{"id":53596,"date":"2011-10-31T10:45:48","date_gmt":"2011-10-31T10:45:48","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/31\/intervencao-de-d-manuel-clemente-no-congresso-do-ensino-superior\/"},"modified":"2011-10-31T10:45:48","modified_gmt":"2011-10-31T10:45:48","slug":"intervencao-de-d-manuel-clemente-no-congresso-do-ensino-superior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-de-d-manuel-clemente-no-congresso-do-ensino-superior\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente no Congresso do Ensino Superior"},"content":{"rendered":"<p><strong>A Educa&ccedil;&atilde;o e o Estado<\/strong><\/p>\n<p>1. No momento atual da nossa hist&oacute;ria coletiva<\/p>\n<p>Sobre o tema que me propuseram, deixo-vos simples e breves considera&ccedil;&otilde;es, certamente fruto de alguma vida vivida e convivida em ambientes escolares e dentro da cidadania geral que nos integra a todos.<\/p>\n<p>Te&ccedil;o-as no momento atual da nossa hist&oacute;ria coletiva, que requer de cada um e de todos o melhor contributo pessoal e institucional, para construirmos um futuro digno dos atuais e futuros portugueses, bem como dos que connosco partilham o devir europeu e extraeuropeu.<\/p>\n<p>Tal contributo que devemos dar ter&aacute; algo de quantitativo, no tempo gasto e oferecido, onde a vida, a profiss&atilde;o ou o cargo nos colocaram, sem desist&ecirc;ncias nem conformismos. Mas dever&aacute; ser muito especialmente qualitativo, pois todos sabemos que n&atilde;o nos basta prolongar o que t&iacute;nhamos &ndash; ou julg&aacute;vamos ter -, antes devemos recriar-nos coletivamente para um futuro mais rico de humanidade compartilhada.<\/p>\n<p>Como &eacute; &oacute;bvio, a educa&ccedil;&atilde;o tem aqui um lugar primeir&iacute;ssimo. Pois de valores se trata, da sua assun&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o de uns para os outros e dos que est&atilde;o para os que chegam. &Eacute; um longo processo este, intrinsecamente ligado &agrave; cultura e &agrave; transmiss&atilde;o cultural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Cultivando valores&hellip;<\/p>\n<p>Como sabemos, a primeira ace&ccedil;&atilde;o da cultura foi a mais imediata e urgente, ou seja a dos campos, como agricultura e subsist&ecirc;ncia pr&oacute;pria e dos seus. O &eacute;timo latino (colere) teve essa ace&ccedil;&atilde;o, enquanto n&atilde;o ganhou outra, refluindo do cultivo para o pr&oacute;prio cultivador.<\/p>\n<p>Mas assim foi, passando da terra &agrave; &ldquo;alma&rdquo;, como cultivo interior e enriquecimento erudito e s&aacute;bio. Mais perto de n&oacute;s, com o romantismo, alargou-se &agrave; alma nacional e &agrave; cultura popular; com a etnografia e a sociologia passou a incluir tradi&ccedil;&otilde;es e instrumentos do viver e conviver, popula&ccedil;&atilde;o a popula&ccedil;&atilde;o. Hoje ganhou o sentido amplo de tudo quanto nos permite compreender e agir no meio natural e humano envolvente, com o melhor que recebemos do passado para resolver os problemas do presente e com tudo o que este vai criando para prosseguirmos em frente.<\/p>\n<p>E, quando dizemos &ldquo;o melhor que recebemos&rdquo;, estamos j&aacute; no campo dos &ldquo;valores&rdquo;, ou seja, do que demonstrou valia e import&acirc;ncia para a realiza&ccedil;&atilde;o pessoal e coletiva. O apuramento e transmiss&atilde;o desses valores constituem o cerne da nossa tradi&ccedil;&atilde;o viva. Essa mesma que faz de n&oacute;s portugueses, europeus e seres humanos em geral, no quadro universal dos direitos e na partilha correspons&aacute;vel dos deveres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. &Eacute; disto que falamos ao dizer &ldquo;educa&ccedil;&atilde;o&rdquo;&hellip;<\/p>\n<p>&Eacute; disto mesmo que falamos, ao dizer &ldquo;educa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Como a cultura, tamb&eacute;m ela &eacute; din&acirc;mica e ativadora, em rela&ccedil;&atilde;o a si pr&oacute;prio e &ndash; no caso familiar e escolar &ndash; muito especialmente em rela&ccedil;&atilde;o aos outros, por isso mesmo educandos.