{"id":53441,"date":"2011-10-20T17:20:03","date_gmt":"2011-10-20T17:20:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/20\/homilia-de-d-virgilio-antunes-no-carmelo-de-santa-teresa-de-coimbra\/"},"modified":"2011-10-20T17:20:03","modified_gmt":"2011-10-20T17:20:03","slug":"homilia-de-d-virgilio-antunes-no-carmelo-de-santa-teresa-de-coimbra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-virgilio-antunes-no-carmelo-de-santa-teresa-de-coimbra\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Virg\u00edlio Antunes no Carmelo de Santa Teresa de Coimbra"},"content":{"rendered":"<p>Esta celebra&ccedil;&atilde;o da Solenidade de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja, Madre fundadora das Irm&atilde;s Carmelitas, constitui uma oportunidade para darmos gra&ccedil;as a Deus pela sua presen&ccedil;a na Igreja como sal invis&iacute;vel que d&aacute; sabor, fermento que faz crescer a vida e luz discreta de testemunho.<\/p>\n<p>Assim como o que nos move s&atilde;o as convic&ccedil;&otilde;es, o amor e o esp&iacute;rito que temos dentro, tamb&eacute;m o que move a Igreja &eacute; o seu cora&ccedil;&atilde;o, a profundidade da sua f&eacute;, a comunh&atilde;o invis&iacute;vel com Cristo, de que o Carmelo &eacute; uma das mais belas express&otilde;es.<\/p>\n<p>Somente uma alma desejosa de Deus e cheia de Deus podia estar na origem desta realidade, na abertura ao Esp&iacute;rito Santo, que inspira, conduz e vivifica todas as obras boas e santas.<\/p>\n<p>As leituras escolhidas pela Igreja para esta solenidade, ajudam-nos a fazer o percurso de Santa Teresa de Jesus, mulher que incarna de modo admir&aacute;vel a Palavra de Deus. Esse &eacute;, de algum modo, o percurso que procuram fazer todas as irm&atilde;s carmelitas e todos n&oacute;s, os crist&atilde;os, porventura ajudados pela espiritualidade teresiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo o ser humano se caracteriza pela abertura &agrave; raz&atilde;o. Na Enc&iacute;clica, A &ldquo;F&eacute; e a Raz&atilde;o&rdquo; (25) O Papa Jo&atilde;o Paulo II retoma Arist&oacute;teles para afirmar que &ldquo;todos os homens desejam saber&rdquo; (I, 1) e que o objeto pr&oacute;prio deste desejo &eacute; a verdade. O homem criado &agrave; imagem e semelhan&ccedil;a de Deus, traz dentro de si esta sede de conhecimento, de sabedoria e de encontro com o seu criador. H&aacute; nele uma insatisfa&ccedil;&atilde;o inextingu&iacute;vel, que o acompanha por todos os seus caminhos e que nunca o abandona, at&eacute; que O veja face a face e contemple o seu rosto revelador de toda a verdade.<\/p>\n<p>O texto da Primeira Leitura, tirado do Livro da Sabedoria, falava-nos desta sede de sabedoria, caracter&iacute;stica do rei Salom&atilde;o. N&atilde;o pediu mais nada a Deus, sen&atilde;o a Sabedoria, pois a experi&ecirc;ncia de riqueza a todos os n&iacute;veis mostrou-lhe que nada supera a Sabedoria de vida que vem do alto e s&oacute; Deus pode dar. Desejou-a e amou-a mais do que ao ouro, &agrave; sa&uacute;de ou &agrave; beleza; deixou-se conduzir por ela e, desse modo, tornou-se agrad&aacute;vel a Deus. &Eacute; uma forma de dizer que a &acirc;nsia de conhecimento que existe dentro de n&oacute;s nos orienta para a Sabedoria de Deus e nos conduz a realizar o Seu desejo criador: sermos sua imagem e semelhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Santa Teresa de Jesus, doutora da Igreja, viveu com toda a profundidade esta dimens&atilde;o de vida. Desejou conhecer a realidade, o mundo e, acima de tudo, Deus. Amou a Sabedoria, como uma paix&atilde;o; nunca se sentiu saciada de Deus; quis subir sempre mais na compreens&atilde;o dos mist&eacute;rios do Seu Mestre e Senhor. Os seus escritos s&atilde;o o testemunho que nos deixou dessa &acirc;nsia por encontrar o Grande Rei nas sua Moradas eternas e distantes, mas acess&iacute;veis a todos os que O procuram de cora&ccedil;&atilde;o sincero. Como Salom&atilde;o reconheceu que nada pode saciar o cora&ccedil;&atilde;o humano &aacute;vido de saber, a n&atilde;o ser a verdadeira Sabedoria, Deus, o &uacute;nico que basta.