{"id":5407,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/beleza-verdadeiro-nome-de-deus-tema-recorrente-na-literatura\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"beleza-verdadeiro-nome-de-deus-tema-recorrente-na-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/beleza-verdadeiro-nome-de-deus-tema-recorrente-na-literatura\/","title":{"rendered":"Beleza, verdadeiro nome de Deus, tema recorrente na literatura"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 desassossegos do viver humano, diante dos quais \u00e9 imposs\u00edvel ficar indiferente. N\u00e3o admira, por isso, que a tem\u00e1tica religiosa no campo da literatura, frequentes vezes, seja articulada com os contornos da inquieta\u00e7\u00e3o existencial. Aqueles que se confessam crentes n\u00e3o s\u00e3o necessariamente os melhores observadores desses lances da alma humana. Pelo contr\u00e1rio, \u00e0s vezes a perten\u00e7a a uma religi\u00e3o e ao seu corpo doutrin\u00e1rio como que dificulta um ju\u00edzo sem preconceitos acerca de problemas que levaram tantos escritores a fazer perguntas inc\u00f3modas \u00e0 vida.  F\u00e1cil se torna verificar uma grande disparidade de registos liter\u00e1rios no respeitante \u00e0 tem\u00e1tica religiosa, facto  que reflecte, afinal, a diversidade de estados de alma face ao mesmo mist\u00e9rio da vida.  Em certos autores,  essa reflex\u00e3o testemunha uma f\u00e9 claramente assumida, como acontece na obra de Agostinho da Cruz. Nos \u00faltimos dois s\u00e9culos, por\u00e9m (como ocorre na poesia de Antero e em tantos outros poetas, sobretudo  desde o Simbolismo e do Modernismo at\u00e9 aos nossos dias),  a express\u00e3o liter\u00e1ria do religioso tem traduzido muito mais \u00aba tritura\u00e7\u00e3o do pensamento sobre a espont\u00e2nea necessidade de crer\u00bb, para utilizar as palavras de R\u00e9gio.  De facto, as abordagens do problema religioso num grande n\u00famero dos nossos escritores modernos sobrelevam mais uma atitude interior de inquieta\u00e7\u00e3o e de desassossego do que cetinosas branduras para tentar a pacifica\u00e7\u00e3o da alma. Tal n\u00e3o significa, por\u00e9m, que a quest\u00e3o religiosa tenha sido relegada para segundo plano nas obras liter\u00e1rias do nosso tempo. Muito pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 subjacente em muitos autores modernos uma reflex\u00e3o acerca do problema de Deus baseada em pressupostos por vezes mais s\u00f3lidos do que em obras tradicionalmente arrumadas dentro da categoria de literatura religiosa.    RUY BELO, RUY CINATTI E VITORINO NEM\u00c9SIO \u00c9 o que acontece em poetas nossos contempor\u00e2neos, mesmo quando em suas obras o nome de Deus n\u00e3o transparece directamente na superf\u00edcie do texto. N\u00e3o admira que assim seja, pois as express\u00f5es po\u00e9ticas, dada a sua natureza anal\u00f3gica, s\u00e3o as mais adequadas para se abeirarem daquelas realidades diante das quais, para utilizar uma express\u00e3o de Ruy Belo, \u00abo m\u00e1ximo de voz \u00e9 o sil\u00eancio\u00bb . E se referimos este poeta, \u00e9 porque na sua obra, estando embora presente um profundo sentimento de vazio, h\u00e1 uma frequente afirma\u00e7\u00e3o do desejo de um \u00abdeus deslumbrante\u00bb que \u00abn\u00e3o anoitecesse na noite n\u00e1utica antecessora da noite que ao fim nos espera\u00bb . Poder\u00edamos citar igualmente os exemplos de Ruy Cinatti e de Vitorino Nem\u00e9sio em cuja obra se exprimem um profundo misticismo e a consci\u00eancia de uma absoluta pobreza diante de Deus, apesar de esta vibra\u00e7\u00e3o m\u00edstica ser veiculada por uma escrita onde s\u00e3o claros os sinais de ruptura com as imagens de Deus recebidas na catequese da sua inf\u00e2ncia. H\u00e1 outros casos em que a tem\u00e1tica religiosa n\u00e3o passou por uma reconfigura\u00e7\u00e3o das imagens de Deus, j\u00e1 que ela fluiu directamente da contempla\u00e7\u00e3o da beleza, esse lugar onde a poesia sempre se exprime. Foi o que aconteceu com Sebasti\u00e3o da Gama, poeta profundamente religioso. O