<\/p>\n<p>A palavra significa tamb&eacute;m &ldquo;extra&ccedil;&atilde;o&rdquo; (e-ducere), para extrair dos outros o melhor deles mesmos, que s&oacute; assim realizam as potencialidades que det&ecirc;m, em benef&iacute;cio pr&oacute;prio e alheio. N&atilde;o exagerando as coisas, lembro um antigo professor de filosofia, que dizia n&atilde;o sobrepor, antes extrair dos alunos o que j&aacute; l&aacute; tinham; como os escultores que entreveem na pedra a imagem que pretendem, &ldquo;limitando-se&rdquo; depois a tirar com o escopro o que sobeja da ideia&hellip;<\/p>\n<p>Ser&aacute; isto o essencial, pois insiste no aspeto personalista da educa&ccedil;&atilde;o. Mas inclui necessariamente todo o conte&uacute;do te&oacute;rico e pr&aacute;tico entretanto conseguido e absorvido, &aacute;rea por &aacute;rea. Bom educador ser&aacute; quem &ldquo;extraia&rdquo; do educando tudo o que ele possa realmente dar; mas s&oacute; a far&aacute; se transmitir todo o conhecimento que lhe desperte a capacidade de aderir, aprofundar e criar por sua vez. &Eacute; neste sentido que a erudi&ccedil;&atilde;o enriquece a cultura e o bom educador surpreender&aacute; os educandos &#8211; e ainda mais se surpreender&aacute; com eles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4.O princ&iacute;pio b&aacute;sico &eacute; a dignidade da pessoa humana<\/p>\n<p>Quando n&atilde;o podemos fugir &agrave; circunst&acirc;ncia, podemos torn&aacute;-la ocasi&atilde;o, ocasi&atilde;o positiva. Aproveitemos ent&atilde;o o momento &ndash; n&atilde;o s&oacute; deste Congresso, mas o que &ldquo;passamos&rdquo; todos &ndash; no sentido amplo da palavra, que tanto significa sofrer como ultrapassar &ndash; para nos recriarmos como sociedade e a partir da educa&ccedil;&atilde;o, de melhor educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na linha de pensamento que perfilho &ndash; tamb&eacute;m chamada Doutrina Social da Igreja &ndash; insiste-se em quatro &ldquo;princ&iacute;pios permanentes&rdquo;, ali&aacute;s adotados por outras escolas, nisto mesmo coincidentes, ainda que com variada formula&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o eles que, tamb&eacute;m agora, me levar&atilde;o &agrave;s restantes considera&ccedil;&otilde;es sobre a educa&ccedil;&atilde;o e o Estado: 1&ordm;) A dignidade da pessoa humana; 2&ordm;) O bem comum; 3&ordm;) A subsidiariedade; 4&ordm;) A solidariedade.<\/p>\n<p>O primeiro e b&aacute;sico &eacute; a dignidade da pessoa humana. T&atilde;o primeiro e b&aacute;sico que atrai os outros em seu favor, sendo o seu objetivo e crit&eacute;rio. Pode traduzir-se na irredutibilidade de cada ser humano, que n&atilde;o pode ser esquecida nem secundarizada, mas antes e praticamente servida em cada crian&ccedil;a, adolescente ou adulto. Mas trata-se de &ldquo;pessoas&rdquo;, quer dizer sujeitos recetivos e ativos da rela&ccedil;&atilde;o social em qualquer dos seus n&iacute;veis, nessa mesma rela&ccedil;&atilde;o se realizando por si e com os outros, ou de si para os outros e dos outros para si, em absoluta reciprocidade.<\/p>\n<p>Assim mesmo somos e n&atilde;o de outra maneira, como tamb&eacute;m por contradi&ccedil;&atilde;o se poder apurar: &#8211; Que restou, de facto, das derivas individualistas ou massificadoras, que, ou esqueceram a dimens&atilde;o social ou desconsideraram tal car&aacute;ter irredut&iacute;vel de cada ser humano? As primeiras olvidaram o conjunto, as segundas a liberdade e a responsabilidade do sujeito. No todo, o saldo foi t&atilde;o negativo que s&oacute; vale como demonstra&ccedil;&atilde;o do que absolutamente teremos de evitar &#8211; e muito principalmente no processo educativo.