{"id":53520,"date":"2011-10-25T16:02:26","date_gmt":"2011-10-25T16:02:26","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/25\/entre-damieta-e-assis-passado-e-o-futuro-do-espirito-de-assis\/"},"modified":"2011-10-25T16:02:26","modified_gmt":"2011-10-25T16:02:26","slug":"entre-damieta-e-assis-passado-e-o-futuro-do-espirito-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entre-damieta-e-assis-passado-e-o-futuro-do-espirito-de-assis\/","title":{"rendered":"Entre Damieta e Assis &#8211; Passado e o futuro do Esp\u00edrito de Assis"},"content":{"rendered":"<p>Frei Isidro Lamelas, franciscano <!--more--> <\/p>\n<p>Celebramos 25 anos do &ldquo;Esp&iacute;rito de Assis&rdquo;, mas poder&iacute;amos dizer que j&aacute; l&aacute; v&atilde;o muitos mais anos, desde que esse Esp&iacute;rito sopra em Assis e irradia da cidade de Francisco.<\/p>\n<p><span>&Eacute;, de facto, oportuno recordar que o &ldquo;Esp&iacute;rito de Assis&rdquo; encontra as suas raizes inspiradoras e renovadoras no gesto prof&eacute;tico de S. Fancisco que, no ano de 1219, deixou sua cidade de Assis para ir ao encontro dos irm&atilde;os mu&ccedil;ulmanos para lhes anunciar o evangelho da Paz. A 5 de novembro assistiu &agrave; tomada de Damieta por parte dos cruzados crist&atilde;os, depois de os ter tentado convencer a evitar a sangrenta batalha. Horrorizado com a crueldade do combate, pede e consegue da parte do sult&atilde;o Malik al-Kamil uma audi&ecirc;ncia que parece n&atilde;o ter produzido grandes sucessos. As fontes narram, por&eacute;m, que o cora&ccedil;&atilde;o do Sult&atilde;o ficou tocado pela simplicidade do gesto e verdade das inten&ccedil;&otilde;es do <em>Poverello<\/em>. Pouco tempo depois Francisco veio a saber que cinco irm&atilde;os seus tinham sido martirizados em Marrocos. <\/span><\/p>\n<p><span>Num tempo em que muitos pregavam a cruzada e usavam a viol&ecirc;ncia das armas em nome do Evangelho, Francisco teve a inspira&ccedil;&atilde;o de propor outro caminho, ordenando, na sua <em>Regra<\/em>, que &ldquo;os irm&atilde;os que v&atilde;o para entre os Mu&ccedil;ulmanos se devem comportar no meio deles do seguinte modo: n&atilde;o litiguem nem disputem mas sujeitem-se a toda a criatura humana por amor de Deus e confessem ser crist&atilde;os&rdquo;. <\/span><\/p>\n<p><span>Mas haveria que lembrar mais um acontecimento, de entre os muitos gestos de paz promovidos pelo Santo de Assis, para melhor percebermos o motivo pelo qual Assis aparece associada ao renovamento do Esp&iacute;rito de Paz promovido pelo Papa Jo&atilde;o Paulo II e continuado pelo atual Pont&iacute;fice, Bento XVI.<\/span><\/p>\n<p><span>Contam as fontes franciscanas que, pelo ano 1225, entre o bispo de Assis e o podest&agrave; da cidade &ldquo;nasceu uma feroz contenda&rdquo;, ao ponto de o primeiro ter excomungado este &uacute;ltimo. Francisco, triste e indignado sobretudo por ver que ningu&eacute;m fazia algo para restabelecer a paz entre os dois, decidiu intervir. Envolveu ent&atilde;o seus irm&atilde;os para que convidassem bispo e podest&agrave; e muita gente da cidade para celebrarem um encontro de reconcilia&ccedil;&atilde;o. Comp&ocirc;s, para essa circunst&acirc;ncia, mais uma estrofe do seu <em>C&acirc;ntico do Irm&atilde;o Sol<\/em> que reza assim: &ldquo;<em>Louvado sejas tu, meu Senhor, por quem perdoa por teu amor; por quem sofre prova&ccedil;&otilde;es e doen&ccedil;a; feliz quem as suporta em paz, porque ser&aacute; por ti, Alt&iacute;ssimo, coroado!