{"id":53537,"date":"2011-10-26T13:13:49","date_gmt":"2011-10-26T13:13:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/26\/a-literatura-nao-revela-a-verdade\/"},"modified":"2011-10-26T13:13:49","modified_gmt":"2011-10-26T13:13:49","slug":"a-literatura-nao-revela-a-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-literatura-nao-revela-a-verdade\/","title":{"rendered":"A literatura n\u00e3o revela a verdade"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Avelar <!--more--> <\/p>\n<p>Quando h&aacute; cerca de trinta anos comecei a trabalhar na Faculdade de Letras de Lisboa, lecionei uma cadeira designada Introdu&ccedil;&atilde;o aos Estudos Liter&aacute;rios. Era, ent&atilde;o, consensual no meu Departamento (Estudos Anglo-Americanos), que nesta cadeira dever&iacute;amos proporcionar a descoberta dos diferentes g&eacute;neros liter&aacute;rios atrav&eacute;s de um di&aacute;logo com a Hist&oacute;ria. Nesse sentido, come&ccedil;&aacute;vamos com a leitura de textos fundadores e formadores da nossa matriz cultural, de <em>Odisseia<\/em> a <em>&Eacute;dipo Rei<\/em>, de <em>As Nuvens<\/em> a <em>O Rei Lear<\/em>, para depois desvendarmos textos cronologicamente mais pr&oacute;ximo de n&oacute;s, como <em>Mensagem<\/em> ou <em>A Terra Devastada,<\/em> ou os fascinantes ecos dos poetas proven&ccedil;ais em Ezra Pound. Dois dos textos por n&oacute;s estudados no in&iacute;cio do ano letivo, quer pela sua dimens&atilde;o liter&aacute;ria quer pela sua relev&acirc;ncia no &acirc;mbito de uma cultura assente no <em>logos<\/em>, eram o <em>G&eacute;nesis<\/em> e<em> <\/em>o <em>Evangelho Segundo Jo&atilde;o<\/em>.<\/p>\n<p>Recordo o impacto que em mim teve a an&aacute;lise rigorosa dessa dimens&atilde;o liter&aacute;ria feita em <em>The Art of Biblical Narrative,<\/em> um livro que descobri no j&aacute; distante ano de 1985, e que naturalmente partilhei com os meus alunos. Foi com alegria que vi confirmada a import&acirc;ncia deste ensaio quando, h&aacute; alguns anos, li a tese de doutoramento do padre Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a.<\/p>\n<p>Atrav&eacute;s destes e doutros textos, quem passava por aquelas aulas compreendia a complexidade e a heterogeneidade dos di&aacute;logos que se foram concebendo ao longo dos s&eacute;culos nos nossos horizontes culturais, e que envolviam aspetos t&atilde;o diversos como a conce&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica cl&aacute;ssica grego-romana, o racionalismo crist&atilde;o, os ecos neo-pitag&oacute;ricos no Renascimento, as convoca&ccedil;&otilde;es neo-plat&oacute;nicas nos Romantismos, a alquimia, o gnosticismo e esoterismos v&aacute;rios revisitando instantes est&eacute;ticos do s&eacute;culo XIX como a arte pr&eacute;-rafaelita, e tantos outros aspetos que d&atilde;o corpo &agrave; nossa identidade presente.<\/p>\n<p>Recordo, por isso, que, ao ler um dos primeiros sucessos de Dan Brown (DB), n&atilde;o pude deixar de pensar que qualquer antigo aluno meu identificaria as banalidades e equ&iacute;vocos ali exibidas; exibidas, diga-se, com o deslumbramento natural t&iacute;pico de quem nunca se deteve para compreender a complexidade da sua mem&oacute;ria cultural coletiva.