{"id":55657,"date":"2012-03-15T11:02:55","date_gmt":"2012-03-15T11:02:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/03\/15\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-4\/"},"modified":"2012-03-15T11:02:55","modified_gmt":"2012-03-15T11:02:55","slug":"conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-4\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia quaresmal do bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p><strong>Evangelizar de Novo &ndash; Converter Sempre!<\/strong><\/p>\n<p>Creio que as nossas confer&ecirc;ncias quaresmais deste ano n&atilde;o podiam alhear-se do facto de a Igreja estar j&aacute; pr&oacute;xima do S&iacute;nodo dos Bispos sobre a Nova Evangeliza&ccedil;&atilde;o, a realizar em Outubro, comemorando tamb&eacute;m os cinquenta anos da abertura do &uacute;ltimo Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico: o Vaticano II, em cuja rece&ccedil;&atilde;o ainda estamos, a v&aacute;rios t&iacute;tulos. Nessa altura se abrir&aacute; tamb&eacute;m o Ano da F&eacute;, que marcar&aacute; certamente o nosso ritmo diocesano at&eacute; Novembro de 2013.<\/p>\n<p>Tanta ocorr&ecirc;ncia pr&oacute;xima exige, antes de mais, convers&atilde;o. &Eacute; esta a proposta &ndash; para n&atilde;o dizer a exig&ecirc;ncia &ndash; de Cristo, logo no in&iacute;cio do Evangelho segundo S&atilde;o Marcos (cf Mc 1, 15). Assim a ouvimos tamb&eacute;m ao impor das cinzas, a abrir esta Quaresma: &ldquo;Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!&rdquo;.<\/p>\n<p>Podemos dizer que esta exig&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; apenas inicial, antes constante nas nossas vidas; e que, sendo a vida em Cristo essencialmente comunit&aacute;ria &ndash; sempre (con)vivida no &ldquo;corpo eclesial de Cristo&rdquo; -, assim &eacute; tamb&eacute;m para as&nbsp; comunidades, das igrejas dom&eacute;sticas, que s&atilde;o as fam&iacute;lias, &agrave;s par&oacute;quias e a todas as outras formas comunit&aacute;rias da nossa exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Fixo-me desde j&aacute; na seguinte afirma&ccedil;&atilde;o, que ser&aacute; como que o fio condutor de tudo quanto vos direi nestas confer&ecirc;ncias (ou nas tr&ecirc;s partes sucessivas duma &uacute;nica confer&ecirc;ncia): Cristianismo &eacute; convers&atilde;o constante, vivida comunitariamente a partir duma Palavra sempre proclamada e ouvida, que oferece a cada tempo e circunst&acirc;ncia a possibilidade de se realizarem pascalmente.<\/p>\n<p>Dito assim rapidamente, o enunciado pode parecer algo abstrato e mesmo estranho. Mas, na vida que levarmos em Cristo, as coisas aclaram-se e precisam-se, como em cada Quaresma se pede e muito especialmente se requer.<\/p>\n<p>Digamos ent&atilde;o que Cristo conclui em si mesmo a hist&oacute;ria geral, como sentido &uacute;ltimo e finalidade atingida. E que a nossa vida em Cristo, na sucess&atilde;o das gera&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o protagonizando a aventura humana, abre sucessivos horizontes, em extens&atilde;o e profundidade, a serem preenchidos por essa mesma P&aacute;scoa a todos oferecida.<\/p>\n<p>Podemos perguntar-nos por que raz&atilde;o foi assim, cronologicamente falando. Os antigos autores crist&atilde;os &ndash; do pr&oacute;logo do 3&ordm; Evangelho a Santo Ireneu e tantos outros &#8211; viam na sucess&atilde;o dos antigos imp&eacute;rios o longo e &aacute;rduo encaminhamento da humanidade para aquele exato ponto em que, unidas as antigas civiliza&ccedil;&otilde;es no &uacute;nico imp&eacute;rio que de algum modo as interligava quase todas, seria j&aacute; poss&iacute;vel passar da promessa b&iacute;blica, das cogita&ccedil;&otilde;es dos fil&oacute;sofos e das aspira&ccedil;&otilde;es dos poetas &agrave; resposta divina, que s&oacute; humanamente &ndash; incarnadamente &ndash; podia ser dada, tanto para respeitar o homem como para que Deus fosse &ldquo;Emanuel&rdquo;, Deus connosco e humanamente entendido.