{"id":54499,"date":"2011-12-28T13:41:27","date_gmt":"2011-12-28T13:41:27","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/12\/28\/ano-da-fe\/"},"modified":"2011-12-28T13:41:27","modified_gmt":"2011-12-28T13:41:27","slug":"ano-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ano-da-fe\/","title":{"rendered":"Ano da F\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Duque, te\u00f3logo <!--more--> <\/p>\n<p>Na sequ&ecirc;ncia do tratamento dado &agrave; caridade e &agrave; esperan&ccedil;a (<em>Deus caritas est<\/em> e <em>Spe salvi<\/em>), seria de esperar que Bento XVI dedicasse um escrito &agrave; f&eacute;, centrando assim as suas enc&iacute;clicas nas tr&ecirc;s virtudes teologais, como tinha anunciado no in&iacute;cio do pontificado. Desta vez, dedica-se o ano de 2012 inteiro &agrave; reflex&atilde;o e medita&ccedil;&atilde;o sobre a f&eacute;. Desse modo, realiza-se o projeto de repensar os elementos essenciais do cristianismo e da vida da Igreja, evitando que, no interior da densa floresta dos assuntos e das propostas, se perca o horizonte fundamental do que nos constitui como crist&atilde;os.<\/p>\n<p>Interessantemente, este ano da f&eacute; coincide com a celebra&ccedil;&atilde;o do 50.&ordm; anivers&aacute;rio do in&iacute;cio do Conc&iacute;lio do Vaticano II, precisamente em outubro de 1962. A jun&ccedil;&atilde;o dos dois &laquo;acontecimentos&raquo; eclesiais conduz-me a uma breve reflex&atilde;o sobre o que possa ser o ano que se inicia.<\/p>\n<p>A reflex&atilde;o e a reafirma&ccedil;&atilde;o daquilo em que verdadeiramente acreditamos, daquilo que orienta fundamentalmente a nossa exist&ecirc;ncia, acontece, normalmente, em momentos cr&iacute;ticos da exist&ecirc;ncia pessoal e tamb&eacute;m comunit&aacute;ria, ajudando a uma redescoberta da identidade, como forma de dar sentido a tudo o que fazemos. Ora, &eacute; sabido que o Conc&iacute;lio do Vaticano II foi convocado, precisamente, com essa finalidade. Os s&eacute;culos XVIII, XIX e XX tinham trazido grandes altera&ccedil;&otilde;es &agrave; vida social e pessoal dos europeus e, por extens&atilde;o, de todo o mundo. Essas altera&ccedil;&otilde;es tiveram enorme impacto sobre a vida da Igreja, sobretudo sobre a vida e as convic&ccedil;&otilde;es de cada crist&atilde;o. Era urgente, portanto, refletir sobre a nossa identidade. O Conc&iacute;lio f&ecirc;-lo, precisamente atrav&eacute;s de uma refontaliza&ccedil;&atilde;o do cristianismo, assumindo que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel a sua exist&ecirc;ncia sem a &laquo;contamina&ccedil;&atilde;o&raquo; da hist&oacute;ria em que se desenvolve, mas tamb&eacute;m que &eacute; necess&aacute;rio reconhecer a profundidade dessa hist&oacute;ria, libertando-o de muitos acess&oacute;rios que poder&atilde;o turvar a compreens&atilde;o da sua identidade fundamental.<\/p>\n<p>&Eacute; claro que o mais recente Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico aconteceu num contexto em que os movimentos pol&iacute;tico-sociais viviam do entusiasmo revolucion&aacute;rio da transforma&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de vida dos contempor&acirc;neos. Desse modo, tamb&eacute;m as conclus&otilde;es do Conc&iacute;lio foram acolhidas, por muitos, como contributos para uma forte revolu&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tica, capaz de transformar de vez a Igreja e o mundo. Os aspetos mais imediatos &ndash; e &agrave;s vezes mais superficiais &ndash; das reformas assumiram o protagonismo quase exclusivo, aliando-se-lhe uma expetativa forte, em rela&ccedil;&atilde;o aos efeitos de determinadas transforma&ccedil;&otilde;es organizativas.