{"id":54880,"date":"2012-01-24T12:01:00","date_gmt":"2012-01-24T12:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/01\/24\/intervencao-de-d-jose-policarpo-nas-jornadas-de-formacao-permanente-do-clero-de-lisboa\/"},"modified":"2012-01-24T12:01:00","modified_gmt":"2012-01-24T12:01:00","slug":"intervencao-de-d-jose-policarpo-nas-jornadas-de-formacao-permanente-do-clero-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-de-d-jose-policarpo-nas-jornadas-de-formacao-permanente-do-clero-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de D. Jos\u00e9 Policarpo nas Jornadas de Forma\u00e7\u00e3o Permanente do clero de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><strong>&ldquo;Sermos Igreja: que Igreja?&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. O t&iacute;tulo sugerido para esta minha interven&ccedil;&atilde;o, enuncia o objetivo de toda a a&ccedil;&atilde;o pastoral, <strong>sermos Igreja <\/strong>e lan&ccedil;a-nos a interpela&ccedil;&atilde;o da compreens&atilde;o da Igreja. N&atilde;o gosto muito da express&atilde;o &ldquo;modelos de Igreja&rdquo;, que d&aacute; azo a escolher express&otilde;es da Igreja, de acordo com a nossa vis&atilde;o pessoal. Trata-se, isso sim, de uma compreens&atilde;o da realidade sobrenatural e hist&oacute;rica da Igreja de Jesus Cristo, nas suas componentes essenciais e perenes e nas express&otilde;es transit&oacute;rias, porque situadas no tempo e no concreto das culturas e dos enquadramentos sociol&oacute;gicos. Esta compreens&atilde;o da Igreja inspira e julga as a&ccedil;&otilde;es pastorais para a sua edifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vamos celebrar 50 anos da abertura do Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico Vaticano II. A compreens&atilde;o da Igreja foi quest&atilde;o central para a Assembleia Conciliar. O Conc&iacute;lio fez uma op&ccedil;&atilde;o ousada e corajosa: alicer&ccedil;ar essa compreens&atilde;o da Igreja na era apost&oacute;lica e p&oacute;s-apost&oacute;lica, num movimento circular pr&oacute;prio da Tradi&ccedil;&atilde;o, de fazer que os diversos tempos da Igreja se encontrem, iluminando-se mutuamente. N&atilde;o se tratou de eliminar mais de um mil&eacute;nio do tempo da Igreja, mas de os refrescar nesse regresso &agrave;s fontes ou, se quisermos, &agrave; fonte que &eacute; a Palavra de Jesus e a Sua P&aacute;scoa.<\/p>\n<p>Esta reflex&atilde;o que nos &eacute; proposta &eacute;, assim, ocasi&atilde;o de avaliarmos em que medida, na Igreja que estamos a servir, se deu uma rece&ccedil;&atilde;o objetiva e verdadeira da eclesiologia do Conc&iacute;lio Vaticano II.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma vis&atilde;o teologal da Igreja <\/strong><\/p>\n<p>2. A dimens&atilde;o teologal &eacute; priorit&aacute;ria na busca da compreens&atilde;o da Igreja, e enra&iacute;za em Jesus Cristo. S&oacute; n&rsquo;Ele podemos compreender a Igreja que salva e que &eacute; congrega&ccedil;&atilde;o dos que se uniram a Cristo, pela f&eacute; e pelo batismo. &Eacute; assim que come&ccedil;a o Magist&eacute;rio Conciliar: &ldquo;Cristo &eacute; a luz dos povos: reunido no Esp&iacute;rito Santo, o Santo Conc&iacute;lio deseja ardentemente, ao anunciar a todas as criaturas a boa