{"id":54304,"date":"2011-12-14T10:34:02","date_gmt":"2011-12-14T10:34:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/12\/14\/mensagem-da-comissao-diocesana-de-justica-e-paz-de-coimbra\/"},"modified":"2011-12-14T10:34:02","modified_gmt":"2011-12-14T10:34:02","slug":"mensagem-da-comissao-diocesana-de-justica-e-paz-de-coimbra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-da-comissao-diocesana-de-justica-e-paz-de-coimbra\/","title":{"rendered":"Mensagem da Comiss\u00e3o Diocesana de Justi\u00e7a e Paz de Coimbra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Natal &#8211; Est&iacute;mulo para uma Cidadania plena<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Se o Natal existe tal como o temos, &eacute; porque este modelo de celebra&ccedil;&atilde;o responde a algum tipo de necessidades humanas. Ora, pesem todas as teorias, e s&atilde;o muitas, necessidades basicamente necessidades, sem cuja satisfa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podemos sequer subsistir, s&oacute; h&aacute; duas: de p&atilde;o e de afeto. Ao p&atilde;o associamos o conjunto dos bens materiais que nos permite uma exist&ecirc;ncia digna, uma participa&ccedil;&atilde;o social por direito pr&oacute;prio, uma radical igualdade com os demais; ao afeto associamos o conjunto de bens sociais, psicol&oacute;gicos, culturais e espirituais que nos faz sentir desejados, acolhidos, amados, e nos remete sempre para uma indiz&iacute;vel plenitude de comunh&atilde;o com os outros, com a vida, com a cria&ccedil;&atilde;o, com o transcendente, com Deus.<\/p>\n<p>Ora o Natal, na sua g&eacute;nese e hist&oacute;ria antropol&oacute;gica, religiosa e cultural, reenvia-nos sempre para este mundo do afeto, da comunh&atilde;o, da plenitude de vida, do Absoluto. &Eacute; isso que torna o Natal um &ldquo;tempo especial&rdquo;, &eacute; essa a sua magia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Desde o seu nascimento, Jesus quis viver entre os &uacute;ltimos da sociedade: comeu com os desprezados, tocou os leprosos, participou nas alegrias e sofrimentos dos humildes, denunciou e combateu as injusti&ccedil;as de uma sociedade organizada &agrave; medida dos senhores do mundo. Tal como ent&atilde;o, tamb&eacute;m hoje h&aacute; dois grupos de pessoas bem definidas: de um lado, os pobres, os ignorantes, os desprezados, os &laquo;n&atilde;o justos&raquo; que esperam uma palavra de amor, de afeto, de esperan&ccedil;a e de liberta&ccedil;&atilde;o; do outro, os ricos, os poderosos, os que vivem isolados e distantes dos mais d&eacute;beis, certos de que j&aacute; possuem tudo o que precisam para ser felizes e, portanto, n&atilde;o necessitam de nenhum salvador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Enquanto membros da Comiss&atilde;o Diocesana Justi&ccedil;a e Paz percebemos na Incarna&ccedil;&atilde;o de Deus em Jesus de Nazar&eacute; a mais radical de todas as respostas &agrave; nossa necessidade de p&atilde;o e de afeto: Deus e o homem tornaram-se <em>aliados<\/em> na constru&ccedil;&atilde;o do Reino da justi&ccedil;a e da paz, da fraternidade e da verdade, do bem no tempo presente e da jovialidade por toda a eternidade.