{"id":53559,"date":"2011-10-27T12:08:02","date_gmt":"2011-10-27T12:08:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/27\/discurso-de-bento-xvi-no-encontro-inter-religioso-de-assis\/"},"modified":"2011-10-27T12:08:02","modified_gmt":"2011-10-27T12:08:02","slug":"discurso-de-bento-xvi-no-encontro-inter-religioso-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-de-bento-xvi-no-encontro-inter-religioso-de-assis\/","title":{"rendered":"Discurso de Bento XVI no encontro inter-religioso de Assis"},"content":{"rendered":"<p>Queridos irm&atilde;os e irm&atilde;s,<\/p>\n<p>distintos Chefes e representantes das Igrejas e Comunidades eclesiais e das religi&otilde;es do mundo,<\/p>\n<p>queridos amigos,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa Jo&atilde;o Paulo II convidou representantes das religi&otilde;es do mundo para uma ora&ccedil;&atilde;o pela paz em Assis. O que aconteceu desde ent&atilde;o? Como se encontra hoje a causa da paz? Naquele momento, a grande amea&ccedil;a para a paz no mundo provinha da divis&atilde;o da terra em dois blocos contrapostos entre si. O s&iacute;mbolo saliente daquela divis&atilde;o era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, tra&ccedil;ava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, tr&ecirc;s anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detr&aacute;s do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que os arsenais da viol&ecirc;ncia. A quest&atilde;o sobre as causas de tal derrocada &eacute; complexa e n&atilde;o pode encontrar uma resposta em simples f&oacute;rmulas. Mas, ao lado dos fatores econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos, a causa mais profunda de tal acontecimento &eacute; de car&aacute;ter espiritual: por detr&aacute;s do poder material, j&aacute; n&atilde;o havia qualquer convic&ccedil;&atilde;o espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma viol&ecirc;ncia que n&atilde;o tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vit&oacute;ria da liberdade, que foi tamb&eacute;m e sobretudo uma vit&oacute;ria da paz. E &eacute; necess&aacute;rio acrescentar que, embora neste contexto n&atilde;o se tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, tamb&eacute;m se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto tamb&eacute;m com a ora&ccedil;&atilde;o pela paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, n&atilde;o podemos dizer que desde ent&atilde;o a situa&ccedil;&atilde;o se caracterize por liberdade e paz. Embora a amea&ccedil;a da grande guerra n&atilde;o se aviste no horizonte, todavia o mundo est&aacute;, infelizmente, cheio de disc&oacute;rdias. E n&atilde;o &eacute; somente o facto de haver, em v&aacute;rios lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a viol&ecirc;ncia como tal est&aacute; potencialmente sempre presente e caracteriza a condi&ccedil;&atilde;o do nosso mundo. A liberdade &eacute; um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orienta&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o poucos entendem, erradamente, a liberdade tamb&eacute;m como liberdade para a viol&ecirc;ncia. A disc&oacute;rdia assume novas e assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo novo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da viol&ecirc;ncia e da disc&oacute;rdia. Em grandes linhas, parece-me que &eacute; poss&iacute;vel individuar duas tipologias diferentes de novas formas de viol&ecirc;ncia, que s&atilde;o diametralmente opostas na sua motiva&ccedil;&atilde;o e, nos particulares, manifestam muitas variantes. Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do advers&aacute;rio, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupa&ccedil;&atilde;o pelas vidas humanas inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos respons&aacute;veis, a grande causa da danifica&ccedil;&atilde;o do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. &Eacute; posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite &agrave; viol&ecirc;ncia no direito internacional. Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motiva&ccedil;&atilde;o religiosa e que precisamente o car&aacute;ter religioso dos ataques serve como justifica&ccedil;&atilde;o para esta crueldade monstruosa, que cr&ecirc; poder anular as regras do direito por causa do &laquo;bem&raquo; pretendido. Aqui a religi&atilde;o n&atilde;o est&aacute; ao servi&ccedil;o da paz, mas da justifica&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cr&iacute;tica da religi&atilde;o, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religi&atilde;o seria causa de viol&ecirc;ncia e assim fomentou a hostilidade contra as religi&otilde;es. Que, no caso em quest&atilde;o, a religi&atilde;o motive de facto a viol&ecirc;ncia &eacute; algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religi&atilde;o como causa de viol&ecirc;ncia tamb&eacute;m nas situa&ccedil;&otilde;es onde esta &eacute; exercida por defensores de uma religi&atilde;o contra os outros. O que os representantes das religi&otilde;es congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer &ndash; e n&oacute;s o repetimos com vigor e grande firmeza &ndash; era que esta n&atilde;o &eacute; a verdadeira natureza da religi&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, &eacute; a sua deturpa&ccedil;&atilde;o e contribui para a sua destrui&ccedil;&atilde;o. Contra isso, objeta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religi&atilde;o? A vossa pretens&atilde;o por acaso n&atilde;o deriva do facto que se apagou entre v&oacute;s a for&ccedil;a da religi&atilde;o? E outros objetar&atilde;o: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religi&atilde;o, que se exprima em todas as religi&otilde;es e, por conseguinte, seja v&aacute;lida para todas? Devemos enfrentar estas quest&otilde;es, se quisermos contrastar de modo realista e cred&iacute;vel o recurso &agrave; viol&ecirc;ncia por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do di&aacute;logo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como crist&atilde;o, quero dizer, neste momento: &Eacute; verdade, na hist&oacute;ria, tamb&eacute;m se recorreu &agrave; viol&ecirc;ncia em nome da f&eacute; crist&atilde;. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de d&uacute;vida, tratou-se de um uso abusivo da f&eacute; crist&atilde;, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem n&oacute;s, crist&atilde;os, acreditamos &eacute; o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas s&atilde;o irm&atilde;os e irm&atilde;s entre si e constituem uma &uacute;nica fam&iacute;lia. A Cruz de Cristo &eacute;, para n&oacute;s, o sinal daquele Deus que, no lugar da viol&ecirc;ncia, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome &eacute; &laquo;Deus do amor e da paz&raquo; (2 Cor 13,11). &Eacute; tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela f&eacute; crist&atilde;, purificar continuamente a religi&atilde;o dos crist&atilde;os a partir do seu centro interior, para que &ndash; apesar da fraqueza do homem &ndash; seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se hoje uma tipologia fundamental da viol&ecirc;ncia tem motiva&ccedil;&atilde;o religiosa, colocando assim as religi&otilde;es perante a quest&atilde;o da sua natureza e obrigando-nos a todos a uma purifica&ccedil;&atilde;o, h&aacute; uma segunda tipologia de viol&ecirc;ncia, de aspeto multiforme, que possui uma motiva&ccedil;&atilde;o exatamente oposta: &eacute; a consequ&ecirc;ncia da aus&ecirc;ncia de Deus, da sua nega&ccedil;&atilde;o e da perda de humanidade que resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religi&atilde;o veem nela uma fonte prim&aacute;ria de viol&ecirc;ncia na hist&oacute;ria da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religi&atilde;o. Mas o &laquo;n&atilde;o&raquo; a Deus produziu crueldade e uma viol&ecirc;ncia sem medida, que foi poss&iacute;vel s&oacute; porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentra&ccedil;&atilde;o mostram, com toda a clareza, as consequ&ecirc;ncias da aus&ecirc;ncia de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aqui, por&eacute;m, n&atilde;o pretendo deter-me no ate&iacute;smo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da &laquo;decad&ecirc;ncia&raquo; do homem, em consequ&ecirc;ncia da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma altera&ccedil;&atilde;o do clima espiritual. A adora&ccedil;&atilde;o do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contrarreligi&atilde;o, na