<\/p>\n<p>Se o Antigo Testamento nos diz que Salom&atilde;o pediu a Deus, na ora&ccedil;&atilde;o, a sabedoria e a prud&ecirc;ncia, a vida de Santa Teresa diz-nos que ela elegeu como seu modo de ser e estar o de mulher orante e contemplativa, como caminho para entrar no segredo da antec&acirc;mara do conhecimento do mist&eacute;rio de Deus. A sua via &uacute;nica foi a da ora&ccedil;&atilde;o como um &ldquo;tratar de amizade estando muitas vezes a s&oacute;s com quem sabemos que nos ama&#8221;.<\/p>\n<p>Este modo de ser e estar n&atilde;o &eacute; mais que um reflexo da atitude de Jesus Cristo na sua rela&ccedil;&atilde;o com o Pai, com quem gosta de estar longamente no sil&ecirc;ncio da montanha e do mar, no seio da noite escura, ao raiar da aurora ou ao olhar longamente o horizonte no ocaso do sol. Esta caracter&iacute;stica de Santa Teresa revela o seu cora&ccedil;&atilde;o enamorado por Deus, a quem ama como um Pai\/Abb&aacute;, de quem se sente filha, em Jesus Cristo crucificado, e por cujo Esp&iacute;rito de Amor se deixa conduzir.<\/p>\n<p>A sua ora&ccedil;&atilde;o leva-a a descobrir a categoria evang&eacute;lica da amizade, como possibilidade de rela&ccedil;&atilde;o, de proximidade, de encontro, de confian&ccedil;a. Ao progredir nesse caminho, percebe que &eacute;, precisamente, no uso da nossa condi&ccedil;&atilde;o de seres humanos, dotados de sentimentos, que podemos aproximar-nos do Deus que nos criou e somente deseja encontrar-se connosco. Para isso vem ao nosso encontro por meio de Jesus Cristo, o Seu Filho, a fim de que, irm&atilde;os e amigos n&rsquo;Ele e por Ele, tenhamos acesso &agrave;s fontes da sabedoria e da vida.<\/p>\n<p>O texto do Evangelho de S. Jo&atilde;o, ao apresentar-nos o encontro de Jesus com a Samaritana &agrave; beira do po&ccedil;o, utiliza a imagem da sede da &aacute;gua natural para falar da sede de &aacute;gua viva, da sede de sabedoria e de Deus, que se mata pelo encontro com Jesus. A Ele chega-se pela via do encontro interior, que conduz a uma amizade cada vez mais profunda, capaz de revelar os seus mist&eacute;rios e apta para alimentar a nossa vida humana e espiritual.<\/p>\n<p>Ao atribuir a Santa Teresa de Jesus o t&iacute;tulo de Doutora da Igreja, o Papa Paulo VI pretendeu valorizar a sua condi&ccedil;&atilde;o de pessoa que busca a sabedoria e procura a verdade por meio da ora&ccedil;&atilde;o e da contempla&ccedil;&atilde;o, pela via da amizade, pela experi&ecirc;ncia do encontro interior, que envolve a totalidade da pessoa e n&atilde;o se fica por uma mera assimila&ccedil;&atilde;o de conhecimentos. Conhecendo todas as potencialidades da intelig&ecirc;ncia e da raz&atilde;o, constitutivas do ser humano, Santa Teresa reconhece que, por si s&oacute;s, est&atilde;o marcadas pelos seus pr&oacute;prios limites. Para ir mais longe, h&aacute; que juntar &agrave; intelig&ecirc;ncia e &agrave; raz&atilde;o humanas o encontro sobrenatural com Deus, a Sabedoria e a Verdade, h&aacute; que progredir no encontro &iacute;ntimo com Ele, h&aacute; que entrar nesse trato de amizade com Aquele que sempre nos espera &agrave; beira do po&ccedil;o e sacia a nossa sede com a &aacute;gua da fonte que jorra para a vida eterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sede de sabedoria e a sede de Deus continuam vivas dentro de n&oacute;s. Acontece que andamos muito distra&iacute;dos, descentrados e ocupados com a sede dos desejos fugazes, com a &acirc;nsia dos resultados imediatos tanto nas quest&otilde;es materiais da vida como nas de ordem espiritual.