<\/p>\n<p>Tudo isso foi, sem d&uacute;vida, importante para a vida da Igreja, resultando numa altera&ccedil;&atilde;o not&aacute;vel das pr&aacute;ticas quotidianas dos crist&atilde;os. Mas depressa se manifestou um problema inerente: que as expetativas estariam colocadas sobre bases pouco s&oacute;lidas e que as verdadeiras transforma&ccedil;&otilde;es da vida eclesial pudessem ser puro resultado de reformas de organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No primeiro caso, o que aconteceu foi que, muitas vezes, as modifica&ccedil;&otilde;es de superf&iacute;cie chegaram mesmo a atrai&ccedil;oar a redescoberta da identidade do cristianismo; ou ent&atilde;o, a maioria dos fi&eacute;is, que apenas contemplou as transforma&ccedil;&otilde;es de superf&iacute;cie, n&atilde;o chegou a penetrar nos fundamentos da sua f&eacute;, atrav&eacute;s de aprofundado conhecimento b&iacute;blico e teol&oacute;gico. Que as mudan&ccedil;as n&atilde;o tivessem passado de altera&ccedil;&otilde;es epid&eacute;rmicas, em muitos casos de efeitos de moda passageira, n&atilde;o seria de estranhar, enquanto n&atilde;o fossem trabalhados os alicerces da reforma em curso.<\/p>\n<p>No segundo caso, at&eacute; por natural efeito de quebra de entusiasmo, como acontece com todos os fen&oacute;menos de moda, foram surgindo as desilus&otilde;es, fruto da inefic&aacute;cia de muitas iniciativas e reorganiza&ccedil;&otilde;es reformadoras. Alguns chegaram mesmo, no auge da desilus&atilde;o, a considerar que tinha sido errado o Conc&iacute;lio e que seria conveniente anular os seus efeitos. Quando a esperan&ccedil;a se coloca apenas em artif&iacute;cios organizacionais, a desilus&atilde;o e mesmo o desespero est&atilde;o j&aacute; por perto.<\/p>\n<p>Ora, penso que estes 50 anos de dist&acirc;ncia nos permitir&atilde;o uma reflex&atilde;o que conduza o Conc&iacute;lio aos seus n&uacute;cleos fundamentais e permita compreender quais os seus contributos para a profunda transforma&ccedil;&atilde;o da Igreja, no permanente caminho de aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; sua identidade e aproxima&ccedil;&atilde;o ao mundo, para o qual existe. Nessa redescoberta, considero fundamental a orienta&ccedil;&atilde;o da f&eacute;, pois &eacute; nela que se encontra a base da correta ou incorreta realiza&ccedil;&atilde;o do que pretendeu o Conc&iacute;lio.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, porque n&atilde;o se trata de mera mudan&ccedil;a de estrat&eacute;gia, na gest&atilde;o de um grupo que previa entrar em crise. Ali&aacute;s, por esse caminho, a estrat&eacute;gia n&atilde;o resultou, parecendo at&eacute; que a crise se agravou. Mas o que pretendeu o Conc&iacute;lio foi abrir possibilidades de melhor realiza&ccedil;&atilde;o daquilo que &eacute; a nossa pr&oacute;pria f&eacute;, enquanto modo de vida pessoal e enquanto cerne do que constitui a comunidade eclesial. Trata-se, pois, de ser mais fiel &agrave; nossa identidade crente, essencialmente exposta na profiss&atilde;o de f&eacute; que denominamos &laquo;credo&raquo; ou &laquo;s&iacute;mbolo&raquo;. Se redescobrirmos os textos do Conc&iacute;lio na sua liga&ccedil;&atilde;o com esse n&uacute;cleo crente, o caminho da sua aplica&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda longo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a atitude crente fundamental exige que n&atilde;o coloquemos a confian&ccedil;a da realiza&ccedil;&atilde;o desse caminho exclusivamente nas nossas for&ccedil;as organizativas. &Eacute; certo que, sem o nosso trabalho, nada se far&aacute;. Mas o processo &eacute; mais complexo. No nosso trabalho, &eacute; o Esp&iacute;rito que age e nem sempre as coisas s&atilde;o como parecem ser. Por isso, com a confian&ccedil;a colocada em base mais s&oacute;lida &ndash; precisamente porque acreditamos &ndash; os des&acirc;nimos n&atilde;o nos levar&atilde;o &agrave; desilus&atilde;o ou mesmo ao desespero. Porque acreditamos que o contributo do Conc&iacute;lio &eacute; bom e importante para o presente e futuro da miss&atilde;o da Igreja, trabalharemos na sua realiza&ccedil;&atilde;o, como quem trabalha num projeto muito complexo e abrangente, como humildes servos, confiantes nos efeitos de algo que &eacute; maior do que n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p align=\"left\"><em>Jo&atilde;o Duque, te&oacute;logo, presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Duque, te\u00f3logo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[109,120,172],"class_list":["post-54499","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-ano-da-fe","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-braga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54499\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}