{"id":53503,"date":"2011-10-25T10:51:53","date_gmt":"2011-10-25T10:51:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/25\/nota-do-secretariado-nacional-da-pastoral-da-cultura-sobre-o-romance-o-ultimo-segredo\/"},"modified":"2011-10-25T10:51:53","modified_gmt":"2011-10-25T10:51:53","slug":"nota-do-secretariado-nacional-da-pastoral-da-cultura-sobre-o-romance-o-ultimo-segredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nota-do-secretariado-nacional-da-pastoral-da-cultura-sobre-o-romance-o-ultimo-segredo\/","title":{"rendered":"Nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sobre o romance \u00abO \u00faltimo segredo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>O romance de Jos&eacute; Rodrigues dos Santos, intitulado &ldquo;O &uacute;ltimo segredo&rdquo;, &eacute; formalmente uma obra liter&aacute;ria. Nesse sentido, a discuss&atilde;o sobre a sua qualidade liter&aacute;ria cabe &agrave; cr&iacute;tica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretens&atilde;o de entrar, com um tom de intoler&acirc;ncia desabrida, numa outra &aacute;rea, a hist&oacute;ria da forma&ccedil;&atilde;o da B&iacute;blia por um lado, e a fiabilidade das verdades de F&eacute; em que os cat&oacute;licos acreditam por outro, pensamos que pode ser &uacute;til aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou n&atilde;o) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.<\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>1. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; forma&ccedil;&atilde;o da B&iacute;blia e ao debate em torno aos manuscritos, Jos&eacute; Rodrigues dos Santos prop&otilde;e-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que h&aacute; muito est&aacute; aberta. A quest&atilde;o n&atilde;o se coloca apenas com a B&iacute;blia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: n&atilde;o tendo sido conservados os manuscritos que sa&iacute;ram das m&atilde;os dos autores torna-se necess&aacute;rio partir da avalia&ccedil;&atilde;o das diversas c&oacute;pias e vers&otilde;es posteriores para reconstruir aquilo que se cr&ecirc; estar mais pr&oacute;ximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isa&iacute;as, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Di&aacute;logos de Plat&atilde;o. Ora, como &eacute; que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferen&ccedil;as que eles apresentam entre si? H&aacute; uma ci&ecirc;ncia que se chama Cr&iacute;tica Textual (Critica Textus, na designa&ccedil;&atilde;o latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os crit&eacute;rios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Cr&iacute;tica Textual faz mais ainda: cria as chamadas &ldquo;edi&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas&rdquo;, isto &eacute;, a apresenta&ccedil;&atilde;o do texto reconstru&iacute;do, mas com a indica&ccedil;&atilde;o de todas as variantes existentes e a justifica&ccedil;&atilde;o para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s escolhas &eacute; diversificado e as pr&oacute;prias d&uacute;vidas v&ecirc;m tamb&eacute;m assinaladas.<\/span><\/p>\n<p><span>Tanto do texto b&iacute;blico do Antigo como do Novo Testamento h&aacute; extraordin&aacute;rias edi&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas, elaboradas de forma rigoros&iacute;ssima do ponto de vista cient&iacute;fico, e &eacute; sobre essas edi&ccedil;&otilde;es que o trabalho da hermen&ecirc;utica b&iacute;blica se constr&oacute;i. &Eacute; impens&aacute;vel, por exemplo, para qualquer estudioso da B&iacute;blia atrever-se a falar dela, como Jos&eacute; Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradu&ccedil;&atilde;o. A quantidade de incorre&ccedil;&otilde;es produzidas em apenas tr&ecirc;s linhas, que o autor dedica a falar da tradu&ccedil;&atilde;o que usa, s&atilde;o esclarecedoras quanto &agrave; indig&ecirc;ncia do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que n&atilde;o tem, fala do que n&atilde;o sabe.