{"id":5545,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/discurso-do-presidente-da-cep-na-abertura-dos-trabalhos-da-156a-assembleia-plenaria\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"discurso-do-presidente-da-cep-na-abertura-dos-trabalhos-da-156a-assembleia-plenaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-do-presidente-da-cep-na-abertura-dos-trabalhos-da-156a-assembleia-plenaria\/","title":{"rendered":"Discurso do Presidente da CEP na abertura dos trabalhos da 156\u00aa Assembleia Plen\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Discurso do Presidente da CEP na abertura dos trabalhos da 156\u00aa Assembleia Plen\u00e1ria   Senhor N\u00fancio Apost\u00f3lico Senhores Arcebispos e Bispos Senhores Presidentes da CNIR, FNIRF e FNIS Senhores Jornalistas  1. Reunimo-nos, como habitualmente, ainda em ambiente de celebra\u00e7\u00e3o pascal. A P\u00e1scoa deste ano teve para a CEP um acrescido sentido de esperan\u00e7a: inici\u00e1mos a Semana Maior reunidos nas ex\u00e9quias do Senhor Bispo de Viseu que o Senhor convidou a comer, j\u00e1 este ano, a P\u00e1scoa da Terra prometida. Unir-nos-emos a ele, na Eucaristia de um destes dias, louvando o Senhor pelo seu minist\u00e9rio episcopal e merecendo, com os m\u00e9ritos de Jesus Cristo, a purifica\u00e7\u00e3o definitiva da sua alma. Todos sentimos como \u00e9 imposs\u00edvel celebrar a P\u00e1scoa sem nos deixarmos devorar pelo zelo e pela urg\u00eancia da salva\u00e7\u00e3o do mundo. A morte de Cristo, o Justo, lembrou-nos que n\u00e3o haver\u00e1 liberta\u00e7\u00e3o do homem e da sociedade sem uma ruptura transformadora, que ven\u00e7a a raiz do mal e do pecado e fa\u00e7a florir os g\u00e9rmenes de vida, de amor, de justi\u00e7a e de paz, dons da cria\u00e7\u00e3o e que nenhum pecado destruiu. A profundidade dessa ruptura est\u00e1 bem significada na morte de Cristo, uma morte que n\u00e3o \u00e9 o culminar de uma condena\u00e7\u00e3o, mas o in\u00edcio de uma nova esperan\u00e7a, de uma liberdade que seja caminho para o amor, de uma alegria e felicidade que sejam j\u00e1 as prim\u00edcias da bem-aventuran\u00e7a. A celebra\u00e7\u00e3o pascal imp\u00f5e-se \u00e0 Igreja como fonte de discernimento e de ju\u00edzo, sobre si mesma e sobre a sociedade. A harmonia da felicidade e da justi\u00e7a n\u00e3o se conseguem sorvendo sofregamente os bens que a natureza nos oferece, numa pressa de viver sem aceitar essa ruptura do sofrimento e da morte. A natureza sem reden\u00e7\u00e3o, mesmo no que tem de mais belo, est\u00e1 ferida de caducidade. E a vida encarrega-se de o mostrar dramaticamente. A euforia de felicidade imediata, pr\u00f3pria das nossas sociedades de consumo, \u00e9 continuamente manchada pelo sofrimento e pela dor, da viol\u00eancia, da desilus\u00e3o de amor, da perda da alegria e da paz. O homem s\u00f3 ser\u00e1 feliz e poder\u00e1 fruir dos bens da cria\u00e7\u00e3o, se aceitar viver essa ruptura que lhe transformar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o e far\u00e1 dele uma \u201cnova criatura\u201d. Isso \u00e9 agora poss\u00edvel com a for\u00e7a do Esp\u00edrito de Jesus ressuscitado, que d\u00e1 sentido \u00e0 exig\u00eancia e sofrimento, torna firme a nossa fidelidade na luta pela vida, define o \u00e2mbito da miss\u00e3o da Igreja enviada ao mundo com essa for\u00e7a e essa \u201cboa-not\u00edcia\u201d. A P\u00e1scoa de Cristo define o sentido da miss\u00e3o da Igreja na sociedade. Em Sexta-Feira Santa acompanh\u00e1mos o Santo Padre, a quem saudamos filialmente, na Via-Sacra, evoca\u00e7\u00e3o do caminho da Cruz do pr\u00f3prio Jesus, percorrido agora na serenidade e na esperan\u00e7a. E na longa marcha das 14 esta\u00e7\u00f5es, fomos abra\u00e7ando os diversos sofrimentos do homem contempor\u00e2neo,  com o mesmo amor com que Cristo abra\u00e7ou a Sua Cruz, para se transformarem numa s\u00f3 cruz, a d\u2019Ele, a \u00fanica que nos permite fazer do sofrimento, um caminho para a liberdade. Ali passaram os horrores das diversas guerras que dilaceram, neste momento, a fam\u00edlia humana e entre as quais temos dificuldade em identificar alguma que seja justa; ali ecoaram os gritos de tantas v\u00edtimas inocentes, o p\u00e2nico de popula\u00e7\u00f5es assustadas com o fen\u00f3meno irracional do terrorismo. Mas ouvimos tamb\u00e9m o sofrimento