<\/p>\n<p>A esta luz podemos dizer que tudo quanto se insira ainda hoje, ou amanh&atilde; que seja &ndash; em sabedoria, ci&ecirc;ncia, literatura ou arte &ndash; na mesma senda de autorrevela&ccedil;&atilde;o da humanidade a si mesma, continua a ter dispon&iacute;vel e insistente a resposta final que Cristo lhe ofereceu uma vez por todas: a sua P&aacute;scoa, como fim e finalidade de todas as coisas.<\/p>\n<p>Recordo-me duma viagem de h&aacute; muitos anos, passando pelo museu romano de M&eacute;rida e por uma igreja em Oliven&ccedil;a. No primeiro, vimos uma est&aacute;tua de Cronos, o tempo endeusado, enrolado numa serpente que, abocanhando o fim, sempre volta ao princ&iacute;pio. Na segunda, vimos a representa&ccedil;&atilde;o barroca duma &aacute;rvore de Jess&eacute;, em que a descend&ecirc;ncia dos antigos reis culmina no Filho de Maria, no qual o tempo finalmente floresce e desabrocha, para se alargar a tudo e a todos.<\/p>\n<p>Nunca mais esqueci esta sucess&atilde;o pl&aacute;stica, bem sugestiva do que &eacute; o encontro de Cristo com o tempo humano, pascalmente transformado em tempo de Deus, porque tudo &eacute; por ele humanamente assumido, para ser oferecido ao Pai no altar da Cruz. Sabemos como, por sua vez, o Pai no-lo devolveu ressuscitado, para ser a nossa vida e a vida do mundo. &#8211; Assim permitamos &ndash; realmente permitamos! &ndash; que o Esp&iacute;rito que n&rsquo;Eles circula tamb&eacute;m circule em n&oacute;s, em perfeito Pentecostes!<\/p>\n<p>Estas coisas sabemos; e devemos saber e explicitar sempre melhor, pois para isso se somou tanta medita&ccedil;&atilde;o e reflex&atilde;o nos dois mil&eacute;nios que Cristo j&aacute; leva no mundo. Sabiam-no com admir&aacute;vel clareza os primeiros autores crist&atilde;os, como deixaram nalguns poucos e imensos vers&iacute;culos do Novo Testamento. &Eacute; reler, por exemplo o princ&iacute;pio da Carta aos Hebreus (Hb 1, 1-4). Ou o da admir&aacute;vel 1&ordf; Carta de S&atilde;o Jo&atilde;o (1 Jo 1, 1-4), sem esquecer, evidentemente, o pr&oacute;logo do Evangelho segundo S&atilde;o Jo&atilde;o ou os magn&iacute;ficos hinos cristol&oacute;gicos inseridos nas ep&iacute;stolas paulinas, e tantos outros lugares inultrapass&aacute;veis.<\/p>\n<p>Todos nos falam duma vida que agora &eacute; &ldquo;ultimada&rdquo; e &ldquo;eterna&rdquo;, pascalmente ganha e oferecida por Cristo a quantos e aonde lhe permitam agora viver e conviver. Por isso melhor falaremos de &ldquo;Cristo em n&oacute;s&rdquo;, &agrave; boa maneira de S&atilde;o Paulo, do que duma vida simplesmente &ldquo;crist&atilde;&rdquo;, como &eacute; corrente dizer-se. Na verdade, onde o Esp&iacute;rito consegue como que reproduzir a P&aacute;scoa de Cristo, j&aacute; se trata de algo substantivo e n&atilde;o de mero adjetivo: vida de Cristo em n&oacute;s &ndash; pessoas e comunidades &ndash; e n&atilde;o s&oacute; uma classifica&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica ou cultural, em sentido fraco e question&aacute;vel.<\/p>\n<p>Se olharmos agora mais de perto para o que t&ecirc;m sido estes dois mil&eacute;nios, eclesialmente falando, concluiremos decerto que temos de dar muitas gra&ccedil;as a Deus. Sem leituras encomi&aacute;sticas, que s&oacute; reparam nos altos cumes e n&atilde;o atendem &agrave;s ravinas que entre eles infelizmente tamb&eacute;m se abriram; nem leituras destrutivas, que n&atilde;o consideram nem respeitam o que foi e continua a ser a not&aacute;vel colabora&ccedil;&atilde;o de tantos disc&iacute;pulos de Cristo para a hist&oacute;ria da humanidade que com todos compartilham: havemos de maravilhar-nos com a infinda capacidade do Evangelho para recriar &ldquo;todas as coisas em Cristo&rdquo;, nas mais diversas culturas e civiliza&ccedil;&otilde;es, tanto nas circunst&acirc;ncias mais extremas como na habitualidade mais comezinha.