<\/p>\n<p>Afinal, as grandes obras da cultura ocidental revisitam e questionam esses momentos fundadores, n&atilde;o raro numa tentativa de melhor compreender o presente em que se inscrevem. Os exemplos seriam infind&aacute;veis, por isso recordo apenas um livro de cabeceira meu, <em>Moby-Dick<\/em>. Aqui, numa aparente ca&ccedil;a &agrave; baleia, &eacute; toda uma tradi&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde; que se convoca. Da nomea&ccedil;&atilde;o das personagens &ndash; Acab, Ismael, Elias, Raquel &ndash; &agrave;s vertentes narrativas e simb&oacute;licas, essa tradi&ccedil;&atilde;o invade o romance determinando o seu rumo e at&eacute; a sua resolu&ccedil;&atilde;o. Recorde-se que nas p&aacute;ginas inicias do livro surgem passos do <em>G&eacute;nesis<\/em>, <em>Job<\/em>, <em>Jonas<\/em>, <em>Salmos<\/em> e <em>Isa&iacute;as,<\/em> e que ser&aacute; com uma ep&iacute;grafe colhida em <em>J&oacute;<\/em> 1 &ndash; 15 que ele termina. Neste romance, o autor, Herman Melville, exibe uma busca est&eacute;tica e intelectual, sustentada por uma rara erudi&ccedil;&atilde;o e por uma profunda investiga&ccedil;&atilde;o. No entanto, &eacute; com algum sentido de humor que ele entende as suas cita&ccedil;&otilde;es iniciais da Hist&oacute;ria da nossa cultura como meras incurs&otilde;es de um sub, sub-bibliotec&aacute;rio. Apesar da sua erudi&ccedil;&atilde;o, o romancista\/investigador exibe uma consci&ecirc;ncia face aos limites dos seus pr&oacute;prios conhecimentos.<\/p>\n<p>A par deste encontro com o passado para melhor compreender o nosso presente, a leciona&ccedil;&atilde;o que acima referi, recordava qu&atilde;o relevante era, para a forma&ccedil;&atilde;o de todos n&oacute;s, em qualquer esfera de atividade, uma investiga&ccedil;&atilde;o rigorosa e intelectualmente honesta.<\/p>\n<p>Um dos exemplos que tenho partilhado neste &acirc;mbito &eacute; o primeiro volume da obra de John P. Meier, <em>A Marginal Jew &#8211; Rethinking the&nbsp; Historical Jesus<\/em>. Com efeito, este volume, intitulado &ldquo;The Roots of the Problem and the Person&rdquo;, &eacute; um trabalho not&aacute;vel a n&iacute;vel de investiga&ccedil;&atilde;o e de rigor anal&iacute;tico,&nbsp; distinguindo com clareza espa&ccedil;os de reflex&atilde;o como a Hist&oacute;ria e a Teologia, sem, todavia, ignorar, os pontos em que ambos se cruzam. N&atilde;o ser&aacute;, ali&aacute;s, por acaso que a obra de Meier, para al&eacute;m de obviamente constar da bibliografia final, &eacute; destacada por Joseph Ratzinger\/Bento XVI no primeiro volume de <em>Jesus de Nazar&eacute;<\/em>.<\/p>\n<p>Porqu&ecirc; estas aparentes digress&otilde;es pr&eacute;vias quando o meu objeto aqui &eacute; <em>O &Uacute;ltimo Segredo<\/em>?<\/p>\n<p>Desde logo porque a sombra de Dan Brown paira ao longo de todo o romance de Jos&eacute; Rodrigues dos Santos (JRS).