{"id":5446,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-de-d-armindo-lopes-coelho-na-celebracao-do-domingo-de-pascoa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-de-d-armindo-lopes-coelho-na-celebracao-do-domingo-de-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-armindo-lopes-coelho-na-celebracao-do-domingo-de-pascoa\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Armindo Lopes Coelho na celebra\u00e7\u00e3o do Domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p>Celebramos a Solenidade da P\u00e1scoa, precedida do Tr\u00edduo Pascal com Vig\u00edlia e continuada durante a Oitava. Esta linguagem da Liturgia da Igreja ajuda-nos a compreender a Solenidade do acontecimento e da celebra\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m o sentido e conte\u00fado da nossa f\u00e9 crist\u00e3. Bastaria reflectir no sentido da palavra e do conceito de ressurrei\u00e7\u00e3o para nos determos sobre a interroga\u00e7\u00e3o que queiramos imaginar, sem tentativas de distor\u00e7\u00e3o, de correc\u00e7\u00e3o, de reinterpreta\u00e7\u00e3o ou de refer\u00eancias comparativas. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 mesmo o mist\u00e9rio fundamental e radical da nossa f\u00e9 crist\u00e3: \u201cCristo morreu pelos nossos pecados&#8230; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras&#8230;, Se n\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, tamb\u00e9m Cristo n\u00e3o ressuscitou. E, se Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a nossa prega\u00e7\u00e3o, e v\u00e3 a nossa f\u00e9\u201d(I Cor. 15, 3-11). Estas palavras do Ap\u00f3stolo S. Paulo s\u00e3o palavras de quem, antes de se converter a Cristo, perseguiu os Ap\u00f3stolos, perseguiu a Igreja que emergira da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e do Pentecostes. S\u00e3o palavras que nos deixam serenos na nossa incapacidade de compreens\u00e3o natural. S\u00e3o palavras que se inserem bem no contexto de outras p\u00e1ginas da Escritura sobre as quais nos debru\u00e7amos mesmo quando celebramos a f\u00e9, que n\u00e3o \u00e9 compreens\u00e3o ou dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica mas o sim, o amen firme que damos como resposta ao Deus que nos fala e n\u00e3o se engana nem nos engana. O Evangelista S. Jo\u00e3o, que se reconhece como \u201co disc\u00edpulo predilecto\u201d de Cristo sem se identificar como o Ap\u00f3stolo, conta que no primeiro dia da semana, isto \u00e9, no dia depois de s\u00e1bado, Maria Madalena foi de manh\u00e3 cedo ao sepulcro onde Jesus fora depositado ap\u00f3s a morte, viu a pedra do sepulcro removida, o t\u00famulo vazio, concluiu e avisou Pedro e o outro \u201cpredilecto\u201d de Jesus: \u201cLevaram o Senhor do sepulcro e n\u00e3o sabemos onde o puseram\u201d (Jo. 20, 2). Sim\u00e3o Pedro e Jo\u00e3o \u201cainda n\u00e3o tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos\u201d (Jo. 20, 9). O resto do relato joanino \u00e9 t\u00e3o simples como enigm\u00e1tico ou especulativo: Sim\u00e3o Pedro e Jo\u00e3o foram tamb\u00e9m ao sepulcro . Jo\u00e3o viu as ligaduras que tinham envolvido o Corpo de Jesus, mas n\u00e3o entrou logo no sepulcro. Sim\u00e3o Pedro entrou no sepulcro, viu as ligaduras e o sud\u00e1rio. Viu&#8230; Jo\u00e3o entrou tamb\u00e9m: viu e acreditou. Estamos perante uma narra\u00e7\u00e3o veros\u00edmil, hist\u00f3rica, natural sobre o caminho para o t\u00famulo, que estava vazio, e at\u00e9 sobre conjecturas explic\u00e1veis: roubaram o Mestre. Mas aparece um elemento novo, que nos transcende: Jo\u00e3o viu e acreditou. Se at\u00e9 aqui \u201cainda n\u00e3o tinham entendido a Escritura\u201d, agora aparece algu\u00e9m, Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo predilecto, que acredita. Mas ficamos ainda todos n\u00f3s sem justifica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica ao nosso pr\u00f3prio n\u00edvel. Por que acreditou? Entretanto, os Actos dos Ap\u00f3stolos apresentam-nos Pedro a falar \u00e0s multid\u00f5es no dia de Pentecostes, e a fazer o primeiro an\u00fancio (Kerigma) do Ressuscitado: \u201cEsse Jesus que v\u00f3s matastes, cravando-o na cruz, \u00e9 o Jesus que Deus ressuscitou. E disto n\u00f3s somos testemunhas\u201d (Act. 2, 23 e 32). E mais tarde, em casa de um militar romano e convertido, e de novo em nome dos outros Ap\u00f3stolos, Pedro faz o discurso da historia, da identidade e da f\u00e9 (Act. 10, 34-43): Refere que Cristo foi baptizado por Jo\u00e3o, apresentado como Messias, conhecido por ter passado a vida a fazer o bem. Recorda que os inimigos de Jesus O crucificaram e que Ele foi ressuscitado por Deus ao terceiro dia, e que Deus permitiu que Ele se manifestasse e aparecesse a pessoas determinadas e nomeadamente a eles, disc\u00edpulos, que comeram e beberam com o Mestre depois de ter ressuscitado. E \u00e9 este o testemunho que t\u00eam para dar. E acrescenta que do Senhor ressuscitado receberam o mandato de falar ao povo. E finalmente afirma, em aviso que \u00e9 convic\u00e7\u00e3o de f\u00e9: \u201cQuem acreditar n\u2019Ele recebe pelo seu nome a remiss\u00e3o dos pecados\u201d(Act.10, 43).  