<\/p>\n<p>Mas, quando se fala de dignidade da pessoa humana, d&aacute;-se-lhe um sentido ativo e ativador. Dignidade em abstrato requer&nbsp; tamb&eacute;m dignifica&ccedil;&atilde;o em concreto, pois n&atilde;o basta afirm&aacute;-la em declara&ccedil;&otilde;es sem a promover precisamente e caso a caso. Olha o educador para os educandos, vai-os conhecendo a pouco e pouco: n&atilde;o tardar&aacute; em descobrir o que falta a um para poder estudar em condi&ccedil;&otilde;es, o que falta a outro para conseguir afirmar-se, o que falha a muitos para se descobrirem no que podem e valem&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. O segundo princ&iacute;pio, ou seja, o bem comum<\/p>\n<p>Conseguir os meios para superar tais lacunas, leva-nos imediatamente ao segundo princ&iacute;pio enunciado, ou seja, o bem comum. Pode ele traduzir-se no conjunto de condi&ccedil;&otilde;es e meios de toda a ordem &ndash; material, cultural, social, espiritual &ndash; que permitam a realiza&ccedil;&atilde;o cabal de cada pessoa duma determinada sociedade. S&oacute; globalmente se consegue e, dado o progressivo desenvolvimento humano, nunca estar&aacute; completo no seu todo.<\/p>\n<p>Algumas vezes atende-se sobretudo aos aspetos materiais e institucionais (mais do lado da civiliza&ccedil;&atilde;o), outras vezes aos art&iacute;sticos e mentais (mais do lado da cultura). No entanto, s&oacute; conjuntamente se podem realizar, em aut&ecirc;ntico bem comum.<\/p>\n<p>Os antigos romanos trouxeram ao nosso territ&oacute;rio valiosas contribui&ccedil;&otilde;es civilizacionais, do urbanismo &agrave;s famosas vias, que foram a base de muita comunica&ccedil;&atilde;o europeia at&eacute; &agrave; &eacute;poca moderna. Mas, al&eacute;m dos letrados e juristas, arquitetos e governadores da antiga Roma, chegaram tamb&eacute;m os pregoeiros do cristianismo primitivo, que difundiram convic&ccedil;&otilde;es que sobreviveram &agrave; queda do imp&eacute;rio e sentimentos b&aacute;sicos que enformam hoje a nossa cultura, bem para l&aacute; a cren&ccedil;a definida. Imaginemos o que seriam as antigas vias romanas, se n&atilde;o trouxessem ao nosso territ&oacute;rio sen&atilde;o legi&otilde;es primeiro e hordas b&aacute;rbaras depois&hellip; Imaginemos ainda hoje o que seria um pa&iacute;s de magn&iacute;ficas autoestradas, se estas n&atilde;o proporcionassem o fluxo das coisas e das ideias; ou de belos est&aacute;dios, onde n&atilde;o se cultivassem boas pr&aacute;ticas desportivas, ou nada acontecesse mesmo&hellip;<\/p>\n<p>O bem comum s&oacute; na totalidade dos seus aspetos pode servir o objetivo pr&oacute;prio da dignifica&ccedil;&atilde;o concreta de cada membro do corpo social. E tem na educa&ccedil;&atilde;o, da fam&iacute;lia &agrave; escola, como na sociedade inteira &ndash; pedagogia comum de n&oacute;s todos &ndash; o seu campo de elei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. Ningu&eacute;m se realiza sem ter em conta os outros<\/p>\n<p>Os outros dois princ&iacute;pios enunciam-se como subsidiariedade e solidariedade. Para o fito desta interven&ccedil;&atilde;o, vou trocar-lhes a ordem. Da solidariedade digamos rapidamente que requer a convic&ccedil;&atilde;o e a atitude pr&oacute;prias de quem sabe que nenhuma pessoa ou grupo se realiza e mant&eacute;m sem ter em conta os outros, tanto mental como praticamente. Como sucede entre pessoas &ndash; sujeitos em rela&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; mutuamente se revelam -, assim na sociedade em geral, etimologicamente mundo de &ldquo;s&oacute;cios&rdquo;, companheiros e viandantes, que s&oacute; uns com os outros conseguir&atilde;o prosseguir.