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>2. Chesterton dizia, com o seu not&aacute;vel humor, que o problema de quem faz da descren&ccedil;a profiss&atilde;o n&atilde;o &eacute; deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poder&iacute;amos dizer que &eacute; esse o caso do romance de Jos&eacute; Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo &eacute; verdade, colocada estrategicamente &agrave; entrada do livro, seria j&aacute; suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o m&eacute;todo hist&oacute;rico-cr&iacute;tico como a &uacute;nica chave leg&iacute;tima e verdadeira para entender o texto b&iacute;blico. A validade do m&eacute;todo de an&aacute;lise hist&oacute;rico-cr&iacute;tica da B&iacute;blia &eacute; amplamente reconhecida pela Igreja Cat&oacute;lica, como se pode ver no fundamental documento &ldquo;A interpreta&ccedil;&atilde;o da B&iacute;blia na Igreja Cat&oacute;lica&rdquo; (de 1993). A&iacute; se recomenda o seguinte: &laquo;os exegetas cat&oacute;licos devem levar em s&eacute;ria considera&ccedil;&atilde;o o car&aacute;ter hist&oacute;rico da revela&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revela&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica que Deus fez&hellip; Consequentemente, os exegetas devem servir-se do m&eacute;todo hist&oacute;rico-cr&iacute;tico&raquo;. Mas o m&eacute;todo hist&oacute;rico-cr&iacute;tico &eacute; insuficiente, como ali&aacute;s todos os m&eacute;todos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no s&eacute;culo XX, por pensadores da dimens&atilde;o de Paul Ricoeur ou Gadamer. Jos&eacute; Rodrigues dos Santos parece n&atilde;o saber o que &eacute; um te&oacute;logo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipot&eacute;tica (e nesse sentido cient&iacute;fica) do trabalho teol&oacute;gico. O positivismo ser&ocirc;dio que levanta como bandeira f&aacute;-lo, por exemplo, chamar &ldquo;historiadores&rdquo; aos te&oacute;logos que pretende promover, e apelide apressadamente de &ldquo;obras apolog&eacute;ticas&rdquo; as que o contrariam.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>3. A nota final de Jos&eacute; Rodrigues dos Santos esconde, por&eacute;m, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma s&eacute;rie de te&oacute;logos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, &eacute; Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D. Ehrman o seu teleponto, a sua revela&ccedil;&atilde;o. Comparar o seu &ldquo;Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why&rdquo; com o &ldquo;O &Uacute;ltimo segredo&rdquo; &eacute; tarefa com resultados t&atilde;o previs&iacute;veis que chega a ser deprimente. Ehrman &eacute; um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religi&atilde;o, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudi&ccedil;&atilde;o ineg&aacute;vel. Contudo, nos &uacute;ltimos anos, tem orientado as suas publica&ccedil;&otilde;es a partir de uma tese radical, claramente ideol&oacute;gica, longe de ser reconhecida cred&iacute;vel. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tend&ecirc;ncia mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras pol&iacute;ticas intermin&aacute;veis, persegui&ccedil;&otilde;es, fabrica&ccedil;&atilde;o de textos falsos&hellip; Essa luta &eacute; transportada para o interior do texto b&iacute;blico que, no dizer de Ehrman, est&aacute; repleto de manipula&ccedil;&otilde;es. O que os seus pares universit&aacute;rios perguntam a Ehrman, com perplexidade, &eacute; em que fontes textuais ele assenta as hip&oacute;teses extremadas que defende.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>4. Resumindo: &eacute; lament&aacute;vel que Jos&eacute; Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) t&atilde;o pouco. &Eacute; lament&aacute;vel que escreva centenas de p&aacute;ginas sobre um assunto t&atilde;o complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado &eacute; bastante penoso e desinteressante, como s&oacute; podia ser: uma imita&ccedil;&atilde;o requentada, superficial e ma&ccedil;uda. O que a verdadeira literatura faz &eacute; agredir a imita&ccedil;&atilde;o para repropor a intelig&ecirc;ncia. O que Jos&eacute; Rodrigues dos Santos faz &eacute; agredir a intelig&ecirc;ncia para que triunfe o pastiche. E assim vamos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance de Jos&eacute; Rodrigues dos Santos, intitulado &ldquo;O &uacute;ltimo segredo&rdquo;, &eacute; formalmente uma obra liter&aacute;ria. Nesse sentido, a discuss&atilde;o sobre a sua qualidade liter&aacute;ria cabe &agrave; cr&iacute;tica especializada e aos leitores. 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