{"id":5423,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/nao-converter-o-mundo-num-lugar-de-horror\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"nao-converter-o-mundo-num-lugar-de-horror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-converter-o-mundo-num-lugar-de-horror\/","title":{"rendered":"N\u00e3o converter o mundo num lugar de horror"},"content":{"rendered":"<p>Hom\u00edlia na Missa Crismal  da Diocese das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a. <!--more--> 1. Antecipamos para este dia a Celebra\u00e7\u00e3o de Quinta-Feira Santa por um motivo maior de comunh\u00e3o: os padres capel\u00e3es militares, desta forma, poder\u00e3o amanh\u00e3 tomar parte nas suas dioceses de origem, do norte ao sul de Portugal, neste grande Mist\u00e9rio. De acordo com o Missal Romano, a Eucaristia desta festividade \u2013 chamada tamb\u00e9m Missa Crismal \u2013 \u00e9 celebrada pelo bispo na Igreja Catedral, em cujo \u00e2mbito lit\u00fargico se consagra o Santo Crisma para as un\u00e7\u00f5es do Baptismo e da Confirma\u00e7\u00e3o e se benzem os \u00f3leos dos catec\u00famenos e dos enfermos.  \u00c9 este um rito pr\u00f3prio do bispo, como sucessor dos Ap\u00f3stolos e primeiro servidor da Igreja local, em volta de quem se re\u00fanem os sacerdotes dos diversos lugares da Diocese, numa prova de unidade eclesial. Aos sacerdotes, de forma muito marcante, aos di\u00e1conos e leigos representativos da \u00e1rea de Lisboa, dos Conselhos Pastorais das unidades das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a e \u00e0 comunidade desta Igreja da Mem\u00f3ria, as minhas sauda\u00e7\u00f5es fraternas e a minha expressiva gratid\u00e3o por terem querido vir at\u00e9 n\u00f3s. Se os padres capel\u00e3es v\u00e3o reafirmar, dentro de instantes, o seu desejo de fidelidade \u00e0 Igreja de Jesus Cristo, atrav\u00e9s do seu bispo, somos todos n\u00f3s baptizados, com eles presb\u00edteros, a assegurarmos ao mundo que \u00e9 o Esp\u00edrito de Deus que nos dirige e desvenda caminhos. A cada um \u00e9 endere\u00e7ada a beleza desta Palavra escutada: \u201cO Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre mim, porque ele me ungiu. Enviou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres, a proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos e a vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos.\u201d (Lc. 4, 16-21).  2. Ungir algu\u00e9m no sentido b\u00edblico \u00e9 coloc\u00e1-lo ao servi\u00e7o de uma miss\u00e3o transcendente, constituindo-o deposit\u00e1rio de um encargo, respons\u00e1vel por um valor, distribuidor de um bem para a Humanidade. Quem n\u00e3o cumpriu a miss\u00e3o, defrauda quem era e \u00e9 o destinat\u00e1rio. N\u00e3o cumprir uma miss\u00e3o equivale a desertar. Cristo, ungido do Pai, o enviado do Senhor, \u00e9 o pr\u00edncipe dos pobres, o convivente dos angustiados, o acompanhante dos sem t\u00edtulo, o pr\u00f3ximo dos afastados, o sil\u00eancio diante do mundanismo, a voz da cidadania do mundo, o irm\u00e3o universal, desagregador das lutas de fam\u00edlia e reconciliador na paz, em torno da \u00fanica Mesa, donde nasce o P\u00e3o que gera a vida sem fim.  3. Fomos, n\u00f3s sacerdotes, escolhidos para este estilo de exist\u00eancia. Fomos e somos chamados para esta cultura nova de realidades, de quem depende o equil\u00edbrio pessoal e comunit\u00e1rio. Fomos designados para anunciar, com humanidade e o \u00e0 vontade da maior convic\u00e7\u00e3o, que os crit\u00e9rios s\u00e3o outros, que as tabelas s\u00e3o diferentes, que os objectivos se encontram noutros lugares, que os fins n\u00e3o justificam quaisquer meios e que, independentemente de concep\u00e7\u00f5es religiosas, \u00e9 necess\u00e1rio ter o bom gosto de seguir a raz\u00e3o e a voz da sensibilidade, para n\u00e3o converter o mundo num lugar de horror. A irracionalidade e a insensibilidade s\u00e3o express\u00f5es de uma pseudo-cultura, ao perder esta o gosto pelo pensar e ao por de parte as raz\u00f5es escondidas do que significa \u201cter cora\u00e7\u00e3o\u201d. Pensar faz mal ironizava, no seu tempo, Fernando Pessoa&#8230; \u201cTer cora\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 manter uma solidariedade de tal forma ontol\u00f3gica com os acontecimentos e as pessoas, escapando, habitualmente, a quem se habituou a fitar a vida com objectivos de mero lucro&#8230; As utopias parecem j\u00e1 n\u00e3o ter lugar. A nossa miss\u00e3o tem o rosto da exig\u00eancia da interioridade, da for\u00e7a da reflex\u00e3o, da capacidade de servir os outros e a natureza. Virados para o exterior, sentimos que os apelos da Hist\u00f3ria nos convocam para uma forma\u00e7\u00e3o de cada instante em ordem a aprofundar conhecimentos, a ampliar horizontes, a inventar novas modalidades de reencontro, a cultivar uma generosa mod\u00e9stia intelectual, a descobrir o mist\u00e9rio de Deus no invis\u00edvel da Eucaristia e no escuro de terr\u00edveis situa\u00e7\u00f5es humanas.  