{"id":55212,"date":"2012-02-14T14:41:35","date_gmt":"2012-02-14T14:41:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/02\/14\/onde-esta-o-teu-irmao\/"},"modified":"2012-02-14T14:41:35","modified_gmt":"2012-02-14T14:41:35","slug":"onde-esta-o-teu-irmao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/onde-esta-o-teu-irmao\/","title":{"rendered":"\u00abOnde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Rosa, professor da Universidade da Beira Interior <!--more--> <\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">A Mensagem do papa Bento XVI para a Quaresma de 2012, prop&otilde;e-nos a medita&ccedil;&atilde;o, em compasso tern&aacute;rio, de uma passagem da <em>Carta aos Hebreus<\/em> (10, 24): &laquo;Prestemos aten&ccedil;&atilde;o \/ uns aos outros, \/ para nos estimularmos ao amor e &agrave;s boas obras.&raquo;<\/p>\n<p>Prestar aten&ccedil;&atilde;o porqu&ecirc;? Porque ami&uacute;de andamos distra&iacute;dos. Ou, pior, olhamos indiferentes, sem ver. Ou pior ainda: olhamos invejosos, com aquele olhar vesgo que mata e petrifica. A aten&ccedil;&atilde;o e o espanto perante a natureza, h&aacute; muito tempo que ci&ecirc;ncia moderna os matou. Prestar aten&ccedil;&atilde;o, observar o mundo como quem o v&ecirc; pela primeira vez, <em>em sil&ecirc;ncio e em jejum<\/em>, como que sa&iacute;do das m&atilde;os de Deus, &eacute; cultivar um sadio e franciscano reencantamento do mundo. Ora o mundo &eacute; tamb&eacute;m o lugar onde aparecemos uns aos outros, para o bem e para o mal. No <em>Livro do G&eacute;nesis<\/em> 4, 9, depois de matar Abel, Caim responde &agrave; pergunta &ldquo;Onde est&aacute; o teu irm&atilde;o?&rdquo; com um &ldquo;N&atilde;o sei!&rdquo;. E acrescenta ato cont&iacute;nuo: &ldquo;Acaso sou eu o guarda do meu irm&atilde;o?&rdquo; Terr&iacute;vel evasiva. Meditando nesta passagem b&iacute;blica, o Talmude da Babil&oacute;nia (<em>Tratado Aboth<\/em>, 6) lan&ccedil;a duas interroga&ccedil;&otilde;es que permanecer&atilde;o enquanto a humanidade for humanidade: <em><span style=\"font-style: normal;\">&ldquo;Se n&atilde;o respondo por mim, quem responder&aacute; por mim? Mas se s&oacute; respondo por mim, serei ainda eu?&rdquo; <\/span><\/em><em>O inferno n&atilde;o s&atilde;o os outros<\/em>, afirmava muito a prop&oacute;sito l&rsquo;Abb&eacute; Pierre, contrariando Sartre. <em>O<\/em> <em>inferno somos n&oacute;s pr&oacute;prios separados dos outros<\/em>.<\/p>\n<p><em><span style=\"font-style: normal;\">Neste tempo de Quaresma e de crise europeia e global (e a Quaresma &eacute; sempre tempo de<\/span> krisis<\/em><em><span style=\"font-style: normal;\">, i.e., de discernimento, de aten&ccedil;&atilde;o, de encruzilhada, de vida joeirada e examinada, a &uacute;nica que merece ser vivida) urge atalhar o atavismo arcaico: &ldquo;salve-se quem puder&rdquo;. Este tropismo de ouri&ccedil;o, soprado por certos<\/span> ismos<\/em><em><span style=\"font-style: normal;\">, amea&ccedil;a hoje a nossa vida pessoal e coletiva. E alguns n&uacute;cleos da Uni&atilde;o Europeia, mais do que uma discut&iacute;vel quarentena, parecem j&aacute; dispostos a abandonar alguns pa&iacute;ses e, com isso, o sonho