nova do Evangelho, espalhar sobre todos os homens a claridade de Cristo que resplandece no rosto da Igreja&rdquo; (LG. n&ordm;1). Tr&ecirc;s afirma&ccedil;&otilde;es iniciais estruturaram essa compreens&atilde;o da Igreja &ldquo;que &eacute; um sacramento, isto &eacute;, sinal e meio da uni&atilde;o &iacute;ntima com Deus&rdquo;: Cristo &eacute; a luz dos povos, isto &eacute;, &eacute; o Salvador; essa luz deve brilhar no rosto da Igreja; essa comunica&ccedil;&atilde;o da claridade de Jesus Cristo faz-se atrav&eacute;s do an&uacute;ncio do Evangelho e de toda a a&ccedil;&atilde;o da Igreja como sacramento.<\/p>\n<p>A luz de Cristo s&oacute; brilhar&aacute; no rosto da Igreja, se esta, no seu realismo hist&oacute;rico, for uma experi&ecirc;ncia de comunh&atilde;o com o pr&oacute;prio Cristo, que nos comunica o Esp&iacute;rito e nos leva a experimentar, j&aacute; neste mundo, a comunh&atilde;o trinit&aacute;ria. &ldquo;A Igreja universal aparece como um &ldquo;povo que tira a sua unidade da unidade do Pai e do Filho e do Esp&iacute;rito Santo&rdquo; (LG. n&ordm;4). Esta era j&aacute; a compreens&atilde;o da Igreja do Ap&oacute;stolo S&atilde;o Jo&atilde;o: &ldquo;O que vimos e ouvimos, n&oacute;s vo-lo anunciamos para que, v&oacute;s tamb&eacute;m, estejais em comunh&atilde;o connosco. Quanto &agrave; nossa comunh&atilde;o ela &eacute; com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo&rdquo; (1Jo. 1,3).<\/p>\n<p>3. Esta compreens&atilde;o da Igreja deve exprimir-se no concreto da vida da Igreja e, de modo particular, na a&ccedil;&atilde;o pastoral. A explicita&ccedil;&atilde;o doutrinal n&atilde;o &eacute; a sua &uacute;nica forma. J&aacute; &eacute; comum afirmar que a Igreja &eacute; comunh&atilde;o. Mas a a&ccedil;&atilde;o pastoral tem como dinamismo principal fazer comunh&atilde;o? Esta compreens&atilde;o da Igreja p&otilde;e no centro da sua a&ccedil;&atilde;o a caridade. Esta &eacute; a claridade da f&eacute;. &Eacute; essa luz de Cristo que deve refletir-se no rosto da Igreja. A vida da Igreja tem de estar centrada na caridade. E esta &eacute; a atualidade fiel do mandamento b&iacute;blico: amar&aacute;s o Senhor teu Deus&hellip; amar&aacute;s o pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p>Uma pedagogia da ora&ccedil;&atilde;o, na complementaridade entre ora&ccedil;&atilde;o lit&uacute;rgica e ora&ccedil;&atilde;o pessoal, deve integrar o dinamismo pastoral. A Igreja s&oacute; ser&aacute; comunh&atilde;o se mergulhar na comunh&atilde;o com Deus e receber dele a for&ccedil;a da caridade fraterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A dimens&atilde;o b&iacute;blica da Igreja <\/strong><\/p>\n<p>4. A primeira fonte onde se vai beber esta compreens&atilde;o da Igreja, &eacute; a Sagrada Escritura no seu todo, o Antigo e o Novo Testamento. A descoberta da Igreja &agrave; luz da Palavra de Deus &eacute; desafio permanente em todos os momentos de renova&ccedil;&atilde;o pastoral; tem de o ser neste tempo de nova evangeliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As vicissitudes hist&oacute;ricas, sobretudo as que envolveram os novos pa&iacute;ses da cristandade em rela&ccedil;&atilde;o ao Povo Judeu, levaram &agrave; perda da consci&ecirc;ncia da unidade