{"id":5585,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-silencio-do-cristo-da-paixao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-silencio-do-cristo-da-paixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-silencio-do-cristo-da-paixao\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio do Cristo da Paix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1 patente ao p\u00fablico na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, na chamada Ala Carlos Magno, que liga a colunata de Bernini \u00e0 bas\u00edlica, uma Exposi\u00e7\u00e3o de fotografias de Robert Hupka sobre a Piet\u00e0 de Miguel \u00c2ngelo, esculpida pelo artista em 1499, com 24 anos apenas, a partir de um bloco \u00fanico de m\u00e1rmore de Carrara. Pela primeira vez se apresenta em Roma, a dois passos do original (colocado \u00e0 entrada da bas\u00edlica), esta Mostra, j\u00e1 anteriormente organizada em Paris e noutras capitais europeias. As fotos s\u00e3o todas a preto e branco e remotam a 40 anos atr\u00e1s, quando Paulo VI autorizou a apresenta\u00e7\u00e3o da obra em Nova Iorque, no pavilh\u00e3o da Santa S\u00e9 da Exposi\u00e7\u00e3o Universal de 1964: o fot\u00f3grafo (austr\u00edaco de origem hebraica, naturalizado americano, falecido em 2001), teve ent\u00e3o ocasi\u00e3o de recolher milhares de imagens, em diferentes momentos do dia e da noite, com diversas m\u00e1quinas e variad\u00edssimos pontos de vista (impressionante a ins\u00f3lita foto tirada do alto).  Como revela amplamente esta revisita\u00e7\u00e3o da famosa est\u00e1tua de Cristo repousando morto nos bra\u00e7os de Maria, a beleza formal do conjunto e a fria mat\u00e9ria utilizada em nada diminuem a capacidade expressiva dos rostos, das posi\u00e7\u00f5es, das pregas das vestes. Como sempre acontece nas produ\u00e7\u00f5es de verdadeiros g\u00e9nios, um grande e profundo sil\u00eancio rodeia esta obra, convidando ao recolhimento e \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio de Cristo sofredor e da participa\u00e7\u00e3o de Maria na Paix\u00e3o do seu divino Filho. A inspira\u00e7\u00e3o e a sublimidade da obra condensam-se numa extrema conten\u00e7\u00e3o e simplicidade, que a faz aparecer como um verdadeiro milagre, uma revela\u00e7\u00e3o que toca n\u00e3o s\u00f3 os sentidos mas a alma. \u00c9 significativo o n\u00famero de importantes obras de arte que t\u00eam como tema a Paix\u00e3o de Cristo, n\u00e3o s\u00f3 na escultura e na pintura, mas tamb\u00e9m na m\u00fasica e na literatura, e at\u00e9 mesmo no teatro e no cinema. Na diversidade de cada forma de express\u00e3o e na multiplicidade de gosto e estilos, todas t\u00eam em comum \u2013 quando s\u00e3o de qualidade verdadeiramente superior \u2013 a capacidade de conduzir ao sil\u00eancio, ao recolhimento, de algum modo &#8211; dir\u00edamos &#8211; ao encontro com Deus.  Ainda n\u00e3o h\u00e1 dois meses, foi executada aqui em Roma, no novo Audit\u00f3rio de Santa Cec\u00edlia, a Paix\u00e3o segundo S. Jo\u00e3o, de J. S. Bach, sob a direc\u00e7\u00e3o do tenor Peter Schreier, que cantava tamb\u00e9m a parte do Evangelista. Mais de duas mil pessoas seguiram, num sil\u00eancio literalmente religioso, esta sublime evoca\u00e7\u00e3o das \u00faltimas horas da exist\u00eancia terrestre de Jesus, que t\u00e3o bem exprime a humilha\u00e7\u00e3o extrema do Filho de Deus, Cordeiro imolado. A ningu\u00e9m passou despercebida a comparticipa\u00e7\u00e3o pessoal do maestro: a naturalidade e convic\u00e7\u00e3o com que cantou e dirigiu, sem qualquer \u00eanfase ou afecta\u00e7\u00e3o, revelavam um crente em perfeita sintonia com o esp\u00edrito que animava o compositor de L\u00edpsia na primeira execu\u00e7\u00e3o da obra, na Semana Santa de 1724. Quando sucede o milagre da converg\u00eancia de elevada qualidade art\u00edstica com uma verdadeira espiritualidade, experimenta-se como que um estado de gra\u00e7a a que praticamente ningu\u00e9m ficar\u00e1 alheio. Foi o que aconteceu na referida execu\u00e7\u00e3o romana da obra de Bach, tanto os solistas (cantores e instrumentistas) como o coro e a orquestra e o pr\u00f3prio p\u00fablico se sentiram irmanados, em un\u00edssono.  Momentos como estes s\u00e3o por natureza raros e nada t\u00eam que ver com outro tipo de obras e propostas em que predomina a exterioridade, a desmesura e uma total falta de pudor na abordagem de personagens e factos que requerem outra delicadeza e respeito. Quando se tem a pretens\u00e3o de estender a m\u00e3o sobre o divino e de o comunicar pelas suas pr\u00f3prias for\u00e7as, a resposta \u00e9 a mesma de Jesus diante de um Herodes que pretendia divertir-se com o espect\u00e1culo de algum milagre do Rabbi da Galileia: a nobreza humilde de uma n\u00e3o-resposta. Reac\u00e7\u00e3o que representa, da parte de Deus e do seu Cristo, mais uma e definitiva express\u00e3o da miseric\u00f3rdia que convida a entrar na realidade do Mist\u00e9rio.  \u00c9 claro que a melhor das execu\u00e7\u00f5es de Bach n\u00e3o \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o religiosa. Uma sala de concerto, como um cinema, n\u00e3o \u00e9 uma igreja. Mas precisamente por isso, como n\u00e3o ficar perplexo quando um realizador cinematogr\u00e1fico se pretende investido da miss\u00e3o de dar agora a conhecer  a verdadeira realidade de factos que os Evangelhos e a iconografia crist\u00e3 de todos os tempos preferiram tratar com outro respeito e sobriedade? Estar\u00e1 mesmo convencido de que a crueza das imagens e das sequ\u00eancias consegue revelar o verdadeiro alcance salv\u00edfico dos acontecimentos referidos? Quais as representa\u00e7\u00f5es que melhor conduzem ao conhecimento (contempla\u00e7\u00e3o) do Crucificado? A an\u00f3nima e serena Cruz de S\u00e3o Dami\u00e3o que falou a S.Francisco? Os despojados frescos de Fra Angelico nas celas do seu convento de Floren\u00e7a? Os Cristos de Velasquez, de El Greco, de Rouault, ou o da pel\u00edcula agora em exibi\u00e7\u00e3o? Que tipo de cinema mais aproxima do Mist\u00e9rio crist\u00e3o: Dreyer, Bresson, Pasolini, ou o Mel Gibson de Braveheart?  Pacheco Gon\u00e7alves<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 patente ao p\u00fablico na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, na chamada Ala Carlos Magno, que liga a colunata de Bernini \u00e0 bas\u00edlica, uma Exposi\u00e7\u00e3o de fotografias de Robert Hupka sobre a Piet\u00e0 de Miguel \u00c2ngelo, esculpida pelo artista em 1499, com 24 anos apenas, a partir de um bloco \u00fanico de m\u00e1rmore de Carrara. 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