{"id":5447,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-de-d-teodoro-de-faria-no-domingo-de-pascoa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-de-d-teodoro-de-faria-no-domingo-de-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-teodoro-de-faria-no-domingo-de-pascoa\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Teodoro de Faria no Domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p>\u201cSa\u00ed do Pai, agora retorno ao Pai\u201d  Irm\u00e3os e Irm\u00e3s em Jesus Cristo 1 &#8211; P\u00e1scoa \u00e9 a festa fundamental da liturgia e do culto crist\u00e3o. Todos os domingos e todos os sacramentos tem a sua origem na P\u00e1scoa. A prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica tem o seu n\u00facleo na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. A bondade infinita de Deus projecta-se em toda a cria\u00e7\u00e3o, a do mundo e a do homem. A P\u00e1scoa \u00e9 o acto soberano de Deus que vence a morte, a dor e o sofrimento, e mostra-se Senhor da Vida, ressuscitando o Seu Filho Jesus e prometendo a nossa ressurrei\u00e7\u00e3o. A P\u00e1scoa \u00e9 a festa das festas, o Dia que o Senhor fez. Celebrar a festa da P\u00e1scoa \u00e9 incorporar-se no gesto soberano de Deus e dar gra\u00e7as, porque a vida \u00e9 radicalmente boa, o mundo e as coisas que Deus criou s\u00e3o boas.  No domingo crist\u00e3o celebra-se a P\u00e1scoa semanal, reconhecemos que tudo o que Deus fez \u00e9 bom e da\u00ed brota a nossa atitude de louvor e ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. A P\u00e1scoa n\u00e3o \u00e9 apenas acontecimento do passado, ela \u00e9 sinal e antecipa\u00e7\u00e3o de um mundo novo, ela regenera a hist\u00f3ria do homem com a palavra de Jesus e a gl\u00f3ria da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Desta forma o domingo, que celebra a P\u00e1scoa, regenera o tempo e a hist\u00f3ria do homem. Os tr\u00eas \u00faltimos dias da vida de Jesus constituem o centro do mist\u00e9rio pascal, mas de uma forma mais ampla todo o mist\u00e9rio de Cristo desde a encarna\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte \u00e9 mist\u00e9rio pascal. Diz Jesus: \u00abSa\u00ed do Pai e vim ao mundo. Agora deixo outra vez o mundo e vou para o Pai\u00bb. (Jo. 16, 28). Estas palavras exprimem todo o mist\u00e9rio de Jesus Cristo, deixa o Pai e insere-se no mundo, ou seja na hist\u00f3ria humana, sofrendo a humilha\u00e7\u00e3o e a morte, na manh\u00e3 de P\u00e1scoa regressa ao Pai que O glorifica e constitui Senhor. Para haver festa convoca-se a comunidade, de uma forma jubilosa com um an\u00fancio solene. Para o crist\u00e3o s\u00f3 a boa nova do Evangelho \u00e9 alegria universal, porque s\u00f3 a P\u00e1scoa de Jesus tem dimens\u00e3o eterna, universal, c\u00f3smica. A festa \u00e9 um tempo sagrado, traz-nos gra\u00e7a, salva\u00e7\u00e3o e torna-nos melhores, exprimimos a alegria de viver, dar, partilhar, comprometer-se com o bem comum.  O cora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 2 &#8211; Na recita\u00e7\u00e3o do Credo n\u00f3s professamos: Creio em s\u00f3 Senhor Jesus&#8230; que por n\u00f3s foi crucificado, padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras&#8230; Espero a ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos e a vida do mundo que h\u00e1-de vir. \u00c9 esta a festa que hoje celebramos, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9. O fundamento \u00e9 um facto acontecido na hist\u00f3ria da humanidade, mas as consequ\u00eancias s\u00e3o actuais, fazem parte do nosso presente como do nosso futuro. Na 1\u00aa leitura S\u00e3o Pedro, fala da P\u00e1scoa, como de um facto conhecido pelos habitantes de Jerusal\u00e9m: \u00abV\u00f3s sabeis o que sucedeu em toda a Judeia a come\u00e7ar pela Galileia&#8230; E n\u00f3s somos testemunhas de tudo o que Ele (Jesus) fez. Ele, a quem deram a morte&#8230;Deus ressuscitou-O ao terceiro dia&#8230; e mandou-nos pregar ao povo&#8230; todo o que acredita n&#8217;Ele recebe, pelo seu Nome, a remiss\u00e3o dos