<\/p>\n<p>Antes de prosseguir, importa referir que DB assenta o seu sucesso na conjuga&ccedil;&atilde;o de dois fatores: a escolha de um t&oacute;pico sensacionalista, e uma eficiente estrat&eacute;gia narrativa. A escolha do t&oacute;pico &eacute; fulcral a este n&iacute;vel. Da &ldquo;mensagem cifrada&rdquo; na &Uacute;ltima Ceia, &agrave; simbologia e pr&aacute;ticas ma&ccedil;&oacute;nicas no espa&ccedil;o americano, &eacute; todo um universo esot&eacute;rico que emerge, apelando a uma curiosidade algo na&iuml;ve do p&uacute;blico leitor. Digo na&iuml;ve porque, como referi, qualquer antigo aluno dessas aulas de Introdu&ccedil;&atilde;o aos Estudos Liter&aacute;rios de imediato desmontaria os &ldquo;segredos&rdquo; ali mencionados. Recorde-se que a presen&ccedil;a da ma&ccedil;onaria nos primeiros anos da na&ccedil;&atilde;o americana e a forma como ela se projetou na conce&ccedil;&atilde;o arquitet&oacute;nica de Washington, por exemplo, s&atilde;o dados que qualquer estudante de estudos americanos identifica.<\/p>\n<p>Junte-se a essa dimens&atilde;o esot&eacute;rica a necess&aacute;ria dose de teoria da conspira&ccedil;&atilde;o, e temos os ingredientes necess&aacute;rios para o sucesso.<\/p>\n<p>No entanto, DB vai mais longe atrav&eacute;s da eficiente estrat&eacute;gia narrativa por ele concebida. E esta, importa esclarecer, &eacute; devedora de duas artes do s&eacute;culo XX, o cinema e a banda desenhada. Tal como no cinema de Griffith, DB recorre &agrave; montagem paralela, fazendo alternar duas narrativas aparentemente distintas que, em determinado ponto, convergem. Tal como na BD, DB escreve cada cap&iacute;tulo como se de uma prancha se tratasse. Recordo, por exemplo, quando, na minha juventude, li <em>O Enigma da Atl&acirc;ntida<\/em> na revista <em>TinTin<\/em>, e como, no final de cada prancha, ficava em suspenso aguardando pelo n&uacute;mero seguinte, e assim sucessivamente. Ora, tamb&eacute;m DB usa cap&iacute;tulos muito curtos que terminam com uma situa&ccedil;&atilde;o que fica por resolver; ainda o mist&eacute;rio. O facto de as narrativas serem intercaladas, faz com que a leitura se torne compulsiva, j&aacute; que o leitor prossegue sempre em busca do mist&eacute;rio que ficou por relevar no final de cada cap&iacute;tulo.<\/p>\n<p>Uma t&eacute;cnica obviamente eficiente, portanto! Mas que, apesar de todo um jarg&atilde;o pretensamente cient&iacute;fico, o que ali est&aacute; em causa s&atilde;o, afinal, livros de aventuras, n&atilde;o tenho d&uacute;vidas. Confesso que tive a felicidade de, na minha juventude, serem outras as modas, e de Em&iacute;lio Salgari e Enid Blyton terem participado, ent&atilde;o, do meu imagin&aacute;rio.<\/p>\n<p>Hoje, restam apenas os seus banais imitadores!<\/p>\n<p>Creio que este sucinta incurs&atilde;o pela obra de DB de imediato ilumina os ingredientes que d&atilde;o corpo ao romance de JRS.<\/p>\n<p>Tal como DB, tamb&eacute;m JRS recorre a um t&oacute;pico apelativo. Desde logo, o t&iacute;tulo prima pela efici&ecirc;ncia, convidando o leitor a partilhar com o autor a descoberta de algo de essencial. Ali&aacute;s, este n&atilde;o &eacute; apenas <em>um qualquer <\/em>segredo, ou at&eacute; mesmo <em>o<\/em> segredo, mas sim, <em>o &uacute;ltimo<\/em>. A leitura corresponder&aacute;, assim, a uma transforma&ccedil;&atilde;o radical do leitor. O conhecimento, quem n&atilde;o o deseja? Acresce a este aspeto a informa&ccedil;&atilde;o inicial de que &ldquo;todas as cita&ccedil;&otilde;es de fontes religiosas e todas as informa&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas e cient&iacute;ficas inclu&iacute;das neste romance s&atilde;o verdadeiras.