<\/p>\n<p>Estamos num mundo obcecado pelo momento presente, desinteressado pelo amanh&atilde;, preocupado com a satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades b&aacute;sicas. Se usarmos o paralelismo do evangelho, podemos dizer que estamos na situa&ccedil;&atilde;o da mulher samaritana que n&atilde;o deseja mais do que a &aacute;gua do po&ccedil;o de Jacob, que n&atilde;o tem outros horizontes nem desejos sen&atilde;o os terrenos.<\/p>\n<p>Estamos, por isso, num mundo incapaz de compreender a import&acirc;ncia da f&eacute; sobrenatural e que se contenta com uma f&eacute; humana e natural; num mundo que procura na religi&atilde;o &agrave; medida humana os caminhos da pacifica&ccedil;&atilde;o interior, num c&iacute;rculo do homem fechado sobre si mesmo; estamos num&nbsp; mundo em que se procura o sil&ecirc;ncio e a contempla&ccedil;&atilde;o de uma natureza desligada do Criador; procuram-se as vias da amizade e do amor dentro dos limites das for&ccedil;as humanas e, por isso, privadas da sua dimens&atilde;o teologal.<\/p>\n<p>Estamos, por isso, num mundo onde &eacute; urgente revalorizar todos os o&aacute;sis de ora&ccedil;&atilde;o contemplativa, como possibilidade de encontro com Deus e de acesso &agrave;s fontes da &aacute;gua viva. O Carmelo, juntamente com outras comunidades contemplativas, constituem, por isso, uma realidade imprescind&iacute;vel para manter viva na Igreja esta dimens&atilde;o essencial da f&eacute; crist&atilde; enquanto caminho de comunh&atilde;o com Deus na grandeza do Seu mist&eacute;rio.<\/p>\n<p>Por sua vez, &eacute; urgente revalorizar os espa&ccedil;os e tempos orantes das comunidades crist&atilde;s, em primeiro lugar na celebra&ccedil;&atilde;o da liturgia&nbsp; da Igreja. A Eucaristia, enquanto cume da a&ccedil;&atilde;o orante da Igreja, a Liturgia das Horas a marcar o ritmo orante de toda a vida crist&atilde;, a celebra&ccedil;&atilde;o dos sacramentos enquanto momentos de encontro com o Deus que se d&aacute; na abund&acirc;ncia da Sua gra&ccedil;a. &Eacute; ainda urgente valorizar os momentos de ora&ccedil;&atilde;o silenciosa diante do Sant&iacute;ssimo Sacramento da Eucaristia, tanto individual como comunitariamente. E, finalmente, &eacute; urgente a ora&ccedil;&atilde;o familiar e individual, nos recantos da casa, das ruas e cidades, onde podemos contemplar, adorar e amar a Deus em esp&iacute;rito e em verdade.<\/p>\n<p>Ao Senhor pe&ccedil;amos que nos ensine a passar longos momentos &agrave; beira do po&ccedil;o, donde jorram as nascentes da &aacute;gua viva e, seguindo o exemplo de Santa Teresa de Jesus, disponhamo-nos a progredir no caminho da perfei&ccedil;&atilde;o e da santidade por meio desse &ldquo;tratar de amizade&rdquo;, que &eacute; a ora&ccedil;&atilde;o crist&atilde;.<\/p>\n<p>Solenidade de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja, 15 de outubro de 2011<\/p>\n<p><em>D. Virg&iacute;lio do Nascimento Antunes, bispo de Coimbra<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta celebra&ccedil;&atilde;o da Solenidade de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja, Madre fundadora das Irm&atilde;s Carmelitas, constitui uma oportunidade para darmos gra&ccedil;as a Deus pela sua presen&ccedil;a na Igreja como sal invis&iacute;vel que d&aacute; sabor, fermento que faz crescer a vida e luz discreta de testemunho. 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