{"id":54501,"date":"2011-12-28T13:50:49","date_gmt":"2011-12-28T13:50:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/12\/28\/2012-o-ano-de-todos-os-cenarios\/"},"modified":"2011-12-28T13:50:49","modified_gmt":"2011-12-28T13:50:49","slug":"2012-o-ano-de-todos-os-cenarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/2012-o-ano-de-todos-os-cenarios\/","title":{"rendered":"2012, o ano de todos os cen\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Dias da Silva <!--more--> <\/p>\n<p>Foi-me pedido um coment&aacute;rio quanto &agrave; &ldquo;possibilidade de existirem ondas de indigna&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel da rua&rdquo; e se &ldquo;s&atilde;o meios para resolver os problemas que afetam a sociedade portuguesa?&rdquo;.<\/p>\n<p>Se nunca foi f&aacute;cil fazer futurologia, muito menos o &eacute; para os pr&oacute;ximos tempos, pois todos os cen&aacute;rios s&atilde;o poss&iacute;veis. H&aacute; aspetos que temos garantidos: mais fome, mais fam&iacute;lias &ldquo;falidas&rdquo;, mais desempregados, numa palavra, mais sofrimento. Mas, talvez o pior, seja a falta de expectativas, de &ldquo;futuros cred&iacute;veis&rdquo; e &ldquo;amanh&atilde;s que cantam&rdquo;, de confian&ccedil;a em n&oacute;s e nos outros, enfim, a falta quase patol&oacute;gica de esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Mas como terei de dizer mais qualquer coisa, come&ccedil;o pelas &ldquo;manifesta&ccedil;&otilde;es, tumultos&rdquo;. N&atilde;o me refiro a manifesta&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas, que ir&atilde;o acontecer e multiplicar-se. Mas a um cen&aacute;rio mais negro para o qual podemos aduzir raz&otilde;es de v&aacute;ria ordem. Por um lado, basta olhar o que acontece pelo mundo; por outro, temos as palavras de Jo&atilde;o Paulo II: &ldquo;Uma sociedade onde este direito (de ganhar o p&atilde;o com o suor do pr&oacute;prio rosto) seja sistematicamente negado, as medidas de pol&iacute;tica econ&oacute;mica n&atilde;o consintam aos trabalhadores alcan&ccedil;ar n&iacute;veis satisfat&oacute;rios de ocupa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pode conseguir nem a sua legitima&ccedil;&atilde;o &eacute;tica nem a paz social&rdquo; (CA 43).<\/p>\n<p>No entanto, para que tal aconte&ccedil;a n&atilde;o basta haver potenciais raz&otilde;es justificativas. A situa&ccedil;&atilde;o s&oacute; se tornar&aacute; incontrol&aacute;vel se atingir o &ldquo;ponto de n&atilde;o retorno&rdquo;, isto &eacute;, o momento a partir do qual um movimento se torna imposs&iacute;vel de travar. O que ir&aacute; passar-se no pr&oacute;ximo futuro vai depender muito de ser ou n&atilde;o atingido este ponto de n&atilde;o retorno, que depende de algumas condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&Agrave; primeira chamaria o &ldquo;<em>&iacute;ndice de sacrif&iacute;cio<\/em>&rdquo; e nada melhor que dar um exemplo para o tornar intelig&iacute;vel. Suponhamos que h&aacute; um corte de 10% nos sal&aacute;rios. Isto significa que quem ganha 800 euros sofre um corte de 80 euros; quem ganha 4000, ter&aacute; uma redu&ccedil;&atilde;o de 400 euros. &Egrave; evidente para todos que os 80 euros fazem muito mais falta a quem ganha 800 do que os 400 a quem ganha 4000. Isto &eacute;, o grau de sacrif&iacute;cio, que facilmente se transforma em sofrimento, &eacute; muito maior no que ganha menos. Apesar da percentagem do corte ser igual, o grau de sacrif&iacute;cio &eacute; profundamente desigual. Por isso, h&aacute; quem afirme que os maiores sal&aacute;rios, para estabelecer alguma equidade neste &iacute;ndice (que n&atilde;o pode ser &ldquo;igual&rdquo; para todos) deveriam ser penalizados em 70%. Este desequil&iacute;brio pode adquirir um peso tal que mobilize mesmo os mais indecisos.<\/p>\n<p>Uma segunda &eacute; a do &ldquo;<em>m&iacute;nimo vital<\/em>&rdquo;, isto &eacute;, o m&iacute;nimo necess&aacute;rio para que cada pessoa possa viver com dignidade. Este m&iacute;nimo varia muito com as sociedades mas tamb&eacute;m com condi&ccedil;&otilde;es culturais, familiares, etc. Mas, maior ou menor, sem ele as pessoas s&atilde;o capazes de tudo, como nos mostram os balseiros, os <em>boat people<\/em> ou os magrebinos. &Eacute; tal o seu desespero que se lan&ccedil;am numa aventura suicida pois sabem que correm enormes riscos de morrer. Mas preferem morrer a lutar por uma vida digna do que morrer em casa de bra&ccedil;os cruzados, minados pela ang&uacute;stia e a desesperan&ccedil;a. O exemplo talvez n&atilde;o tenha grande aplicabilidade entre n&oacute;s, mas nunca se sabe at&eacute; onde o desespero pode levar as pessoas, mesmo causticadas pelos azares da vida.