Choca-nos, neste tempo, a mediocridade de maneiras de viver, o rosto enfastiado de funcion\u00e1rios de carreira, o desprest\u00edgio de quem nem sequer est\u00e1 interessado em ler um texto, que o texto do mundo \u00e0 volta deixou h\u00e1 muito de concitar o m\u00ednimo interesse. Empurrado pelas circunst\u00e2ncias, h\u00e1 um certo perfil de ser humano que se define por ter uns anos a mais e umas mais altas fun\u00e7\u00f5es que, uns tempos atr\u00e1s, n\u00e3o tinha. Quanto mais lhe \u00e9 pedido, menos resposta h\u00e1 \u00e0 altura de novas solicita\u00e7\u00f5es. Mas o mais perturbador \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o sobe na vida, ap\u00f3s uns anos a mais; de quem n\u00e3o aufere o justo sal\u00e1rio, ap\u00f3s anos a fio no mesmo sector; de quem se sente tolerado, sem lhe ser urgida a mais vulgar das coopera\u00e7\u00f5es; de quem, com uns anos a mais, come\u00e7a a desconfiar da sua escolha profissional, do significado da sua exist\u00eancia, da aus\u00eancia de motivos e alegrias de viver, da solid\u00e3o perante o futuro. A aus\u00eancia da t\u00e3o propalada auto-estima nasce do repetitivo, da menos respeito pelas pessoas, do desinteresse em forma\u00e7\u00f5es especiais, do descr\u00e9dito diante de promessas e pseudo-refer\u00eancias, da injusti\u00e7a, m\u00e3e de todas as calamidades. Ao lado da desenvoltura do progresso e da inova\u00e7\u00e3o, parece tudo perder-se pela incapacidade e corrup\u00e7\u00e3o, pelos atropelos e desarmonias sociais, pelos aproveitamentos e o \u201cfaz de conta\u201d&#8230; A aus\u00eancia da cultura, os aventureirismos tentadores, a efic\u00e1cia do t\u00e9dio, as irresponsabilidades diante da palavra dada, o aproveitamento no meio das confus\u00f5es, e o grande medo perante um novo Apocalipse, definem um estatuto de comportamento. Voltemos ao acto da consagra\u00e7\u00e3o da nossa miss\u00e3o sacerdotal: \u201canunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos e a vista ao cegos, a mandar em liberdade os oprimidos\u201d. \u00c9 um drama para o Ocidente encontrar as raz\u00f5es do terrorismo. Sem ressentimentos nem complexos, \u00e9 preciso ser honesto diante da consci\u00eancia civilizacional. N\u00e3o tenhamos medo dos \u201cexames de consci\u00eancia\u201d&#8230; Esta quest\u00e3o est\u00e1 toldada de equ\u00edvocos. Mais. A verdade foi ofendida nos in\u00edcios deste processo de leg\u00edtima defesa, com dedo estendido para o terrorista errado. Quando o militar brilhante que \u00e9 Colin Powell se v\u00ea obrigado a confessar as suas d\u00favidas perante afirma\u00e7\u00f5es e a declarar que foi enganado (\u201ceu n\u00e3o sou a comunidade de espionagem\u201d, acrescentou!), n\u00e3o poderemos deixar de afirmar que, enquanto a verdade n\u00e3o for reposta, uma  das express\u00f5es do clima terrorista, bem anterior ao 11 de Setembro de 2001, vai endurecer a estrat\u00e9gia da raiva e da vingan\u00e7a. N\u00e3o dizemos n\u00f3s, em discursos oficiais, que o mundo est\u00e1 doente por car\u00eancias de valores?  4. Parto hoje para Timor-Leste em ordem a viver a P\u00e1scoa com os militares portugueses, onde terei presente todos os membros das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a, de forma muito especial, os militares da Guarda Nacional Republicana que se encontram no Iraque. \u201cAnunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos, mandar em liberdade aos oprimidos\u201d \u00e9 a miss\u00e3o sacerdotal da Igreja, nascida na primeira Eucaristia, na primeira Quinta-Feira Santa da Hist\u00f3ria!  Igreja da Mem\u00f3ria, 7 de Abril de 2004  D. Janu\u00e1rio Torgal Mendes Ferreira, Bispo das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hom\u00edlia na Missa Crismal da Diocese das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,206,275,314],"class_list":["post-5423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-familia","tag-pascoa","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5423\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}