{"id":55836,"date":"2012-03-27T11:48:15","date_gmt":"2012-03-27T11:48:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/03\/27\/alentejo-patrimonio-do-tempo\/"},"modified":"2012-03-27T11:48:15","modified_gmt":"2012-03-27T11:48:15","slug":"alentejo-patrimonio-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/alentejo-patrimonio-do-tempo\/","title":{"rendered":"Alentejo, Patrim\u00f3nio do Tempo"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Falc\u00e3o, Diretor do Departamento do Patrim\u00f3nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico da Diocese de Beja <!--more--> <\/p>\n<p>S&atilde;o conhecidas as circunst&acirc;ncias, n&atilde;o muito f&aacute;ceis, em que o Departamento do Patrim&oacute;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico da Diocese de Beja [DPHA] iniciou a sua atividade, na primavera de 1984, por iniciativa do bispo D. Manuel Franco Falc&atilde;o. Da inventaria&ccedil;&atilde;o dos monumentos e obras de arte &ndash; ent&atilde;o apontada como a linha de trabalho priorit&aacute;ria &ndash; &agrave; dinamiza&ccedil;&atilde;o de iniciativas culturais, como o Festival Terras sem Sombra de M&uacute;sica Sacra, fundado em 2003, h&aacute; todo um devir que fala por si. No entanto, importa salientar que o projeto inicial do Departamento se mant&eacute;m o mesmo: fazer do patrim&oacute;nio uma alavanca para a valoriza&ccedil;&atilde;o, no sentido mais pleno, da &ldquo;memoria ecclesi&aelig;&rdquo; do Alentejo, o que pressup&otilde;e, naturalmente, a capacidade de promover, com largueza de vistas, a pr&oacute;pria regi&atilde;o. Esta fidelidade &agrave;s ra&iacute;zes, &agrave; terra-m&atilde;e, representa, ali&aacute;s, uma caracter&iacute;stica maior dos alentejanos. Algo s&oacute; tang&iacute;vel quando se &eacute; constante. Por&eacute;m, tal como em muitos outros aspetos da vida da nossa sociedade, a evolu&ccedil;&atilde;o imp&otilde;e-se.<\/p>\n<p>Se a a&ccedil;&atilde;o do DPHA ficou centrada, primordialmente, na esfera da Diocese, em in&iacute;cios da d&eacute;cada de 1990 tornou-se claro que s&oacute; atrav&eacute;s da colabora&ccedil;&atilde;o intensa com as demais institui&ccedil;&otilde;es presentes no terreno se poderia cimentar uma verdadeira estrat&eacute;gia de salvaguarda. Surgiram, assim, os protocolos para a conserva&ccedil;&atilde;o e restauro dos principais edif&iacute;cios religiosos &ndash; e dos seus acervos. Consolidado este trabalho (um trabalho nunca terminado), logo emergiu a necessidade de partilhar os seus resultados mediante iniciativas de divulga&ccedil;&atilde;o e sensibiliza&ccedil;&atilde;o devidamente fundamentadas em termos cient&iacute;ficos e t&eacute;cnicos. Entretanto, o progressivo decl&iacute;nio do mundo rural viria a ganhar foros de verdadeira trag&eacute;dia em praticamente todos os concelhos do territ&oacute;rio diocesano, somando-se-lhe, no meio urbano, a decad&ecirc;ncia dos centros hist&oacute;ricos. Sem pessoas, sem vida econ&oacute;mica e social digna desse nome, que destino esperar&atilde;o muitos dos nossos monumentos, al&eacute;m do abandono?<\/p>\n<p>A consci&ecirc;ncia de t&atilde;o duras realidades levou o Departamento a pisar um caminho que visa a requalifica&ccedil;&atilde;o do patrim&oacute;nio religioso &ndash; o primeiro recurso, em termos hist&oacute;rico-culturais, do Alentejo &ndash;, n&atilde;o como um fim em si mesmo, mas como uma alavanca para o desenvolvimento regional. Isto pressup&otilde;e, al&eacute;m de um acr&eacute;scimo dos valores da identidade e da autoestima, por parte das comunidades locais, um contributo que pode ser deveras significativo, &agrave; escala da regi&atilde;o, do ponto de vista da manuten&ccedil;&atilde;o das culturas tradicionais, do incremento de um turismo adequado &agrave;s realidades da nossa &aacute;rea, do emprego, da coes&atilde;o social&hellip; Trata-se, em suma, de conseguir que parte substancial da nossa mem&oacute;ria coletiva, al&eacute;m de poder ser partilhada, com tudo o que isso tem de profundamente enriquecedor, por n&oacute;s mesmos e por quem nos visita, deixe de constituir um &oacute;nus e passe a atuar como uma mais-valia.<\/p>\n<p>Da observa&ccedil;&atilde;o atenta do universo patrimonial portugu&ecirc;s coligiu o DPHA quatro linhas de atua&ccedil;&atilde;o muito concretas nestes dom&iacute;nios. A primeira visa a prossecu&ccedil;&atilde;o dos mecanismos de abertura regular das igrejas, principalmente atrav&eacute;s da coopera&ccedil;&atilde;o com as autarquias e os servi&ccedil;os de turismo. Algo complexo, em tempos de crise, mas que deve continuar a ser, a par das tarefas de conserva&ccedil;&atilde;o e restauro, a prioridade das prioridades. Se este mecanismo n&atilde;o funcionar, as hip&oacute;teses de cria&ccedil;&atilde;o de itiner&aacute;rios culturais, ossatura fundamental para a dinamiza&ccedil;&atilde;o do touring patrimonial e ambiental, caem por terra.