&rdquo; Verdadeiras? O que significa? Um acad&eacute;mico diria que eram rigorosas, ou que respeitavam as suas fontes. Enfim, minud&ecirc;ncias&#8230; Afinal, que mais se poder&aacute; exigir da leitura?<\/p>\n<p>No plano formal, tal como DB, tamb&eacute;m JRS recorre &agrave;s suas narrativas paralelas que, em determinado ponto, convergem. No entanto, enquanto DB opta por breves &ldquo;pranchas&rdquo;, JRS s&oacute; na narrativa secund&aacute;ria recorre &agrave; prancha, j&aacute; que a narrativa central, a da demanda policial, estende-se de uma forma particularmente dolorosa, embora, por vezes, hilariante. Porqu&ecirc;? Porque &eacute; atrav&eacute;s desta narrativa que JRS vai finalmente desmontar um equ&iacute;voco que persiste na Hist&oacute;ria da Humanidade desde h&aacute; dois mil anos. &ldquo;E se eu lhe disser que pelos vistos a Patr&iacute;cia andava &agrave; ca&ccedil;a dos erros do Novo Testamento? &hellip; &ldquo;N&atilde;o sabia? A B&iacute;blia cont&eacute;m muitos erros. &hellip; S&atilde;o milhares de erros a infetar a B&iacute;blia,&#8217; murmurou, &#8216;incluindo fraudes&#8217;.&rdquo; (p. 44) Seguir-se-&atilde;o infind&aacute;veis solil&oacute;quios ao longo dos quais o protagonista &ndash; alterego de JRS? &#8211; vai citar de mem&oacute;ria in&uacute;meros e extensos passos b&iacute;blicos, e ler outros tantos.<\/p>\n<p>Solil&oacute;quios ou di&aacute;logos? Solil&oacute;quios, j&aacute; que a interlocutora principal do protagonista &ndash; um historiador portugu&ecirc;s &ndash;, uma atraente agente da pol&iacute;cia judici&aacute;ria italiana funciona como mera ouvinte que, no seu espanto perante as revela&ccedil;&otilde;es do iluminado portugu&ecirc;s, se limita a fazer-lhe perguntas que permitir&atilde;o a este &uacute;ltimo prosseguir na sua miss&atilde;o de desmontar o equ&iacute;voco em que assenta a nossa civiliza&ccedil;&atilde;o. Mas j&aacute; l&aacute; vamos!&nbsp;<\/p>\n<p>Refira-se, por fim, que, enquanto DB escolhia apenas um t&oacute;pico que abordava sinteticamente, de modo a desenvolver a sua narrativa, j&aacute; JRS revela uma ambi&ccedil;&atilde;o muito superior. Afinal, o seu objetivo &eacute; o de desmontar os fundamentos de toda uma civiliza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; obra!<\/p>\n<p>Tal como em DB, tamb&eacute;m aqui tudo come&ccedil;a &agrave; noite com um assassinato, cujo autor, tal como em DB, &eacute; um indiv&iacute;duo misterioso pertencente a uma seita&#8230; secreta, pois claro. Um assassino que, no final de cada miss&atilde;o, entra em contacto com&#8230; exatamente, um misterioso mestre. D&eacute;j&agrave; vu? N&atilde;o!<\/p>\n<p>A Biblioteca do Vaticano, sim, a Biblioteca do Vaticano &eacute; um espa&ccedil;o privilegiado da a&ccedil;&atilde;o. Depois, os nossos her&oacute;is &ndash; tal como em DB &ndash; viajam de um pa&iacute;s para outro, sempre na senda dos crimes mais recentes, at&eacute;, por fim, chegarem a Jerusal&eacute;m onde nos aguarda a resolu&ccedil;&atilde;o do mist&eacute;rio. Por fim, tal como em DB, um mist&eacute;rio hermen&ecirc;utico caminha a par de um mist&eacute;rio cient&iacute;fico.