{"id":5444,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-vigilia-pascal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-vigilia-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-vigilia-pascal\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<p>\u00abA Luz da P\u00e1scoa revela o mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o\u00bb              1. Esta Vig\u00edlia \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o adorante do mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o. Na Sua ressurrei\u00e7\u00e3o Cristo resplandece como plenitude da cria\u00e7\u00e3o. \u201cImagem do Deus invis\u00edvel, Ele \u00e9 o primog\u00e9nito de toda a criatura\u201d (Col. 1,15). Se Ele \u00e9 a plenitude da cria\u00e7\u00e3o, esta anuncia-O, desde o in\u00edcio. A plenitude da P\u00e1scoa resplandece, j\u00e1, na harmonia do G\u00e9nesis. Entre a cria\u00e7\u00e3o e a reden\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 ruptura mas aperfei\u00e7oamento progressivo. E porque Aquele que \u00e9 a plenitude da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o seu primog\u00e9nito, \u00e9 na Sua vida que toda a vida encontra sentido e recebe a energia que a faz crescer. Esta Vig\u00edlia \u00e9 um hino \u00e0 unidade da cria\u00e7\u00e3o e ao longo caminho a percorrer, na busca da harmonia definitiva.              Na narra\u00e7\u00e3o genes\u00edaca da cria\u00e7\u00e3o est\u00e3o presentes todos os elementos constitutivos da vida e da pedagogia sacramental com que, em Cristo, Deus completa a cria\u00e7\u00e3o, inaugurando a plenitude da nova cria\u00e7\u00e3o. O centro da narra\u00e7\u00e3o \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da vida e esta encontra a sua express\u00e3o criada mais perfeita na vida humana. O que Deus cria antes da vida, s\u00e3o os elementos necess\u00e1rios para que ela exista: a luz, o firmamento, a \u00e1gua. A cria\u00e7\u00e3o aparece como a resposta de Deus \u00e0s trevas e ao vazio em que estava mergulhada a terra. Por isso come\u00e7ou por criar a luz, vencendo ou, pelo menos, isolando as trevas. Sabemos que a vida n\u00e3o pode subsistir nas trevas. Mas a luz, al\u00e9m de elemento f\u00edsico primordial para a exist\u00eancia da vida, \u00e9 o primeiro esplendor da Gl\u00f3ria de Deus e inunda de beleza, com a infinita variedade dos seus efeitos, o Universo. Era importante que o homem, criado para a beleza, surgisse na vida, num Universo que o inundava de beleza. A luz tornou poss\u00edvel que o homem contemplasse a beleza do Criador desde o primeiro momento da sua exist\u00eancia. E a luz que o envolve suscita nele a luz interior, da intelig\u00eancia, do cora\u00e7\u00e3o, do desejo de verdade e de harmonia. Tamb\u00e9m no seu cora\u00e7\u00e3o o homem n\u00e3o pode viver sem luz.              Essa luz interior foi a primeira que o homem deixou murchar, na experi\u00eancia do pecado. E sem ela, ele tornou-se progressivamente insens\u00edvel \u00e0 luz que inunda o Universo de beleza. Com o pecado do homem, as trevas voltaram a ensombrar a terra. Por isso, nesta Noite Santa, o an\u00fancio da vida nova \u00e9 o an\u00fancio da luz que volta a vencer as trevas, a luz de Cristo ressuscitado. \u201cRejubile a terra, inundada por t\u00e3o grande claridade, porque a luz de Cristo, o Rei Eterno, dissipa as trevas de todo o mundo\u201d. Desta Noite Santa estava escrito: \u201cA noite brilha como o dia e a escurid\u00e3o \u00e9 clara como a luz\u201d. E o preg\u00e3o pascal continua, pedindo a Deus que fa\u00e7a com que o c\u00edrio, s\u00edmbolo da luz de Cristo, \u201carda incessantemente para dissipar as trevas da noite; e subindo para V\u00f3s, como suave perfume, junte a sua claridade \u00e0 das estrelas do C\u00e9u. Que ele brilhe ainda quando se levantar o Astro da manh\u00e3, aquele Astro que n\u00e3o tem ocaso, Jesus Cristo, Vosso Filho, que, ressuscitando dos mortos, iluminou o g\u00e9nero humano com a Sua luz\u201d. A luz de Cristo volta a fazer brilhar a beleza do Universo e a beleza do cora\u00e7\u00e3o do homem, que pode voltar a contemplar Deus no esplendor da Sua claridade.                  2. Voltando \u00e0 narra\u00e7\u00e3o do G\u00e9nesis, da cria\u00e7\u00e3o primeira, depois da luz Deus criou a \u00e1gua, outra condi\u00e7\u00e3o essencial para que surja e se desenvolva a vida. A \u00e1gua que fecunda, vence a aridez, faz germinar as sementes e enche a terra de flores e de frutos. Sem \u00e1gua, a terra n\u00e3o \u00e9 fecunda; e a vida que n\u00e3o frutifica, morre. Jesus disse que a vontade do Pai era que os disc\u00edpulos dessem muito fruto, sinal da vida abundante e mandou cortar a figueira est\u00e9ril.              