na continuidade entre a Igreja e o Povo do Antigo Testamento. Mas uma compreens&atilde;o global da realidade da Igreja s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel se tivermos consci&ecirc;ncia de que a sua realidade e o seu mist&eacute;rio se iniciam no Antigo Testamento, sobretudo na Alian&ccedil;a entre Deus e o Seu Povo. A realidade Povo de Deus, Povo escolhido, prevalece na dimens&atilde;o coletiva de uma comunidade de salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A Igreja &eacute; o <strong>novo Povo de Deus<\/strong>, que atinge em Cristo a plenitude da Alian&ccedil;a e o pleno cumprimento das promessas. O Messias esperado era, afinal, o pr&oacute;prio Deus encarnado, tornado pr&oacute;ximo desse Povo. Em Cristo radicaliza-se o projeto de Deus de ter um povo escolhido, a partir do qual se universalizava o seu amor por todos os homens. A Igreja assume-se, em Jesus Cristo, como o Povo da nova e definitiva Alian&ccedil;a.<\/p>\n<p>5. Pastoralmente n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, na constru&ccedil;&atilde;o da Igreja, incutir esta primazia da dimens&atilde;o coletiva de Povo de Deus. Deu-se, durante muito tempo, prioridade &agrave; dimens&atilde;o individual, vendo a Igreja como uma prestadora de servi&ccedil;os &agrave;s pessoas individuais para a sua caminhada de salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas da presen&ccedil;a e da miss&atilde;o da Igreja no mundo exigem esta consci&ecirc;ncia de Povo, em que cada membro encarna a miss&atilde;o de toda a Igreja. Isto exige uma f&eacute; de Povo, &ldquo;a f&eacute; da Igreja&rdquo;, relativizando as vis&otilde;es individuais da identidade crist&atilde;. As divis&otilde;es no sentido da mensagem da Igreja no mundo enfraquecem a presen&ccedil;a da Igreja. A primeira express&atilde;o da dignidade do crist&atilde;o e a sua responsabilidade na miss&atilde;o exprime-se na consci&ecirc;ncia de pertencer a esse Povo que o Senhor escolheu e enviou. A a&ccedil;&atilde;o pastoral tem de promover a vit&oacute;ria sobre a vis&atilde;o individual e, de modo especial, sobre a perspetiva individualista da f&eacute; crist&atilde;.<\/p>\n<p>6. Novo Povo de Deus, a Igreja &eacute; o Povo de Cristo. Constitui-se na uni&atilde;o e identifica&ccedil;&atilde;o com ele, &eacute; o &ldquo;Corpo de Cristo&rdquo; e o Senhor &eacute;, para este novo Povo, a cabe&ccedil;a, o Bom Pastor, o esposo que ama a Igreja como esposa. A uni&atilde;o a Cristo na celebra&ccedil;&atilde;o da Sua P&aacute;scoa, &eacute; a express&atilde;o m&aacute;xima da Igreja como Povo de Jesus Cristo. Celebrar a Eucaristia como ato individual de piedade &eacute; adulterar o sentido da P&aacute;scoa, &uacute;ltima express&atilde;o da Alian&ccedil;a de Deus com o Seu Povo. A Eucaristia &eacute; sempre assembleia, que envolve a Igreja toda, mesmo quando &eacute; celebrada por poucos. A verdade da Igreja exprime-se na sua rela&ccedil;&atilde;o com Cristo, na totalidade do seu mist&eacute;rio e na universalidade da sua miss&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; enquanto Povo do Senhor que a Igreja participa do seu mist&eacute;rio e da sua miss&atilde;o. Cristo, Profeta, Sacerdote e Rei, exprime essa plenitude de mist&eacute;rio e de minist&eacute;rio &agrave; Igreja, Povo do Senhor. Ela &eacute;, povo prof&eacute;tico, sacerdotal e real.