{"id":5352,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p>\u00abEste ano celebramos a P\u00e1scoa num ambiente de inseguran\u00e7a e de incerteza, provocado pelo terrorismo. No Iraque, na Palestina, em Madrid, uma viol\u00eancia cruel e irracional sacudiu a sociedade\u00bb <!--more--> \t1. Estamos, de novo, a celebrar a P\u00e1scoa. E esta tem de ser, este ano, a P\u00e1scoa da confian\u00e7a e da serenidade. Em cada celebra\u00e7\u00e3o pascal entrecruzam-se duas dimens\u00f5es: a mem\u00f3ria da morte de Cristo, que com a mansid\u00e3o de um cordeiro conduzido ao matadouro, se oferece, serena e generosamente, pela salva\u00e7\u00e3o da humanidade, e as tens\u00f5es e sofrimentos da humanidade, em cada tempo e em cada ano, a mostrarem que a Paix\u00e3o de Cristo continua actual e necess\u00e1ria, como fonte misteriosa da Confian\u00e7a. \tJ\u00e1 foi assim naquele ano, em Jerusal\u00e9m. A serenidade do Senhor, a superioridade que lhe v\u00eaem da consci\u00eancia de ser o Filho de Deus, da natureza da Sua miss\u00e3o e da liberdade com que oferece a pr\u00f3pria vida, contrastam com os \u00f3dios e tens\u00f5es daquela Cidade, onde as autoridades religiosas e os representantes do povo, incapazes de reconhecerem em Jesus de Nazar\u00e9 o Messias prometido, n\u00e3o hesitam em recorrer \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 mentira, arrastando as multid\u00f5es, para terem perante o representante de C\u00e9sar uma subservi\u00eancia que rondava a hipocrisia. O Senhor tinha raz\u00e3o para chorar por esta multid\u00e3o e pela sua cidade. Naquele ano, em Jerusal\u00e9m, a festa da P\u00e1scoa foi agitada, n\u00e3o foi a festa da liberta\u00e7\u00e3o, da alegria e da confian\u00e7a. Foi-o, certamente, para Jesus que Se entrega serenamente e para um grupo de fi\u00e9is disc\u00edpulos, entre os quais estava Maria, Sua M\u00e3e, que em sil\u00eancio captam a fecundidade transformadora do sacrif\u00edcio de um inocente. \tO ano passado celebr\u00e1mos a P\u00e1scoa em plena invas\u00e3o do Iraque, decis\u00e3o que dividiu a comunidade internacional, gerou receios, trouxe sofrimento e viol\u00eancia. Nessa altura, nesta mesma celebra\u00e7\u00e3o do Domingo de Ramos, disse-vos: \u201cA P\u00e1scoa deste ano \u00e9 ensanguentada pelos horrores da guerra. Quanto sofrimento escusado e in\u00fatil. A reac\u00e7\u00e3o da Igreja s\u00f3 pode ser a de se unir profundamente ao seu Senhor, numa alian\u00e7a de amor\u201d. Este ano celebramos a P\u00e1scoa num ambiente de inseguran\u00e7a e de incerteza, provocado pelo terrorismo. No Iraque, na Palestina, em Madrid, uma viol\u00eancia cruel e irracional sacudiu a sociedade, j\u00e1 habituada a lidar com as suas dificuldades e problemas em ambiente de paz social. A viol\u00eancia choca, a il\u00f3gica da estrat\u00e9gia confunde; a pr\u00f3pria incapacidade de compreens\u00e3o do fen\u00f3meno, gera medo e inseguran\u00e7a; a superficialidade com que se propagam boatos e se conjecturam amea\u00e7as, n\u00e3o facilita a objectividade necess\u00e1ria para solidificar a serenidade. Para n\u00f3s crist\u00e3os, esta P\u00e1scoa tem de ser a P\u00e1scoa da confian\u00e7a.  \t2. Como podemos n\u00f3s, os crist\u00e3os, que celebramos a P\u00e1scoa, contribuir para este clima de serenidade e confian\u00e7a? Antes de mais, ouvindo e acolhendo a Palavra de Deus. \u00c9 nestes momentos de inseguran\u00e7a humana que podemos perceber melhor como s\u00f3 a Palavra de Deus e a f\u00e9 podem ser fonte de sabedoria, de serenidade e de paz. Na primeira leitura, o Profeta Isa\u00edas, referindo-se ao Servo sofredor, diz: \u201cO Senhor deu-me a gra\u00e7a de falar como um disc\u00edpulo, para que eu saiba amparar, com uma palavra, os que andam extenuados\u201d. Eis a mensagem desta P\u00e1scoa: perante os nossos irm\u00e3os dilacerados pela viol\u00eancia, perante multid\u00f5es extenuadas e assustadas, reagir como disc\u00edpulos, falar como disc\u00edpulos de Jesus Cristo. E o que pode isso significar?  \t* Antes de mais, segui-l\u2019O como nosso Mestre. S\u00f3 a sua Palavra nos pode guiar, ela tem de ser a fonte do nosso discernimento. Ele come\u00e7a por nos iluminar com o exemplo da sua serenidade no sofrimento. H\u00e1 uma fecundidade misteriosa no sofrimento inocente. A morte de Cristo foi a maior injusti\u00e7a de toda a hist\u00f3ria da humanidade; mas a fecundidade dessa morte salvou o mundo. S\u00f3 Deus sabe se tantas v\u00edtimas inocentes n\u00e3o s\u00e3o sementes lan\u00e7adas \u00e0 terra, de onde germinar\u00e1, dolorosamente, a paz. A morte de Cristo permite-nos ter sobre o drama da hist\u00f3ria, a vis\u00e3o profunda do mist\u00e9rio. Os inocentes sacrificados, acabar\u00e3o sempre por triunfar. Estamos a assistir \u00e0 longa paix\u00e3o da humanidade, que na morte de Cristo, ter\u00e1 uma fecundidade misteriosa.  \t* Seguir Cristo como disc\u00edpulo significa tamb\u00e9m renunciar \u00e0 viol\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o. O texto de S\u00e3o Lucas recorda-nos que o Senhor, no momento da Sua pris\u00e3o, n\u00e3o aprova a viol\u00eancia de alguns disc\u00edpulos, que O querem defender a golpes de espada. Antes cura bondosamente a orelha decepada de um dos soldados. Com esse gesto, o Senhor \u00e9 Mestre, ensina aos seus disc\u00edpulos que n\u00e3o se responde \u00e0 viol\u00eancia com a viol\u00eancia, porque Ele sabe que a viol\u00eancia nunca ser\u00e1 caminho para a harmonia da paz. \tNos tempos que estamos a viver, \u00e9 enorme a tenta\u00e7\u00e3o de responder \u00e0 viol\u00eancia com a viol\u00eancia, que se tornaria justific\u00e1vel pelo direito que as pessoas e os povos t\u00eam de se defenderem. A viol\u00eancia nunca pode ser vingan\u00e7a, e o direito de defesa tem de se exprimir no \u00e2mbito da justi\u00e7a. Se falarmos como disc\u00edpulos, podemos ajudar muitos dos nossos irm\u00e3os a n\u00e3o alimentarem sentimentos de viol\u00eancia e de vingan\u00e7a.  \t* Seguir Cristo como disc\u00edpulos \u00e9 aprender a perdoar. Suspenso da Sua Cruz, quando est\u00e1 consumada toda a viol\u00eancia sobre Ele exercida, Jesus perdoa aos que O maltrataram injustamente: \u201cPai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d. O ensinamento de Jesus sobre o perd\u00e3o \u00e9 dos aspectos mais exigentes de quanto comunica aos seus disc\u00edpulos; \u00e9 mesmo mais exigente do que o desprendimento dos bens e riquezas materiais. Diz-lhes claramente: se n\u00e3o perdoais aos vossos inimigos, o que \u00e9 que vos distingue dos pag\u00e3os? A Pedro, a quem esse ensinamento parecia incomodar, Jesus diz que n\u00e3o basta perdoar algumas vezes. \u00c9 preciso perdoar sempre. E ensinou-os a rezar: Pai, perdoai-nos como n\u00f3s perdoamos. No actual contexto, no quadro do terrorismo, de guerras injustificadas, de repres\u00e1lias que sabem a vingan\u00e7a, esta mensagem do perd\u00e3o \u00e9 tremendamente exigente. Mas ele \u00e9 um caminho indispens\u00e1vel para a paz, paz interior, paz na sociedade, paz entre os Povos e Na\u00e7\u00f5es. Tem de haver perd\u00e3o entre as pessoas, entre os grupos, entre os Povos e Na\u00e7\u00f5es.  \t* Ser disc\u00edpulo de Jesus \u00e9 estar disposto, sempre e em todas as circunst\u00e2ncias, a lutar pela justi\u00e7a. \u201cBem aventurados os que sofrem por amor da justi\u00e7a\u201d. E j\u00e1 vimos que o dom generoso de si mesmo e a grandeza do perd\u00e3o, fazem parte da justi\u00e7a que Jesus ensina. S\u00e3o atitudes que trazem \u00e0 justi\u00e7a a beleza da generosidade e o fermento da bondade, indispens\u00e1veis para que seja uma justi\u00e7a humana, promotora e respeitadora da dignidade do homem. \tMuitos se interrogam se os sofrimentos presentes da comunidade humana, n\u00e3o s\u00e3o fruto de injusti\u00e7as praticadas, entre as pessoas e entre os povos. Se assim \u00e9, a solu\u00e7\u00e3o radical n\u00e3o pode passar, apenas, pela vigil\u00e2ncia e preven\u00e7\u00e3o de novos actos de viol\u00eancia, ali\u00e1s justas e necess\u00e1rias. S\u00e3o precisas pol\u00edticas l\u00facidas e corajosas, que sanem essas injusti\u00e7as e contribuam para a fraternidade entre os Povos.  \t3. Que esta P\u00e1scoa seja a P\u00e1scoa da serenidade e da confian\u00e7a. E se o Esp\u00edrito de Deus nos deu a gra\u00e7a de falarmos como disc\u00edpulos, n\u00e3o hesitemos em levar a confian\u00e7a a quantos o medo perturba e a inseguran\u00e7a tira a serenidade e a paz.  S\u00e9 Patriarcal, 4 de Abril de 2004   D. Jos\u00e9 Policarpo, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abEste ano celebramos a P\u00e1scoa num ambiente de inseguran\u00e7a e de incerteza, provocado pelo terrorismo. 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