{"id":54843,"date":"2012-01-22T16:31:00","date_gmt":"2012-01-22T16:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/01\/22\/homilia-de-d-jose-policarpo-na-solenidade-de-sao-vicente-padroeiro-principal-do-patriarcado-de-lisboa-2\/"},"modified":"2012-01-22T16:31:00","modified_gmt":"2012-01-22T16:31:00","slug":"homilia-de-d-jose-policarpo-na-solenidade-de-sao-vicente-padroeiro-principal-do-patriarcado-de-lisboa-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jose-policarpo-na-solenidade-de-sao-vicente-padroeiro-principal-do-patriarcado-de-lisboa-2\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo na solenidade de S\u00e3o Vicente, padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><strong>&ldquo;Ganhar a vida, perdendo-a: atualidade do Mart&iacute;rio&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p>1. Na Solenidade de S&atilde;o Vicente, Padroeiro do Patriarcado e protetor da Cidade de Lisboa, resolvi falar-vos do M&aacute;rtir. Ele &eacute;, para todos n&oacute;s e h&aacute; muitas gera&ccedil;&otilde;es, o M&aacute;rtir S&atilde;o Vicente. N&atilde;o foi martirizado em Lisboa. Di&aacute;cono do Bispo Val&eacute;rio de Sarago&ccedil;a, &eacute; martirizado no in&iacute;cio do s&eacute;culo IV, na persegui&ccedil;&atilde;o de Diocleciano, a &uacute;ltima desencadeada pelos imperadores romanos contra os crist&atilde;os. Ao longo dos s&eacute;culos sempre houve homens e mulheres que aceitaram sacrificar a vida por uma causa nobre. No nosso tempo h&aacute; muitos que decidem da sua pr&oacute;pria morte por motivos que consideram nobres; &eacute; o caso dos autoproclamados m&aacute;rtires mu&ccedil;ulmanos ou de monges budistas que se imolam. O m&aacute;rtir crist&atilde;o n&atilde;o decide da sua pr&oacute;pria morte; sofre-a por fidelidade. Para ele, a vida neste mundo n&atilde;o parece mais importante que a sua f&eacute;, a sua fidelidade a Jesus Cristo. O m&aacute;rtir crist&atilde;o &eacute; v&iacute;tima da viol&ecirc;ncia injusta dos poderes deste mundo contra os crist&atilde;os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. A fonte do sentido do mart&iacute;rio crist&atilde;o &eacute; Cristo e a identifica&ccedil;&atilde;o da Igreja com Cristo, em tudo, sobretudo na Sua paix&atilde;o redentora. Cristo, na sua fidelidade ao des&iacute;gnio de Deus Pai, &eacute; o M&aacute;rtir por excel&ecirc;ncia, que aceitou ser fiel &agrave; Sua miss&atilde;o, mesmo sofrendo a morte. No Seu sacrif&iacute;cio voluntariamente consentido, d&aacute; o testemunho supremo da Sua fidelidade &agrave; miss&atilde;o que o Pai Lhe tinha confiado. A sua morte n&atilde;o &eacute; uma surpresa; &eacute; algo de que tem consci&ecirc;ncia, porque se considera o &ldquo;Servo de Yahw&eacute;&rdquo;, na compreens&atilde;o da Sua miss&atilde;o. S&atilde;o Jo&atilde;o p&otilde;e na boca de Jesus: &ldquo;&Eacute; por isto que Meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ningu&eacute;m Ma tira, mas sou Eu que a ofere&ccedil;o livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal &eacute; o encargo que recebi de Meu Pai&rdquo; (Jo. 10,18). O mart&iacute;rio crist&atilde;o &eacute; mais do que dar a vida por qualquer causa nobre. &Eacute; a plena imita&ccedil;&atilde;o de Cristo, a participa&ccedil;&atilde;o perfeita na sua miss&atilde;o redentora.<\/p>\n<p>O Senhor prepara os disc&iacute;pulos para este dom da vida, at&eacute; &agrave; morte, porque eles fazem um com Ele: &ldquo;O Servo n&atilde;o &eacute; maior que o seu Senhor. Se Me perseguiram, perseguir-vos-&atilde;o tamb&eacute;m a v&oacute;s&rdquo; (Jo. 15,20). S&atilde;o v&aacute;rios os avisos que Jesus faz aos disc&iacute;pulos de que, segui-l&rsquo;O, &eacute; aceitar ser m&aacute;rtir como Ele: &ldquo;O irm&atilde;o h&aacute; de entregar &agrave; morte o seu irm&atilde;o (&hellip;) e de todos sereis odiados por causa do Meu Nome. Mas aquele que permanecer firme at&eacute; ao fim, &eacute; que h&aacute; de salvar-se&rdquo; (Mt. 10,21-22). Aos tr&ecirc;s ap&oacute;stolos que eram mais &iacute;ntimos, Jesus anuncia-lhes, pessoalmente, que h&atilde;o de participar do Seu mart&iacute;rio. A Tiago e Jo&atilde;o: &ldquo;Podeis beber o c&aacute;lice que Eu hei de beber?&rdquo;. E depois confirma: &ldquo;O c&aacute;lice que Eu hei de beber, v&oacute;s o bebereis&rdquo; (Mc. 10,38-39). E no caso de Pedro, Jo&atilde;o reconhece que Jesus lhe anunciou a maneira como havia de morrer: &ldquo;Quando fores velho, estender&aacute;s as m&atilde;os, outro te cingir&aacute; a cintura e te conduzir&aacute; para onde tu n&atilde;o quererias ir&rdquo; (Jo. 21,18-19).