{"id":54074,"date":"2011-11-29T11:44:48","date_gmt":"2011-11-29T11:44:48","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/11\/29\/e-tempo-de-regressar-ao-mar\/"},"modified":"2011-11-29T11:44:48","modified_gmt":"2011-11-29T11:44:48","slug":"e-tempo-de-regressar-ao-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/e-tempo-de-regressar-ao-mar\/","title":{"rendered":"\u00c9 tempo de regressar ao mar&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Joaquim Cadete, Economista <!--more--> <\/p>\n<p>Atualmente vivemos um per&iacute;odo de perturba&ccedil;&atilde;o em termos sociais e pol&iacute;ticos dado o dif&iacute;cil confronto com a nossa realidade econ&oacute;mica. Ao longo de mais de uma d&eacute;cada a crescente perda de competitividade externa da economia portuguesa foi suavizada pelo poder estatal, dado que sempre que existia um problema o Estado resolvia. Face &agrave; progressiva desertifica&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e social do interior o poder local respondeu com a cria&ccedil;&atilde;o de emprego p&uacute;blico; face &agrave; necessidade de uma melhor rede de infraestruturas escolares, hospitalares e de transportes os governantes responderam com mais investimento p&uacute;blico; por fim, face &agrave; crescente competi&ccedil;&atilde;o internacional em termos econ&oacute;micos o Estado decidiu fomentar a produ&ccedil;&atilde;o de bens n&atilde;o- transcion&aacute;veis (ou seja, aqueles que apenas podem ser produzidos localmente e logo n&atilde;o export&aacute;veis) de forma a assegurar a rendibilidade dos investimentos realizados por privados. A todas as situa&ccedil;&otilde;es apresentadas anteriormente existe um elemento comum: a emiss&atilde;o de d&iacute;vida para fazer face aos pagamentos a efetivar ou subs&iacute;dios a conceder. Dado que os impostos angariados mal chegam para pagar os sal&aacute;rios dos funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, a maioria das fun&ccedil;&otilde;es tradicionais do Estado foram financiadas ao longo dos &uacute;ltimos anos pelo recurso a credores externos (que assumiram que sab&iacute;amos o que est&aacute;vamos a fazer&hellip;). Infelizmente, tanto os credores como n&oacute;s percebemos agora que o caminho estava errado e que nunca se poderia traduzir num futuro melhor. Os dados falam por si &ndash; hoje 20% da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa &eacute; considerada pobre e este n&uacute;mero seria de 42% da popula&ccedil;&atilde;o se n&atilde;o fossem as transfer&ecirc;ncias sociais do Estado. Em 2009, Portugal foi o pa&iacute;s da EU-27 que apresentou a segunda taxa mais elevada de desemprego de longa dura&ccedil;&atilde;o (apenas atr&aacute;s da Eslov&aacute;quia). Em suma, um pensamento coletivista bem intencionado apenas se traduziu num progressivo empobrecimento da comunidade decorrente de um crescente intervencionismo estatal a n&iacute;vel social e econ&oacute;mico. Neste sentido, vale a pena recordar o que Tocqueville escreveu na sua obra-prima &ldquo;Da Democracia na Am&eacute;rica&rdquo;:<\/p>\n<p>&ldquo;Vejo uma multid&atilde;o imensa de homens semelhantes e de igual condi&ccedil;&atilde;o girando sem descanso &agrave; volta de si mesmos, em busca de prazeres insignificantes e vulgares com que preenchem as suas almas. Cada um deles, pondo-se &agrave; parte, &eacute; como um estranho face ao destino dos outros; para ele, a esp&eacute;cie humana resume-se aos seus filhos e aos seus amigos; quanto ao resto dos seus concidad&atilde;os, est&aacute; ao lado deles, mas n&atilde;o os v&ecirc;; toca-lhes, mas n&atilde;o os sente, ele s&oacute; existe em e para si pr&oacute;prio e, se ainda lhe resta uma fam&iacute;lia, podemos dizer pelo menos que deixou de ter uma p&aacute;tria.<\/p>\n<p>Acima desses homens ergue-se um poder imenso e tutelar que se encarrega sozinho da organiza&ccedil;&atilde;o dos seus prazeres e de velar pelo seu destino. &Eacute; um poder absoluto, pormenorizado, ordenado, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; mas ele apenas procura, pelo contr&aacute;rio, mant&ecirc;-los irrevogavelmente na inf&acirc;ncia. Agrada-lhe que os cidad&atilde;os se divirtam, conquanto pensem apenas nisso. Trabalha de boa vontade para lhes assegurar a felicidade, mas com a condi&ccedil;&atilde;o de ser o &uacute;nico obreiro e &aacute;rbitro dessa felicidade. Garante-lhes a seguran&ccedil;a, previne e satisfaz as suas necessidades, facilita-lhes os prazeres, conduz os seus principais assuntos, dirige a sua ind&uacute;stria, regulamenta as suas sucess&otilde;es, divide as suas heran&ccedil;as. Ser&aacute; tamb&eacute;m poss&iacute;vel poupar inteiramente aos cidad&atilde;os o trabalho de pensar e a dificuldade de viver? &ldquo;<\/p>\n<p>A nossa insatisfa&ccedil;&atilde;o hoje decorre, em muito, do fim de uma &eacute;poca de ilus&atilde;o e do progressivo acordar para a dura realidade &ndash; o nosso futuro n&atilde;o &eacute; t&atilde;o promissor em rela&ccedil;&atilde;o ao que nos tinham prometido. A busca de um passado imposs&iacute;vel de alcan&ccedil;ar ou de manter corresponde hoje simbolicamente a personagem introduzida por Cam&otilde;es pelo Velho do Restelo. A solu&ccedil;&atilde;o para os nossos problemas n&atilde;o passa igualmente por esquecermos quem confiou em n&oacute;s no passado. O pagamento dos compromissos efetivados assume-se assim como vital at&eacute; porque os nossos credores ser&atilde;o os potenciais clientes para as exporta&ccedil;&otilde;es portuguesas. Em conclus&atilde;o, importa ter a coragem de voltarmos a fazer-nos ao mar, com todos os riscos associados, tal como os nossos antepassados o fizeram h&aacute; cinco s&eacute;culos. Novos tempos exigem novos comportamentos inclusive em termos de participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica e social. Neste sentido, a Par&aacute;bola dos Dons constitui um &oacute;timo gui&atilde;o para os comportamentos futuros a adotar: importa por a render todas as capacidades individuais; a quem mais lhe foi dado mais ser-lhe-&aacute; exigido; e que cada um &eacute; apenas o gestor dos bens e n&atilde;o o seu dono.<\/p>\n<p align=\"left\"><em>Joaquim Cadete, Economista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joaquim Cadete, Economista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[191],"class_list":["post-54074","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54074"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54074\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}