{"id":5562,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/portugal-desejava-o-25-de-abril\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"portugal-desejava-o-25-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-desejava-o-25-de-abril\/","title":{"rendered":"Portugal desejava o 25 de Abril"},"content":{"rendered":"<p>Acompanhar as mudan\u00e7as pol\u00edticas de Portugal, de longe, n\u00e3o foi f\u00e1cil para D. Manuel Monteiro de Castro, actual N\u00fancio Apost\u00f3lico em Espanha. A conversa com este diplomata da Santa S\u00e9 faz-nos perceber que nenhuma situa\u00e7\u00e3o dessa altura lhe \u00e9 estranha. <!--more--> Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 Como viveu o 25 de Abril? D. Monteiro de Castro \u2013 Eu, nessa altura, estava no Vietname \u2013 onde permaneci at\u00e9 ao dia 13 de Abril de 1975 &#8211; e segui muito a situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da France Press e do jornal \u201cLe Monde\u201d. Receb\u00edamos um dossier bastante completo, todos os dias, e foi atrav\u00e9s dele que me ia mantendo informado Provavelmente ainda tenho em casa, em Portugal, uma colec\u00e7\u00e3o das coisas mais importantes que sa\u00edram nessa altura, que consegui recolher apesar de estar muito longe do pa\u00eds \u2013 do Vietname segui para a Austr\u00e1lia.  AE \u2013 Mesmo de longe, conseguia-se adivinhar a mudan\u00e7a? MC \u2013 Bem, est\u00e1vamos a ver em Portugal o prof. Marcelo Caetano com uma grande abertura e pens\u00e1vamos, portanto, que o nosso Ultramar teria uma evolu\u00e7\u00e3o. Quando foi o caso de Goa, Dam\u00e3o e Diu, estava em Roma nesse ano de 1961, e tive, inclusivamente, um papel activo na aula de Direito Internacional que estava a seguir para a discuss\u00e3o deste problema. Estas situa\u00e7\u00f5es interessavam-me para a minha forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea e, evidentemente, enquanto portugu\u00eas. A imagem que transparecia para o exterior era a de um Portugal muito unido, digamos que com uma ideologia muito precisa, e com Marcelo Caetano adivinhava-se um caminho novo, dando a impress\u00e3o de que ele estaria disposto a ter prov\u00edncias ultramarinas com uma certa liga\u00e7\u00e3o a Portugal e, ao mesmo tempo, mais autonomia. Em tudo isto, que nos chegava atrav\u00e9s das ag\u00eancias de informa\u00e7\u00e3o, os que est\u00e1vamos l\u00e1 fora v\u00edamos sinal de grande esperan\u00e7a, para n\u00e3o ter de passar o que tinham passado outros pa\u00edses no mundo.  AE \u2013 Era imposs\u00edvel ignorar a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds? MC \u2013 Sim, acompanhei tudo muito de perto, at\u00e9 porque tive uma s\u00e9rie de problemas em Roma por causa de Portugal. Procurava defender sempre o meu pa\u00eds, sobretudo quando os professores nos desafiavam a falar destes assuntos, explicando que Portugal tinha a posse das prov\u00edncias ultramarinas com todos os argumentos do Direito. Apesar do meu professor de Direito Internacional ser uma pessoa muito aberta, j\u00e1 nessa altura, em Roma, percebia que ningu\u00e9m aceitava os argumentos portugueses nem nada que cheirasse a colonialismo, de modo que n\u00e3o s\u00f3 segui a situa\u00e7\u00e3o, como estive no meio da discuss\u00e3o.  AE \u2013 Surpreendeu-o o modo como se desencadeou a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril? MC \u2013 N\u00e3o, minimamente. \u00c9 que Portugal queria essa mudan\u00e7a, todos sab\u00edamos que a nossa gente estava apenas \u00e0 espera de algu\u00e9m que desse o toque de abertura.  A minha primeira reac\u00e7\u00e3o foi de ficar contente, embora na altura estivesse convencido de que a mudan\u00e7a teria sido bem feita pelo Marcelo Caetano, mas quando surgiu o 25 e Abril disse: Bom, Portugal precisava de alguma coisa assim, as nossas fam\u00edlias estavam cansadas de ver os filhos partir.  AE \u2013 Como avalia a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril? MC \u2013 Claro que com o 25 de Abril vieram coisas positivas, mas tamb\u00e9m pontos negativos.  De negativo, lamento a pol\u00edtica em Portugal Continental e no Ultramar, que n\u00e3o fez tudo o que poderia ter feito para evitar uma guerra terr\u00edvel em Angola, que deu no que deu, e que ainda hoje traz consequ\u00eancias e d\u00e1 problemas graves ao povo angolano. Em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cimp\u00e9rio portugu\u00eas\u201d, chamemos-lhe assim, houve falta de vis\u00e3o e, sobretudo, houve excesso de ilus\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a um sistema ideol\u00f3gico que n\u00e3o trouxe nada de bom. Ningu\u00e9m pode negar que entre os pontos positivos est\u00e3o uma grande abertura, a liberdade. Portugal come\u00e7ou a ter uma outra posi\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica internacional, diante do mundo e da Europa aparecemos como outra na\u00e7\u00e3o, dispon\u00edvel a ouvir o que nos estavam a dizer e que muita gente em Portugal, sobretudo quando n\u00e3o tinham sa\u00eddo do pa\u00eds, n\u00e3o queria ouvir. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhar as mudan\u00e7as pol\u00edticas de Portugal, de longe, n\u00e3o foi f\u00e1cil para D. Manuel Monteiro de Castro, actual N\u00fancio Apost\u00f3lico em Espanha. 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