silencioso dos pobres, dos desempregados, dos doentes e dos solit\u00e1rios. S\u00f3 a Igreja pode abra\u00e7ar esse sofrimento e oferec\u00ea-lo, com o de Cristo, fazendo dele caminho de reden\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a P\u00e1scoa, na densidade da sua mensagem, nos pode comunicar a serenidade e a esperan\u00e7a, no seio deste drama humano. O mundo tem o direito de esperar da Igreja, na sua palavra e no seu testemunho, que ela seja agora, neste momento concreto, \u201ccasa da comunh\u00e3o\u201d, foco de esperan\u00e7a e de serenidade, determina\u00e7\u00e3o em lutar pelo homem e pela vida, pela sua dignidade e pelo seu direito \u00e0 felicidade.  2. Ningu\u00e9m estranhar\u00e1 que seja neste esp\u00edrito pascal que abordaremos todos os assuntos que constituir\u00e3o a nossa Agenda. Que ao menos na voz da Igreja sobressaia sempre esta vis\u00e3o sobrenatural de toda a realidade humana. Voltaremos ao tema da fam\u00edlia. Como experi\u00eancia humana, ela est\u00e1 no centro da busca da felicidade e do amor, torna-se alicerce do equil\u00edbrio da sociedade, servi\u00e7o da vida e escola de comunh\u00e3o. Por ser entre as realidades humanas a mais decisiva, ela \u00e9 o prot\u00f3tipo dos valores da natureza que s\u00f3 encontrar\u00e3o a plenitude da sua verdade na ruptura da reden\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a P\u00e1scoa de Jesus Cristo garante \u00e0 fam\u00edlia a chave da sua plena realiza\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o se constr\u00f3i um amor que dure para a eternidade, sem a for\u00e7a do Esp\u00edrito de Cristo ressuscitado. Muitos t\u00eam tend\u00eancia em considerar a doutrina da Igreja sobre a fam\u00edlia, que o mesmo \u00e9 dizer sobre a realiza\u00e7\u00e3o amorosa do homem e da mulher, como um trav\u00e3o retr\u00f3grado \u00e0 liberdade, \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de novas formas de ser. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o esp\u00edrito que nos move: escutamos todo o sofrimento dos homens e mulheres do nosso tempo, dilacerados ou desiludidos na sua busca da felicidade; perscrutamos ansiosamente os caminhos novos que o evoluir do tempo e da hist\u00f3ria anunciam para a fam\u00edlia; n\u00e3o queremos esquecer, nem abandonar, todos aqueles e aquelas que, na busca da felicidade, trilharam caminhos que a Igreja n\u00e3o aprova. Mas estamos profundamente convencidos que s\u00f3 h\u00e1 um caminho para o homem ser feliz, e esse caminho \u00e9 Jesus Cristo, o \u00fanico que renova o cora\u00e7\u00e3o e permite viver, de maneira nova, todas as coisas. A P\u00e1scoa de Jesus fundamenta uma vis\u00e3o do homem e da sua plenitude e n\u00e3o queremos, nem podemos, afastar-nos dela.  3. S\u00f3 esta novidade pascal poder\u00e1 iluminar outro tema da nossa Agenda: as voca\u00e7\u00f5es sacerdotais e outras de total consagra\u00e7\u00e3o a Cristo e \u00e0 Igreja. Nelas a viv\u00eancia de Cristo ressuscitado radicaliza-se numa forma nova de viver a busca da felicidade e do amor. Em nenhuma outra experi\u00eancia se vive  mais a radicalidade da P\u00e1scoa, como na virgindade consagrada. Esta \u00e9 uma ousadia de quem acredita na P\u00e1scoa, incompreens\u00edvel para quem vive o imediato da natureza, excluindo a tal ruptura do homem novo. \u00c9 impressionante como, num mundo onde todas as linguagens v\u00e3o num sentido diferente, o Esp\u00edrito de Deus continua a atrair os cora\u00e7\u00f5es jovens de homens e mulheres para essa aventura da radicalidade pascal. A Igreja precisa dessas voca\u00e7\u00f5es, e Deus n\u00e3o lhas regatear\u00e1. Uma pedagogia pastoral que as suscite s\u00f3 pode passar pelo aprofundamento da f\u00e9 em Cristo Vivo, pela inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e pela ousadia do chamamento.  