{"id":5561,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-sociedade-catolaica-paradoxo-da-democracia-pos-abrilina\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-sociedade-catolaica-paradoxo-da-democracia-pos-abrilina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-sociedade-catolaica-paradoxo-da-democracia-pos-abrilina\/","title":{"rendered":"A sociedade catolaica: paradoxo da Democracia p\u00f3s-abrilina"},"content":{"rendered":"<p>Um dos segredos do sucesso da consolida\u00e7\u00e3o do regime democr\u00e1tico que brotou da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril de 1974 em Portugal foi, sem d\u00favida, a capacidade de integra\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica e do Catolicismo como parceiros. A III Rep\u00fablica portuguesa teve a sabedoria, ap\u00f3s o complexo per\u00edodo revolucion\u00e1rio de 1974\/76, de evitar incorrer nas tenta\u00e7\u00f5es da I Rep\u00fablica no sentido de marginalizar a Igreja e a Religi\u00e3o ou de tom\u00e1-las como inimigos a abater e a eliminar definitivamente do panorama social e cultural, como sonharam alguns mentores e pol\u00edticos da primeira experi\u00eancia republicana portuguesa. Um dos factores que explicam as sucessivas crises e fracturas sociais da I Rep\u00fablica foi certamente a dificuldade dos l\u00edderes republicanos em lidar com a quest\u00e3o religiosa, assumindo, na primeira fase da governa\u00e7\u00e3o republicana, como factor de progresso o combate sem tr\u00e9guas ao catolicismo, aos seus ritos com visibilidade social e \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es mormente as ditas de filia\u00e7\u00e3o ultramontana presentes no pa\u00eds. Donde a extrema dificuldade dos pol\u00edticos da Rep\u00fablica de 1910 em realizar a pacifica\u00e7\u00e3o social t\u00e3o basilar para a estabiliza\u00e7\u00e3o do regime. Preferiram antes, fi\u00e9is aos seus ide\u00e1rios anticlericais e anti-religiosos, hostilizar a maioria mental e cultural cat\u00f3lica, augurando, com este confronto directo, operar uma transforma\u00e7\u00e3o de mentalidade em poucas gera\u00e7\u00f5es no sentido de alcan\u00e7ar a acelera\u00e7\u00e3o \u201cfor\u00e7ada\u201d do processo de laiciza\u00e7\u00e3o e de instaura\u00e7\u00e3o de uma mundivid\u00eancia totalmente libertas dos lia-mes teol\u00f3gicos que entreteciam a ordem e o horizonte de sentido da vida humana em sociedade. Mas como tudo o que \u00e9 for\u00e7ado e acelerado artificialmente resulta em reac\u00e7\u00f5es que produzem muitas vezes efeitos contr\u00e1rios aos desejados, quando se trata de quest\u00f5es de mentalidade e de cultura de um povo, o projecto republicano n\u00e3o s\u00f3 fracassou como acabou por desaguar num novo regime, a II Rep\u00fablica, que, embora mantendo a separa\u00e7\u00e3o das duas espadas em teoria, aliou intimamente e concertou, sobremaneira, o trono e o altar na consecu\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica e de uma ideologia da portugalidade durante mais de quatro d\u00e9cadas.  Apreendendo com a experi\u00eancia traum\u00e1tica da I Rep\u00fablica, os construtores da Democracia hodierna, apesar de fi\u00e9is \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um Estado laico numa sociedade laica em que a separa\u00e7\u00e3o da esfera religiosa da esfera pol\u00edtica seja o sinal mais sublime da sua modernidade, procuraram n\u00e3o dispensar a Igreja Cat\u00f3lica e o seu patrim\u00f3nio cultural e o seu capital de influ\u00eancia social. Pelo contr\u00e1rio, procuraram associar a Igreja como entidade capaz de cooperar na democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade e da normal consolida\u00e7\u00e3o do processo democr\u00e1tico. De facto, ambos os lados acabaram por manter em geral uma rela\u00e7\u00e3o\/tens\u00e3o de equidist\u00e2ncia e de colabora\u00e7\u00e3o\/reivindica\u00e7\u00e3o pac\u00edfica no quadro da salvaguarda dos seus interesses e ideais.  