{"id":54483,"date":"2011-12-27T12:12:53","date_gmt":"2011-12-27T12:12:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/12\/27\/homilia-do-arcebispo-de-braga-no-dia-de-natal\/"},"modified":"2011-12-27T12:12:53","modified_gmt":"2011-12-27T12:12:53","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-no-dia-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-no-dia-de-natal\/","title":{"rendered":"Homilia do arcebispo de Braga no dia de Natal"},"content":{"rendered":"<p><strong>A Palavra das palavras<\/strong><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>Celebramos o Natal como Igreja Arquidiocesana e queremos que ele, no meio deste <em>supermercado de palavras <\/em>que a sociedade nos oferece, nos aponte a proveni&ecirc;ncia da aut&ecirc;ntica Palavra, que alterou por completo o rumo da hist&oacute;ria humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Se pela palavra Deus <strong>criou <\/strong>o mundo, se com a palavra <strong>guiou <\/strong>o povo de Israel pelo mundo e se da palavra <strong>anunciou <\/strong>a vinda de um Messias ao mundo <strong><em>(Tempo de Advento)<\/em><\/strong>, agora Deus <strong>habita <\/strong>entre n&oacute;s porque &ldquo;a Palavra fez-se carne&rdquo; <strong><em>(Evangelho). <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Por isso, &eacute; nesta Palavra (Jesus) que reside a diferen&ccedil;a do monote&iacute;smo crist&atilde;o. (1)<\/p>\n<p>Se para outras religi&otilde;es a revela&ccedil;&atilde;o plena de Deus acontece mediante um anjo, um esp&iacute;rito, uma for&ccedil;a energ&eacute;tica, uma voz ou a simples inspira&ccedil;&atilde;o textual, para o cristianismo ela opera-se na encarna&ccedil;&atilde;o numa pessoa (carne) com uma <strong>descend&ecirc;ncia<\/strong>, uma <strong>naturalidade<\/strong>, uma <strong>fam&iacute;lia <\/strong>e um <strong>nome <\/strong>concreto: Jesus, o homem e o filho de Deus. (2)<\/p>\n<p>Tudo isto, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; obra do acaso, mas fruto do amor de Deus correspondido pelo Homem, que gerou este filho no seio da fam&iacute;lia de Nazar&eacute;. Da&iacute; que a minha reflex&atilde;o se centralize no <em>Natal como Festa da Fam&iacute;lia e da Palavra<\/em>, oferecida em Cristo que pode dar um sentido festivo a todas as fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. A prop&oacute;sito da Fam&iacute;lia, recordo que de 30 de maio a 3 de junho de 2012 realiza-se em Mil&atilde;o o VII Encontro Mundial das Fam&iacute;lias, onde espero que alguns casais dos diferentes arciprestados participem. Ao convocar este encontro o Santo Padre prop&ocirc;s o tema: &ldquo;<em>A Fam&iacute;lia: o trabalho e a festa<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>Nascemos para uma vida que deveria ser festa como sinal de felicidade e realiza&ccedil;&atilde;o humana plena. Mas onde podemos encontrar a felicidade?<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil usufruir dum estatuto de felicidade. Se cada um, pela reflex&atilde;o e por condutas adequadas, vai construindo a sua vida em felicidade, sabemos que a incapacidade de o fazer sozinho &eacute; constitutivo da pessoa humana. A vida, enquanto festa feliz, s&oacute; acontece na fam&iacute;lia!<\/p>\n<p>Todavia, acontece que diariamente, somos inundados por not&iacute;cias que parecem destituir o ideal familiar: as desaven&ccedil;as familiares, o div&oacute;rcio, a neglig&ecirc;ncia paternal e, sobretudo, a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica.<\/p>\n<p>Perante tais dados, a Igreja, nas suas comunidades paroquiais, que favorecem o fator de proximidade, deve promover uma a&ccedil;&atilde;o pastoral que torne as fam&iacute;lias mais consistentes.<\/p>\n<p>E se a fam&iacute;lia &eacute; a c&eacute;lula da sociedade, ent&atilde;o que o Estado (e a Uni&atilde;o Europeia) n&atilde;o se esque&ccedil;a tamb&eacute;m de propor pol&iacute;ticas familiares que respeitem e salvaguardem a integridade da mesma. (3)<\/p>\n<p>S&atilde;o muitos os setores que as pol&iacute;ticas devem abranger. Hoje, e na perspetiva das VII Jornadas Mundiais da Fam&iacute;lia, sublinho um: o <strong>trabalho<\/strong>, como direito e dever humano.<\/p>\n<p>Na Enc&iacute;clica <em>Laborem Exercens<\/em>, o Papa Jo&atilde;o Paulo II escreve: &ldquo;O trabalho constitui o fundamento sobre o qual se edifica a vida familiar, que &eacute; um direito fundamental e uma voca&ccedil;&atilde;o do Homem. (&hellip;) O trabalho &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o que torna poss&iacute;vel a funda&ccedil;&atilde;o de uma fam&iacute;lia, uma vez que a fam&iacute;lia exige os meios de subsist&ecirc;ncia que o Homem obt&eacute;m normalmente mediante o trabalho. (&hellip;) A fam&iacute;lia &eacute; uma comunidade tornada poss&iacute;vel pelo trabalho.&rdquo; (4)<\/p>\n<p>Deste modo, a gravidade do desemprego, um cancro de extrema gravidade na nossa regi&atilde;o que me preocupa profundamente, fruto duma crise provocada pela sociedade industrial e do com&eacute;rcio livre, priva as fam&iacute;lias dos meios necess&aacute;rios para um sustento vital e, naturalmente, para qualquer tipo de experi&ecirc;ncia de vida em festa.<\/p>\n<p>Para viver &eacute; necess&aacute;rio trabalho, mas as condi&ccedil;&otilde;es com que &eacute; exercido devem proteger a dignidade da pessoa. A precariedade, a incerteza, a pouca estabilidade e a inseguran&ccedil;a laboral n&atilde;o garantem a <em>festa <\/em>da vida em fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, acrescento ainda outro pormenor. At&eacute; h&aacute; pouco tempo, pensava-se que o progresso tecnol&oacute;gico aumentasse o tempo livre. Contudo, hoje verificamos que, por raz&otilde;es diversas, os ritmos do trabalho contempor&acirc;neo, impostos pela dita &ldquo;necessidade de consumo&rdquo;, limitam ou quase anulam o tempo para a fam&iacute;lia crescer na conviv&ecirc;ncia e no di&aacute;logo, com desencontros frequentes ou aus&ecirc;ncias prolongadas.<\/p>\n<p>Se pode ser importante garantir a produtividade para se poder subsistir, n&atilde;o podemos aceitar tudo, desequilibrando os tempos do trabalho com os da fam&iacute;lia, tempo vital para intensificar as rela&ccedil;&otilde;es familiares.<\/p>\n<p>Na mensagem de Natal que preparei para este ano, propus a tenacidade em conciliar tr&ecirc;s atitudes: <strong>pobreza<\/strong>, <strong>alegria <\/strong>e <strong>esperan&ccedil;a. <\/strong>&Eacute; neste tr&iacute;ptico que a fam&iacute;lia crist&atilde; se distingue e deve crescer, apoiada nesta Palavra que agora habita entre n&oacute;s, enquanto: fam&iacute;lia que vive com o essencial (pobreza), que partilha alegremente o que t&ecirc;m com outras fam&iacute;lias (alegria), que sente a corresponsabilidade crist&atilde; de animar a vida na esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Na primeira leitura, o profeta Isa&iacute;as proclamava como &ldquo;s&atilde;o belos os p&eacute;s que anunciam a boa-nova&rdquo;. Hoje &eacute; dia de alegria, porque Deus mostrou-nos a sua beleza numa &uacute;nica Palavra: Jesus. Uma Palavra que &eacute; capaz de seduzir o Homem para um sentido, um compromisso, um gesto, um sentimento e um excesso de amor, que as outras palavras n&atilde;o conseguem produzir.