dos pais fundadores: a paz, a justi&ccedil;a, a prosperidade, a solidariedade num continente propenso &agrave; guerra. Entre n&oacute;s a exclus&atilde;o grassa. <\/span><\/em>Oxal&aacute; o poeta n&atilde;o se tenha enganado e que &ldquo;<em>onde cresce o perigo<\/em><span>&nbsp;<\/span>nasce tamb&eacute;m aquilo que salva&rdquo; (H&ouml;lderlin), pois <em><span style=\"font-style: normal;\">a crise pode ser um bom momento para retorno ao essencial, para a frugalidade do que mais importa.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-style: normal;\">A palavra do autor da<\/span> Carta aos Hebreus <\/em><em><span style=\"font-style: normal;\">&eacute; para que <\/span><\/em><em>prestemos aten&ccedil;&atilde;o uns aos outros<\/em>. Existem certamente diferentes esferas de aten&ccedil;&atilde;o e de responsabilidade pelo outro, a come&ccedil;ar pelos la&ccedil;os de sangue at&eacute; &agrave; grande fam&iacute;lia humana. Em cada uma destas esferas coloca-se a quest&atilde;o: quem &eacute; o meu outro? N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que, em primeiro lugar, somos pr&oacute;ximos do mais fr&aacute;gil e mais desprotegido junto de n&oacute;s e a quem podemos dar e pedir a m&atilde;o. Os problemas globais, os da Europa, os da Gr&eacute;cia e da S&iacute;ria, os do Mundo, os da Humanidade pedem-nos certamente toda a aten&ccedil;&atilde;o e solidariedade. O caminho para o universal, contudo, passa sempre pelo singular concreto. <em>Prestar aten&ccedil;&atilde;o<\/em> &eacute; come&ccedil;ar por cair em si, descobrir-se <em>outro<\/em> em rela&ccedil;&atilde;o com tudo: com o mundo, com a cultura, com os outros pr&oacute;ximos e long&iacute;nquos, e com um horizonte de sentido &uacute;ltimo para a que somos convocados, mas que n&atilde;o dominamos. &Eacute; preciso superar aqui a pertinaz obstina&ccedil;&atilde;o do nosso olhar e do nosso pensamento que pensa por oposi&ccedil;&otilde;es, que precisa de &ldquo;substancializar&rdquo;, &ldquo;etiquetar&rdquo; e reificar, processo que historicamente culminou no solipsismo e no individualismo te&oacute;rico e pr&aacute;tico, e no ego&iacute;smo das &ldquo;belas consci&ecirc;ncias&rdquo;. Prestar aten&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m &ldquo;ler com verdade dentro de si mesmo&rdquo;, descobrir-se antecedido numa rela&ccedil;&atilde;o de doa&ccedil;&atilde;o de pr&oacute;prio ser. <em>E a ess&ecirc;ncia do ser &eacute; comunh&atilde;o<\/em>, afirmava o trapista Thomas Merton. &Eacute; neste reconhecimento de si, dos outros e de tudo como rela&ccedil;&atilde;o\/comunh&atilde;o que assenta o sentido da reciprocidade verdadeira, nem parasit&aacute;ria nem parasitada. Nietzsche, que nos cumes gelados de Sils Maria se pretendeu j&aacute; &ldquo;para al&eacute;m do bem e do mal&rdquo;, n&atilde;o p&ocirc;de compreender nada da experi&ecirc;ncia crist&atilde; ao dizer que &ldquo;Ser crist&atilde;o ser&aacute;, no futuro, indecoroso&rdquo;. Mas certas vis&otilde;es passivas e doloristas do cristianismo davam-lhe raz&atilde;o.