N\u00e3o obstante algumas amea\u00e7as de reacendimento dos velhos conflitos anticlericais e antijesu\u00edticos terem pairado no \u00e2mbito do processo revolucion\u00e1rio abrilino, houve tamb\u00e9m tenta\u00e7\u00f5es da parte de sectores eclesi\u00e1sticos em ordem a uma interfer\u00eancia no desenrolar dos acontecimentos que marcaram a transi\u00e7\u00e3o da ditadura para a Democracia. Felizmente, o regime moderado, que acabou por se construir no seguimento dos anos da revolu\u00e7\u00e3o assente numa Constitui\u00e7\u00e3o que evita hostilizar a Igreja Cat\u00f3lica, deu origem \u00e0 moderna democracia portuguesa marcada por uma significativa paz social em que o pluralismo e a prefer\u00eancia da inclus\u00e3o em detrimento da exclus\u00e3o \u00e9 um dos seus sinais distintivos e de maior m\u00e9rito. Tal se deve, em grande medida, ao esfor\u00e7o enorme dos sectores laicos e dos sectores cat\u00f3licos terem decidido adoptar uma postura de equidist\u00e2ncia e de colabora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de conflito. \u00c9 verdade que o republicanismo que se afirmou com a III Rep\u00fablica era herdeiro ideol\u00f3gico da I Rep\u00fablica, mas tamb\u00e9m da sua experi\u00eancia, e, portanto, apresentava uma postura mais moderada e pautada por uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o universo religioso. Do mesmo modo, a Igreja dos anos 70 do s\u00e9culo XX tinha uma face diferente da Igreja mais integrista e intransigente do tempo de Pio X, pois era uma Igreja que se renovava e se abria ao mundo e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o das realidades temporais ao sabor dos ventos doutrin\u00e1rios do Conc\u00edlio Vaticano II.  Mas obviamente que quando se erige um sistema de inclus\u00e3o de parecerias com ide\u00e1rios por vezes t\u00e3o antin\u00f3micos &#8211; o de um Estado laico e o de uma institui\u00e7\u00e3o religiosa com um forte sentido militante de convers\u00e3o do humano e da sua totalidade envolvente \u2013 tem que haver ced\u00eancias de ambas as partes, donde surgem inevit\u00e1veis ambiguidades que ainda persistem hoje em dia. O resultado \u00e9 o presente conv\u00edvio de uma rela\u00e7\u00e3o binomial de amor\/\u00f3dio, de diverg\u00eancia\/aproxima\u00e7\u00e3o entre essas duas institui\u00e7\u00f5es, esses dois \u201cestados\u201d de voca\u00e7\u00e3o totalizante no plano da abrang\u00eancia da sua ac\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia social. O que deu origem a uma sociedade democr\u00e1tica que alguns denominam como sendo catolaica. Se esta nomenclatura estranha e paradoxal \u00e9 o pre\u00e7o da referida ambiguidade, ela adv\u00e9m da integra\u00e7\u00e3o e do reconhecimento mais ou menos pac\u00edfico de que a cultura e a sociedade portuguesa, enquadrada por uma democracia pluralista, precisa de integrar e contar com todos e naturalmente com a confiss\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o religioso-cultural maiorit\u00e1ria. Caso contr\u00e1rio, teria que dispensar boa parte da na\u00e7\u00e3o, que se viraria contra ela.  Assim sendo, como a maioria da sociedade portuguesa \u00e9 cat\u00f3lica e quem mais ordena \u00e9 o Estado laico, mas um Estado que tem tentado reconhecer o direito \u00e0 liberdade e \u00e0 diferen\u00e7a, o regime democr\u00e1tico hodierno prefere conviver com a institui\u00e7\u00e3o religiosa representante da religi\u00e3o dominante, esperando que esta respeite e contribua para a consolida\u00e7\u00e3o e para a efic\u00e1cia dos fins do mesmo Estado.  Uma pergunta emerge inevit\u00e1vel da verifica\u00e7\u00e3o deste satus quo: quem cedeu mais e quem ganhou neste conv\u00edvio amb\u00edguo? Ambos os lados ganharam em qualidade e todos perderem em quantidade. Mas as perdas e os ganhos s\u00e3o ainda dif\u00edceis de contabilizar com precis\u00e3o. Importa acima de tudo salientar o que ambas as esferas aprenderam neste interessante processo. A Igreja aprendeu a conviver com a Democracia e, de algum modo, a evoluir paulatinamente no sentido pensar-se democraticamente, assumindo um rosto mais progressivo e uma consci\u00eancia cr\u00edtica livre de compromissos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos. O Estado aprendeu a tolerar, a integrar e a olhar a Igreja como uma for\u00e7a viva capaz de laborar com ele na edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais humana e ouvindo-a por vezes como uma consci\u00eancia cr\u00edtica importante. Da\u00ed que o paradoxo convivial de uma sociedade catolaica seja necessariamente amb\u00edguo, mas de uma ambiguidade necess\u00e1ria em nome de uma harmonia poss\u00edvel em favor da pacifica\u00e7\u00e3o social fundamental para a consolida\u00e7\u00e3o de um regime democr\u00e1tico.  Jos\u00e9 Eduardo Franco <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos segredos do sucesso da consolida\u00e7\u00e3o do regime democr\u00e1tico que brotou da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril de 1974 em Portugal foi, sem d\u00favida, a capacidade de integra\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica e do Catolicismo como parceiros. 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