{"id":5563,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/d-antonio-ferreira-gomes-e-o-25-de-abril\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"d-antonio-ferreira-gomes-e-o-25-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-antonio-ferreira-gomes-e-o-25-de-abril\/","title":{"rendered":"D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes e o 25 de Abril"},"content":{"rendered":"<p>Chama-me a aten\u00e7\u00e3o o facto de a Comiss\u00e3o promotora das celebra\u00e7\u00f5es do 30\u00ba anivers\u00e1rio do 25 de Abril n\u00e3o se fixar apenas na recorda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desse momento de 1974, mas que esteja a fazer ressaltar o crescimento humano-social, ou o salto de qualidade, que isso representou na vida do nosso povo: \u201cAbril \u00e9 evolu\u00e7\u00e3o\u201d. E creio que tem raz\u00e3o. Se evocasse apenas o facto, ver\u00edamos a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril como um mero \u00abdeitar abaixo\u00bb, um lan\u00e7ar por terra de algo \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 o regime pol\u00edtico &#8211; que tinha de ser apeado para que em seu lugar despontasse uma realidade nova, mais consent\u00e2nea com a dignidade humana. Embora \u00e9tica, social e politicamente justificad\u00edssima, a Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 todas as revolu\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00e3o passaria de uma quebra da legalidade, um vazio org\u00e2nico que s\u00f3 o segundo momento \u2013 o da evolu\u00e7\u00e3o &#8211; p\u00f4de legitimar. \u00c9 a nova \u00abqualidade de vida\u00bb intentada (que \u00e9 essencialmente da ordem do s\u00f3cio-cultural, e n\u00e3o s\u00f3 do econ\u00f3mico) que se demarca, pela positiva, do que foi preciso rejeitar. Esta reflex\u00e3o parece-me indispens\u00e1vel para se perceber bem a natureza e o timbre do v\u00ednculo de D. Ant\u00f3nio com o 25 de Abril. \u00c9 que ele n\u00e3o o fez de arma nas m\u00e3os, nem saiu \u00e0s ruas a clamar vit\u00f3ria; mas preparou longamente o tal \u00e2mbito s\u00f3cio-cultural onde ele pudesse implantar-se. De facto, como poucos, pela doutrina\u00e7\u00e3o e postura da vida, o antigo Bispo do Porto preparou as mentalidades e as consci\u00eancias para o acolhimento do tempo novo. E &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 menos importante &#8211;  depois dessa chegada, soube colocar a t\u00f3nica na \u00abevolu\u00e7\u00e3o\u00bb, quando, nessa altura cr\u00edtica, as massas ideologizadas embarcavam alegre e infantilmente na inconsci\u00eancia colectiva que muito bem poderia ter levado a que a pureza da revolu\u00e7\u00e3o se dissolvesse na mais obscura e aniqui-ladora involu\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o lhe foi f\u00e1cil, nem lhe granjeou grandes aplausos. S\u00f3 a verticalidade da postura e a capacidade de n\u00e3o oscilar perante o horizonte de significa\u00e7\u00e3o que o guiava lhe permitiram manter-se de p\u00e9 quando a generalidade se aninhava. Por isso, como o seu Mestre a quem devota-damente procurou servir, D. Ant\u00f3nio foi sinal de contradi\u00e7\u00e3o: \u201cbispo vermelho\u201d para uns, acabaria por ser etiquetado de \u201ccontra-revolucion\u00e1rio\u201d por outros (se \u00e9 que o n\u00e3o foi pelos mesmos!). Mas at\u00e9 se entende: a sua diferen\u00e7a \u2013 pela positiva, claro est\u00e1- \u00e9 que chocava as maiorias de circunst\u00e2ncia. E n\u00e3o podia ser de outro modo: se todos j\u00e1 estivesseis elevados a um alto patamar s\u00f3cio-moral, para qu\u00ea a exist\u00eancia de l\u00edderes e condutores sociais?  As vicissitudes hist\u00f3ricas Vejamos ent\u00e3o, ainda que de forma necessariamente telegr\u00e1fica, em que \u00e9 que o pensamento e a ac\u00e7\u00e3o de D. Ant\u00f3nio sonharam, prepararam, saudaram e ampararam o melhor do 25 de Abril, isto \u00e9, o estado de adultez social, \u00e9tica e pol\u00edtica da sociedade portuguesa. A n\u00edvel factual, \u00e9 claro que o longo ex\u00edlio de dez anos a que foi sujeito constituiu um grande acontecimento que obrigou a consci\u00eancia de muitos a discernir se se poderia dar o aval a um regime que a todos pretendia manietar, inclusivamen-te a esse espa\u00e7o de liberdade que deve ser a Igreja. Evidentemente que exilar um bispo tinha de ser uma not\u00edcia que percorresse toda a sociedade e isso n\u00e3o se poderia esconder com a mesma facilidade com que se ocultava uma pris\u00e3o da PIDE. E isto mexeu com a \u00abpaz podre\u00bb social. Depois, todo o sistema de confronto \u2013 n\u00e3o procurado, mas tamb\u00e9m nunca recusado &#8211; com o caduco sistema colonial. Referiria como mais significativos: a c\u00e9lebre carta-resposta ao Arcebispo de Connakry, Mons. Tchidimbo, sobre o colonialismo portugu\u00eas; a solidariedade activa manifestada ao clero do Ultramar  desterrado em Portugal (por exemplo, Mons. Neves, Vig\u00e1rio Geral de Luanda, ao c\u00e9lebre P. Joaquim Pinto de Andrade e aos futuros bispos D. Franklim e Card. Nascimento); a tomada de posi\u00e7\u00e3o perante os massacres praticados pelos Comandos em Mo\u00e7ambique (Wilymur e Mucumbura); a den\u00fancia de um certo estilo nacionalista de assist\u00eancia religiosa \u00e0s for\u00e7as armadas, na c\u00e9lebre homilia do Dia Mundial da Paz de 1972, o que desencadeou tal tempestade que, segundo o pr\u00f3prio, se chegou \u201ca pensar na execu\u00e7\u00e3o definitiva de quem a proferira\u201d; enfim, a defesa impl\u00edcita dos intervenientes no epis\u00f3dio da Capela do Rato.  