{"id":55400,"date":"2012-02-28T12:06:43","date_gmt":"2012-02-28T12:06:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/02\/28\/guimaraes-2012-desafios-e-oportunidades-para-a-igreja\/"},"modified":"2012-02-28T12:06:43","modified_gmt":"2012-02-28T12:06:43","slug":"guimaraes-2012-desafios-e-oportunidades-para-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/guimaraes-2012-desafios-e-oportunidades-para-a-igreja\/","title":{"rendered":"Guimar\u00e3es 2012: Desafios e oportunidades para a Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Eduardo Jorge Duque <!--more--> <\/p>\n<p align=\"left\">Vejo a Capital Europeia da Cultura como um encontro de culturas. Por si s&oacute;, esta interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; j&aacute; um desafio, na medida em que, como encontro que &eacute;, implica conhecimento, abertura e respeito pelo outro, sendo este o lugar por excel&ecirc;ncia de questionamento do sujeito.<\/p>\n<p>Num momento em que a Europa, depois de universalizar o seu modelo de vida em diferentes padr&otilde;es de culturas, se nos afigura desgastada, esvaziada de valores e sem identidade, dando a impress&atilde;o de que chegou ao seu fim, poderemos descobrir neste encontro de culturas uma plataforma que ajuda a construir uma habita&ccedil;&atilde;o s&oacute;lida e solid&aacute;ria, aonde se cruza o trabalho local com o nacional e internacional, como quem deseja arejar e enriquecer a sua casa. Foi isso que vimos no dia da abertura da Capital Europeia de Guimar&atilde;es, que, com o tom solene do Maestro Rui Massena, agregou instrumentos e pessoas locais e de al&eacute;m fronteiras, tudo numa mesma harmonia.<\/p>\n<p>Oswald Spengler viu nas grandes express&otilde;es culturais como que uma esp&eacute;cie de lei natural ao referir que existe um momento de nascimento, crescimento gradual, desenvolvimento, lento empobrecimento, envelhecimento e, como consequ&ecirc;ncia natural deste processo, surgiria a morte. Para este autor, o Ocidente chegou ao seu fim, como uma pessoa que teve o seu tempo. Ora, poder&iacute;amos perguntar, como chegamos at&eacute; aqui? Como cavamos a nossa pr&oacute;pria sepultura? Muitos autores apontam o dedo ao vago exerc&iacute;cio da raz&atilde;o cr&iacute;tica, ao culta da t&eacute;cnica, &agrave; relatividade, j&aacute; que deixou de haver qualquer verdade substantiva que n&atilde;o tenha sido impugnada, facto que levou G. Steiner a invocar a &ldquo;nostalgia do Absoluto&rdquo;. O homem moderno libertou-se de tutelas, de refer&ecirc;ncias n&atilde;o porque se tenha decidido libertar da Igreja, mas porque as perdeu de vista, ficando, como consequ&ecirc;ncia, cada vez mais s&oacute;.<\/p>\n<p>A Capital da Cultura ao potenciar as diferentes express&otilde;es culturais est&aacute;, por um lado, a n&atilde;o permitir que se perca o acervo de valores comuns adquiridos ao largo de s&eacute;culos de hist&oacute;ria de vit&oacute;rias, de sangue e de l&aacute;grimas de um povo, por outro lado, est&aacute; a revitalizar as estruturas locais, a permitir que se partilhe o que de melhor se faz, construindo comunidades s&oacute;lidas, que acreditam que &eacute; poss&iacute;vel voar mais alto para superar qualquer crise de identidade. Estou certo de que Portugal precisa deste &acirc;nimo para n&atilde;o sucumbir &agrave; certid&atilde;o de Spengler.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Ora, se o Ocidente est&aacute; em crise e se, em parte, conhecemos a sua causa, podemos apontar-lhe o processo de cura, que passar&aacute;, a meu ver, pela ades&atilde;o livre &agrave;s propostas de Cristo, que se revelou um Deus pr&oacute;ximo das nossas vulnerabilidades. O problema &eacute; que, em muitas circunst&acirc;ncias, &eacute; inconveniente, ou pouco aconselh&aacute;vel, fazer-se uma qualquer refer&ecirc;ncia a Deus. Sabemos que a este respeito existe um falso argumento que confunde o secularismo com a imparcialidade ou neutralidade. Por que &eacute; que a exclus&atilde;o da refer&ecirc;ncia a Deus, &agrave; religi&atilde;o ou &agrave; Igreja &eacute; mais neutral do que a sua inclus&atilde;o? Deixando de lado toda a pol&eacute;mica subjacente a esta quest&atilde;o, interessa-nos aqui apresentar a Igreja n&atilde;o exclusivamente como comunidade crente, mas como comunidade que oferece uma tradu&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea da mensagem evang&eacute;lica. E neste contexto, encontramos a Igreja a dialogar com a CEC, propondo iniciativas como o roteiro religioso, aonde se disponibiliza material que auxilia a interpretar a arte religiosa, ou o &Aacute;trio dos Gentios, que se prop&otilde;e ser um espa&ccedil;o de di&aacute;logo entre crentes e n&atilde;o crentes.<\/p>\n<p>A Igreja, neste di&aacute;logo aberto e concreto com a CEC, tem a oportunidade de lan&ccedil;ar sementes do Reino, rasgar horizontes de felicidade, comunicar sinais de esperan&ccedil;a, enfim, ser uma realidade concreta no espa&ccedil;o das rela&ccedil;&otilde;es humanas. A Igreja, tal como outrora &#8211; porque tr&aacute;s em si inscrita o di&aacute;logo das civiliza&ccedil;&otilde;es -, tem que continuar a ser, tamb&eacute;m hoje, fator prim&aacute;rio de unidade entre povos e culturas. Da&iacute; que a CEC n&atilde;o &eacute; estranha &agrave; Igreja, bem pelo contr&aacute;rio, j&aacute; que, tanto a Igreja como CEC, s&atilde;o gen&eacute;tica e culturalmente universais.<\/p>\n<p>Seria desej&aacute;vel que a CEC, na programa&ccedil;&atilde;o que tem pela frente, n&atilde;o se fechasse &#8211; e n&atilde;o o tem feito -, em conte&uacute;dos de superficialidade, de &iacute;ndole niilista, mas que fizesse propostas culturais verdadeiramente humanas, esperan&ccedil;adas, que fale da frescura da vida, de forma a que n&atilde;o construa uma imagem de uma sociedade, neste caso concreto a partir de Guimar&atilde;es, enferma, sem mem&oacute;ria, perdida no tempo ou sem sentido.<\/p>\n<p>Seria bom que, finda a programa&ccedil;&atilde;o da CEC, se continuasse abrir horizontes, se encontrassem pessoas motivadas para a cultura, se entendesse os tambores, pianos, trompetes, fagotes e violinos, se prolongasse as tert&uacute;lias &agrave; procura da verdade, se veja pel&iacute;culas na pra&ccedil;a, se trabalhe o artesanato, se valorize os escritores e os poetas (&hellip;), se procure ver as coisas tal como s&atilde;o. Assim, a cultura, a que se deseja que a Capital Europeia da Cultura evoque, deixa de ser, como &eacute; tantas vezes no presente, meio de evas&atilde;o e s&iacute;mbolo de decad&ecirc;ncia, para passar a mobilizar a intelig&ecirc;ncia e purificar o olhar.<\/p>\n<p><em>Eduardo Jorge Duque, professor da Universidade do Minho<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Jorge Duque<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[203],"class_list":["post-55400","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55400"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55400\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}