qual j&aacute; n&atilde;o importa o homem, mas s&oacute; o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no dom&iacute;nio da droga com as suas formas diversas. A&iacute; est&atilde;o os grandes que com ela fazem os seus neg&oacute;cios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A viol&ecirc;ncia torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, amea&ccedil;a destruir a nossa juventude. Uma vez que a viol&ecirc;ncia se torna uma coisa normal, a paz fica destru&iacute;da e, nesta falta de paz, o homem destr&oacute;i-se a si mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A aus&ecirc;ncia de Deus leva &agrave; decad&ecirc;ncia do homem e do humanismo. Mas, onde est&aacute; Deus? Temos n&oacute;s possibilidades de O conhecer e mostrar novamente &agrave; humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflex&otilde;es feitas at&eacute; agora. Disse que existe uma conce&ccedil;&atilde;o e um uso da religi&atilde;o atrav&eacute;s dos quais esta se torna fonte de viol&ecirc;ncia, enquanto que a orienta&ccedil;&atilde;o do homem para Deus, vivida retamente, &eacute; uma for&ccedil;a de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de di&aacute;logo e falei da purifica&ccedil;&atilde;o, sempre necess&aacute;ria, da viv&ecirc;ncia da religi&atilde;o. Por outro lado, afirmei que a nega&ccedil;&atilde;o de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o &agrave; viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao lado destas duas realidades, religi&atilde;o e antirreligi&atilde;o, existe, no mundo do agnosticismo em expans&atilde;o, outra orienta&ccedil;&atilde;o de fundo: pessoas &agrave;s quais n&atilde;o foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, est&atilde;o &agrave; procura de Deus. Tais pessoas n&atilde;o se limitam a afirmar &laquo;N&atilde;o existe nenhum Deus&raquo;, mas elas sofrem devido &agrave; sua aus&ecirc;ncia e, procurando a verdade e o bem, est&atilde;o, intimamente est&atilde;o a caminho d&rsquo;Ele. S&atilde;o &laquo;peregrinos da verdade, peregrinos da paz&raquo;. Colocam quest&otilde;es tanto a uma parte como &agrave; outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que n&atilde;o existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de pol&eacute;micos, pessoas &agrave; procura, que n&atilde;o perdem a esperan&ccedil;a de que a verdade exista e que n&oacute;s podemos e devemos viver em fun&ccedil;&atilde;o dela. Mas, tais pessoas chamam em causa tamb&eacute;m os membros das religi&otilde;es, para que n&atilde;o considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados &agrave; viol&ecirc;ncia contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem n&atilde;o raramente fica escondida nas religi&otilde;es, devido ao modo como eventualmente s&atilde;o praticadas. Que os agn&oacute;sticos n&atilde;o consigam encontrar a Deus depende tamb&eacute;m dos que creem, com a sua imagem diminu&iacute;da ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que creem tamb&eacute;m um apelo a purificarem a sua f&eacute;, para que Deus &ndash; o verdadeiro Deus &ndash; se torne acess&iacute;vel. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que n&atilde;o re&uacute;ne somente representantes de institui&ccedil;&otilde;es religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a esp&eacute;cie de viol&ecirc;ncia que destr&oacute;i o direito.<\/p>\n<p>Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Cat&oacute;lica n&atilde;o desistir&aacute; da luta contra a viol&ecirc;ncia, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser &laquo;peregrinos da verdade, peregrinos da paz&raquo;.<\/p>\n<p><em>Bento XVI (tradu&ccedil;&atilde;o para portugu&ecirc;s publicada pelo Vaticano)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos irm&atilde;os e irm&atilde;s, distintos Chefes e representantes das Igrejas e Comunidades eclesiais e das religi&otilde;es do mundo, queridos amigos, &nbsp; Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa Jo&atilde;o Paulo II convidou representantes das religi&otilde;es do mundo para uma ora&ccedil;&atilde;o pela paz em Assis. O que aconteceu desde ent&atilde;o? 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