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi assim h&aacute; tanto tempo que se chegou a ouvir falar em povos e continentes &ldquo;dispens&aacute;veis&rdquo; para a marcha do progresso&hellip; A presente crise, se para alguma coisa serve, &eacute; exatamente para nos demonstrar o contr&aacute;rio e nos impulsionar no sentido mais solid&aacute;rio e universal que possa ser.<\/p>\n<p>E n&atilde;o &eacute; apenas porque em meados deste s&eacute;culo a maioria da popula&ccedil;&atilde;o continental j&aacute; n&atilde;o v&aacute; ser de origem europeia, ou porque temamos alguma deriva fundamentalista de recentes revolu&ccedil;&otilde;es da margem sul do Mediterr&acirc;neo&hellip; &Eacute; porque, antes e al&eacute;m desses fatores poss&iacute;veis &ndash; e tantas vezes manipulados -, h&aacute; unicamente uma s&oacute; Terra para a humanidade de n&oacute;s todos. E nem &eacute; porque a pr&eacute;-hist&oacute;ria nos indica que afinal todos provimos da &Aacute;frica que tal continente passa a ser olhado com melhores olhos&hellip; &Eacute; porque se a casa &eacute; comum, comum tem de ser a causa da nossa humanidade felizmente colorida, na pele e nas culturas, sobre uma base geral de solidariedade inalien&aacute;vel. E tamb&eacute;m neste ponto, come&ccedil;ar&aacute; na fam&iacute;lia e na escola o melhor futuro da sociedade universal que certamente almejamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. O princ&iacute;pio da subsidiariedade ajudar-nos-&aacute; a equacionar a rela&ccedil;&atilde;o entre a educa&ccedil;&atilde;o e o Estado<\/p>\n<p>O princ&iacute;pio da subsidiariedade, que propositadamente deixei para o fim, ajudar-nos-&aacute; a equacionar da melhor maneira a rela&ccedil;&atilde;o entre a educa&ccedil;&atilde;o e o Estado. Diz-nos ele que, para respeitar e dignificar a pessoa humana, como base inultrapass&aacute;vel de qualquer sociedade justa e tamb&eacute;m o seu crit&eacute;rio, nenhum &oacute;rg&atilde;o de topo deve esquecer ou menosprezar os corpos interm&eacute;dios, em que geralmente a personalidade se conjuga e mais diretamente se exercita.<\/p>\n<p>Na perspetiva personalista que subjaz a tudo o que vai dito e hoje geralmente perfilhamos, a sociedade n&atilde;o se constitui a partir de cima ou do centro, mas da base ou da periferia, em c&iacute;rculos ascendentes ou centr&iacute;petos. O primeiro n&iacute;vel da sociabilidade humana &eacute; a fam&iacute;lia onde se nasce e cresce, somando-se depois a localidade, a regionalidade, o pa&iacute;s e a comunidade internacional, al&eacute;m das comunidades de cren&ccedil;a e outros elos mais sectoriais. Ora, a rela&ccedil;&atilde;o dos &oacute;rg&atilde;os centrais ou de topo com esses corpos b&aacute;sicos e interm&eacute;dios s&oacute; pode ser de respeito ativo e apoio (subsidium), nunca de ultrapassagem arbitr&aacute;ria.<\/p>\n<p>No que &agrave; educa&ccedil;&atilde;o se refere e seguindo a linha normal de crescimento e pedagogia, &eacute; natural que a primeira responsabilidade perten&ccedil;a &agrave; fam&iacute;lia, onde a vida aparece e &eacute; amparada. Natural &eacute; tamb&eacute;m que os progenitores e os membros mais velhos da comunidade familiar sejam o primeiro e insubstitu&iacute;vel elo da transmiss&atilde;o dos valores e da cultura. Seguir-se-&atilde;o outros, como &eacute; o caso especial da escola, mas em colabora&ccedil;&atilde;o com a fam&iacute;lia, n&atilde;o em substitui&ccedil;&atilde;o dela, a n&atilde;o ser em casos excecionais, que por isso mesmo n&atilde;o podem fazer regra.<\/p>\n<p>Normal &eacute; tamb&eacute;m que os pais pe&ccedil;am &agrave; escola que tenha presentes os valores que legitimamente pretendem transmitir aos seus filhos; e just&iacute;ssimo &eacute; que a escola tenha em linha de conta as aspira&ccedil;&otilde;es dos pais e encarregados de educa&ccedil;&atilde;o, que deve viabilizar, complementar e n&atilde;o postergar.