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. O mart&iacute;rio crist&atilde;o &eacute;, assim, o seguimento de Cristo at&eacute; &agrave;s &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias. &Eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o h&aacute; fidelidade crist&atilde; sem aceitar participar na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta dimens&atilde;o exprime-se, n&atilde;o apenas no mart&iacute;rio, mas na viv&ecirc;ncia de todo o sofrimento em uni&atilde;o com Cristo. S&atilde;o Paulo v&ecirc; nesta participa&ccedil;&atilde;o no sofrimento de Cristo o cerne da m&iacute;stica crist&atilde;: &ldquo;Os sofrimentos do crist&atilde;o s&atilde;o os sofrimentos de Cristo&rdquo; (2Co. 1,5), porque o crist&atilde;o &eacute; um com Cristo. No sofrimento, o crist&atilde;o &ldquo;completa na sua carne o que falta &agrave;s prova&ccedil;&otilde;es de Cristo pelo seu Corpo, que &eacute; a Igreja&rdquo; (Col. 1,24).<\/p>\n<p>Poderemos aplicar ao sofrimento que sofremos unidos &agrave; Paix&atilde;o de Cristo a no&ccedil;&atilde;o de mart&iacute;rio? Num sentido amplo, sim, porque o dinamismo &eacute; o mesmo: n&atilde;o querer salvar a vida deste mundo &agrave; custa da vida em plenitude. A ressurrei&ccedil;&atilde;o de Cristo &eacute; o fruto amadurecido e a vit&oacute;ria definitiva sobre o sofrimento e sobre a morte. &ldquo;Se sofremos com Ele, &eacute; para sermos glorificados com Ele&rdquo; (Rom. 8,17).<\/p>\n<p>O mart&iacute;rio &eacute; a express&atilde;o radical desta participa&ccedil;&atilde;o no sofrimento de Cristo. E por isso participa da fecundidade da Cruz do Senhor. &Eacute; a reden&ccedil;&atilde;o do mundo que continua em a&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s da Cruz de Cristo, agora abra&ccedil;ada e oferecida pelo Seu Corpo, que &eacute; a Igreja. Esta sempre teve consci&ecirc;ncia da fecundidade salv&iacute;fica do mart&iacute;rio: &ldquo;Sangue de m&aacute;rtires &eacute; semente de crist&atilde;os&rdquo;. Os Atos dos Ap&oacute;stolos confirmam que o mart&iacute;rio de Est&ecirc;v&atilde;o provoca a primeira grande expans&atilde;o dos disc&iacute;pulos para fora da Palestina (cf. Act. 8,4ss), e sugerem que ele est&aacute; na origem da convers&atilde;o de Paulo (cf. Act. 8,3). Ao longo dos s&eacute;culos, v&aacute;rias vezes a Igreja fez a experi&ecirc;ncia de encontrar no mart&iacute;rio o vigor do seu crescimento, na Europa, na Coreia, no Jap&atilde;o, em &Aacute;frica. A atualidade da fecundidade redentora da Cruz de Cristo exprime-se, em cada tempo, no sofrimento dos crist&atilde;os. A palavra mart&iacute;rio readquire o seu sentido original de testemunho: o m&aacute;rtir &eacute; uma testemunha. S&oacute; o testemunho dos crist&atilde;os comunica a f&eacute; e faz crescer a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Ent&atilde;o devemos promover o mart&iacute;rio? De modo nenhum; devemos promover, isso sim, a viv&ecirc;ncia de todo o sofrimento em uni&atilde;o ao sofrimento de Cristo. A m&iacute;stica crist&atilde; vive, a este prop&oacute;sito, uma esp&eacute;cie de paradoxo. A Igreja, por um lado, procura mitigar o sofrimento humano e, por outro, d&aacute;-lhe um sentido sublime e transcendente.<\/p>\n<p>Sempre existiram m&aacute;rtires, porque sempre existiram perseguidores. Um livro recentemente publicado, intitulado &ldquo;Os m&aacute;rtires do s&eacute;culo XX&rdquo;, d&aacute;-nos dessa realidade um panorama impressionante. E mesmo hoje, nos &uacute;ltimos dias, os notici&aacute;rios est&atilde;o cheios de not&iacute;cias de m&aacute;rtires crist&atilde;os e de perseguidores. O sentido m&iacute;stico do mart&iacute;rio n&atilde;o deve impedir todas as for&ccedil;as que lutam pela dignidade do homem de denunciar e isolar os perseguidores. &Eacute; uma batalha de civiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. S&atilde;o Vicente, M&aacute;rtir. Que ele seja para n&oacute;s, para a nossa Diocese, e para esta Cidade que ele ama e protege, testemunha. Que o seu mart&iacute;rio continue a ser fecundo, ajudando-nos a todos, na intimidade da nossa consci&ecirc;ncia e do nosso cora&ccedil;&atilde;o, a abrirmo-nos ao dom da salva&ccedil;&atilde;o que Jesus Cristo, o verdadeiro M&aacute;rtir, conquistou para todos os homens.<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 22 de janeiro de 2012<\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Ganhar a vida, perdendo-a: atualidade do Mart&iacute;rio&rdquo; 1. Na Solenidade de S&atilde;o Vicente, Padroeiro do Patriarcado e protetor da Cidade de Lisboa, resolvi falar-vos do M&aacute;rtir. Ele &eacute;, para todos n&oacute;s e h&aacute; muitas gera&ccedil;&otilde;es, o M&aacute;rtir S&atilde;o Vicente. N&atilde;o foi martirizado em Lisboa. 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