4. No pr\u00f3ximo Domingo completam-se 30 anos sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, acontecimento que deu in\u00edcio a um novo ciclo da Hist\u00f3ria de Portugal como Na\u00e7\u00e3o. Nesse dia, h\u00e1 30 anos, a Confer\u00eancia Episcopal estava reunida aqui em F\u00e1tima, nesta reuni\u00e3o da segunda semana da P\u00e1scoa. Foi uma coincid\u00eancia feliz, que permitiu aos Bispos de ent\u00e3o, reagirem em conjunto \u00e0 surpresa dos acontecimentos. Estamo-lhes gratos por esse testemunho de serenidade, confian\u00e7a e discernimento pastoral. Perceberam a novidade de um futuro novo e come\u00e7aram a definir o lugar da Igreja na nova ordem que se anunciava. Trinta anos depois, compete-nos a n\u00f3s continuar esse discernimento sobre a especificidade da Igreja no Portugal democr\u00e1tico e a intuir a sua contribui\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e fraterna. Digo-o sem hesita\u00e7\u00f5es: este anivers\u00e1rio, a Igreja tamb\u00e9m o celebra e sa\u00fada todos aqueles e aquelas que, neste per\u00edodo de tempo, lutaram com generosidade e ideal para ajudarem a construir o quadro institucional que garanta o progresso, a harmonia e a paz. Nas \u00faltimas semanas, muitas t\u00eam sido as an\u00e1lises sobre estes trinta anos depois de Abril e algumas t\u00eam referido o papel da Igreja no Portugal democr\u00e1tico. Elas oscilam entre os que querem manter vivo o esp\u00edrito da Revolu\u00e7\u00e3o, como se os primeiros intentos de Abril tivessem sido relativizados pelo quadro constitucional estabelecido e os que preferem falar de evolu\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 pode significar aprofundamento cont\u00ednuo da conviv\u00eancia democr\u00e1tica. No que ao papel da Igreja diz respeito, as an\u00e1lises situam-se tamb\u00e9m num leque muito aberto, que vai daqueles que a acusam de se ter aliado \u00e0 direita e ter sido uma das for\u00e7as que contrariou Abril, at\u00e9 aos que gostariam, no momento presente da nossa vida nacional, de a ver mais interventiva.  Queremos ser fi\u00e9is \u00e0 serenidade e lucidez dos nossos antecessores neste minist\u00e9rio. Com a mesma clareza que assumimos que n\u00f3s, os Pastores, n\u00e3o nos imiscu\u00edmos na pol\u00edtica partid\u00e1ria, desafiamos os fi\u00e9is leigos a empenharem-se, com a lucidez e o esp\u00edrito pascal, em todas as frentes onde se decida a constru\u00e7\u00e3o de um Portugal democr\u00e1tico com qualidade, com generosidade, com a lucidez das op\u00e7\u00f5es claras e da defini\u00e7\u00e3o de objectivos v\u00e1lidos. Atrav\u00e9s deles a Igreja tem de estar na pol\u00edtica, porque quer participar na constru\u00e7\u00e3o de um Portugal melhor. A n\u00f3s os Pastores pertence-nos ilumin\u00e1-los com a doutrina da Igreja acerca das grandes quest\u00f5es da sociedade; temo-lo feito e continuaremos a faz\u00ea-lo. Como sempre, talvez mais do que nunca, a interven\u00e7\u00e3o doutrinal \u00e9 um elemento importante no processo din\u00e2mico e transformador que deve animar sempre um corpo vivo, como o \u00e9 uma sociedade organizada. O quadro democr\u00e1tico, em que o sentir colectivo decide do quadro institucional e inspira as leis, parece-nos indiscut\u00edvel. Mas para que n\u00e3o se caia na rotina de mecanismos democr\u00e1ticos formais, \u00e9 preciso enriquecer o nosso conviver com a educa\u00e7\u00e3o, o alargar o acesso \u00e0 cultura, aprofundar o discernimento l\u00facido dos problemas e das solu\u00e7\u00f5es, criar consensos para aquelas que n\u00e3o podem esperar ou ficar sujeitas \u00e0 dial\u00e9ctica da luta pol\u00edtica. Queremos participar, com os meios ao nosso alcance, para o aprofundamento cont\u00ednuo da nossa vida comum, em democracia. A Igreja n\u00e3o \u00e9 de esquerda, nem de direita; os crist\u00e3os, individualmente, podem s\u00ea-lo. Mas reconhe\u00e7o claramente que tanto \u00e0 esquerda, como \u00e0 direita, h\u00e1 modelos de sociedade que n\u00e3o cabem no quadro da doutrina social da Igreja.  5. O Esp\u00edrito de Deus, gra\u00e7a pascal por excel\u00eancia, \u00e9 um Esp\u00edrito transformador. Que Ele inspire todos aqueles que querem empenhar-se na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa, harm\u00f3nica e fraterna, e nos inspire a n\u00f3s para a lucidez da nossa miss\u00e3o.  F\u00e1tima, 19 de Abril de 2004  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca Presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discurso do Presidente da CEP na abertura dos trabalhos da 156\u00aa Assembleia Plen\u00e1ria Senhor N\u00fancio Apost\u00f3lico Senhores Arcebispos e Bispos Senhores Presidentes da CNIR, FNIRF e FNIS Senhores Jornalistas 1. Reunimo-nos, como habitualmente, ainda em ambiente de celebra\u00e7\u00e3o pascal. 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