<\/p>\n<p>Acredito que este romance seja uma homenagem a DB, &agrave; forma como ele escolhe e aborda os temas, &agrave; sua estrat&eacute;gia narrativa, aos seus ritmos, aos seus espa&ccedil;os, aos seus processos de sedu&ccedil;&atilde;o do leitor. Com efeito, quem tenha lido um livro de DB de imediato reconhece tudo isso. Creio, ali&aacute;s,&nbsp; que &eacute; perfeitamente leg&iacute;timo escolher um romance para elogiar um romancista que se admira. Perturba-me, por&eacute;m, a aus&ecirc;ncia de verosimilhan&ccedil;a em<em> O &Uacute;ltimo Segredo<\/em>.<\/p>\n<p>Como qualquer estudioso de literatura ou qualquer leitor atento sabem, a literatura n&atilde;o revela a verdade. A sua busca est&aacute; entregue a outras disciplinas do saber. O que importa num romance, por exemplo, &eacute; que ele seja veros&iacute;mil. J&aacute; Hor&aacute;cio, na <em>Arte Po&eacute;tica<\/em>, falava deste aspeto. Assim, <em>O Senhor dos An&eacute;is<\/em> &eacute; veros&iacute;mil, embora eu n&atilde;o esteja &agrave; espera de encontrar seres humanos pequeninos com p&eacute;s descal&ccedil;os exageradamente grandes quando vou ao caf&eacute;, nem magos com bast&otilde;es no centro de sa&uacute;de. Sei que essas entidades existem apenas ali, no romance. E, todavia, n&atilde;o me passa pela cabe&ccedil;a dizer que o romance &eacute; mentira. Ele possui uma l&oacute;gica e uma coer&ecirc;ncia internas que me fazem imergir na experi&ecirc;ncia de leitura, retirando prazer e, eventualmente, algum proveito pedag&oacute;gico. Afinal, a luta entre o bem e o mal tamb&eacute;m perpassa por aquelas p&aacute;ginas.<\/p>\n<p>Ora, como referi, &eacute; exatamente no plano da verosimilhan&ccedil;a que este&nbsp; <em>O &Uacute;ltimo Segredo<\/em> me perturba. Desde logo, pelo protagonista.<\/p>\n<p>&Eacute; obviamente simp&aacute;tico, numa altura de depress&atilde;o nacional, que um her&oacute;i portugu&ecirc;s lidere uma opera&ccedil;&atilde;o internacional que pretende desvendar esse derradeiro segredo. No entanto, qual &eacute; o perfil deste her&oacute;i? Sabemos tratar-se de um historiador da Universidade Nova de Lisboa que &eacute; consultor da Funda&ccedil;&atilde;o Gulbenkian. At&eacute; aqui tudo bem, mas&#8230; qualquer acad&eacute;mico sabe que os historiadores s&atilde;o especialistas em &aacute;reas. Dificilmente um especialista em Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea ler&aacute; aramaico, por exemplo. Em que &aacute;rea &eacute; especialista o Tom&aacute;s Noronha? N&atilde;o sendo ele arque&oacute;logo, por que raz&atilde;o est&aacute; ele a trabalhar numas ru&iacute;nas em Roma? Porque &eacute; conselheiro da Gulbenkian. Mas conselheiro de qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Tom&aacute;s Noronha &eacute;, afinal, algu&eacute;m que aparece &ldquo;quando se fala em livros antigos&#8230;&rdquo; (p. 21) &ldquo;Trajano deu-nos esta obra maravilhosa e o senhor est&aacute; a ajudar-nos a recuper&aacute;-la.&rdquo; (p. 22) &ldquo;Trabalhos de peritagem&rdquo; (p. 36) Em qu&ecirc;? Como? Porqu&ecirc;?