{"id":55598,"date":"2012-03-12T12:01:49","date_gmt":"2012-03-12T12:01:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/03\/12\/homilia-do-bispo-de-lamego-no-dia-nacional-da-caritas\/"},"modified":"2012-03-12T12:01:49","modified_gmt":"2012-03-12T12:01:49","slug":"homilia-do-bispo-de-lamego-no-dia-nacional-da-caritas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-lamego-no-dia-nacional-da-caritas\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Lamego no Dia Nacional da C\u00e1ritas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Uma rede de caridade<\/strong><\/p>\n<p><em>&laquo;Edificar o bem comum: tarefa de todos e de cada um&raquo;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. O Evangelho deste Domingo III da Quaresma faz-nos ver Jesus a entrar no Templo de Jerusal&eacute;m, que Jesus chama de forma significativa e carinhosa &laquo;a Casa do meu Pai&raquo; (Jo&atilde;o 2,16) ou &laquo;a minha Casa&raquo; (Mateus 21,13; Marcos 11,17; Lucas 19,46). Dito isto, ganha uma enorme relev&acirc;ncia a informa&ccedil;&atilde;o que nos &eacute; transmitida de Jesus ter encontrado na Casa do seu Pai, que &eacute; tamb&eacute;m a sua Casa, n&atilde;o filhos e irm&atilde;os, mas vendedores, banqueiros e comerciantes (Jo&atilde;o 2,14). Est&aacute;vamos todos &agrave; espera que l&aacute; fosse encontrar filhos e irm&atilde;os. Na verdade, &laquo;a Casa do meu Pai&raquo;, e &laquo;a minha Casa&raquo;, por um lado, e o Mercado, por outro lado, s&atilde;o lugares incompat&iacute;veis. Trata-se, de facto, de duas maneiras diferentes de conceber e ocupar o espa&ccedil;o. Avista-se daqui a vida jovem, leve e bela dos primeiros crist&atilde;os que, conforme o relato dos Atos dos Ap&oacute;stolos, &laquo;partiam o p&atilde;o nas suas Casas com alegria e simplicidade de cora&ccedil;&atilde;o&raquo; (Atos 2,46).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Casa, Casa, Casa, &eacute; uma das palavras mais belas que conhe&ccedil;o. Mesa, Mesa, Mesa, &eacute; outra das palavras mais belas que conhe&ccedil;o. O Mercado s&atilde;o casas, mas sem Casa. S&atilde;o mesas, mas sem Mesa. Lareiras, mas sem Lar. Cora&ccedil;&otilde;es, mas sem Amor. Sem Pai nem M&atilde;e nem Filhos nem Irm&atilde;os. O gesto de Jesus, de derrubar pedras e mesas, &eacute; emblem&aacute;tico e ilustrativo. &Eacute; urgente quebrar esta crosta de indiferen&ccedil;a. &Eacute; urgente a Casa, &eacute; urgente a Mesa, &eacute; urgente o Amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Permiti-me, meus irm&atilde;os, que traga para aqui uma antiga hist&oacute;ria rab&iacute;nica. Um homem tinha tr&ecirc;s amigos. Mas tinha-os catalogados por ordem de import&acirc;ncia: o amigo n.&ordm; 1, o amigo n.&ordm; 2 e o amigo n.&ordm; 3. O amigo n.&ordm; 1 era naturalmente o melhor amigo do nosso homem; digamos que eram amigos &iacute;ntimos, e, por isso, insepar&aacute;veis: andavam sempre juntos. O amigo n.&ordm; 2 era aquele amigo que o nosso homem encontrava de vez em quando, apenas de vez em quando, altura em que confraternizavam e punham a conversa em dia. O amigo n.&ordm; 3 era aquele g&eacute;nero de amigo que o nosso homem encontrava muito raramente, por mero acaso, e de quem j&aacute; nem sequer se lembrava do nome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Um dia, o nosso homem foi apanhado de surpresa. Chegou-lhe pelo correio uma carta que provinha do pal&aacute;cio do Rei. O nosso homem abriu a carta, leu, releu, e ficou muito preocupado. Tratava-se de uma intima&ccedil;&atilde;o que obrigava o nosso homem a comparecer no pal&aacute;cio do Rei. Ora, acontece que o nosso homem, o homem desta hist&oacute;ria, nem sabia o que era um Rei, e muito menos um pal&aacute;cio. T&atilde;o-pouco sabia o caminho para o pal&aacute;cio. Mas preocupava-o sobretudo o modo como se devia comportar na presen&ccedil;a do Rei. N&atilde;o era o mundo dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. Ficou aflito. J&aacute; nem conseguia comer nem dormir. Apoderou-se dele uma grande tremedeira. Quando isto nos acontece, lembramo-nos naturalmente de recorrer aos amigos. Foi assim que o nosso homem foi desabafar com o seu melhor amigo, o amigo n.