{"id":55719,"date":"2012-03-20T12:11:50","date_gmt":"2012-03-20T12:11:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/03\/20\/a-agua-e-a-soberania-alimentar\/"},"modified":"2012-03-20T12:11:50","modified_gmt":"2012-03-20T12:11:50","slug":"a-agua-e-a-soberania-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-agua-e-a-soberania-alimentar\/","title":{"rendered":"A \u00c1gua e a soberania alimentar"},"content":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Augusto Leit\u00e3o, Rede F\u00e9 e Justi\u00e7a Europa-\u00c1frica <!--more--> <\/p>\n<p align=\"left\">A falta de chuva, nestes &uacute;ltimos meses, em Portugal, despertou-nos para a import&acirc;ncia vital da &aacute;gua. Agora podemos entrever as dificuldades em que vivem os povos que sofrem secas prolongadas e dificuldades de acesso &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel de forma habitual. A &aacute;gua &eacute; de tal forma essencial para a sobreviv&ecirc;ncia de todo o ser vivo, que a sua falta motiva migra&ccedil;&otilde;es, fomes, mortes, guerras e especula&ccedil;&otilde;es no seu controle e comercializa&ccedil;&atilde;o. Por isso, a ONU declarou, em 2010, que todos t&ecirc;m direito ao acesso &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel, em quantidade e qualidade suficientes, para uma vida digna.<\/p>\n<p>O acesso &agrave; &aacute;gua &eacute; um fator fundamental na produ&ccedil;&atilde;o de alimentos, vegetais ou animais. A &aacute;gua &eacute; o sangue azul da natureza. No entanto, para produzir alimentos utilizamos cerca de 70% da &aacute;gua doce dispon&iacute;vel. &Eacute; preciso, em m&eacute;dia, 2.000 a 5.000 litros de &aacute;gua para produzir alimentos di&aacute;rios para cada pessoa. A urbaniza&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento dos pa&iacute;ses emergentes est&atilde;o a aumentar o consumo de carne; ora a produ&ccedil;&atilde;o de 1 kg de carne de vaca precisa de 10 vezes mais &aacute;gua que 1 kg de milho.<\/p>\n<p>A &aacute;gua, doce e salgada, &eacute; tamb&eacute;m o grande habitat de animais e plantas marinhas. A polui&ccedil;&atilde;o e a pesca industrial est&atilde;o a destruir a biodiversidade dos oceanos e dos rios. O tema dos oceanos e da vida na &aacute;gua faz parte da agenda da Confer&ecirc;ncia da ONU Rio-20, em junho deste ano, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Os investidores come&ccedil;am a olhar para a &aacute;gua como uma &ldquo;commodity&rdquo; ou mercadoria de valor acrescentado no futuro, em que vale a pena investir, privatizar e comercializar. Por outro lado, a necessidade de produ&ccedil;&atilde;o de alimentos e de biocombust&iacute;veis est&aacute; a desencadear um processo de aquisi&ccedil;&atilde;o-ocupa&ccedil;&atilde;o de terrenos em &Aacute;frica e outros continentes para a agricultura intensiva e industrial. Esta orienta&ccedil;&atilde;o economicista, em vez de resolver o problema, est&aacute; a agrav&aacute;-lo: na privatiza&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, quando n&atilde;o regulada, dificulta-se o acesso a este bem por parte dos mais pobres; na aquisi&ccedil;&atilde;o de terras de posse ancestral mas n&atilde;o documentada, est&atilde;o-se a empurrar mais pessoas para as grandes cidades, a promover monoculturas de exporta&ccedil;&atilde;o e o uso n&atilde;o alimentar das terras de cultivo (biocombust&iacute;veis e lazer\/turismo). Assim, o acesso &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel e &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica fica cada vez mais dificultada para os grupos mais pobres e para os pa&iacute;ses subdesenvolvidos. O ser humano passa a ser tratado mais como cliente do que como pessoa.<\/p>\n<p>Bento XVI na<em> Caritas in Veritate<\/em>, 27, afirma: &ldquo;Os direitos &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o e &agrave; &aacute;gua revestem um papel importante para a consecu&ccedil;&atilde;o de outros direitos, a come&ccedil;ar pelo direito prim&aacute;rio &agrave; vida. Por isso, &eacute; necess&aacute;rio a matura&ccedil;&atilde;o duma consci&ecirc;ncia solid&aacute;ria que considere <em>a alimenta&ccedil;&atilde;o e o acesso &agrave; &aacute;gua como direitos universais de todos os seres humanos, sem distin&ccedil;&otilde;es nem discrimina&ccedil;&otilde;es<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>A Santa S&eacute; tem repetido nos F&oacute;rum Mundiais da &Aacute;gua a mensagem da centralidade da pessoa humana e do direito universal do acesso &agrave; &aacute;gua, &agrave; terra e &agrave; seguran&ccedil;a alimentar.