&nbsp; Com efeito, a figura do historiador &eacute; &uacute;til, visto conferir uma legitimidade e um estatuto a n&iacute;vel do saber que ser&atilde;o necess&aacute;rios &agrave; explana&ccedil;&atilde;o da agenda em causa, a teoria conspirat&oacute;ria em que o romance assenta. &Eacute; demasiado vago, por&eacute;m. Estamos, assim, perante uma personagem que, embora n&atilde;o nas&ccedil;a do nada, possui uma muito vaga configura&ccedil;&atilde;o. Ou seja, uma personagem pouco veros&iacute;mil no in&iacute;cio que, posteriormente, se revela um especialista em estudos b&iacute;blicos, nomeadamente pela forma como cita de mem&oacute;ria extens&iacute;ssimos passos da B&iacute;blia. Mas s&ecirc;-lo-&aacute; mesmo? &ldquo;Sabe, a minha especialidade &eacute; a hist&oacute;ria&#8230;&rdquo; (p. 386) Qual? De qu&ecirc;? Demasiado pobre para um historiador, admita-se.<\/p>\n<p>De duvidosa verosimilhan&ccedil;a &eacute; igualmente a configura&ccedil;&atilde;o da personagem feminina. Sendo ela uma mulher jovem, din&acirc;mica, com um estatuto relevante num mundo dominado por homens, como se compreende que reaja perante as elucubra&ccedil;&otilde;es iluminadas do nosso conterr&acirc;neo como se de uma adolescente deslumbrada se tratasse. Como &eacute; que ela, tendo sido educada numa cultura cat&oacute;lica que ela, ali&aacute;s, assume, fica algo aparvalhada quando ele lhe revela o que eram as Ep&iacute;stolas: &ldquo;&#8217;&#8230; eram simples cartas.&#8217; &#8216;Como os emails que trocamos hoje em dia?&#8217; Tom&aacute;s riu-se. &hellip; &#8216;E os Evangelhos surgiram tamb&eacute;m em cartas?&#8217; &hellip; &#8216;Ah!&#8217;, exclamou a inspetora. &#8216;E foi assim que os Evangelhos foram escritos.&rdquo; (pp. 62 e 63) Uma mulher pateta que, apesar de cat&oacute;lica, ignora quest&otilde;es b&aacute;sicas da doutrina que professa, est&aacute;, assim, a ser elucidada por este universit&aacute;rio esclarecido.<\/p>\n<p>Mais adiante ser-lhe-&aacute; revelado o &ldquo;verdadeiro&rdquo; significado do Pai Nosso. Ela, naturalmente, responde perplexa: &ldquo;&Eacute; curioso, nunca tinha reparado nisto.&rdquo; E acrescenta: &ldquo;<em>Mamma mia<\/em>! Da pr&oacute;xima vez que rezar vou prestar mais aten&ccedil;&atilde;o ao que digo!&#8230;&rdquo; (p. 317)<\/p>\n<p>Este &eacute; apenas um dos muitos passos que seriam hilariantes, n&atilde;o fosse ele sinal de uma misogin&iacute;a confrangedora. &ldquo;Mas como &eacute; poss&iacute;vel que eu nunca tenha ouvido estas coisas na missa?&rdquo; (p. 110) Coitada! Qu&atilde;o ignorantes s&atilde;o estas mulheres emancipadas!<\/p>\n<p>De duvidosa verosimilhan&ccedil;a &eacute;, tamb&eacute;m, a forma como os di&aacute;logos\/solil&oacute;quios se arrastam em situa&ccedil;&otilde;es de grande tens&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o iminente. Dificilmente se acreditar&aacute; que numa cena de crime, a inspetora cesse a sua atividade para ouvir passivamente uma longa disserta&ccedil;&atilde;o sobre hermen&ecirc;utica. Dificilmente se compreende que, apesar de estarem prestes a serem devorados pelas chamas, o historiador n&atilde;o prescinda de fazer as suas disserta&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas. Dificilmente se compreende que algu&eacute;m que tem uma arma branca encostada ao pesco&ccedil;o confidencie ao seu atacante: &ldquo;Oi&ccedil;a &#8230;vamos conversar.&rdquo; (p. 288) Se fosse o James Bond, talvez. Agora, um historiador, mesmo sendo portugu&ecirc;s, n&atilde;o creio.