<\/p>\n<p>6.1. <strong>Povo de Profetas<\/strong>. No Antigo Testamento o carisma prof&eacute;tico era concedido a pessoas escolhidas por Deus e por Ele preparadas e enviadas. Deus consagrava-as, algumas &ldquo;desde o seio materno&rdquo;, e comunicava-lhes a Sua Palavra que deviam transmitir a todo o Povo. Cristo &eacute; o Profeta definitivo e todo o Povo que brota d&rsquo;Ele, tem o carisma prof&eacute;tico. Rigorosamente n&atilde;o h&aacute; profetas, mas sim um povo prof&eacute;tico. Deus realiza em toda a Igreja o que fazia nos profetas escolhidos: consagra-a na santidade, revela-lhe a Sua Palavra, envia-a a anunciar. Pela consagra&ccedil;&atilde;o, a luz de Cristo reflete-se no rosto da Igreja, que a envia a anunciar a Sua Palavra, isto &eacute;, a proclamar Jesus Cristo, que &eacute; a Palavra. Na miss&atilde;o evangelizadora da Igreja, essa luz de Cristo procura ser luz para todos os homens. A Igreja deve escutar continuamente a Palavra que anuncia e mostrar, pelo testemunho da santidade, que a Palavra, quando &eacute; escutada, transforma. O testemunho de uma vida transformada &eacute; essencial &agrave; evangeliza&ccedil;&atilde;o. Proclamar a Palavra &eacute; apenas uma das express&otilde;es da fidelidade da Igreja a Jesus Cristo. Isto encerra interpela&ccedil;&otilde;es concretas &agrave; nossa a&ccedil;&atilde;o pastoral. Como formamos os nossos evangelizadores? Como cultivamos aquele &ldquo;novo ardor&rdquo; de que fala Jo&atilde;o Paulo II? Como alimentamos em toda a Igreja o ardor mission&aacute;rio?<\/p>\n<p>Na sua miss&atilde;o prof&eacute;tica a Igreja &eacute; enviada ao mundo. Ela &eacute; um &ldquo;Povo&rdquo;, no meio de outros povos. A sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia &eacute; prof&eacute;tica, isto &eacute;, evangelizadora. &Eacute; no seu estar no mundo que a luz de Cristo, que brilha no rosto da Igreja, vai iluminando progressivamente a sociedade. Os crist&atilde;os s&atilde;o, com todos os outros homens, obreiros da constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade mais digna do homem e que realize o desejo de Deus. Em todo esse empenho na sociedade dos homens, os crist&atilde;os refletem a luz de Cristo, aprendendo a ver a realidade &agrave; luz do des&iacute;gnio de Deus, porque eles partilham, com todos os seus irm&atilde;os, a mesma aventura humana: &ldquo;As alegrias e as esperan&ccedil;as, as tristezas e as ang&uacute;stias dos homens deste tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, s&atilde;o tamb&eacute;m as alegrias e as esperan&ccedil;as, as tristezas e as ang&uacute;stias dos disc&iacute;pulos de Cristo, e n&atilde;o h&aacute; nada de verdadeiramente humano que n&atilde;o encontre eco no seu cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (GS. N&ordm;1).<\/p>\n<p>Se a Igreja participa na constru&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria com esta luz de Cristo, ela tem a alegria de poder discernir, na realidade da hist&oacute;ria humana, sinais do Reino de Deus (cf. GS. nn. 4 e 11). O &ldquo;sentido da f&eacute;&rdquo; (cf. LG. n&ordm;12) e o ardor da caridade, permitir-lhe-&atilde;o a compreens&atilde;o da realidade humana &agrave; luz da f&eacute;.