pecados\u00bb. (AA 10, 34 e ss). S. Pedro narra a experi\u00eancia extraordin\u00e1ria que teve, juntamente com os ap\u00f3stolos, com um homem que foi flagelado, crucificado, morto e ressuscitou. Esta foi a catequese com a qual preparou um pag\u00e3o, o centuri\u00e3o romano de Cesareia, para o baptismo. O discurso de S\u00e3o Pedro n\u00e3o \u00e9 uma simples narra\u00e7\u00e3o  do que aconteceu na vida de Jesus, \u00e9 tamb\u00e9m uma profiss\u00e3o de f\u00e9, uma proclama\u00e7\u00e3o do que a Igreja ensina. Por causa destes factos, os primeiros crist\u00e3os de Jerusal\u00e9m come\u00e7aram a reunir-se para celebrarem no domingo uma refei\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, para mostrar a presen\u00e7a de Jesus no meio deles e anunciar a sua participa\u00e7\u00e3o futura na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. O nosso domingo, que \u00e9 a P\u00e1scoa semanal, \u00e9 o dia em que nos reunimos como os ap\u00f3stolos para o banquete do ressuscitado, para participar nos frutos da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, na Carta aos crist\u00e3os da cidade grega de Colossos, mostra as implica\u00e7\u00f5es da realidade da ressurrei\u00e7\u00e3o na vida dos crentes. Pelo baptismo, diz o ap\u00f3stolo, \u00abV\u00f3s morrestes, e a vossa vida est\u00e1 escondida, com Cristo, em Deus\u00bb (Col. 3, 3).  Eis a nova realidade, o crist\u00e3o pertence j\u00e1 a Cristo ressuscitado. Tendo morrido para o pecado j\u00e1 participa da condi\u00e7\u00e3o do ressuscitado. Por isso devemos procurar as coisas do alto. N\u00e3o se trata de fugir ou abandonar o mundo, mas de pensar e agir de uma forma diferente, rejeitando a avareza, o v\u00edcio, a viol\u00eancia e aderir \u00e0s novas realidades de pessoas salvas, chamadas \u00e0 santidade e comunh\u00e3o com Deus. Que tinha o t\u00famulo para ver, quando Maria Madalena e as outras duas mulheres, v\u00e3o de manh\u00e3 cedo para completar aquele acto de piedade que n\u00e3o foi poss\u00edvel realizar na sexta feira no Calv\u00e1rio? N\u00e3o havia nada para ver, estava vazio. Mas para um olhar mais atento havia uns sinais reveladores. A pedra tinha sido retirada do sepulcro, a mortalha estava l\u00e1 dentro, o len\u00e7ol que embrulhara o corpo do Senhor  estava enrolado noutro s\u00edtio e portanto exclui-se a hip\u00f3tese de um roubo como pensava Maria Madalena. Os dois disc\u00edpulos, Pedro e Jo\u00e3o alertados pela Maria Madalena correm ao sepulcro, chegam e n\u00e3o encontram o corpo do Senhor. Pedro n\u00e3o sabe o que pensar, Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo amado, viu e acreditou na ressurrei\u00e7\u00e3o. Este ver e crer constitui o centro e o cume do Evangelho da Ressurrei\u00e7\u00e3o. O disc\u00edpulo Jo\u00e3o, com o seu amor intuitivo, \u00e9 o primeiro a compreender os sinais da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Pedro que, na manh\u00e3 de P\u00e1scoa j\u00e1 aparece como o Chefe, descobre a verdade mais lentamente, e em contacto com o Jesus das apari\u00e7\u00f5es, a sua f\u00e9 vai tornar-se forte de maneira a entregar toda a sua vida e a sua morte por Jesus. A  f\u00e9 permite interpretar aquela situa\u00e7\u00e3o do t\u00famulo vazio e recordar que o Senhor j\u00e1 tinha antes anunciado, que devia ressuscitar dos mortos. Aquela primeira P\u00e1scoa foi a origem de todas as outras P\u00e1scoas. \u00abMorrendo destrui a nossa morte e ressuscitando restaurou a vida\u00bb. A liturgia da P\u00e1scoa imprimiu em nossos cora\u00e7\u00f5es aquilo que j\u00e1 sabemos, a eucaristia \u00e9 penhor de vida eterna, da nossa ressurrei\u00e7\u00e3o futura.  