global, aquilo era uma pequena maravilha carregada de mist&eacute;rios. Desde logo o mist&eacute;rio que consistia em saber como entrava ali e como sa&iacute;a a voz das pessoas e a m&uacute;sica. Nesses tempos inaugurais de explora&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica do mundo, a Renascen&ccedil;a era presen&ccedil;a obrigat&oacute;ria l&aacute; em casa: se n&atilde;o fosse por iniciativa dos mais pequenos, era por influ&ecirc;ncia da autoridade paterna.<\/p>\n<p>Durante bastantes anos entendi que esta esta&ccedil;&atilde;o e esta empresa se havia tornado uma emissora comercial como as outras, apenas salpicada de uns programas religiosos. Um dia tive mesmo um pequeno desaguisado com um dos seus respons&aacute;veis, por me ter atrevido a dizer isso mesmo num encontro de crist&atilde;os. Hoje esse aspeto, ligado com a identidade cat&oacute;lica dos canais, continua a preocupar-me, mas n&atilde;o serei talvez t&atilde;o contundente na cr&iacute;tica, consciente que estou da dificuldade de manter de p&eacute; um projeto desta envergadura e com esta diversidade. De resto, com o panorama medi&aacute;tico que se tem vindo a configurar, cada vez mais submetido &agrave; l&oacute;gica mercantil ou ent&atilde;o enleado nos debates sobre o controlo partid&aacute;rio e governamental, &eacute; salutar a exist&ecirc;ncia de uma voz aut&oacute;noma, que n&atilde;o abdica da sua identidade nem dos valores fundamentais a que se referencia. Mais ainda quando a isso procura juntar a capacidade de inova&ccedil;&atilde;o e de resposta aos novos desafios do digital. Foi por tudo isto que o Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade da Universidade do Minho, a que estou ligado, se associou, j&aacute; em setembro &uacute;ltimo, ao Conselho de Ger&ecirc;ncia da r\/com, para evocar em Braga estas bodas de diamante. Foi um primeiro momento em que a Universidade e a Empresa deram as m&atilde;os, valorizando-se reciprocamente.<\/p>\n<p>Mas ser&aacute; que a r&aacute;dio tem futuro? Qual poder&aacute; ser o seu lugar, num tempo em que o mono-m&eacute;dia d&aacute; cada vez mais lugar ao multim&eacute;dia? A resposta a tais perguntas n&atilde;o &eacute; nem f&aacute;cil nem linear. Em anos recentes, acompanhei de perto quer a elabora&ccedil;&atilde;o de uma tese de doutoramento sobre este assunto quer um estudo de p&oacute;s-doutoramento de uma acad&eacute;mica brasileira nesta &aacute;rea. Nos dois casos fiquei com a perce&ccedil;&atilde;o de que, qualquer que seja o seu futuro, a r&aacute;dio tem futuro. Mesmo que com caracter&iacute;sticas e formatos que hoje n&atilde;o conhecemos ainda. Combinando-se com outras linguagens e outros media? Abrindo-se mais &agrave;quele sonho que Brecht teve, em 1926, de um meio n&atilde;o apenas de distribui&ccedil;&atilde;o, mas de comunica&ccedil;&atilde;o, que fale, mas tamb&eacute;m escute, que leve mensagens, mas tamb&eacute;m d&ecirc; voz &agrave;s pessoas? Que lugar poder&aacute; ter aquela sugest&atilde;o de McLuhan da r&aacute;dio como meio capaz de resgatar o sentido de comunidade? Enfim, este &eacute; um leque de preocupa&ccedil;&otilde;es que mostram que projetar o futuro da r&aacute;dio est&aacute; longe de ser um mero problema de adapta&ccedil;&atilde;o ou inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e que, tamb&eacute;m por isso mesmo, n&atilde;o depende apenas dos seus profissionais ou dos engenheiros. A pr&oacute;pria sociedade, n&oacute;s todos precisamos de redescobrir o valor da interioridade, da resson&acirc;ncia e da escuta, o que s&oacute; se faz com o sil&ecirc;ncio e com tempos de rutura com a profus&atilde;o encandeadora das imagens e dos ru&iacute;dos do ambiente.<\/p>\n<p>Se me &eacute; permitido formular um desejo, eu gostava de ver (e ouvir) a Renascen&ccedil;a explorar estas pistas, tirando o m&aacute;ximo partido das tecnologias mais avan&ccedil;adas. Se &eacute; verdade que &ldquo;s&oacute; se v&ecirc; bem com o cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, como apontou Saint-Exup&eacute;ry, os seus canais, cada um a seu modo, poderiam atrav&eacute;s da palavra e da m&uacute;sica, procurar tocar mais o cora&ccedil;&atilde;o das pessoas, de modo a que n&atilde;o s&oacute; oi&ccedil;am melhor mas vejam tamb&eacute;m melhor e mais longe. Isso faz-nos cada vez mais falta.<\/p>\n<p><em>Manuel Pinto, CECS &#8211; Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade\/Communication &amp; Society Research Centre, Universidade do Minho<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Pinto, Centro de Estudos de Comunica\u00e7\u00e3o e Sociedade, Universidade do Minho<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[122,172],"class_list":["post-55943","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-brasil","tag-diocese-de-braga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55943"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55943\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}