<\/p>\n<p>6.2. <strong>Povo Sacerdotal <\/strong>(cf. LG. nn. 10-11)<\/p>\n<p>Na sua identifica&ccedil;&atilde;o com Cristo, a Igreja Povo do Senhor, participa da dimens&atilde;o sacerdotal do minist&eacute;rio de Cristo. Como no caso da dimens&atilde;o prof&eacute;tica, a Igreja &eacute; um povo sacerdotal. Tendo sempre Cristo como Sumo Sacerdote, o povo sacerdotal pode oferecer a Deus o pr&oacute;prio sacrif&iacute;cio de Cristo. F&aacute;-lo em assembleia celebrativa na liturgia comunit&aacute;ria, f&aacute;-lo oferecendo nesse ato sacerdotal a vida de cada um. Deus &eacute;, assim, continuamente louvado, ao serem-lhe oferecidos em louvor, a f&eacute;, a esperan&ccedil;a e a caridade de todos os membros da Igreja. Sem esta dimens&atilde;o sacerdotal de toda a Igreja n&atilde;o se pode compreender e viver a liturgia. Esta dimens&atilde;o inspirou toda a reforma lit&uacute;rgica. Este &eacute; um aspeto que temos de trabalhar na a&ccedil;&atilde;o pastoral. &Eacute; um facto que, ao longo de s&eacute;culos, a import&acirc;ncia do sacerd&oacute;cio apost&oacute;lico relativizou e quase fez esquecer esta dignidade sacerdotal. E sem ela a Igreja torna-se, inevitavelmente, clerical. E n&atilde;o &eacute; isso que o Senhor quer dela. O sacerd&oacute;cio apost&oacute;lico &eacute; apenas a mais misteriosa concretiza&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o sacerdotal de toda a Igreja. Na oferta do sacrif&iacute;cio que nos redime, a Igreja n&atilde;o &eacute; apenas assembleia celebrativa a que Cristo preside. De facto, Ele preside atrav&eacute;s daqueles membros do Povo Sacerdotal a quem consagrou para O tornarem presente como &uacute;nico Sacerdote. Em cada express&atilde;o do nosso minist&eacute;rio resplandece a beleza desse des&iacute;gnio de Deus que quis que a Sua Igreja, Povo Sacerdotal, se identificasse completamente com Ele, na oferta do sacrif&iacute;cio que nos redime.<\/p>\n<p>6.3. <strong>Povo Real<\/strong>. Completamente identificada com Cristo, a Igreja comunga, com o Seu Senhor, da sua realeza e que se exprime nela no amor fraterno, na for&ccedil;a transformadora da caridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. <strong>A Igreja objeto de f&eacute; <\/strong><\/p>\n<p>A Igreja &eacute; um povo crente. Mas ela n&atilde;o &eacute; apenas o lugar onde se acredita em Deus, Trindade de Pessoas, e na sua interven&ccedil;&atilde;o salv&iacute;fica. A pr&oacute;pria Igreja se tornou objeto de f&eacute;. A Igreja, assembleia crente, acredita em si mesma. Os mais antigos s&iacute;mbolos da f&eacute;, inclu&iacute;ram, na profiss&atilde;o de f&eacute;, a f&eacute; da Igreja no seu pr&oacute;prio mist&eacute;rio: &ldquo;Creio na Igreja, una, santa, cat&oacute;lica e apost&oacute;lica&rdquo;. Estas notas constitutivas da Igreja s&atilde;o queridas por Deus, e n&atilde;o simples caracter&iacute;sticas humanas. Cristo desejou uma Igreja una, santa, cat&oacute;lica e apost&oacute;lica. Aquela compreens&atilde;o da Igreja, que &eacute; o tema desta minha interven&ccedil;&atilde;o, que deve inspirar a nossa a&ccedil;&atilde;o pastoral, tem de assentar na f&eacute; da Igreja, que &eacute; tamb&eacute;m f&eacute; na Igreja.