O terror \u00e0 nossa porta 3 &#8211; Este ano, a alegria pascal \u00e9 ensombrada pela viol\u00eancia na Terra Santa, o recrudescer da guerra no Iraque e o medo que atravessa o continente europeu depois dos tr\u00e1gicos acontecimentos do 11 de Mar\u00e7o em Madrid. O terrorismo, que parecia estar longe, semeou o p\u00e2nico em Nova Iorque e agora na vizinha Espanha, mostrou como todos somos vulner\u00e1veis e como \u00e9 preciso unir todas as for\u00e7as para construir a paz e feliz conviv\u00eancia entre os homens e os povos. As bombas de Madrid escavaram na consci\u00eancia colectiva um profundo sentido de falta de seguran\u00e7a e de medo. Surgiu ent\u00e3o a desconfian\u00e7a rec\u00edproca. Quem sabe se o estrangeiro que vive ou trabalha junto de mim e da minha casa n\u00e3o \u00e9 um terrorista?  Disse o Papa, ap\u00f3s os acontecimentos de Madrid, que \u00abtodos os homens devem sentir-se empenhados a trabalhar para a edifica\u00e7\u00e3o de um mundo mais fraterno e solid\u00e1rio, n\u00e3o obstante a dificuldades e os obst\u00e1culos que se possam encontrar\u00bb. Para construir a Paz necessitamos de um cora\u00e7\u00e3o que se abre ao amor, ao perd\u00e3o e ao respeito dos outros. Os dramas dolorosos que atravessam a hist\u00f3ria do nosso mundo e, principalmente, os do M\u00e9dio Oriente, mostram que todos devem rever e melhorar comportamentos e mentalidades, ou seja converter-se, mudar de atitudes. Os bispos da regi\u00e3o da It\u00e1lia, da Toscana, reflectindo sobre os acontecimentos de Madrid escreveram que: \u00abn\u00e3o se podem recordar os seguros valores e direitos do Ocidente sem verificar ao mesmo tempo as suas culpas hist\u00f3ricas, as injusti\u00e7as feitas ou toleradas, as mentiras ideol\u00f3gicas difundidas no mundo, o ego\u00edsmo praticado no plano da sua pol\u00edtica e da sua economia interna e internacional, as suas divis\u00f5es culp\u00e1veis\u00bb. A guerra como afirmou o Papa Jo\u00e3o Paulo II \u00abn\u00e3o resolve mas complica os problemas\u00bb. A onda de terror que se abateu sobre a Espanha, pa\u00eds irm\u00e3o e nosso vizinho, pode suscitar uma reac\u00e7\u00e3o irracional contra o \u00abestrangeiro\u00bb que pode chegar \u00e0 agressividade e \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, principalmente contra a comunidade mu\u00e7ulmana. A indigna\u00e7\u00e3o popular, leg\u00edtima perante tantas mortes e lutos, n\u00e3o autoriza uma reac\u00e7\u00e3o cega e feroz contra todos os cidad\u00e3os inermes e inocentes.  O terrorismo pode colher adeptos em todas as comunidades, mesmo entre os crist\u00e3os. Temos de trabalhar por uma conviv\u00eancia serena e pac\u00edfica, condenando todos os sentimentos de anti-semitismo, xenofobia e falta de respeito por qualquer tradi\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 sinais de outra cultura religiosa. Os acontecimentos dram\u00e1ticos dos \u00faltimos tempos devem ser lidos \u00e0 luz da f\u00e9 e da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. S\u00f3 o amor e o perd\u00e3o vencem sempre. Cada pessoa tem direito a viver na normalidade. \u00c9 preciso educar para a paz e instituir pol\u00edticas de paz. A paz n\u00e3o \u00e9 um estado natural para o ser humano, mas o resultado de um empenhamento, de uma fadiga, de um sofrimento, ela avan\u00e7a com pequenos passos e conquistas fatigantes. A verdadeira paz \u00e9 um dom de Deus, \u00e9 um fruto saboroso da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.  A toda a comunidade crist\u00e3 da Diocese do Funchal, tanto a residente na Madeira e Porto Santo como em terras de al\u00e9m mar, aos estrangeiros amigos que vieram na P\u00e1scoa respirar o nosso ar e aquecer-se ao nosso sol, a todos os homens e mulheres de Boa Vontade, desejo uma Santa P\u00e1scoa e um feliz tempo pascal.  Funchal, 11 de Abril de 2004 Domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor  +Teodoro de Faria, Bispo do Funchal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSa\u00ed do Pai, agora retorno ao Pai\u201d Irm\u00e3os e Irm\u00e3s em Jesus Cristo 1 &#8211; P\u00e1scoa \u00e9 a festa fundamental da liturgia e do culto crist\u00e3o. Todos os domingos e todos os sacramentos tem a sua origem na P\u00e1scoa. A prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica tem o seu n\u00facleo na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. 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