{"id":55614,"date":"2012-03-22T12:14:00","date_gmt":"2012-03-22T12:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/03\/22\/templarios-e-a-sua-metamorfose-portuguesa-a-ordem-de-cristo\/"},"modified":"2012-03-22T12:14:00","modified_gmt":"2012-03-22T12:14:00","slug":"templarios-e-a-sua-metamorfose-portuguesa-a-ordem-de-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/templarios-e-a-sua-metamorfose-portuguesa-a-ordem-de-cristo\/","title":{"rendered":"Templ\u00e1rios e a sua metamorfose portuguesa: a Ordem de Cristo"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Franco, investigador <!--more--> <\/p>\n<p>O ano de 2012 &eacute; prof&iacute;cuo em comemora&ccedil;&otilde;es &agrave; semelhan&ccedil;a do que vai acontecer ao longo de toda esta segunda d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI.&nbsp; Aproveitar as datas redondas, que assinalam a mem&oacute;ria de grandes acontecimentos, pode constituir um grande servi&ccedil;o &agrave; cultura e &agrave; sociedade.<\/p>\n<p>O refor&ccedil;o da coes&atilde;o identit&aacute;ria de uma sociedade passa tamb&eacute;m muito pelo cultivo da mem&oacute;ria hist&oacute;rica. Como j&aacute; afirmei em outros escritos, entendo que a hist&oacute;ria &eacute; para a sociedade o que a faculdade da mem&oacute;ria representa para o homem individualmente considerado. Como sabemos, quando uma pessoa perde a mem&oacute;ria desorienta-se, pois perde o sentido do presente e torna-se incapaz de perspetivar o futuro. Assim tamb&eacute;m, quando uma sociedade perde a sua mem&oacute;ria hist&oacute;rica tem mais dificuldade em compreender as din&acirc;micas do presente e fragiliza a sua capacidade de enfrentar com lucidez os desafios do futuro.<\/p>\n<p>Neste ano assinala-se a passagem de 700 anos sobre uma data relevante do processo de extin&ccedil;&atilde;o da c&eacute;lebre Ordem dos Templ&aacute;rios ou da Ordem do Templo, cuja natureza e a&ccedil;&atilde;o tem motivado a produ&ccedil;&atilde;o de um mar imenso de literatura de fic&ccedil;&atilde;o e de cinema. Este interesse tem contribu&iacute;do mais para mitificar os Templ&aacute;rios do que para esclarecer, de forma distanciada e desapaixonada, o papel hist&oacute;rico desta Ordem Militar.<\/p>\n<p>O Ordem Militar do Templo, fundada em Fran&ccedil;a, na regi&atilde;o de Champagne, no ano de 1120 no contexto da realiza&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio de Naplus, &eacute; uma das mais conhecidas ordens militares da Europa Crist&atilde; medieval criada para proteger os movimentos de peregrina&ccedil;&atilde;o aos Lugares Santos do Cristianismo no m&eacute;dio oriente sob ascend&ecirc;ncia crescente do poderio de confiss&atilde;o isl&acirc;mica. As ordens militares nasceram no cora&ccedil;&atilde;o da Idade M&eacute;dia como uma vers&atilde;o especializada da experi&ecirc;ncia mon&aacute;stica crist&atilde; institucionalizada sob o nomenclatura institucional denominada de &ldquo;Ordens&rdquo;, cuja Proto-Ordem europeia mais famosa e m&atilde;e de todas as ordens ocidentais foi a Ordem de S&atilde;o Bento.<\/p>\n<p>Os Templ&aacute;rios nasceram primeiro na depend&ecirc;ncia dos C&oacute;negos do Santo Sep&uacute;lcro, vindo rapidamente a autonomizar-s com a lideran&ccedil;a do seu primeiro Gr&atilde;o Mestre, Huges de Payns.&nbsp;<\/p>\n<p>Os Templ&aacute;rios, Freires de Cristo ou Freires do Templo de Salom&atilde;o como tamb&eacute;m eram designados, associaram &agrave; sua consagra&ccedil;&atilde;o religiosa pela profiss&atilde;o dos conselhos evang&eacute;licos de Pobreza, Castidade e Obedi&ecirc;ncia, o compromisso de entregar a sua vida em favor da prote&ccedil;&atilde;o dos peregrinos e da defesa da Cristandade contra a amea&ccedil;a do poder isl&acirc;mico que afrontava os crist&atilde;os. A Ordem do Templo, ao lado de outras ordens militares como a de Santiago, a de Calatrava, a do Hospital e a de Avis, cooperava com os ex&eacute;rcitos dos reis e senhores crist&atilde;os nas cruzadas contra o chamado &ldquo;Infiel&rdquo; tanto no M&eacute;dio Oriente e como na Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica, procurando reconquistar os territ&oacute;rios de antigo dom&iacute;nio crist&atilde;o, entretanto conquistados pelos mu&ccedil;ulmanos.