<\/p>\n<p>7.1. <strong>Igreja Una<\/strong>.<\/p>\n<p>J&aacute; cit&aacute;mos a Lumen Gentium: &ldquo;A Igreja universal aparece como um Povo que tira a sua unidade da unidade do Pai, do Filho e do Esp&iacute;rito Santo (LG. n&ordm;4). &Eacute; o mist&eacute;rio dos mist&eacute;rios. A constru&ccedil;&atilde;o da unidade da Igreja n&atilde;o pode ser s&oacute; o resultado do esfor&ccedil;o humano, de a&ccedil;&atilde;o inspirada em crit&eacute;rios anal&iacute;ticos da realidade. N&atilde;o existe sem viv&ecirc;ncia, por parte da Igreja, do pr&oacute;prio mist&eacute;rio de Deus, em Jesus Cristo. A Eucaristia &eacute; a sua fonte principal, a ora&ccedil;&atilde;o a sua express&atilde;o, a caridade a sua for&ccedil;a. A Igreja s&oacute; ser&aacute; una se mergulhar na comunh&atilde;o de amor divino, atrav&eacute;s de Jesus Cristo, conduzida pelo Esp&iacute;rito. A unidade da Igreja n&atilde;o &eacute; uma estrat&eacute;gia pastoral, &eacute; um abandono ao amor.<\/p>\n<p>Ao longo dos s&eacute;culos a Igreja sempre se sentiu atra&iacute;da pela unidade e ferida pela desuni&atilde;o. N&atilde;o podemos desistir desse ideal, sabemos que Deus o deseja mais do que n&oacute;s e por isso o desejamos com f&eacute;. O grande desafio pastoral &eacute; construir a unidade, apesar da diversidade. Isso exige que todas as express&otilde;es eclesiais, pessoais ou grupais, professem a f&eacute; da Igreja e n&atilde;o qualquer vis&atilde;o particularista da f&eacute;, e estejam em comunh&atilde;o. O crit&eacute;rio vis&iacute;vel desta comunh&atilde;o &eacute; a uni&atilde;o ao Col&eacute;gio Apost&oacute;lico, a que preside o Santo Padre. A edifica&ccedil;&atilde;o da unidade da Igreja n&atilde;o pode ser assunto de iniciativa privada. Tem na base uma obedi&ecirc;ncia de amor.<\/p>\n<p>7.2. <strong>Creio na Igreja Santa <\/strong>(cf. LG. nn. 39-42).<\/p>\n<p>A Igreja &eacute; santa porque o seu alicerce &eacute; Cristo, pedra angular, que nos comunica o Esp&iacute;rito de santidade. &Eacute; o amor de Cristo pela Igreja que a constitui como povo santo. Esta santidade de Deus exprime-se, j&aacute;, na santidade de tantos dos seus membros e naquela parte da Igreja que j&aacute; partilha da gl&oacute;ria de Deus. Mas para a maior parte dos seus membros a santidade &eacute; um desafio, &eacute; uma luta di&aacute;ria de fidelidade, a que nos chama o pr&oacute;prio amor de Deus. Este Povo que peregrina &eacute;, ainda, &ldquo;a santa Igreja dos pecadores&rdquo;. Na nossa a&ccedil;&atilde;o pastoral temos de incentivar esta luta pela santidade, o desejo de sermos santos como Deus &eacute; Santo.<\/p>\n<p>7.3. <strong>Creio na Igreja Cat&oacute;lica <\/strong>(cf. LG. n&ordm;13)<\/p>\n<p>Ser cat&oacute;lica quer dizer ser universal. A sua mensagem e a salva&ccedil;&atilde;o de que &eacute; o sacramento destinam-se a todos os homens. Todos s&atilde;o chamados &agrave; Igreja. O dinamismo da miss&atilde;o &eacute; o caminho para construir a catolicidade. Mas ser cat&oacute;lica significa ir cada vez mais ao fundo do dom de Deus em Jesus Cristo. Todo o esfor&ccedil;o de aprofundamento da f&eacute; &eacute; constru&ccedil;&atilde;o da catolicidade.