que contribuiu mais decisivamente para ele se abrir ao problema de Deus n\u00e3o foi nenhuma inicia\u00e7\u00e3o catequ\u00e9tica recebida na inf\u00e2ncia, nem o zelo apost\u00f3lico de alguma carism\u00e1tica figura da Igreja, nem sequer a influ\u00eancia das suas leituras. A quest\u00e3o religiosa, al\u00e9m de lhe ter sido acicatada pelo confronto pessoal com o mist\u00e9rio do sofrimento, foi-lhe segredada pela solid\u00e3o da Arr\u00e1bida, com a grandiosidade da sua natureza. A sensibilidade po\u00e9tica levou-o a ler a interioridade das coisas naquela harmonia pacificadora e ajudou-o a acolher a \u00abreligiosidade que d\u00e1 \u00e0 Serra da Arr\u00e1bida eleva\u00e7\u00e3o e sentido\u00bb .   \u00c9 essa via de acesso a Deus que quero p\u00f4r aqui em relevo. N\u00e3o ser\u00e1 a contempla\u00e7\u00e3o da beleza que poder\u00e1 levar o homem a n\u00e3o se hipnotizar pela tecnologia moderna, prostrando-se diante dela em adora\u00e7\u00e3o idol\u00e1trica? A verdadeira santidade n\u00e3o ser\u00e1 acima de tudo a aventura daqueles que se deixam envolver pelo fasc\u00ednio da beleza de Deus? Olivier Cl\u00e9ment, um te\u00f3logo ortodoxo em cujos escritos transparece uma grande vibra\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e uma elevada temperatura po\u00e9tica, confessa que a santidade \u00e9 a luz da beleza de Deus reflectida no homem.   A BELEZA DOS TEXTOS B\u00cdBLICOS A B\u00edblia est\u00e1 cheia de trechos liter\u00e1rios  em que se faz o elogio da beleza como reflexo do esplendor divino. Esse grande c\u00f3digo sagrado utiliza todos os modos harm\u00f3nicos da linguagem para dizer que a beleza de Deus brilha rosto e vida do homem. Podemos at\u00e9 dizer que a grande proposta da B\u00edblia \u00e9 o convite ao deslumbramento. Nos relatos evang\u00e9licos vemos que a f\u00e9 em Jesus come\u00e7a pela admira\u00e7\u00e3o do povo frente \u00e0 sua pessoa, ao seu estilo de viver, \u00e0 sua maneira de falar e de se arriscar, ao seu modo de se apresentar como o encontro entre o Pai e os homens. As bem-aventuran\u00e7as s\u00e3o mais belas do que um diamante, ao revelar o mist\u00e9rio do ser humano iluminado pelo olhar de Deus. A cruz \u00e9 um hino \u00e0 beleza porque, ao mesmo tempo que  mostra o tr\u00e1gico da vida, faz a deslumbrante revela\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de amor que existe em Deus.   A beleza salvar\u00e1 o mundo. Foi esse o grito prof\u00e9tico de F. Dosto\u00efevski, um dos maiores romancistas russos do fim do s\u00e9culo XIX. Num outro registo, este mesmo grito de esperan\u00e7a foi proclamado recentemente na P\u00f3voa de Varzim, durante um dos debates do \u00abCorrentes de Escrita\u00bb, sintomaticamente polarizado nesta afirma\u00e7\u00e3o: A Literatura \u00e9 o sentido \u00faltimo das coisas\u00bb. Nesta debate foi reafirmado pela voz da romancista Teolinda Gers\u00e3o o car\u00e1cter testemunhal da literatura: \u00abescrevemos para ver mais fundo do que a superf\u00edcie  e arriscar uma perspectiva ao mesmo tempo reveladora e cr\u00edtica do mundo \u00e0 nossa volta\u00bb.  Como muito lucidamente escreveu Miguel Torga, \u00abo Poeta semeia \/ poemas de confian\u00e7a. O poeta \u00e9 uma crian\u00e7a que devaneia \/  Mas todo o semeador\/ semeia contra o presente. \/ Semeia como um vidente \/ a seara do futuro, \/ sem saber se o ch\u00e3o \u00e9 duro \/ e lhe recebe a semente\u00bb . \u00c9 esta ousadia pr\u00f3pria dos poetas que nos permite, como crentes,  sentir mais a gra\u00e7a do que a desgra\u00e7a.   Manuel Ant\u00f3nio Ribeiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 desassossegos do viver humano, diante dos quais \u00e9 imposs\u00edvel ficar indiferente. N\u00e3o admira, por isso, que a tem\u00e1tica religiosa no campo da literatura, frequentes vezes, seja articulada com os contornos da inquieta\u00e7\u00e3o existencial. Aqueles que se confessam crentes n\u00e3o s\u00e3o necessariamente os melhores observadores desses lances da alma humana. 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