&ordm; 1. Exp&ocirc;s-lhe o assunto que o preocupava. Tinha sido intimado a comparecer no pal&aacute;cio do Rei, e tinha muito medo, pois nada percebia de pal&aacute;cios e de reis. Foi assim que pediu ao seu amigo n.&ordm; 1 o favor de o acompanhar naquela viagem dif&iacute;cil. Nem era nada demais, dado que andavam sempre juntos, eram amigos insepar&aacute;veis. O amigo n.&ordm; 1 respondeu assim ao nosso homem: &eacute; verdade que somos muito amigos; de facto, andamos sempre juntos. Pede-me o que quiseres, que eu estou disposto a ajudar-te; por&eacute;m, nessa viagem, n&atilde;o te posso acompanhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. &Eacute; assim que o nosso homem, desiludido, tem de ir &agrave; procura do seu amigo n.&ordm; 2. P&ocirc;-lo a par do seu problema, e implorou-lhe, da mesma maneira, que o acompanhasse naquela viagem dif&iacute;cil. O amigo n.&ordm; 2 ouviu atentamente a exposi&ccedil;&atilde;o do nosso homem, e respondeu assim: sim, disponho-me a acompanhar-te, mas com uma condi&ccedil;&atilde;o: vou contigo, mas s&oacute; at&eacute; &agrave; porta do pal&aacute;cio; da&iacute; para a frente, ter&aacute;s de ir sozinho, pois n&atilde;o te posso acompanhar. O nosso homem, por&eacute;m, insistiu: mas o meu problema &eacute; dentro do pal&aacute;cio, porque eu n&atilde;o entendo nada de reis e de pal&aacute;cios. Compreendo, retorquiu o amigo n.&ordm; 2, mas, nesse caso, n&atilde;o te posso mesmo ajudar. Ter&aacute;s de ir sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. Foi ent&atilde;o que o nosso homem se p&ocirc;s a caminho para ver se encontrava o seu amigo n.&ordm; 3, aquele amigo de quem j&aacute; nem se lembrava do nome nem de quando tinha sido a &uacute;ltima vez que se tinham encontrado. Com alguma sorte, l&aacute; o encontrou, e exp&ocirc;s-lhe o problema, e suplicou-lhe que o acompanhasse naquela viagem dif&iacute;cil. O amigo n.&ordm; 3 ouviu atentamente, e nem sequer deixou o nosso homem terminar. Respondeu logo: mas &eacute; claro que te acompanho. At&eacute; te digo mais: ficaria mesmo muito triste, se soubesse que estavas a bra&ccedil;os com esse problema, e n&atilde;o me tivesses dito nada!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8. Permiti-me agora, meus irm&atilde;os, que descodifique a hist&oacute;ria, para entendermos melhor o seu alcance. O nosso homem, o homem desta hist&oacute;ria, sou eu, &eacute;s tu, pode ser qualquer um de n&oacute;s. O Rei &eacute; Deus. A viagem &eacute; a morte. O amigo n.&ordm; 1, aquele que anda sempre connosco, &eacute; a nossa pr&oacute;pria vida, os nossos projetos, os nossos trabalhos, os nossos sonhos, as nossas ambi&ccedil;&otilde;es. De facto, andamos sempre juntos, somos insepar&aacute;veis. Todavia, naquela viagem, os nossos projetos e trabalhos n&atilde;o nos podem acompanhar. O amigo n.&ordm; 2, aquele que encontramos de vez em quando para confraternizar e p&ocirc;r a conversa em dia, s&atilde;o os nossos pr&oacute;prios amigos. Aqueles que se mostram dispostos a ir connosco, mas s&oacute; at&eacute; &agrave; porta&hellip; do cemit&eacute;rio! O amigo n.&ordm; 3, aquele que muito raramente encontramos, de quem at&eacute; acabamos por esquecer o nome, mas que at&eacute; ficaria triste e sentido se n&atilde;o lhe diss&eacute;ssemos nada, e que &eacute; o &uacute;nico que nos pode acompanhar, &eacute; o Bem que fazemos, o Amor que pomos naquilo que fazemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>9. Bem vistas as coisas, est&aacute; bom de ver que temos de inverter a ordem dos nossos amigos, e passar para 1.&ordm; lugar aquele que temos no cat&aacute;logo em 3.&ordm; lugar. Decisivo, decisivo, decisivo &eacute; o Amor. Temos de nos encontrar muito mais vezes com este amigo. Na verdade, diz bem S. Paulo, tudo passa; s&oacute; o Amor permanece (1 Cor&iacute;ntios 13,8).