<\/p>\n<p>Estas ordens militares funcionavam como uma esp&eacute;cie de tropa de elite bem treinada e altamente motivada, cuja participa&ccedil;&atilde;o nas batalhas decidia muitas vezes o sentido da vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>O servi&ccedil;o prestado por estas institui&ccedil;&otilde;es aos monarcas crist&atilde;s, com especial destaque para a Ordem do Templo, foi largamente recompensado com a atribui&ccedil;&atilde;o de bens, nomeadamente terras, castelos e outras regalias, que as tornaram poderosas e influentes. Em Portugal, al&eacute;m do papel fundamental desempenhado pela Ordem do Templo, ao lado das suas cong&eacute;neres, na reconquista crist&atilde; e, por consequ&ecirc;ncia, na forma&ccedil;&atilde;o de Portugal, teve um papel relevante no povoamento e controlo do territ&oacute;rio conquistado ao Mouro.<\/p>\n<p>Devido a vicissitudes v&aacute;rias e a fatores que ainda hoje carecem de explica&ccedil;&atilde;o cabal, a Ordem do Templo foi, h&aacute; sete s&eacute;culos, depois de quase duzentos anos de exist&ecirc;ncia, submetida a um processo tr&aacute;gico que levou &agrave; sua extin&ccedil;&atilde;o. Semelhan&ccedil;as houve com o que viria acontecer, mais tarde, com a expuls&atilde;o da Companhia de Jesus de Portugal de Portugal pela m&atilde;o de Pombal, e noutras monarquias europeias no s&eacute;culo XVIII, acabando com a sua extin&ccedil;&atilde;o universal em 1773 pelo papa Clemente XIV.<\/p>\n<p>O processo antitempl&aacute;rio foi liderado pelo Rei de Fran&ccedil;a, Filipe, o Belo, que conseguiu a coniv&ecirc;ncia do Papa de ent&atilde;o, Clemente V, para considerar a Ordem do Templo culpada de desvios e faltas graves. De tal modo que o monarca franc&ecirc;s logrou, embora hoje sem sabermos com certeza se com provas justas, obter do Papa a extin&ccedil;&atilde;o desta Ordem e at&eacute; a condena&ccedil;&atilde;o das suas mais importantes lideran&ccedil;as, culminando com a morte na fogueira do seu &uacute;ltimo Gr&atilde;o-Mestre, Jacques de Molay, em 1314. Mas o processo tinha come&ccedil;ada em 1308 com uma bula papal enviada aos pr&iacute;ncipes crist&atilde;os para clarificar a situa&ccedil;&atilde;o dos Templ&aacute;rios e declarar a necessidade da sua extin&ccedil;&atilde;o, seguida de outra bula, emitida em 1309, a ordenar a pris&atilde;o dos Freires de Cristo e, finalmente, da bula <em>Ad Providum,<\/em> de mar&ccedil;o de 1312, a decretar a anexa&ccedil;&atilde;o dos significativos bens desta Ordem e a transferi-los para a posse da Ordem do Hospital.<\/p>\n<p>No entanto, D. Dinis, que ent&atilde;o presidia ao trono de Portugal, resistiu a aceitar a diretiva papal que mandava extinguir a Ordem do Templo, consciente do relevant&iacute;ssimo servi&ccedil;o que tinha prestado e continuava a prestar na defesa e povoamento do territ&oacute;rio portugu&ecirc;s. Atrav&eacute;s de uma a&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica bem sucedida conseguiu obter do Papa uma solu&ccedil;&atilde;o para acatar a extin&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o extinguindo de facto esta Ordem de elite, cuja dispensa n&atilde;o convinha &agrave; estrat&eacute;gia pol&iacute;tica do Reino de Portugal. A solu&ccedil;&atilde;o passou por comutar o nome. Mantiveram-se os mesmos efetivos, os mesmos bens e a estrutura organizativa, mas mudou-se o nome da Ordem. A Ordem passou a chamar-se Ordem de Cristo. Assim, com esta jogada de diplomacia, D. Dinis salvou os Templ&aacute;rios que passaram a ser integrados na Ordem de Cristo, no fundo, o nome novo da Ordem do Tempo ou dos Cavaleiros de Cristo.