<\/p>\n<p>Por isso, Ele &eacute; a &ldquo;Palavra das palavras&rdquo;: <strong>primeiro, <\/strong>pois divide a hist&oacute;ria da humanidade em duas categorias de palavras, as palavras veterotestament&aacute;rias (lei) e as palavras neotestament&aacute;rias (amor); <strong>segundo, <\/strong>porque &eacute; o derradeiro c&oacute;digo lingu&iacute;stico pelo qual comunicamos com Deus, como escut&aacute;vamos na Carta aos Hebreus; e <strong>terceiro<\/strong>, porque esta Palavra ret&eacute;m em si a Verdade sobre o <em>Homem <\/em>e <em>Deus<\/em>, assim como sobre a <em>Fam&iacute;lia<\/em>.<\/p>\n<p>Perante esta revela&ccedil;&atilde;o, resta-nos anunciar a beleza desta Palavra: n&atilde;o para ganhar o mercado das palavras neste supermercado social, mas para ganhar (salvar) o Homem! <strong><em>(Salmo Responsorial) <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Logo, neste Natal &ldquo;uma palavra &eacute; melhor que um presente&rdquo;! <strong><em>(D. Ant&oacute;nio Couto) <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Para terminar, que este n&atilde;o seja mais &ldquo;outro Natal \/ outra comprida noite \/ De consoada, \/ Fria, \/ Vazia, \/ Bonita s&oacute; de ser imaginada!&rdquo;, como escreveu outrora o poeta Miguel Torga. (5)<\/p>\n<p>Na verdade, a consoada mais saborosa est&aacute; em alimentarmo-nos da Palavra de Deus! Quando assim acontece, Deus habita verdadeiramente no meio de n&oacute;s, o rumo da hist&oacute;ria norteiam-se pelo genu&iacute;no crit&eacute;rio da Verdade e o trabalho resplandece como um alicerce para a felicidade familiar!<\/p>\n<p>Assim sendo, e porque o Natal &eacute; a <em>Festa da Fam&iacute;lia, <\/em>rezo para que todos os membros das nossas fam&iacute;lias, em idade laboral, disponham de <strong>trabalho <\/strong>digno e justo para que possam viver em <strong>festa <\/strong>a partir da sua <strong>fam&iacute;lia<\/strong>, &agrave; semelhan&ccedil;a da fam&iacute;lia de Nazar&eacute;.<\/p>\n<p>Solenidade do Natal do Senhor,<\/p>\n<p>25 de dezembro de 2011, Catedral de Braga.<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga<\/em><\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1 &#8211; Cf. Bento XVI, <em>Verbum Domini<\/em>, 11-13.<\/p>\n<p>2 &#8211; Cf. Michel Quesnel, <em>Jesus, o homem e o filho de Deus<\/em>, p. 129.<\/p>\n<p>3 &#8211; Cf. Bento XVI, <em>Caritas in veritatis<\/em>, 44.<\/p>\n<p>4 &#8211; Jo&atilde;o Paulo II, <em>Laborem Exercens<\/em>, 10.<\/p>\n<p>5 &#8211; Miguel Torga, <em>Antologia po&eacute;tica<\/em>, 449.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Palavra das palavras &nbsp; Celebramos o Natal como Igreja Arquidiocesana e queremos que ele, no meio deste supermercado de palavras que a sociedade nos oferece, nos aponte a proveni&ecirc;ncia da aut&ecirc;ntica Palavra, que alterou por completo o rumo da hist&oacute;ria humana. &nbsp; 1. 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