O pensamento teol\u00f3gico-moral Por\u00e9m, e ao contr\u00e1rio do que muitos quereriam, n\u00e3o \u00e9 a n\u00edvel dos factos que encontramos o melhor da ac\u00e7\u00e3o de D. Ant\u00f3nio, pois esse \u00e9 o terreno pr\u00f3prio dos pol\u00edticos no activo, coisa que ele sempre recusou ser ou parecer. O que \u00e9 t\u00edpico do bispo \u00e9 a proposta doutrinal: que o bispo pregue, alto e bom som, a teologia da sua Igreja, e que o ou\u00e7a quem quiser. Foi o que ele sempre fez, no exerc\u00edcio do minist\u00e9rio do seu magist\u00e9rio, e que tanto desagradou aos poderes institu\u00eddos. Esse ensino passa por m\u00faltiplos e amplos vectores que, por uma quest\u00e3o de s\u00edntese, se poderiam agrupar nos seguintes fundamentais: &#8211; reivindica\u00e7\u00e3o da dignidade humana, a qual s\u00f3 se pode exercer em liberdade e autodetermina\u00e7\u00e3o, pois passa precisamente por a\u00ed a fronteira que separa a sociedade dos homens do mero rebanho balante; &#8211; afirma\u00e7\u00e3o da interdepend\u00eancia \u2013mas jamais fus\u00e3o ou identifica\u00e7\u00e3o- entre a pol\u00edtica e a moral, pois aquela \u00e9 um modo qualitativo de o homem se realizar como ser de rela\u00e7\u00e3o com os outros, isto \u00e9, um aferidor do seu timbre moral; &#8211; equa\u00e7\u00e3o entre paz e o verdadeiro \u00abtonus\u00bb \u00e9tico-social de um povo, entre n\u00f3s confirmado pelo universalismo da hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o portuguesa antiga que mostram que fomos mais cultores dos direitos humanos (civilizadores) do que repressores dos povos ind\u00edgenas, ao contr\u00e1rio do que acontecia nos anos anteriores ao 25 de Abril; &#8211; defesa ac\u00e9rrima da democracia, pois s\u00f3 esta permite a exterioriza\u00e7\u00e3o social da liberdade em formas de vida colectivas que intentam a nobre e crist\u00e3 tarefa do maior bem poss\u00edvel para todos e como conquista de todos; &#8211; afrontamento da quest\u00e3o da justi\u00e7a social, mormente o estado calamitoso da agricultura de subsist\u00eancia (na celeb\u00e9r-rima confer\u00eancia sobre \u201cA mis\u00e9ria imerecida do nosso mundo rural\u201d) e a reivindica\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 greve (na vulgarmente denominada \u201cCarta a Salazar)\u201d, o tema que mais enfureceu o governante de ent\u00e3o; &#8211; enfim, a insist\u00eancia, no \u00abad intra\u00bb eclesial, da efectiva separa\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o, evidentemente, mas respeito das autonomias pr\u00f3prias de cada um &#8211; entre a Igreja e o Estado, sem constantinianismos nem saudosismos de regimes de cristandade. Com estes e muitos outros temas, tratados sempre que as circunst\u00e2ncias o exigiam, D. Ant\u00f3nio deu entrada, por direito pr\u00f3prio, no restrito grupo dos que mais semearam as melhores sementes que haveriam de florir em Abril. Cada um semeou \u00e0 sua maneira. Ele, pregador da f\u00e9, semeava esta convic\u00e7\u00e3o: \u201cO Reino de Deus tem a ver com a salvaguarda universal dos direitos humanos, base \u00e9tico-jur\u00eddica do reconhecimento da dignidade transcendente de todas as pessoas\u201d. Ser\u00e1 que, trinta anos depois, j\u00e1 est\u00e1 reconhecido hist\u00f3rica e socialmente o inestim\u00e1vel contributo que deu? Creio que a melhor forma de lhe mostrar esse reconhecimento \u00e9 promover a \u00abevolu\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9tico-jur\u00eddo-cultural da sociedade. Tarefa ainda n\u00e3o cabalmente realizada. Sinal de que falta cumprir Abril. E cumprir o magist\u00e9rio teol\u00f3gico-social deste ilustre filho da Igreja.  Manuel Linda <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chama-me a aten\u00e7\u00e3o o facto de a Comiss\u00e3o promotora das celebra\u00e7\u00f5es do 30\u00ba anivers\u00e1rio do 25 de Abril n\u00e3o se fixar apenas na recorda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desse momento de 1974, mas que esteja a fazer ressaltar o crescimento humano-social, ou o salto de qualidade, que isso representou na vida do nosso povo: \u201cAbril \u00e9 evolu\u00e7\u00e3o\u201d. 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