{"id":55297,"date":"2012-02-21T11:06:02","date_gmt":"2012-02-21T11:06:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/02\/21\/ja-enterrei-alguns-montes\/"},"modified":"2012-02-21T11:06:02","modified_gmt":"2012-02-21T11:06:02","slug":"ja-enterrei-alguns-montes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ja-enterrei-alguns-montes\/","title":{"rendered":"J\u00e1 enterrei alguns montes"},"content":{"rendered":"<p>Di\u00e1cono Albino Martins, Cachopo \u2013 Diocese de Faro <!--more--> <\/p>\n<p>A freguesia de Cachopo fica localizada no &ldquo;outro Algarve&rdquo;, em plena Serra do Caldeir&atilde;o. Apesar de pertencer ao concelho de Tavira, dista desta 43km.<\/p>\n<p>A falta de emprego e a desertifica&ccedil;&atilde;o, bem como o fecho ou a redu&ccedil;&atilde;o de hor&aacute;rios nos servi&ccedil;os do Estado, leva a que os jovens, ap&oacute;s constitu&iacute;rem fam&iacute;lia partam em busca de sustento, longe do seu torr&atilde;o natal.<\/p>\n<p>Cachopo, perde em m&eacute;dia, desde 1950, cerca de 500 habitantes por d&eacute;cada. Apesar de ser a terceira maior freguesia do Algarve em &aacute;rea (197 Km2), com 46 montes\/lugares habitados, o mesmo n&atilde;o corresponde em n&uacute;mero de habitantes. J&aacute; somos s&oacute; 650 habitantes. Os montes\/lugares eram bem mais (52), mas infelizmente &ldquo;j&aacute; enterrei alguns montes&rdquo;, visto ter presidido &agrave;s ex&eacute;quias do &uacute;ltimo habitante desses lugares.<\/p>\n<p>Os que aqui ainda trabalham, permanecem e ainda sonham, bem merecem o trabalho pastoral e social que aqui desenvolvo com a minha fam&iacute;lia (casal mandatado pelo ent&atilde;o Bispo do Algarve, D. Manuel Madureira Dias), vai 22 anos.<\/p>\n<p>A nossa primeira preocupa&ccedil;&atilde;o foi a reestrutura&ccedil;&atilde;o e revitaliza&ccedil;&atilde;o da Par&oacute;quia.<\/p>\n<p>Encontramos uma comunidade crist&atilde; (ou melhor, um grupo de crist&atilde;os, por heran&ccedil;a) que muito voltada para o culto dos mortos (missa de defuntos) enchia a Igreja ao ritmo da quantidade de inten&ccedil;&otilde;es. A sensa&ccedil;&atilde;o foi que a tarefa n&atilde;o iria ser nada f&aacute;cil&#8230; era necess&aacute;ria muita dedica&ccedil;&atilde;o&#8230; esfor&ccedil;o e talvez at&eacute;&#8230; sofrimento!<\/p>\n<p>Antes de mais havia que superar duas falsas imagens de Igreja, infelizmente demasiadamente enraizadas na comunidade:<\/p>\n<p>1. Uma Igreja sacramentalizada, fruto de um cristianismo por heran&ccedil;a&#8230; por terem nascido no seio de gente 100% crist&atilde;&#8230; batizados ao nascer, crescendo numa fam&iacute;lia que n&atilde;o vive nem celebra conscientemente a f&eacute;.<\/p>\n<p>Tomamos consci&ecirc;ncia que havia de dar lugar a uma comunidade formada por pessoas que fizeram uma op&ccedil;&atilde;o livre por Jesus e sua mensagem&#8230; que quisessem caminhar.<\/p>\n<p>2. Uma Igreja clericalizada foi a segunda imagem chamada a desaparecer do nosso projeto. O sacerdote que havia deixado a par&oacute;quia por motivos de sa&uacute;de, foi durante 56 anos, tudo!<\/p>\n<p>Fruto disso encontramos crist&atilde;os infantis, incapazes de assumir responsabilidades no seio da comunidade.<\/p>\n<p>Vimos que havia de dar lugar &agrave; corresponsabilidade. Desenvolver a nossa a&ccedil;&atilde;o nas tr&ecirc;s dire&ccedil;&otilde;es pastorais: a Prof&eacute;tica (atrav&eacute;s dela suscitando e educando a f&eacute;), a Lit&uacute;rgica (celebrando a f&eacute;) e a Caritativa (pelo testemunho da caridade, evidencia-mos a f&eacute; que professamos).<\/p>\n<p>Os montes (lugares da freguesia), foram visitados aos poucos. Atentos &agrave;s dist&acirc;ncias que separam esses lugares da sede da freguesia, sens&iacute;veis aos Km percorridos a p&eacute; por pessoas demasiado idosas, conscientes do mau estado das estradas, come&ccedil;ou-se a ser presen&ccedil;a nesses lugares, catequizando e celebrando nos mais populosos e centrais, de forma que dos montes vizinhos para l&aacute; convergissem).