Meus caros fi\u00e9is: Quando celebramos na liturgia da Igreja o mist\u00e9rio da Paix\u00e3o, Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, evocamos e celebramos acontecimentos e factos hist\u00f3ricos que pertencem \u00e0 Hist\u00f3ria e que, como \u00e9 o caso da Ressurrei\u00e7\u00e3o, ultrapassam o n\u00edvel e o \u00e2mbito da Hist\u00f3ria, e s\u00e3o do n\u00edvel da F\u00e9. O que herdamos dos Ap\u00f3stolos e da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 a F\u00e9 que professamos, cultivamos e alimentamos, e da qual damos testemunho. Mas esta F\u00e9, se \u00e9 heran\u00e7a e continuidade  que recebemos e transmitimos, \u00e9 dom de Deus para as primeiras testemunhas, \u00e9 dom de Deus para toda a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, \u00e9 dom de Deus para todos e cada um de n\u00f3s. N\u00e3o estamos a celebrar a P\u00e1scoa do Senhor por for\u00e7a de uma tradi\u00e7\u00e3o que se manteve, mas por for\u00e7a do dom da F\u00e9 que nos alimenta e orienta hoje, F\u00e9 que \u00e9 a mesma que atravessou em fidelidade toda a Hist\u00f3ria do Cristianismo e da Igreja. Celebrando a P\u00e1scoa ou mist\u00e9rio da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, afirmamos a nossa condi\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os e desta condi\u00e7\u00e3o damos testemunho p\u00fablico. Mas o testemunho n\u00e3o \u00e9 apenas conhecimento e transmiss\u00e3o de conhecimento. Testemunho \u00e9 afirma\u00e7\u00e3o da Verdade que conhecemos e nos compromete de tal modo que a rejei\u00e7\u00e3o do nosso testemunho p\u00f5e em causa a nossa f\u00e9 com a Verdade que anunciamos  e p\u00f5e em causa o conte\u00fado e a veracidade e o direito e o dever de dar dimens\u00e3o e express\u00e3o p\u00fablica \u00e0quilo que dizemos, \u00e0quilo que afirmamos em ades\u00e3o de F\u00e9 a Deus e \u00e0 Sua Mensagem.  J\u00e1 sabemos de cor o que se diz e se escreve e se procura demonstrar como esmorecimento de f\u00e9, como falta de f\u00e9, como diminui\u00e7\u00e3o de pr\u00e1tica religiosa, como debilidades da Igreja, como o nosso futuro comprometido, como amanh\u00e3 sem futuro, como racionalismo triunfante, como progresso cient\u00edfico a substituir a f\u00e9. Hoje ningu\u00e9m diz que \u201croubaram o Senhor\u201d, porque ontem proclamaram a \u201cmorte de Deus\u201d e j\u00e1 se calaram pela frustra\u00e7\u00e3o. Mas hoje, sem se questionar expressamente a Ressurrei\u00e7\u00e3o (que interesse tem para o Agnosticismo de moda?), h\u00e1 os movimentos culturais (mesmo iletrados) e muitas institui\u00e7\u00f5es refugiadas e apostadas naquilo que chamam cultura&#8230; Pouco lhes interessando o dia de P\u00e1scoa ou o feriado preparat\u00f3rio que importa questionar (pelo significado religioso e n\u00e3o pela ponte que prolonga), substituem a f\u00e9 que n\u00e3o t\u00eam por aproveitamentos ou vest\u00edgios inscritos na mem\u00f3ria, nas tradi\u00e7\u00f5es populares ou folcl\u00f3ricas, de adultos e de crian\u00e7as, de liturgias estropiadas ou subvertidas, de pr\u00e1ticas gastron\u00f3micas ou de turismo explorado ( \u00e0s vezes chamam-lhe religioso). Certamente que entre n\u00f3s e eles h\u00e1 de comum a partilha de uma mesma interroga\u00e7\u00e3o e perplexidade. Que temos de compreender e tolerar, at\u00e9 porque \u00e9 facilmente explic\u00e1vel. Mas compreens\u00e3o e toler\u00e2ncia n\u00e3o pode ser ced\u00eancia ou abdica\u00e7\u00e3o, covardia ou fuga da nossa parte.  O Ap\u00f3stolo S. Paulo aos crist\u00e3os de Colossos pregava: \u201cSe ressuscitastes com Cristo, aspirai \u00e0s coisas do alto&#8230; Afei\u00e7oai-vos \u00e0s coisas do alto e n\u00e3o \u00e0s da terra. Porque v\u00f3s morrestes e a vossa vida est\u00e1 escondida com Cristo em Deus\u201d (Col.3, 1-4). Acreditamos que pela morte de Cristo morremos para o pecado. Ele \u00e9 a fonte da nossa aut\u00eantica liberdade.  Acreditamos que Cristo ressuscitou e n\u00f3s somos candidatos \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o com Ele e por Ele. Vivemos pela f\u00e9 na dignidade da vida a que Cristo nos elevou. Manifestemos afei\u00e7\u00e3o, felicidade, por esta condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. E demos testemunho p\u00fablico e feliz desta f\u00e9 e condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Porque o Senhor ressuscitou! Aleluia!  Porto, 11 de Abril de 2004  D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebramos a Solenidade da P\u00e1scoa, precedida do Tr\u00edduo Pascal com Vig\u00edlia e continuada durante a Oitava. Esta linguagem da Liturgia da Igreja ajuda-nos a compreender a Solenidade do acontecimento e da celebra\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m o sentido e conte\u00fado da nossa f\u00e9 crist\u00e3. 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