<\/p>\n<p>No &uacute;ltimo f&oacute;rum, realizado em Marselha nos dias 12-17 de mar&ccedil;o, o Conselho Pontif&iacute;cio para a Justi&ccedil;a e Paz, recordou que h&aacute; que prevenir o futuro devido ao aquecimento global, &agrave;s altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas e ao aumento da popula&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m olhar e reparar o presente. Cerca de metade da popula&ccedil;&atilde;o mundial utiliza &aacute;gua de qualidade insegura e n&atilde;o tem saneamento b&aacute;sico. A fome, com a atual crise, tem-se vindo a agravar. O pre&ccedil;o dos alimentos tem aumentado.<\/p>\n<p>Bento XV j&aacute; alertava na <em>Caritas in Veritate<\/em> 27: &ldquo;falta um sistema de institui&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas que seja capaz de garantir um acesso regular e adequado, do ponto de vista nutricional, &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o e &agrave; &aacute;gua e tamb&eacute;m de enfrentar as car&ecirc;ncias relacionadas com as necessidades prim&aacute;rias e com a emerg&ecirc;ncia de reais e verdadeiras crises alimentares provocadas por causas naturais ou pela irresponsabilidade pol&iacute;tica nacional e internacional.&rdquo;<\/p>\n<p>O VI F&oacute;rum Mundial da &Aacute;gua tomou como lema: <em>&ldquo;Tempo para agir&rdquo;<\/em>. Representantes de governos, empresas privadas e organiza&ccedil;&otilde;es sociais refletiram sobre formas de solucionar os problemas ligados aos recursos h&iacute;dricos. No final, apresentaram algumas solu&ccedil;&otilde;es assentes em tr&ecirc;s grandes objetivos: assegurar o bem-estar de todos; contribuir para o desenvolvimento econ&oacute;mico e manter o planeta azul. A sua implementa&ccedil;&atilde;o e monitoriza&ccedil;&atilde;o contribuir&atilde;o para ajudar a alcan&ccedil;ar os Objetivos de Desenvolvimento do Mil&eacute;nio em 2015.<\/p>\n<p>Todos somos correspons&aacute;veis pela sa&uacute;de do Planeta e dos seus recursos. O que podemos fazer?<\/p>\n<p>1. Garantir o acesso de todos &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel e &agrave; soberania alimentar. Isto sup&otilde;e uma boa administra&ccedil;&atilde;o nacional e local, e a coopera&ccedil;&atilde;o internacional no apoio ao desenvolvimento das regi&otilde;es e pa&iacute;ses mais pobres e afetadas pela escassez de &aacute;gua.<\/p>\n<p>2. Educar para a mudan&ccedil;a de comportamentos alimentares, higi&eacute;nicos e industriais, evitando o desperd&iacute;cio de &aacute;gua e de alimentos.<\/p>\n<p>3. Melhorar formas de produ&ccedil;&atilde;o de alimentos utilizando menos &aacute;gua: sistemas de rega mais eficientes, reutiliza&ccedil;&atilde;o e reciclagem, coleta e armazenamento das &aacute;guas das chuvas, tratamento de esgotos e de res&iacute;duos l&iacute;quidos industriais&#8230;<\/p>\n<p>4. Diminuir a emiss&atilde;o de gases com efeitos de estufa, baixar a polui&ccedil;&atilde;o, assegurar o direito &agrave; terra, proteger as florestas e aqu&iacute;feros e promover pol&iacute;ticas energ&eacute;ticas que n&atilde;o coloquem em causa o acesso &agrave; &aacute;gua e &agrave; soberania alimentar.<\/p>\n<p>Deus sonhou um jardim irrigado por um rio de vida (Gn 2,10), um mar povoado de seres marinhos (Gn 1,20) e uma humanidade que cuida da Cria&ccedil;&atilde;o (Gn 2,15). A &aacute;gua e o alimento acess&iacute;vel a todos s&atilde;o sinais messi&acirc;nicos de que este sonho de Deus continua v&aacute;lido (Is 55,1; Ap 7,16). Somos desafiados a fazer a nossa parte para o bem da humanidade de hoje e em solidariedade com a humanidade do futuro.<\/p>\n<p><em>Padre Jos&eacute; Augusto Duarte Leit&atilde;o, svd, Rede F&eacute; e Justi&ccedil;a Europa-&Aacute;frica<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Augusto Leit\u00e3o, Rede F\u00e9 e Justi\u00e7a Europa-\u00c1frica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,102,120,203,314,320],"class_list":["post-55719","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-africa","tag-agua","tag-bento-xvi","tag-europa","tag-solidariedade","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55719\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}