<\/p>\n<p>Contudo, apesar da teologia sacerdotal da <em>Carta aos Hebreus<\/em>, Jesus de Nazar&eacute; nunca se viu a si mesmo como Sumo-sacerdote de uma religi&atilde;o. Jesus foi para o deserto sonhar o Reino, uma fratria radical que questionava na raiz todos os poderes e os calend&aacute;rios religiosos, do sagrado c&oacute;smico, esmagador, cratof&acirc;nico, porque &ldquo;o S&aacute;bado foi feito para o homem, e n&atilde;o o homem para o S&aacute;bado&rdquo; (Mc 2, 27) e o Filho do Homem &eacute; tamb&eacute;m o Senhor do S&aacute;bado. Para a experi&ecirc;ncia crist&atilde;, a hora que vai chegar &eacute; sempre &ldquo;agora&rdquo;: &ldquo;Mas vai chegar a hora, e &eacute; agora&hellip;&rdquo; (Jo 4, 23: <em>Sed venit hora, et nunc est<\/em>&hellip;). &Eacute; &ldquo;agora&rdquo; para a Samaritana de Sicar, junto ao po&ccedil;o de Jacob, e &eacute; igualmente &ldquo;agora&rdquo; para o Samaritano que n&atilde;o passou adiante e foi o pr&oacute;ximo do homem que descia de Jerusal&eacute;m para Jeric&oacute;, e &eacute; sempre &ldquo;agora&rdquo; para cada um de n&oacute;s. O &uacute;nico tempo que temos &eacute; <em>agora<\/em>. Entre o <em>j&aacute;<\/em> e o <em>ainda-n&atilde;o<\/em> pascais, a Quaresma &eacute; tamb&eacute;m, <em>agora<\/em>, o pretexto lit&uacute;rgico e pastoral para todos os dias prestarmos &ldquo;aten&ccedil;&atilde;o uns aos outros&rdquo; e nos &ldquo;estimularmos ao amor e &agrave;s boas obras&rdquo;.<\/p>\n<p>Se quis&eacute;ssemos diz&ecirc;-lo em regime reflexivo, aproveitando ainda a mesma cad&ecirc;ncia, relembrar&iacute;amos o &lsquo;tri&acirc;ngulo de base da &eacute;tica&rsquo; (P. Ricoeur): <em>procurar a vida boa, \/ com e para os outros, \/ em institui&ccedil;&otilde;es justas<\/em>. E porque a palavra <em>ad extra<\/em> &eacute;, em primeiro, lugar palavra <em>ad intra<\/em>, um exemplo luminoso de &ldquo;boas obras&rdquo; foi-nos dado em tempos pelo &lsquo;bom Papa Jo&atilde;o&rsquo; XXIII. Estando um dia a falar com um dos empregados do Vaticano, como gostava de fazer, pergunta-lhe como vai a vida. Ele respondeu: &ldquo;Vai mal, vai mal, Vossa Emin&ecirc;ncia&rdquo;, referindo o pouco que ganhava e as despesas avultadas que tinha com uma fam&iacute;lia numerosa. Jo&atilde;o XXIII respondeu: &ldquo;Temos que tratar disso. &Eacute; que, aqui entre n&oacute;s, eu n&atilde;o sou Vossa Emin&ecirc;ncia, sou o Papa.&rdquo; Tentando mais tarde melhorar os sal&aacute;rios dos funcion&aacute;rios do Vaticano, foi-lhe dito que &ldquo;s&oacute; cortando nas obras de caridade&rdquo; se poderia &ldquo;aumentar as despesas&rdquo;. Sem hesitar redargui: &ldquo;Ent&atilde;o &eacute; o que teremos de fazer. Porque a justi&ccedil;a est&aacute; antes da caridade.&rdquo;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><span lang=\"EN-US\"><em>Jos&eacute; Maria Silva Rosa, professor da Universidade da Beira Interior<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Rosa, professor da Universidade da Beira Interior<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,168,203,91,314],"class_list":["post-55212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-diocese-da-guarda","tag-europa","tag-quaresma","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55212\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}