{"id":53614,"date":"2011-11-01T09:16:43","date_gmt":"2011-11-01T09:16:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/11\/01\/uma-crise-de-desfecho-incerto\/"},"modified":"2011-11-01T09:16:43","modified_gmt":"2011-11-01T09:16:43","slug":"uma-crise-de-desfecho-incerto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-crise-de-desfecho-incerto\/","title":{"rendered":"Uma crise de desfecho incerto"},"content":{"rendered":"<p>Francisco Sarsfield Cabral <!--more--> <\/p>\n<p>Na semana passada, o euro esteve &agrave; beira da derrocada. E com ele, a maior ou menor prazo, boa parte da constru&ccedil;&atilde;o europeia. &Agrave; &uacute;ltima hora foi poss&iacute;vel evitar o desastre, com um programa que ainda ter&aacute; de ser tecnicamente trabalhado e pormenorizado. Como se sabe, o diabo costuma estar nos pormenores.<\/p>\n<p>Ter&aacute; esta &uacute;ltima cimeira mostrado uma nova atitude por parte dos dirigentes europeus, uma atitude mais decidida e mais consciente da urg&ecirc;ncia dos problemas? Ainda &eacute; cedo para saber. O que sabemos, isso sim, &eacute; que ao longo de meses e meses a zona euro multiplicou adiamentos, meias medidas, planos salvadores que, quando apareciam, j&aacute; estavam ultrapassados pelas realidades&hellip;<\/p>\n<p>Essa penosa e lament&aacute;vel atua&ccedil;&atilde;o dos dirigentes europeus teve v&aacute;rias consequ&ecirc;ncias nefastas. Os sucessivos adiamentos de solu&ccedil;&otilde;es realistas levaram ao progressivo agravamento dos problemas. E pensarmos n&oacute;s que, em conjunto, a Gr&eacute;cia, a Irlanda e Portugal representam apenas 6% do PIB global da zona euro&hellip;<\/p>\n<p>Depois, as indecis&otilde;es europeias estimularam a especula&ccedil;&atilde;o, que prejudicou os pa&iacute;ses em dificuldade, como Portugal, apostando na sua bancarrota. Mais grave ainda, o espet&aacute;culo de impot&ecirc;ncia pol&iacute;tica que a zona euro deu desde que rebentou a crise da d&iacute;vida soberana da Gr&eacute;cia minou de forma profunda a confian&ccedil;a dos investidores. Uma desconfian&ccedil;a que apenas foi ligeiramente atenuada pelos resultados da cimeira de quinta-feira passada.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Existem, obviamente, falhas no edif&iacute;cio do euro. O Tratado da UE pro&iacute;be resgates de pa&iacute;ses da moeda &uacute;nica. Mas o que se est&aacute; a fazer, afinal, sen&atilde;o isso mesmo, mais ou menos disfar&ccedil;adamente?<\/p>\n<p>Claro que o Tratado previa tamb&eacute;m o refor&ccedil;o da uni&atilde;o pol&iacute;tica europeia. E esta &eacute; necess&aacute;ria para, nomeadamente, construir um esbo&ccedil;o de governo econ&oacute;mico europeu, capaz de representar uma contrapartida &agrave; mais federal institui&ccedil;&atilde;o da UE, o Banco Central Europeu. Por isso alguns europe&iacute;stas viram nesta crise da d&iacute;vida soberana na zona euro uma oportunidade para fazer avan&ccedil;ar o federalismo.<\/p>\n<p>Trata-se de uma ilus&atilde;o. Por um motivo simples: a maioria das opini&otilde;es p&uacute;blicas dos Estados membros da Uni&atilde;o n&atilde;o est&aacute; para a&iacute; virada. Houve um tempo em que os euroc&eacute;ticos brit&acirc;nicos constitu&iacute;am uma exce&ccedil;&atilde;o. Hoje, por&eacute;m, o entusiasmo pelo projeto europeu arrefeceu notoriamente em muitos outros pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>Recordemos que a malograda &ldquo;constitui&ccedil;&atilde;o europeia&rdquo; (de facto, um tratado constitucional) foi chumbada atrav&eacute;s de referendos em duas na&ccedil;&otilde;es fundadoras da integra&ccedil;&atilde;o europeia, a Fran&ccedil;a e a Holanda. E as elei&ccedil;&otilde;es diretas para o Parlamento Europeu (cujos poderes foram entretanto refor&ccedil;ados) registam cada vez maior absten&ccedil;&atilde;o, desde que se iniciaram em 1979.<\/p>\n<p>Decerto que uma s&eacute;rie de mudan&ccedil;as contribuiu para tornar a integra&ccedil;&atilde;o europeia aparentemente menos necess&aacute;ria: foi alcan&ccedil;ada a paz na Europa (objetivo priorit&aacute;rio do movimento de integra&ccedil;&atilde;o), desapareceu o &ldquo;cimento&rdquo; agregador da Europa ocidental que era a amea&ccedil;a do Imp&eacute;rio sovi&eacute;tico, os americanos est&atilde;o hoje mais interessados na &aacute;rea do Pac&iacute;fico do que no continente europeu, a Alemanha atual &ndash; cujos dirigentes n&atilde;o viveram o nazismo nem a guerra &#8211; j&aacute; n&atilde;o encara a Europa como uma via de regresso ao clube das na&ccedil;&otilde;es civilizadas e n&atilde;o est&aacute; disposta a pagar mais do que os outros, etc.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Permanece, no entanto, o grande trunfo da partilha de soberania. Unindo-se, os Estados comunit&aacute;rios t&ecirc;m mais poder do que atuando isoladamente. Ora numa &eacute;poca de globaliza&ccedil;&atilde;o como a nossa &eacute; imperioso que o poder pol&iacute;tico prevale&ccedil;a sobre o poder econ&oacute;mico. Sem enquadramento pol&iacute;tico, como sucessivos Papas t&ecirc;m alertado, torna-se selvagem a globaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No fundo, a atual crise do euro apenas se resolve com mais Europa. Mas os pol&iacute;ticos europeus das &uacute;ltimas d&eacute;cadas deixaram de ligar import&acirc;ncia ao que pensam os cidad&atilde;os sobre a UE. Por exemplo, evitando referendos sempre que podem. &Eacute; imposs&iacute;vel construir uma Europa democr&aacute;tica mais unida nas costas dos cidad&atilde;os. Por isso a crise do euro &eacute; de desfecho altamente incerto.<\/p>\n<p><em>Francisco Sarsfield Cabral, jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Sarsfield Cabral<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[203],"class_list":["post-53614","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53614\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}