<\/p>\n<p>A esta luz, queremos desafiar-nos e desafiar os nossos coet&acirc;neos &agrave; utopia de um Natal vivido na verdade das rela&ccedil;&otilde;es, na sobriedade que se abre &agrave; solidariedade, na gratuidade da presen&ccedil;a amiga, junto de familiares, de amigos e dos &uacute;ltimos da sociedade. Em boa verdade &eacute; essa a m&iacute;stica do pres&eacute;pio, como tantas vezes no-lo ensinaram os poetas, mesmo aqueles que se confessam agn&oacute;sticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Contudo, para responder universalmente e reequilibrar entre si as respostas tanto &agrave;s necessidades de p&atilde;o como &agrave;s necessidades de afeto, n&atilde;o chegam as boas vontades e gestos individuais, nem sequer das v&aacute;rias iniciativas da chamada sociedade civil por mais merit&oacute;rios que sejam. &Eacute; preciso que aqueles que gerem &ldquo;o bem comum&rdquo;, nos governos, na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e nas empresas, nas escolas e na comunica&ccedil;&atilde;o social, nos tribunais ou nas for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, trabalhem ativamente sobre as estruturas concretas que podem facilitar este processo. O Natal obriga-nos, em nome da Incarna&ccedil;&atilde;o do Senhor Jesus e em nome do homem e da mulher concretos, incarnados, hist&oacute;rica e culturalmente situados, a reclamar dos agentes privilegiados da vida coletiva a luta sem tr&eacute;guas pelo bem de todos e de cada um.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. Estamos a viver o Natal num tempo de <em>crise<\/em>, uma crise real, que mergulha na pobreza e no desespero muitos dos nossos irm&atilde;os e transporta consigo uma profunda mudan&ccedil;a de paradigma. Esta circunst&acirc;ncia obriga-nos a deixar tamb&eacute;m um desafio &agrave;s comunidades crist&atilde;s, de que fazemos parte. Muitas vezes, sem nos apercebermos disso, somos levados na grande &ldquo;onda&rdquo; do modo comum de vida que nos rodeia. A pr&oacute;pria f&eacute; crist&atilde;, mesmo quando se exprime no voluntarismo religioso, tantas vezes se deixa envolver pelo individualismo, pelo hedonismo, pelo consumismo. A solidariedade, a caridade e a comunh&atilde;o est&atilde;o longe de ser pr&aacute;ticas assimiladas na Igreja, mesmo quando partilhamos generosamente alguns bens. Mas n&oacute;s acreditamos que no Natal, em Jesus, Deus quis incarnar no meio dos pobres e com eles iniciar a nova humanidade, onde a fraternidade acabasse com a divis&atilde;o discriminat&oacute;ria e injusta e trouxesse a liberta&ccedil;&atilde;o para todos. E sabemos que, como Povo de Deus, nos compete prolongar as a&ccedil;&otilde;es amorosas de Jesus, que tornem presente e eficaz na sociedade a for&ccedil;a libertadora do Reino de Deus. Assim sendo, de que lado estamos? Somos ricos ou pobres, oprimidos ou opressores, distantes ou pr&oacute;ximos, livres ou escravos do consumismo?&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. Para todos, o Natal &eacute; um tempo de forte din&acirc;mica. Os desafios que nos lan&ccedil;a, de modo especial aos crentes, n&atilde;o podem ficar-se pela sua dimens&atilde;o intelectual, nem por gestos pontuais, mas devem atingir as pr&oacute;prias bases em que assenta a nossa sociedade t&atilde;o globalizada: o Natal ou se torna numa viv&ecirc;ncia sempre renovada ao jeito de Jesus de Nazar&eacute; ou n&atilde;o &eacute; Natal.<\/p>\n<p>Esses desafios est&atilde;o apontados no modo como Deus incarnou na nossa hist&oacute;ria, no Menino que nasceu em Bel&eacute;m:<\/p>\n<p>&#8211; <strong>solidariedade m&aacute;xima<\/strong> &#8211; Deus assume a condi&ccedil;&atilde;o daqueles que quer tornar felizes. Deus n&atilde;o nos salva de cima, mas vem construir connosco a nossa pr&oacute;pria hist&oacute;ria de liberta&ccedil;&atilde;o e <em>portanto n&oacute;s devemos viver a solidariedade n&atilde;o com um sentimento de compaix&atilde;o vago e pontual mas como estilo de vida permanente e respons&aacute;vel por todos, procurando construir a Hist&oacute;ria a partir dos mais carenciados e em estreita coopera&ccedil;&atilde;o com eles<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; <strong>constru&ccedil;&atilde;o da paz<\/strong> &#8211; o Seu nascimento foi acompanhado