<\/p>\n<p>Bastaria, para tal, aproximarmo-nos da realidade, passada e presente, com mais humildade e menos preconceitos. Ouve-se por vezes dizer que nos seria mais f&aacute;cil acreditar &ndash; crist&atilde;mente acreditar &ndash; se tiv&eacute;ssemos vivido h&aacute; dois mil anos, vendo e ouvindo diretamente a Jesus de Nazar&eacute;. Mas isso &eacute; esquecer o que os relatos evang&eacute;licos patenteiam, ou seja, que grand&iacute;ssima parte dos que l&aacute; estavam ou n&atilde;o acreditaram ou at&eacute; deturparam o que ele dizia e fazia; e que mesmo os seus disc&iacute;pulos tiveram muita dificuldade em perceb&ecirc;-lo, antes da luz pascal lhes abrir finalmente os olhos&hellip;<\/p>\n<p>Aproximemo-nos ent&atilde;o de Cristo, de cora&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel e esp&iacute;rito atento, correspondendo &agrave; sua exorta&ccedil;&atilde;o e companhia oferecida (cf. Ap 3, 19-22). E isto mesmo &eacute; dito &ldquo;&agrave;s Igrejas&rdquo;, pois s&oacute; comunitariamente se entende bem e realiza em pleno, como experi&ecirc;ncia inter-pessoal e profecia para o mundo. Assim nos ensinaria S&atilde;o Tom&eacute;, que n&atilde;o soube da ressurrei&ccedil;&atilde;o de Cristo nem acreditou nos disc&iacute;pulos que lha testemunharam enquanto n&atilde;o esteve &ldquo;com eles&rdquo; (cf Jo 20, 26).<\/p>\n<p>Pontualizemos pois. A Evangeliza&ccedil;&atilde;o coloca-nos diante da proposta de Cristo, para realizarmos a nossa vida como ele pascalmente o fez e no-lo proporciona, coisa s&oacute; poss&iacute;vel na for&ccedil;a do Esp&iacute;rito e na inclus&atilde;o eclesial, como ramos na videira (cf. Jo 15, 1 ss). Esta &eacute; a verdade das coisas, t&atilde;o coincidente ali&aacute;s com a natureza social do homem, agora transformada em &ldquo;meio divino&rdquo;. Para tal, s&atilde;o indispens&aacute;veis dois itens. 1&ordm;) Que a Palavra seja insistentemente proclamada em cada comunidade e 2&ordm;) Que cada comunidade se deixe constantemente converter por ela. Foi este o apelo do Conc&iacute;lio na sua fundamental constitui&ccedil;&atilde;o dogm&aacute;tica Dei Verbum, repetido mais proximamente pelo &uacute;ltimo S&iacute;nodo dos Bispos e por Bento XVI na exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica p&oacute;s-sinodal Verbum Dei.<\/p>\n<p>Assim dispunha e esperava a constitui&ccedil;&atilde;o conciliar: &ldquo;&hellip; que a Palavra do Senhor avance e seja glorificada (cf. 2 Ts 3, 1), e que o tesouro da Revela&ccedil;&atilde;o, confiado &agrave; Igreja, encha cada vez mais os cora&ccedil;&otilde;es dos homens. Assim como a vida da Igreja se desenvolve com a participa&ccedil;&atilde;o ass&iacute;dua no mist&eacute;rio eucar&iacute;stico, assim tamb&eacute;m &eacute; l&iacute;cito esperar um novo impulso da vida espiritual com a redobrada venera&ccedil;&atilde;o da Palavra de Deus, que permanece para sempre&rdquo; (Dei Verbum, 26). E a recente exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica insiste: &ldquo;&hellip; o S&iacute;nodo convidou a um esfor&ccedil;o pastoral particular para que a Palavra de Deus apare&ccedil;a em lugar central na vida da Igreja, recomendando que se incremente a pastoral b&iacute;blica, n&atilde;o em justaposi&ccedil;&atilde;o com outras formas de pastoral, mas como anima&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica da pastoral inteira&rdquo; (Verbum Domini, 73).<\/p>\n<p>Mas atendamos ao facto de, nestes dois mil&eacute;nios, o processo de exorta&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ter sido propriamente linear, mas como que c&iacute;clico, entre &eacute;pocas de evangeliza&ccedil;&atilde;o renovada e adaptada a circunst&acirc;ncias pr&oacute;prias e tempos de concretiza&ccedil;&atilde;o dela, mais ou menos conseguida. Daqui que possamos at&eacute; identificar cinco grandes &ldquo;evangeliza&ccedil;&otilde;es&rdquo; da nossa Europa, como a seguir tentarei ilustrar.<\/p>\n<p>S&eacute; do Porto, 14 de mar&ccedil;o de 2012<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evangelizar de Novo &ndash; Converter Sempre! 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