<\/p>\n<p>Um terceiro fator &eacute; o que chamaria uma &ldquo;<em>governa&ccedil;&atilde;o adequada<\/em>&rdquo;, englobando neste adjetivo muitos comportamentos. Todos sabemos como a governa&ccedil;&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil, a n&iacute;vel pessoal (anos sem vida de fam&iacute;lia e sem amigos, &hellip;), mas tamb&eacute;m pol&iacute;tico (sucessivos desafios novos e imprevis&iacute;veis, a press&atilde;o de tomar decis&otilde;es &ldquo;sobre o momento&rdquo;,&hellip;). Mas isso n&atilde;o conta na hora de ter confian&ccedil;a nos governantes. Estes, como outros antes e outros depois, n&atilde;o podem tomar medidas violentas sem terem uma palavra pedag&oacute;gica, uma explicita&ccedil;&atilde;o convincente e mobilizadora e sem praticarem, com seriedade, um di&aacute;logo dif&iacute;cil (&eacute; certo) mas um di&aacute;logo fict&iacute;cio que n&atilde;o passe de um mon&oacute;logo impositivo. Os cidad&atilde;os t&ecirc;m de ser convencidos de que as medidas tomadas respeitam, razoavelmente, o crit&eacute;rio da justi&ccedil;a e da equidade. Os governantes n&atilde;o podem dar raz&otilde;es objetivas que justifiquem slogans como &ldquo;s&atilde;o sempre os mesmos a pagar a crise&rdquo;. N&atilde;o podem cair na imoralidade de olhar s&oacute; os n&uacute;meros e esquecer as pessoas que est&atilde;o por detr&aacute;s: a obsess&atilde;o dos d&eacute;fices tem de ser substitu&iacute;da pela obsess&atilde;o das pessoas. E n&atilde;o devem tomar medidas pensando apenas nos lucros imediatos que podem, a m&eacute;dio e a longo prazo, tornar-se muito mais danosas do que os danos que pretendiam evitar. Estou a pensar no que me pareceu (mas quem sou eu!?) um erro geoestrat&eacute;gico &ndash; a &ldquo;venda a EDP&rdquo; &agrave; China &ndash; tendo com &uacute;nico argumento conhecido o muito dinheiro que supostamente da&iacute; advir&aacute;. Porque uma proposta que d&ecirc; mais dinheiro n&atilde;o &eacute; necessariamente a melhor solu&ccedil;&atilde;o para os nossos problemas. Porque a China n&atilde;o d&aacute; aquele dinheiro pelos nossos &ldquo;lindos olhos &rdquo;. E, pior que todo, porque abrimos a porta a uma cultura que nada em ver connosco, a um pa&iacute;s que pacientemente vai tecendo as malhas de um dom&iacute;nio mundial e tem uma subtileza maquiav&eacute;lica que pode p&ocirc;r em causa, a prazo, a nossa identidade: ser &ldquo;pe&atilde;o&rdquo; da UE (senhora Merkel) vai tirar-nos soberania, ser &ldquo;pe&atilde;o&rdquo; da China vai deturpar-nos a identidade.<\/p>\n<p>Perante estas tr&ecirc;s condi&ccedil;&otilde;es &eacute;, pois, muito dif&iacute;cil imaginar o que poder&aacute; fazer um povo de brandos costumes. Somos um povo com um profundo d&eacute;fice de cidadania, um ol&iacute;mpico desprezo pelo bem comum, uma preocupa&ccedil;&atilde;o quase &uacute;nica sobre os nossos privil&eacute;gios e direitos. Quase ningu&eacute;m, a come&ccedil;ar pelos pol&iacute;ticos, assume ter como crit&eacute;rio primeiro e estruturante a centralidade da pessoa.<\/p>\n<p>S&oacute; uma palavra sobre a quest&atilde;o dos tumultos sociais. N&atilde;o creio que eles sejam um meio eficaz para resolver os nossos problemas. Porque uma coisa &eacute; a contesta&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os, pensada, cr&iacute;tica, criativa e propositiva, outra s&atilde;o as manifesta&ccedil;&otilde;es do tipo &ldquo;Maria vai com as outras&rdquo;. Por outro lado, considero que manifesta&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas, grupos ativos de opini&atilde;o, lobbies &ldquo;n&atilde;o manipulados&rdquo; sobre a opini&atilde;o p&uacute;blica, utiliza&ccedil;&atilde;o correta dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o um instrumento indispens&aacute;vel para o exerc&iacute;cio da s&atilde; cidadania e tamb&eacute;m um meio para os respons&aacute;veis despertarem para a o grau de gravidade da situa&ccedil;&atilde;o, tomarem consci&ecirc;ncia da real realidade e se aperceberem da &ldquo;dist&acirc;ncia&rdquo; a que estamos do tal &ldquo;ponto de n&atilde;o retorno&rdquo;.<\/p>\n<p>No entanto, temos de nos confrontar com esta pergunta-chave: s&atilde;o os tempos que s&atilde;o maus ou somos n&oacute;s que n&atilde;o estamos &agrave; altura dos acontecimentos?<\/p>\n<p align=\"left\"><em>Jos&eacute; Dias da Silva, Comiss&atilde;o Diocesana Justi&ccedil;a e Paz, Coimbra<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Dias da Silva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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