{"id":54251,"date":"2011-12-09T23:46:11","date_gmt":"2011-12-09T23:46:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/12\/09\/homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-da-imaculada-conceicao\/"},"modified":"2011-12-09T23:46:11","modified_gmt":"2011-12-09T23:46:11","slug":"homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-da-imaculada-conceicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-da-imaculada-conceicao\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Coimbra na solenidade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Nesta Solenidade da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o da Virgem Santa Maria, a Liturgia proclama o sonho de Deus que, &ldquo;do alto dos C&eacute;us nos aben&ccedil;oou com toda a esp&eacute;cie de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os espirituais em Cristo (&#8230;) para sermos um hino de louvor da sua gl&oacute;ria&rdquo; (Primeira Leitura).<\/p>\n<p>Ao fazer refer&ecirc;ncia ao pecado da desobedi&ecirc;ncia e da infidelidade usando uma linguagem po&eacute;tica, o autor sagrado do livro do G&eacute;nesis d&aacute;-se conta da maravilhosa voca&ccedil;&atilde;o do ser humano que respeita a sua condi&ccedil;&atilde;o original, mas tamb&eacute;m de todas as ruturas que pode criar e da degrada&ccedil;&atilde;o a que pode chegar ao desrespeitar a sua liberdade e responsabilidade. De acordo com a linguagem do G&eacute;nesis, estamos sempre a fazer a experi&ecirc;ncia da vergonha de negarmos a nossa condi&ccedil;&atilde;o humana, de nos sentirmos enganados por n&oacute;s mesmos e de sermos protagonistas da divis&atilde;o e da mentira na rela&ccedil;&atilde;o com os outros e com Deus.<\/p>\n<p>A revela&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica leva-nos a compreender por meio da linguagem teol&oacute;gica, por um lado a nossa boa e bela condi&ccedil;&atilde;o de criaturas humanas e de pessoas, segundo a iniciativa criadora de Deus e, por outro lado, o estado de desordem interior e exterior quando pelo pecado nos desviamos dos caminhos de realiza&ccedil;&atilde;o que nos s&atilde;o propostos.<\/p>\n<p>Este texto da Escritura &eacute; fundamental para a compreens&atilde;o daquilo que &eacute; o Homem segundo a conce&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde;, o cume da cria&ccedil;&atilde;o, sa&iacute;do das m&atilde;os Deus como o sinal maior do Amor que O define e chamado &agrave; exist&ecirc;ncia por meio de uma palavra solene: &ldquo;fa&ccedil;amos o Homem &agrave; nossa imagem, &agrave; nossa semelhan&ccedil;a&rdquo; (Gn 1, 26). Ao contr&aacute;rio do que frequentemente se afirma, a antropologia b&iacute;blica constitui um aut&ecirc;ntico hino &agrave; grandeza do ser humano e n&atilde;o v&ecirc; nele o ser degradado e pecaminoso como no-lo pretendem afirmar as caricaturas produzidas por muitos autores da literatura atual. O que a revela&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde; constata &eacute; que a nossa intelig&ecirc;ncia, vontade, liberdade, capacidade de rela&ccedil;&atilde;o, abertura ao transcendente, voca&ccedil;&atilde;o para a bondade e a beleza, que nos situam no plano da igualdade e semelhan&ccedil;a com Deus, quando pervertidas, se tornam as armas mais mort&iacute;feras levantadas contra n&oacute;s.<\/p>\n<p>Toda a literatura sagrada do Antigo Testamento nos oferece um olhar crente sobre a hist&oacute;ria do povo hebreu, que pretende mostrar-nos o que essencialmente somos segundo o plano criador de Deus e aquilo que nos tornamos quando dele nos afastamos. Sobressai sempre o desafio a percorrermos o caminho da autenticidade, da fidelidade e da verdade, que outra coisa n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o o desafio a realizarmos aquilo que essencialmente somos, enquanto seres humanos e criaturas amadas de Deus. A B&iacute;blia apresenta-nos uma hist&oacute;ria da gra&ccedil;a e do dom amoroso de Deus, por um lado, e uma hist&oacute;ria de muitas nega&ccedil;&otilde;es e fugas da parte do Homem, por outro. Conclui sempre com a abertura de propostas novas e portas abertas ao futuro e &agrave; esperan&ccedil;a, como acontece no texto que hoje escut&aacute;mos &#8211; ao pecado e &agrave; desordem e destrui&ccedil;&atilde;o que provoca, pode sempre suceder-se a aurora de uma nova era: a antiga Eva da narra&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica torna-se a &ldquo;m&atilde;e de todos os viventes&rdquo; e, em Maria, a Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o, torna-se a M&atilde;e de Jesus Cristo, a Porta da Esperan&ccedil;a e da Salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A Liturgia da Palavra enquadra a celebra&ccedil;&atilde;o da Solenidade da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o no arco da Hist&oacute;ria da Salva&ccedil;&atilde;o. Primeiro, apresenta-nos o homem e a mulher originais, o ser humano, no jardim da felicidade e na realiza&ccedil;&atilde;o da sua condi&ccedil;&atilde;o, depois mostra-nos a humanidade a passar pela experi&ecirc;ncia da nega&ccedil;&atilde;o e escravid&atilde;o com as suas consequ&ecirc;ncias, para finalmente nos dizer que &eacute; sempre poss&iacute;vel o Homem reencontrar a possibilidade de uma nova abertura &agrave; esperan&ccedil;a, de se refazer e recriar. Eva, a &ldquo;m&atilde;e de todos os viventes&rdquo; do livro do G&eacute;nesis e Maria, a m&atilde;e de Jesus, do evangelho de S. Lucas, s&atilde;o os sinais de que a nossa condi&ccedil;&atilde;o humana nos abre sempre a novas esperan&ccedil;as e a infinitas possibilidades de reencontro. Tanto a antiga como a nova mulher apontam para Jesus Cristo, a eterna novidade e a eterna esperan&ccedil;a, o Centro do Tempo, da Hist&oacute;ria e do Homem.