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>11. Contei esta hist&oacute;ria, porque hoje &eacute; o dia do Amor, da Caridade, da <em>Caritas<\/em>. Hoje &eacute; o dia de partir a crosta da indiferen&ccedil;a, daquela coura&ccedil;a ou m&aacute;scara a que nos agarramos tanto, para nos defendermos, para subirmos na vida, ainda que seja &agrave; custa dos outros. Hoje &eacute; o dia de n&atilde;o olharmos apenas para o nosso grupinho de amigos. Hoje &eacute; o dia de visitar e acolher cada ser humano, de o sentar &agrave; nossa mesa, de lhe lavarmos os p&eacute;s e a alma e o cora&ccedil;&atilde;o. Hoje &eacute; o dia do Amor. Hoje &eacute; o dia de sermos irm&atilde;os, e n&atilde;o comerciantes ou banqueiros desalmados. Hoje &eacute; o dia de limparmos as l&aacute;grimas que correm de tantos rostos belos como os nossos, porque tamb&eacute;m neles se espelha a imagem de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>12. Hoje &eacute; o dia do Amor que rompe bolsos e derruba cora&ccedil;&otilde;es empedernidos. Sim, diz-nos Jesus em jeito de s&eacute;ria advert&ecirc;ncia: &laquo;Destas majestosas constru&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ficar&aacute; pedra sobre pedra&raquo; (Mateus 24,2; Marcos 13,2). Os Templos, as paredes, as pedras da nossa idolatria, &laquo;obra de m&atilde;os humanas&raquo;, conv&eacute;m que sejam destru&iacute;dos, para darem lugar a outros, &laquo;n&atilde;o feitos por m&atilde;os humanas&raquo; (Marcos 14,58). Paredes desabitadas, sem Deus aqui no meio dos seus filhos e filhas, s&atilde;o &iacute;dolos. Neste sentido, refere Jo&atilde;o Paulo II, expondo diante dos nossos olhos, com singular afeto, um belo programa, que a par&oacute;quia &eacute; &laquo;a pr&oacute;pria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas&raquo; (<em>Christifideles Laici<\/em>, n.&ordm; 26), e que a sua voca&ccedil;&atilde;o &laquo;&eacute; a de ser a casa de fam&iacute;lia, fraterna e acolhedora&raquo; (<em>Catechesi tradendae<\/em>, n.&ordm; 67), e grava esta afirma&ccedil;&atilde;o emocionada e mobilizadora: &laquo;O homem &eacute; amado por Deus. Este &eacute; o mais simples e o mais comovente an&uacute;ncio de que a Igreja &eacute; devedora ao Homem&raquo; (<em>Christifideles Laici<\/em>, n.&ordm; 34), a todos os homens, porque a caridade tem a vastid&atilde;o do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>13. Car&iacute;ssimos irm&atilde;os da <em>Caritas<\/em> Diocesana, queridos av&ocirc;s e av&oacute;s, pais e m&atilde;es, filhos e filhas, irm&atilde;os e irm&atilde;s, que Deus me deu nesta bela Diocese de Lamego, desafio-vos a todos a entretecermos, com as nossas m&atilde;os abertas e carinhosas, uma vasta rede de Amor em que todos nos sintamos unidos, envolvidos e empenhados. Apelo vivamente a que juntos defendamos o Amor, a Caridade, a <em>Caritas<\/em>. Se defendermos o Amor, o Amor defender-nos-&aacute;. O resto pouco vale. At&eacute; as mais majestosas constru&ccedil;&otilde;es caem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>14. Apelo a todos os p&aacute;rocos e paroquianos de todas as par&oacute;quias desta nossa Diocese de Lamego a que, com a ajuda da <em>Caritas<\/em> Diocesana e em rede com ela e comigo, formemos o mais rapidamente poss&iacute;vel &ndash; a tanto nos impele a urg&ecirc;ncia do Evangelho &ndash; em todas as par&oacute;quias Grupos de Caridade, Grupos <em>Caritas<\/em>, para que ningu&eacute;m se sinta sozinho, abandonado ou desfigurado, mas todos transfigurados e configurados &agrave; Imagem de Cristo, Bom Pastor, que cuida carinhosamente de todas as suas ovelhas e vai, sem descanso, &agrave; procura da ovelha perdida at&eacute; a encontrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>15. Ensina-nos, impele-nos, acaricia-nos, Senhor, com o vendaval manso do alento do teu Amor. Fica connosco, Senhor, bem no meio de n&oacute;s, para te vermos bem no rosto dos nossos irm&atilde;os. Senhora do puro Amor, M&atilde;e da Igreja e nossa M&atilde;e, vela por n&oacute;s, fica &agrave; nossa beira. &Eacute; bom ter a Esperan&ccedil;a como companheira.<\/p>\n<p>Catedral de Lamego, 11 de mar&ccedil;o de 2012<\/p>\n<p><em>D. Ant&oacute;nio Couto<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma rede de caridade &laquo;Edificar o bem comum: tarefa de todos e de cada um&raquo; &nbsp; &nbsp; 1. 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