<\/em>&rdquo; Deu-se o encontro, em que os frades cantaram esta estrofe e, e a paz foi restabelecida. Gra&ccedil;as &agrave; poesia espiritual de Francisco e &agrave; m&uacute;sica da fraternidade, a pra&ccedil;a de Assis tornou-se um palco de paz.<\/span><\/p>\n<p><span>Evoco estes epis&oacute;dios e as palavras de Francisco para recordar &ndash; caso fosse necess&aacute;rio &#8211; que &eacute; o mesmo Esp&iacute;rito que moveu Francisco a transpor fronteiras para dialogar com os &ldquo;da outra margem&rdquo; ou que o moveu a interferir (ele e seus frades) em tantas situa&ccedil;&otilde;es de contenda entre pessoas, poderes e institui&ccedil;&otilde;es, que est&aacute; na g&eacute;nese do &ldquo;esp&iacute;rito de Assis&rdquo;. <\/span><\/p>\n<p><span>Jo&atilde;o Paulo II, inspirando-se na ousadia evang&eacute;lica dos gestos e palavras do Santo de Assis, quis fazer renascer das cinzas de um s&eacute;culo marcado por guerras e intoler&acirc;ncia esse Esp&iacute;rito pentecostal que nos convoca ao encontro e ao di&aacute;logo para a paz. Momentos como os que se foram repetindo ao longo dos dois &uacute;ltimos pontificados, em Assis e por todo o mundo, as m&uacute;ltiplas &ldquo;Celebra&ccedil;&otilde;es&rdquo; e &ldquo;Jornadas do Esp&iacute;rito de Assis&rdquo;, ao longo destes 25 anos, constituem j&aacute; um indestrut&iacute;vel patrim&oacute;nio da humanidade.<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, olhando para este passado do &ldquo;esp&iacute;rito de Assis&rdquo;, muitos se perguntam pelo seu futuro. Depois do 11 de setembro de 2001, perante a estrat&eacute;gia do terror promovida por alguns grupos fundamentalistas, face aos confrontos cada vez mais frequentes como os que sucederam h&aacute; dias no Egito entre crist&atilde;os e mu&ccedil;ulmanos, que resultaram em 24 mortos e mais de 200 feridos, muitos perguntam que sentido faz continuar a promover o &ldquo;Esp&iacute;rito de Assis&rdquo;. Porqu&ecirc; continuar a acreditar no di&aacute;logo e a promover encontros entre as religi&otilde;es, quando se mostram t&atilde;o prec&aacute;rios os frutos daquele gesto de S. Francisco ou, daquelas jornadas de esperan&ccedil;a promovidas desde o j&aacute; distante 27 de outubro de 1986? Poder&iacute;amos ir mesmo mais longe: Que significa celebrarmos o &ldquo;Esp&iacute;rito de Assis&rdquo; quando no seio dos crist&atilde;os e at&eacute; da pr&oacute;pria Igreja cat&oacute;lica h&aacute; rivalidades incur&aacute;veis, conflitos e as divis&otilde;es que se agravam em vez de se dissiparem? Uns querem-se apoderar do &ldquo;esp&iacute;rito de Assis&rdquo; como &ldquo;frase feita&rdquo; ou f&oacute;rmula m&aacute;gica para tudo e para nada, outros olham para esta causa com grande suspeita, chegando mesmo a consider&aacute;-la uma ced&ecirc;ncia &agrave; ideologia relativista e amea&ccedil;a &agrave; integridade da f&eacute; da Igreja. E j&aacute; se ouvem at&eacute; vozes que prop&otilde;em, em vez desse &ldquo;esp&iacute;rito&rdquo; de paz e di&aacute;logo, a via &ldquo;mais eficaz e realista&rdquo; do regresso ao esp&iacute;rito de cruzada. E parecem falar cada vez mais alto os herdeiros daqueles que j&aacute; se tinham escandalizado com o gesto corajoso do Beato Jo&atilde;o Paulo II, quando convocou todas as religi&otilde;es do mundo a rezarem