<\/p>\n<p>Concomitantemente, tamb&eacute;m uma justa autonomia escolar n&atilde;o uniformizar&aacute; sem mais o ensino, antes procurar&aacute; ter em conta as leg&iacute;timas particularidades sociais e culturais do meio em que o estabelecimento se implanta ou do setor que procure mais diretamente atingir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8. O Estado n&atilde;o se realiza fazendo tudo por si<\/p>\n<p>Como sabemos, foi s&oacute; recentemente &ndash; segunda metade do s&eacute;culo passado &ndash; que se alargou a rede estatal do ensino, procurando proporcionar o respetivo acesso a toda a popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. Justamente o fez, porque o papel do Estado, como primeiro promotor geral do bem comum &eacute; facultar a todos o que a todos &eacute; devido. Nem sempre assim sucedeu, quando, por motivos voluntaristas ou ideol&oacute;gicos, o mesmo Estado esqueceu aquelas iniciativas escolares n&atilde;o estatais j&aacute; implantadas, por vezes com muita abnega&ccedil;&atilde;o e verdadeiro servi&ccedil;o p&uacute;blico da parte dos seus agentes.<\/p>\n<p>Por servi&ccedil;o p&uacute;blico deve entender-se todo o que realmente assim se comporta, projetando a sua a&ccedil;&atilde;o no bem comum geral da sociedade, sendo por isso justamente reconhecido como tal. Certamente &eacute; o caso da escola estatal, diretamente dependente das inst&acirc;ncias oficiais que a promovem e dirigem. Mas esse servi&ccedil;o tamb&eacute;m &eacute; exercido por outras iniciativas educativas, que n&atilde;o partiram dos organismos oficiais nem dele diretamente dependem, sendo igualmente benem&eacute;ritas da sociedade em geral.<\/p>\n<p>&Agrave; boa luz do princ&iacute;pio da subsidiariedade, o Estado n&atilde;o se realiza fazendo tudo imediata e geralmente por si. Realiza-se, em fun&ccedil;&atilde;o do bem comum, quando estimula e possibilita ao m&aacute;ximo a espontaneidade, a criatividade e a corresponsabilidade de pessoas e grupos, para benef&iacute;cio do conjunto e dentro de objetivos gerais democraticamente definidos. Quase se poderia dizer que, neste ponto educativo, a haver supl&ecirc;ncia, seria a do pr&oacute;prio Estado, enquanto administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. E, em boa pedagogia, melhor &eacute; &ldquo;fazer fazer&rdquo; do que fazer tudo sozinho, tamb&eacute;m do Estado em rela&ccedil;&atilde;o &aacute; sociedade; sem a substituir nem menorizar, antes estimulando-a e facultando-lhe proporcionalmente recursos, que, sendo de todos para todos, h&atilde;o de ser ativados tanto solid&aacute;ria como subsidiariamente,&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp; Dito doutro modo e em conclus&atilde;o, a rela&ccedil;&atilde;o entre educa&ccedil;&atilde;o e Estado define-se a partir da educa&ccedil;&atilde;o &ndash; tarefa primordial das fam&iacute;lias e respetivas escolhas, com as iniciativas que livremente suportem, o mesmo se dizendo do que se passar depois com jovens e adultos &ndash; e n&atilde;o a partir do Estado. Como respons&aacute;vel geral do bem comum, o Estado entrar&aacute; &ldquo;antes&rdquo; como subsidiariedade e est&iacute;mulo, para que tais iniciativas possam ir avante, e entrar&aacute; ao mesmo tempo, para que a solidariedade n&atilde;o deixe ningu&eacute;m de fora do sistema educativo, no sentido lato e plural do termo.<\/p>\n<p>Instituto do Ensino Superior da Maia\/ISMAI, 28 de outubro de 2011<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, bispo do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Educa&ccedil;&atilde;o e o Estado 1. No momento atual da nossa hist&oacute;ria coletiva Sobre o tema que me propuseram, deixo-vos simples e breves considera&ccedil;&otilde;es, certamente fruto de alguma vida vivida e convivida em ambientes escolares e dentro da cidadania geral que nos integra a todos. 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