<\/p>\n<p>Outro aspeto decisivo reside na constitui&ccedil;&atilde;o de uma rede de museus, pois sem uma oferta museol&oacute;gica &agrave; altura das expectativas, in&uacute;meros bens culturais &ndash; entre eles algumas das mais belas obras de arte da regi&atilde;o &ndash; continuar&atilde;o arredados dos olhares do p&uacute;blico e ter&atilde;o a sobreviv&ecirc;ncia comprometida. Fundada em 2001, a Rede de Museus da Diocese de Beja conta, at&eacute; &agrave; data, com oito unidades de pequena e m&eacute;dia dimens&atilde;o, que formam um museu de territ&oacute;rio, um &ldquo;museu sem fronteiras&rdquo;. Isto permite conservar o patrim&oacute;nio &ldquo;in situ&rdquo; e promover a visita&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os diversificados. As novas tecnologias assumem aqui particular relev&acirc;ncia, designadamente no que toca &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o, mas o acolhimento continua a ser a pedra de toque.<\/p>\n<p>&ldquo;Ler&rdquo; uma regi&atilde;o pressup&otilde;e a exist&ecirc;ncia de vias, de sendas que contem hist&oacute;rias e fa&ccedil;am sonhar. Eis um fio condutor verdadeiramente indispens&aacute;vel para que os visitantes desfrutem do melhor que a regi&atilde;o tem para oferecer e encontrem os esteios informativos necess&aacute;rios a uma frui&ccedil;&atilde;o plena. Em Beja t&ecirc;m-se valorizado os velhos trilhos utilizados pelos peregrinos, nomeadamente os que fazem parte do Caminho de Santiago, o que permitiu reconhecer uma faceta assaz esquecida de um patrim&oacute;nio comum a toda a Europa. Mas h&aacute; outros itiner&aacute;rios a tornar acess&iacute;veis, numa l&oacute;gica de complementaridade e &ldquo;descoberta&rdquo;.<\/p>\n<p>A dinamiza&ccedil;&atilde;o assume peso crescente, ajudando a trazer nova vida a in&uacute;meros monumentos esquecidos. &Eacute; este o fio condutor do Festival Terras sem Sombra, projeto de car&aacute;ter itinerante, que percorre as principais igrejas hist&oacute;ricas da regi&atilde;o, apresentando uma &ldquo;pequena hist&oacute;ria da M&uacute;sica Sacra&rdquo;, dos prim&oacute;rdios &agrave; vanguarda da cria&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea, e pondo em di&aacute;logo as grandes p&aacute;ginas do passado com o que de mais recente se faz neste dom&iacute;nio. Di&aacute;logo ecum&eacute;nico, capaz de rasgar janelas onde se fecharam antes portas, &agrave; luz de uma nova evangeliza&ccedil;&atilde;o que encontra na abertura cultural o seu grande m&oacute;bil. Como pano de fundo, a proje&ccedil;&atilde;o internacional do Alentejo.<\/p>\n<p>Esta abertura &agrave; contemporaneidade reflete-se em diversas &aacute;reas da interven&ccedil;&atilde;o do DPHA, sem esquecer a encomenda art&iacute;stica a jovens criadores, pois ningu&eacute;m pode colher sem antes semear. N&atilde;o nos faltam campos f&eacute;rteis, mas os semeadores s&atilde;o poucos. Pela m&atilde;o dos artistas, verdadeiros demiurgos, chegou-se a uma outra esfera de a&ccedil;&atilde;o fundamental do patrim&oacute;nio religioso na sua vincula&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade que serve: a salvaguarda da biodiversidade. De resto, muitas igrejas alentejanas constituem aut&ecirc;nticos santu&aacute;rios da vida selvagem, deixando um rasto luminoso na paisagem. Enriquecer esta dimens&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m um desafio pastoral.<\/p>\n<p>Sendo o Alentejo uma das regi&otilde;es mais preservadas da Europa, faz todo o sentido incentivar o conhecimento dos seus recursos naturais e promover a conserva&ccedil;&atilde;o da natureza em diversas frentes onde se verificam problemas, incluindo o risco de extin&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies amea&ccedil;adas. &Eacute; por isso que m&uacute;sicos e espectadores do Festival se unem &agrave;s comunidades locais para levar a cabo a&ccedil;&otilde;es de defesa dos recursos biodiversos.<\/p>\n<p>Da limpeza de plantas invasoras nas dunas costeiras &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o do saramugo, pequeno peixe da bacia do Guadiana, mais raro do que o lince ou do que o panda, mas de que ningu&eacute;m fala, o Terras sem Sombra revela-se um viveiro de ideias com repercuss&atilde;o na opini&atilde;o p&uacute;blica. M&uacute;sica, patrim&oacute;nio e biodiversidade ensaiam, assim, o advento de uma nova sensibilidade para as rela&ccedil;&otilde;es entre o homem, a natureza e o Sagrado.<\/p>\n<p><em><br \/>Jos&eacute; Ant&oacute;nio Falc&atilde;o<br \/>Diretor do Departamento do Patrim&oacute;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico da Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"..\/..\/imgs\/bo\/beja_terra_se_sombras_Reserva_Colmeais.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" \/><br \/><em>O maestro Marcello Panni e intervenientes no Festival Terras  sem Sombra ajudam a proteger esp&eacute;cies vegetais em risco na Reserva dos Colmeais,  em Beringel, Beja, pertencente &agrave; Quercus (foto: Festival Terras sem  Sombra\/Alfredo Rocha)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Falc\u00e3o, Diretor do Departamento do Patrim\u00f3nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico da Diocese de Beja<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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