<\/p>\n<p>Sabemos hoje qu&atilde;o importante e decisivo foi este empenho pol&iacute;tico de D. Dinis em evitar a extin&ccedil;&atilde;o dos Templ&aacute;rios em Portugal. Mais tarde, a suced&acirc;nea Ordem de Cristo liderar&aacute; a promo&ccedil;&atilde;o de uma das empresas mais importantes e significativas de toda a Hist&oacute;ria de Portugal: as viagens mar&iacute;timas de descobrimento. Atrav&eacute;s da lideran&ccedil;a de um dos mais famosos Gr&atilde;o Mestres da Ordem de Cristo, o Infante D. Henrique, Portugal ficou na hist&oacute;ria universal como o primeiro imp&eacute;rio global da humanidade e o pioneiro da constru&ccedil;&atilde;o da globaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A Ordem de Cristo tutelou, no s&eacute;culo XV, todo o processo de descobrimento de novos caminhos mar&iacute;timos e de novos territ&oacute;rios e povos desconhecidos oficialmente, como consequ&ecirc;ncia da pol&iacute;tica expansionista extraeuropeia promovida pela Dinastia de Avis fundada pelo Rei D. Jo&atilde;o I. Depois da conquista de Ceuta em 1415, o primeiro territ&oacute;rio descoberto oficialmente no Atl&acirc;ntico foi o Arquip&eacute;lago da Madeira em 1419\/20, ao qual sucedeu uma s&eacute;rie de viagens que culminaram com a navega&ccedil;&atilde;o de toda a costa africana, a passagem do tem&iacute;vel Cabo das Tormentas, a chegada &agrave; &iacute;ndia por via mar&iacute;tima (1498) e a descoberta oficial do Brasil em 1500.<\/p>\n<p>Estas viagens permitiram estabelecer a primeira grande rede imperial moderna sob dom&iacute;nio portugu&ecirc;s em concorr&ecirc;ncia com aquilo que empreendia Espanha. Esta concorr&ecirc;ncia foi regulamentada sob os ausp&iacute;cios da Santa S&eacute; e consagrada no Tratado de Tordesilhas em 1494&nbsp; com a divis&atilde;o do mundo em duas partes, &agrave; luz da teoria do <em>Mare Clausum<\/em>,&nbsp; de forma a conciliar as duas monarquias crist&atilde;s no que respeitava &agrave; superintend&ecirc;ncia dos territ&oacute;rios descobertos e a descobrir por estas duas grandes pot&ecirc;ncias europeias.<\/p>\n<p>O ideal de universaliza&ccedil;&atilde;o do Cristianismo teve sempre na base motivadora e legitimadora fundamental, dita pelos documentos, de todo este processo de expans&atilde;o terrestre e mar&iacute;tima. A constru&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio era acompanhado, como sabemos, pela concomitante edifica&ccedil;&atilde;o das bases da Igreja Cat&oacute;lica nos novos mundos descobertos atrav&eacute;s da a&ccedil;&atilde;o dos mission&aacute;rios de v&aacute;rias ordens.<\/p>\n<p>A Ordem de Cristo ficou durante muitos anos com a tutela deste processo de edifica&ccedil;&atilde;o da Igreja nos novos territ&oacute;rios, tendo sido a Madeira erguida como primeira grande rampa de lan&ccedil;amento desta pol&iacute;tica expansionista. De tal modo, que em 1514 se edificou a primeira diocese bem sucedida em territ&oacute;rio ultramarino sob dom&iacute;nio portugu&ecirc;s: a Diocese do Funchal. Esta que foi a maior diocese do mundo aquando da sua cria&ccedil;&atilde;o e durante poucas d&eacute;cadas, dependia da Ordem de Cristo e detinha jurisdi&ccedil;&atilde;o sobre todos os territ&oacute;rios descobertos e a descobrir, isto &eacute;, envolvia tr&ecirc;s continentes.<\/p>\n<p>Assinalamos, pois, entre este ano de 2012 e o ano de 2014 um ciclo de acontecimentos da maior relev&acirc;ncia para a hist&oacute;ria portuguesa e para o processo de universaliza&ccedil;&atilde;o do Cristianismo, ao qual a medieval e pol&eacute;mica Ordem do Templo est&aacute; umbilicalmente ligada.<\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Eduardo Franco, Centro de Literaturas e Culturas Lus&oacute;fonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Franco, 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