<\/p>\n<p>7.4. <strong>Creio na Igreja Apost&oacute;lica <\/strong><\/p>\n<p>A apostolicidade da Igreja consiste na liga&ccedil;&atilde;o ao Col&eacute;gio Apost&oacute;lico e seus sucessores como garantia da sua autenticidade. Foram os ap&oacute;stolos de Jesus que, em fidelidade &agrave; miss&atilde;o recebida, deram forma &agrave; Igreja como novo Povo de Deus.<\/p>\n<p>Todos os grandes cismas tiveram na origem o p&ocirc;r em quest&atilde;o desta apostolicidade. A Igreja que somos e queremos edificar assenta sobre essas colunas que s&atilde;o os ap&oacute;stolos do Cordeiro. &Eacute; dimens&atilde;o a acentuar continuamente na forma&ccedil;&atilde;o crist&atilde;. N&oacute;s, que exercemos hoje o sacerd&oacute;cio apost&oacute;lico, temos de ser as primeiras testemunhas desta apostolicidade da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8. <strong>Igreja Peregrina <\/strong><\/p>\n<p>A meta da Igreja &eacute; o Reino dos C&eacute;us, a Igreja escatol&oacute;gica (cf. LG. nn. 48-51). O sentido da Igreja n&atilde;o se esgota no seu presente. Ela &eacute; um povo peregrino da P&aacute;tria Celeste. Dimens&atilde;o continuamente presente na liturgia, n&atilde;o est&aacute; muito acentuada no comum dos crist&atilde;os. Quantos desejam essa plenitude e esse encontro decisivo? &Eacute; dimens&atilde;o a acentuar na a&ccedil;&atilde;o pastoral. A celebra&ccedil;&atilde;o crist&atilde; da morte &eacute; situa&ccedil;&atilde;o privilegiada para esse an&uacute;ncio da vida eterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>9. <strong>Maria, M&atilde;e da Igreja <\/strong>(cf. LG. n&ordm; 52ss)<\/p>\n<p>Em Maria, o mais excelente membro da Igreja, brilha toda a beleza da Igreja como Povo do Senhor. Porque escutou a Palavra e a seguiu; porque acolheu no sil&ecirc;ncio do seu cora&ccedil;&atilde;o todo o mist&eacute;rio que a envolvia; porque abra&ccedil;ou toda a exig&ecirc;ncia do sacrif&iacute;cio redentor; porque amou a Igreja nascente com o amor de Jesus, ela &eacute; o modelo da Igreja. Em Maria a Igreja reconhece-se na sua voca&ccedil;&atilde;o, na sua fecundidade, no seu desejo da plenitude. A Igreja crente encontra nela a perfei&ccedil;&atilde;o da f&eacute;; a Igreja fecunda, que gera sempre novos filhos, encontra na sua maternidade virginal o segredo do seu mist&eacute;rio; a Igreja amorosa, pode beber a sua ternura do seu amor na sua ternura maternal; a Igreja esposa do Cordeiro, contempla em Maria o seu amor esponsal em rela&ccedil;&atilde;o ao pr&oacute;prio Deus. O amor a Maria &eacute; mais que uma devo&ccedil;&atilde;o; &eacute; a contempla&ccedil;&atilde;o do amor de Deus por n&oacute;s, humanidade que Ele deseja reunir na Sua Casa.<\/p>\n<p>Semin&aacute;rio dos Olivais, 24 de janeiro de 2012<\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Sermos Igreja: que Igreja?&rdquo; &nbsp; 1. O t&iacute;tulo sugerido para esta minha interven&ccedil;&atilde;o, enuncia o objetivo de toda a a&ccedil;&atilde;o pastoral, sermos Igreja e lan&ccedil;a-nos a interpela&ccedil;&atilde;o da compreens&atilde;o da Igreja. N&atilde;o gosto muito da express&atilde;o &ldquo;modelos de Igreja&rdquo;, que d&aacute; azo a escolher express&otilde;es da Igreja, de acordo com a nossa vis&atilde;o pessoal. 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