juntas, cada uma na sua f&eacute; e liturgia, pela paz. <\/span><\/p>\n<p><span>Mas porque ter medo do movimento do Esp&iacute;rito? Francisco ensina, na sua <em>Regra<\/em>, que &laquo;nada mais devemos buscar sen&atilde;o ter em primeiro lugar o Esp&iacute;rito do Senhor e deixar-nos guiar por Ele&raquo;. O &ldquo;Esp&iacute;rito&rdquo; de Assis n&atilde;o &eacute;, pois o esp&iacute;rito <em>de<\/em> Francisco ou<em> de<\/em> qualquer outro homem, Ordem ou institui&ccedil;&atilde;o: &eacute; o Esp&iacute;rito de Deus e, portanto, o Esp&iacute;rito de toda a Igreja e humanidade, sem ser monop&oacute;lio de ningu&eacute;m. Se n&atilde;o &eacute; esse Sopro de Deus que nos move, n&atilde;o iremos a lugar algum. Tamb&eacute;m n&atilde;o iremos muito longe se antepusermos o preconceito &agrave; caridade. Francisco olhou o Sult&atilde;o do Egito com estima (<em>cum aestimatione<\/em>), reconhecendo que &ldquo;adorava o &uacute;nico Deus, vivo, misericordioso e omnipotente, criador do C&eacute;u e da terra, que falou aos homens&rdquo;. Cientes estamos, por&eacute;m, de que o di&aacute;logo &eacute; o <em>caminho<\/em>, n&atilde;o &eacute; o termo: Francisco dialogou com os cruzados para que depusessem as armas, e com o Sult&atilde;o para que aceitasse o Deus de Jesus Cristo. Enquanto tal, o di&aacute;logo inter-religioso nunca se poder&aacute; confundir com sincretismo nem irenismo pol&iacute;tico, pois os buscadores da Paz s&oacute; poder&atilde;o seguir o trilho da convers&atilde;o ao Senhor da Paz. Por outro lado, os resultados alcan&ccedil;ados n&atilde;o podem ser avaliados pela efic&aacute;cia imediata ou por crit&eacute;rios humanos, pois o &ldquo;o Esp&iacute;rito sopra quando quer&rdquo;: o mundo parece n&atilde;o ter mudado muito depois de Francisco ou de Jo&atilde;o Paulo II. Mas quantos mundos n&atilde;o mudaram gra&ccedil;as a estes e outros instrumentos do Esp&iacute;rito? <\/span><\/p>\n<p><span>N&atilde;o h&aacute;, pois, que ter medo dos que s&atilde;o movidos por esse Esp&iacute;rito, devemos &eacute; perguntar, que esp&iacute;rito nos move a n&oacute;s. O &ldquo;Esp&iacute;rito de Assis&rdquo; poder&aacute; ter at&eacute; outros nomes, mas n&atilde;o muitas alternativas. S&oacute; percorrendo o caminho da paz, estamos a &ldquo;estamos no caminho certo, porque estamos no caminho do Deus da paz&rdquo; (Bento XVI). Por isso, n&atilde;o existe um caminho para o di&aacute;logo: o caminho &eacute; o di&aacute;logo; assim como n&atilde;o h&aacute; uma via para a paz: a via &eacute; a pr&oacute;pria Paz. O di&aacute;logo, entendido como caminho de encontro e discernimento da Verdade n&atilde;o &eacute;, para o crist&atilde;o, opcional, mas exig&ecirc;ncia da pr&oacute;pria f&eacute; que nos diz que homem algum ou situa&ccedil;&atilde;o humana alguma nos &eacute; estranha ou indiferente, muito menos quando h&aacute; sofrimento e injusti&ccedil;as alimentados em nome de Deus. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><em>Isidro Pereira Lamelas, Ordem dos Frades Menores (Franciscanos)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Isidro Lamelas, franciscano<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,213,246],"class_list":["post-53520","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-franciscanos","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53520\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}