<\/p>\n<p>Ao apresentar-nos Jesus Cristo como o Filho do Alt&iacute;ssimo e Filho de Maria, a f&eacute; crist&atilde; oferece-nos a realiza&ccedil;&atilde;o plena do Homem livre e, por isso, aberto a Deus e aberto aos outros at&eacute; &agrave; oferta total de Si mesmo. Em Maria, a m&atilde;e de Jesus, a mesma f&eacute; oferece-nos a disponibilidade total para a verdade, a fidelidade e a entrega no servi&ccedil;o: &ldquo;Eis a escrava do Senhor; fa&ccedil;a-se em mim segundo a tua palavra&rdquo;; condi&ccedil;&atilde;o para a realiza&ccedil;&atilde;o da maior expectativa e esperan&ccedil;a do povo crente, a incarna&ccedil;&atilde;o da &uacute;ltima e definitiva Palavra de Amor de Deus, o Seu Filho Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Ser&aacute; que o modelo b&iacute;blico de leitura da realidade tem pertin&ecirc;ncia ainda hoje? Ter&aacute; a f&eacute; crist&atilde; algo de essencial a comunicar em ordem ao renascer da esperan&ccedil;a no nosso tempo?<\/p>\n<p>Numa leitura porventura simplista das dificuldades que agora se vivem, os problemas do planeta resumem-se &agrave;s quest&otilde;es da distribui&ccedil;&atilde;o da riqueza, das condi&ccedil;&otilde;es de vida de acordo com determinados padr&otilde;es econ&oacute;mico-sociais, do trabalho como meio de sustenta&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o, de geografia humana desequilibrada, da ecologia e preserva&ccedil;&atilde;o da natureza amea&ccedil;adas, do modo como as pessoas se sentem: bem ou mal, felizes ou infelizes. Quest&otilde;es importantes, mas que podem n&atilde;o ir &agrave;s causas reais dos problemas que se vivem e muito menos &agrave; central quest&atilde;o do que &eacute; o Homem, qual a sua orienta&ccedil;&atilde;o, quais as suas escolhas e op&ccedil;&otilde;es, quais os horizontes que orientam a sua vida.<\/p>\n<p>Os problemas do nosso tempo n&atilde;o se resolvem somente com o recurso &agrave;s melhores opera&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas, mesmo que assentes nos mais avan&ccedil;ados dados cient&iacute;ficos. Eles s&atilde;o acima de tudo problemas humanos e reclamam solu&ccedil;&otilde;es humanas. &Eacute; preciso ir &agrave;s causas reais e mais profundas, que se situam dentro de n&oacute;s, e que t&ecirc;m a ver com o tipo de rela&ccedil;&otilde;es que vivemos, com o ambiente familiar em que crescemos, com a educa&ccedil;&atilde;o que recebemos, com os valores que professamos.<\/p>\n<p>A partir da f&eacute; crist&atilde;, olhar para Maria como criatura humana, santa, imaculada, serva do Senhor, m&atilde;e e serva dos homens, cheia de amor por todos os seus filhos, mulher mais bela e mais feliz, leva-nos a compreender os fundamentos da nossa esperan&ccedil;a, que n&atilde;o assenta em banalidades, mas no que de maior e melhor Deus p&ocirc;s nos nossos cora&ccedil;&otilde;es. Ao olhar para o fruto do ventre pur&iacute;ssimo de Maria, Jesus Cristo, compreendemos o que &eacute; a liberdade frente a tudo, o amor livre de interesses ego&iacute;stas, a justi&ccedil;a e a solidariedade baseadas na fraternidade e assentes no valor da pessoa por si mesma.<\/p>\n<p>Que esta celebra&ccedil;&atilde;o bem como o Natal que se avizinha, nos ajudem a ir ao essencial, mesmo que seja &agrave; custa da ren&uacute;ncia a muitas futilidades com que a sociedade vazia de sentido e de esperan&ccedil;a teima em sufocar-nos. A sociedade espera, tanto da Igreja como da Universidade, sinais de uma cultura e de uma f&eacute; que v&atilde;o em maior profundidade, que apontem metas mais ousadas e mais consent&acirc;neas com a nossa condi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Que a Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o, nossa padroeira, nos conduza a Jesus Cristo e a saborear a alegria da Sua presen&ccedil;a nas nossas institui&ccedil;&otilde;es e nas nossas fam&iacute;lias neste natal.<\/p>\n<p>Coimbra, 8 de dezembro de 2011<\/p>\n<p><em>D. Virg&iacute;lio do Nascimento Antunes, bispo de Coimbra<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta Solenidade da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o da Virgem Santa Maria, a Liturgia proclama o sonho de Deus que, &ldquo;do alto dos C&eacute;us nos aben&ccedil;oou com toda a esp&eacute;cie de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os espirituais em Cristo (&#8230;) para sermos um hino de louvor da sua gl&oacute;ria&rdquo; (Primeira Leitura). 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