<\/p>\n<p>Aos poucos, na Eucaristia dominical come&ccedil;aram a &ldquo;respirar-se outros ares&rdquo;. Um n&uacute;cleo de pessoas ass&iacute;duas e j&aacute; despertas, come&ccedil;aram a preparar toda a liturgia e a celebrar de forma participada<\/p>\n<p>No campo da a&ccedil;&atilde;o caritativa, assumiu a Par&oacute;quia a gest&atilde;o de um equipamento social de apoio a idosos (propriedade da Seguran&ccedil;a Social), nas val&ecirc;ncias de &ldquo;Centro de Dia&rdquo; e &ldquo;Apoio Domicili&aacute;rio&rdquo;. Deu corpo e criou o Centro Paroquial de Cachopo, ereto canonicamente em 6 de abril de 1990.<\/p>\n<p>Depois de 11 longos anos de constru&ccedil;&atilde;o, tem em funcionamento desde h&aacute; dois anos e meio, um Complexo Social, para as Val&ecirc;ncias de Lar (30 idosos), Centro de Dia (15 idosos), Apoio Domicili&aacute;rio (50 idosos), para al&eacute;m de um Centro de Conv&iacute;vio, no lugar de Feiteira (12 km da sede), para 20 idosos.<\/p>\n<p>Procur&aacute;mos junto dos funcion&aacute;rios (atualmente 38) que tratem os idosos com carinho, vendo neles a pr&oacute;pria imagem de Cristo. Mold&aacute;mos os seus cora&ccedil;&otilde;es para juntos partilharmos com os idosos a vida e a compreens&atilde;o, visto n&atilde;o terem alguns, capacidades f&iacute;sicas e mentais para sozinhos se bastarem.<\/p>\n<p>Em 15 de agosto de 2007 criou-se a C&aacute;ritas Paroquial de Cachopo, no sentido de que a a&ccedil;&atilde;o caritativa fosse mais abrangente, descendo ao concreto da justi&ccedil;a social, a partir da comunidade e exclusivamente com recurso a volunt&aacute;rios, estimulando os valores do Evangelho, para que com o testemunho pessoal, se alcance a dimens&atilde;o de uma comunidade fraterna e solid&aacute;ria.<\/p>\n<p>Do interior do Algarve queremos denunciar as injusti&ccedil;as, sendo a voz dos que n&atilde;o t&ecirc;m voz e buscando solu&ccedil;&otilde;es junto dos organismos oficiais estatais.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m &agrave;s fam&iacute;lias deixamos um grito de &ldquo;revolta interior&rdquo;. N&atilde;o deixem os idosos entregues a eles pr&oacute;prios. Ainda que tenham que se apoiados pelas Institui&ccedil;&otilde;es Sociais no terreno, continuem a visit&aacute;-los com frequ&ecirc;ncia. N&oacute;s s&oacute; somos o que somos, gra&ccedil;as ao amor que eles nos dispensaram no nosso crescimento e forma&ccedil;&atilde;o enquanto filhos e ao seu labor em prol das comunidades onde viveram.<\/p>\n<p>Sou testemunha de muito sofrimento. As l&aacute;grimas derramadas por idosos, doentes e acamados, vivendo sozinhos e com medo da noite, a todos deve envergonhar! Nada nem ningu&eacute;m deve substituir o calor humano da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Quero a terminar agradecer &agrave; minha esposa (Cl&aacute;udia) e filhas (D&eacute;bora e Raquel, aqui nasceram h&aacute; 20 e 16 anos) o percurso inverso. Deixar Vila Real de Santo Ant&oacute;nio e em Cachopo fixar sede de Miss&atilde;o e desde setembro de 2011, alargada a Martim Longo e Vaqueiros. &rdquo;Sacrif&iacute;cio&rdquo; que sabemos vale a pena, sobretudo quando se apoia cidad&atilde;os que merecem viver com dignidade, serenidade e coragem.<\/p>\n<p><em>Di&aacute;cono Albino Martins, Cachopo &ndash; Diocese de Faro<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1cono Albino Martins, Cachopo \u2013 Diocese de Faro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[183,185,246,267],"class_list":["post-55297","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-de-vila-real","tag-diocese-do-algarve","tag-liturgia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55297"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55297\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}