<\/p>\n<p>Para n&atilde;o falar das viagens que se sucedem sem que exista um nexo expl&iacute;cito e que justifique a lideran&ccedil;a da investiga&ccedil;&atilde;o por parte da judici&aacute;ria italiana quando outras jurisdi&ccedil;&otilde;es est&atilde;o em causa.<\/p>\n<p>Para n&atilde;o falar da presen&ccedil;a e do protagonismo do nosso conterr&acirc;neo em todas estas deambula&ccedil;&otilde;es; ou da forma como ele exibe <em>a sua<\/em> B&iacute;blia sempre que &eacute; necess&aacute;rio confirmar uma tese (n&atilde;o me parece muito veros&iacute;mil que um vulgar cidad&atilde;o ande sempre com uma B&iacute;blia consigo!).<\/p>\n<p>Para n&atilde;o falar, acima de tudo, do facto de o historiador conseguir liquidar um indiv&iacute;duo treinado nas for&ccedil;as especiais israelitas: &ldquo;uma vez infiltrou-se sozinho numa gruta e, armado apenas com uma faca de mato, eliminou um pelot&atilde;o inteiro de <em>mudjahein<\/em>.&rdquo; (p. 517) Ora, neste caso, &ldquo;o que salvou Tom&aacute;s foi um misto de intui&ccedil;&atilde;o, comportamento preventivo e reflexos r&aacute;pidos.&rdquo; (p. 520) Uma receita que, por certo, nenhum dos <em>mudjahein <\/em>tinha&#8230; Confesso que conhe&ccedil;o muitos historiadores, mas n&atilde;o creio que nenhum deles fosse capaz de semelhante proeza!<\/p>\n<p>Poder-se-ia falar ainda de uma certa &ldquo;ligeireza&rdquo; na evoca&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica; por exemplo, &ldquo;Jesus admite que gostava da pingoleta e que era um bom valente garfo!&rdquo; (p. 271) &ldquo;ele [Jesus] veio das ber&ccedil;as! &hellip; onde s&oacute; havia pac&oacute;vios.&rdquo; (p. 278) &ldquo;Jesus e seus ap&oacute;stolos. Ou seja, um bando de provincianos. &hellip; Como eram cegos aqueles labregos!&rdquo; (p. 339) Se esta &eacute; a forma de um erudito abordar um t&oacute;pico da sua especialidade, ent&atilde;o estamos falados!<\/p>\n<p>O del&iacute;rio est&aacute;, todavia, reservado para o final: o ADN de Cristo foi recuperado e Ele ser&aacute; objeto de clonagem. E mais n&atilde;o digo!<\/p>\n<p>N&atilde;o pude evitar de soltar uma gargalhada quando cheguei a este passo. Um dos meus filhos que passou nessa altura pelo escrit&oacute;rio, perguntou-me por que raz&atilde;o estava eu a rir. Expliquei-lhe porqu&ecirc; e ele retorquiu: &ldquo;N&atilde;o &eacute; verdade! Est&aacute;s a brincar!&rdquo; Assegurei-lhe que era verdade, isto &eacute;, era o que eu tinha lido. E ele acrescentou: &ldquo;Mas isso &eacute; Dan Brown<em> for dummies<\/em>!&rdquo; Dan Brown para tontos, portanto.<\/p>\n<p>Considerando que apesar da destrui&ccedil;&atilde;o final, ainda &ldquo;sobreviveram dois tubos de ensaio&rdquo;, fica aberto o caminho para uma sequela.<\/p>\n<p><em>M&aacute;rio Avelar, Professor Catedr&aacute;tico de Estudos Anglo-Americanos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Avelar<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,131,168],"class_list":["post-53537","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-clonagem","tag-diocese-da-guarda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53537"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53537\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}