pelo desejo divino da paz, um bem t&atilde;o fr&aacute;gil mas t&atilde;o necess&aacute;rio: &ldquo;Paz na terra aos homens de boa vontade&rdquo; e <em>esse Menino, &ldquo;Pr&iacute;ncipe da Paz&rdquo;, desafia-nos a sermos construtores da paz, na nossa fam&iacute;lia, com os nossos amigos e inimigos, em todos os &acirc;mbitos da nossa sociedade<\/em>;<\/p>\n<p><strong>&#8211; simplicidade<\/strong> &#8211; a gruta onde quis nascer desafia-nos &agrave; simplicidade, a <em>uma simplicidade de vida que passa pela sobriedade e modera&ccedil;&atilde;o na utiliza&ccedil;&atilde;o dos recursos da natureza, mas tamb&eacute;m simplicidade interior que supera medos indefinidos, incompreens&otilde;es m&uacute;tuas, falta de esperan&ccedil;a e de sentido para a vida e que potencia uma sociedade cada vez mais assente na transpar&ecirc;ncia, honestidade, acolhimento do outro, luta pela justi&ccedil;a e respeito pelos direitos fundamentais e pela dignidade inviol&aacute;vel de cada pessoa e de cada povo<\/em>;<\/p>\n<p>&#8211; <strong>prioridade aos deserdados deste mundo<\/strong> &#8211; nasce pobre, numa noite fria e o <em>Seu<\/em> <em>nascer como pobre e abandonado numa noite t&atilde;o fria desafia-nos a dar a prioridade m&aacute;xima aos deserdados deste mundo, aos marginalizados e exclu&iacute;dos, aos explorados por um sistema que absolutiza o dinheiro nas suas mais variadas formas, secundarizando a pessoa, o trabalho como voca&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o pessoal, a criatividade de cada um, a igualdade de oportunidades;<\/em><\/p>\n<p>&#8211;<strong> absoluto de vida<\/strong> &#8211; Deus encarna, nasce feito carne e cultura humana e o <em>Seu nascimento desafia-nos a construir uma cultura da vida, uma vida em abund&acirc;ncia, em todos os seus momentos e circunst&acirc;ncias, para todos, seja para a gera&ccedil;&atilde;o presente seja para as gera&ccedil;&otilde;es futuras, que nada mais podem fazer que herdar o mundo que lhe deixarmos e como lho deixarmos.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. Em resumo, nesta &eacute;poca de solidariedade e amor, somos chamados a testemunhar a responsabilidade, a reparti&ccedil;&atilde;o de bens e dons, a fraternidade e a gratuidade; a desencadear comportamentos individuais e comunit&aacute;rios de honestidade p&uacute;blica e privada no desempenho das fun&ccedil;&otilde;es de cada um; a respeitar a honradez nos compromissos assumidos; a rejeitar qualquer colabora&ccedil;&atilde;o nas v&aacute;rias formas de economia paralela e a combate-la por todos os meios legais e morais; a estimular o exerc&iacute;cio decidido da cidadania, pr&oacute;pria e alheia, no respeito pela solidariedade e a subsidiariedade; a dedicar uma especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s velhas e &agrave;s novas formas de pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8. O Deus-Menino veio para fazer desaparecer todas as situa&ccedil;&otilde;es de opress&atilde;o e viol&ecirc;ncia e abrir uma nova era, uma era de paz, justi&ccedil;a e fraternidade. Reconhecido e acolhido pelos &ldquo;&uacute;ltimos&rdquo;, foi recusado e condenado pelos poderosos. Para todas as gera&ccedil;&otilde;es, para todas as sociedades, tamb&eacute;m para n&oacute;s, o Menino do pres&eacute;pio ser&aacute; sempre &#8220;sinal de contradi&ccedil;&atilde;o&#8221; (Lc 2, 34).<\/p>\n<p>Coimbra, 13 de dezembro de 2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natal &#8211; Est&iacute;mulo para uma Cidadania plena &nbsp; 1. Se o Natal existe tal como o temos, &eacute; porque este modelo de celebra&ccedil;&atilde;o responde a algum tipo de necessidades humanas. 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