A fecundidade trazida pela \u00e1gua \u00e9 um s\u00edmbolo importante para significar a fecundidade da salva\u00e7\u00e3o, da vida regenerada pelo poder recriador de Deus. Quantas vezes o Povo de Israel viu a salva\u00e7\u00e3o, realizada pela m\u00e3o poderosa de Deus, ligada ao s\u00edmbolo da \u00e1gua: a pujan\u00e7a do para\u00edso era garantida pelos rios que o irrigavam; no dil\u00favio, a \u00e1gua sufocou o pecado e fez surgir a virtude; ao fugir dos ex\u00e9rcitos do Fara\u00f3, o Povo de Israel encontra na \u00e1gua protectora a porta da salva\u00e7\u00e3o; na vis\u00e3o de Ezequiel, as \u00e1guas que jorram do Santu\u00e1rio v\u00e3o restituir a vida \u00e0s \u00e1guas salobras; os profetas baptizaram, anunciado a convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e em Can\u00e1 Jesus transforma a \u00e1gua que anuncia o vinho novo da P\u00e1scoa, aquele que ser\u00e1 a fonte definitiva de \u00e1gua viva. No Calv\u00e1rio, S\u00e3o Jo\u00e3o v\u00ea brotar do lado de Cristo trespassado pela lan\u00e7a sangue e \u00e1gua, e os Padres da Igreja ver\u00e3o nessa \u00e1gua que brota do cora\u00e7\u00e3o de Cristo o an\u00fancio do baptismo.              Tal como na primeira cria\u00e7\u00e3o, a luz e a \u00e1gua, o esplendor da luz de Cristo \u00e9 \u00e1gua que brota do Seu cora\u00e7\u00e3o, nascente de \u00e1gua viva, s\u00e3o o princ\u00edpio da nova cria\u00e7\u00e3o. Por isso, nesta Noite Santa, a ora\u00e7\u00e3o da Igreja s\u00f3 pode ser esta: \u201cOlhai, agora, Senhor, para a vossa Igreja e dignai-Vos abrir para ela a fonte do Baptismo. Receba, esta \u00e1gua, pelo Esp\u00edrito Santo, a gra\u00e7a do Vosso Filho Unig\u00e9nito, para que o homem, criado \u00e0 Vossa Imagem, no sacramento do Baptismo, seja purificado das velhas impurezas e ressuscite homem novo, pela \u00e1gua e pelo Esp\u00edrito Santo\u201d.                 3. Na narra\u00e7\u00e3o do G\u00e9nesis, a luz e a \u00e1gua, produzem grande abund\u00e2ncia e variedade de seres vivos, manifesta\u00e7\u00e3o da pujan\u00e7a da vida, sinal do esplendor da vida divina. A cria\u00e7\u00e3o narra o mist\u00e9rio da vida, e o homem, plenitude da cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o da vida que melhor exprime a vida divina: ele \u00e9 imagem de Deus. No homem pode contemplar-se toda a beleza da vida, pois todos os seres vivos encontram nele o seu sentido; mas a fonte do sentido da vida do homem est\u00e1 em Deus, fonte da vida. Quando no homem triunfa a vida, todas as outras manifesta\u00e7\u00f5es da vida, fruto da fecundidade da \u00e1gua e iluminadas pela luz, resplandece a beleza da cria\u00e7\u00e3o. Algumas civiliza\u00e7\u00f5es antigas encontraram na beleza e harmonia do Universo o sinal sens\u00edvel da beleza de Deus. Eles estavam mais perto da verdade do que aqueles, tantos dos nossos contempor\u00e2neos, que n\u00e3o s\u00e3o capazes de reconhecer Deus em nada.              Mas se a vida fracassa no cora\u00e7\u00e3o do homem, fica toldada, para ele, toda a beleza da vida, pois s\u00f3 um cora\u00e7\u00e3o novo e um olhar purificado podem contemplar a beleza da vida. \u00c9 por isso que no \u00e2mago do drama da reden\u00e7\u00e3o, qual parto de uma nova cria\u00e7\u00e3o, est\u00e1 o mist\u00e9rio da vida. Cristo \u00e9 o Verbo da vida, veio para que tenhamos a vida em abund\u00e2ncia. Porque \u00e9 a fonte da vida, Ele \u00e9 o primog\u00e9nito da nova cria\u00e7\u00e3o. Enquanto luz, vence as trevas, vencedor da morte, garantindo o triunfo da vida. Do mesmo modo que proclamamos \u201cna vossa luz veremos a luz\u201d, na Sua ressurrei\u00e7\u00e3o de entre os mortos teremos a Vida. A P\u00e1scoa \u00e9 o triunfo da Vida e \u00e9 por isso que Cristo ressuscitado \u00e9 o novo Astro que, com a Sua luz, recria todas as coisas.              A \u201cnova cria\u00e7\u00e3o\u201d, sendo segunda na ordem do tempo e da hist\u00f3ria, \u00e9 verdadeiramente a primeira, pois s\u00f3 a partir dela se descobre a beleza da cria\u00e7\u00e3o. A luz de Cristo revela os contornos definitivos do mist\u00e9rio. A partir da luz de Cristo podemos contemplar, de uma maneira nova, toda a beleza da cria\u00e7\u00e3o, do Universo, dos seres vivos, do homem, que esconde na capacidade de amar, a surpreendente beleza para que Deus o criou. Na luz de Cristo, podemos contemplar a beleza de Deus em tudo o que vive. E nesse novo olhar do homem sobre a cria\u00e7\u00e3o, ele desvenda j\u00e1 o horizonte dos \u201cnovos c\u00e9us e da nova terra\u201d.     \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA Luz da P\u00e1scoa revela o mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o\u00bb 1. Esta Vig\u00edlia \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o adorante do mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o. 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